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Autora: Tamara Castro
24 Novembro 2020

"[...]

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

[...]"

(Conceição Evaristo, Vozes-mulheres.
In: Poemas de recordação e outros movimentos)

Como trabalhar com crianças e adolescentes a temática racial por meio da literatura afro-brasileira? Quais ações educativas podem favorecer a afirmação da identidade étnico-racial dos jovens na construção de uma sociedade mais plural e equitativa?

Em celebração ao mês da Consciência Negra, Esdras Soares e Alana Queiroz, da equipe do Escrevendo o Futuro, contam como o trabalho com a cultura e a história afro-brasileira está presente nas formações e nos materiais produzidos pelo Programa. 

Em seguida, trazemos um bate-papo com a professora e pesquisadora Lara Rocha, que estuda literatura afro-brasileira e educação das relações étnico-raciais na Universidade de São Paulo (USP). 

Por fim, confira a seleção de materiais produzidos pelo Programa sobre essa temática.


De que maneira o Programa Escrevendo o Futuro busca colaborar para a implementação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 nas escolas?

Alana Queiroz: O Programa Escrevendo o Futuro tem a missão de unir esforços para garantir a professores e professoras contribuições para aprimorarem suas práticas, de modo que valorizem a diversidade e experiências étnico-raciais nas escolas. Para isso, procuramos pensar materiais pedagógicos que levantem questões sobre os desafios da implementação de conteúdos afro-brasileiros, apontando dificuldades e também propondo soluções.

Temos uma diversidade de textos literários produzidos por escritores e escritoras negras em nossos materiais, e também contamos com uma equipe de colaboradores e estudiosos negros que trazem planos de aula, artigos e outros materiais de apoio que fortalecem a ruptura dessa postura pedagógica que não reconhecia as diferenças do nosso processo de formação nacional. Estamos caminhando em direção a uma educação descolonizadora, mas ainda temos muito a trilhar.

Que dicas vocês dão para as/os professoras/os que desejam explorar os materiais do Programa a fim de trabalhar autoras/es negras/os e as temáticas ligadas à história e cultura afro-brasileira em suas práticas?

Esdras Soares: Costumo dizer que, além de ler autores e autoras negros, é fundamental ter uma postura antirracista, uma vez que as relações que se dão no interior da escola são, em muitos casos, pautadas no racismo, mesmo que a gente não perceba. 

Em sala de aula, isto significa que é necessário construir um ambiente acolhedor no qual todos e todas têm sua voz reconhecida. No trabalho com o texto literário, especificamente, consiste em dedicar uma atenção especial à mediação de leitura. Como aproveitar toda a potência que determinado texto literário oferece? Como dar conta das inúmeras questões que surgem durante a leitura? Como essa literatura pode desconstruir representações estereotipadas e racistas? São grandes desafios, mas também são muitos os caminhos.

Por isso, além de disponibilizar um repertório dessa produção literária, há um desejo e compromisso cada vez maior do Programa Escrevendo o Futuro em oferecer algumas possibilidades de trabalho com essa literatura e com a temática racial no geral.

Assim, professores e professoras engajados e interessados em trabalhar com história, cultura e literatura afro-brasileiras encontram no Portal Escrevendo o Futuro uma série de materiais, nos mais diversos suportes: estão disponíveis textos literários, leituras de textos em áudios, artigos, entrevistas com autores e especialistas, vídeos e planos de aula.


Literatura afro-brasileira na escola: conversa com Lara Rocha

Como as escolas e os/as professores/as podem construir práticas educativas antirracistas que valorizem a diversidade étnico-racial de nosso país? Qual o papel da literatura e da formação leitora nesse sentido?

Para falar desses e outros temas afins, convidamos a professora e pesquisadora Lara dos Santos Rocha. Nascida e criada em Salvador, na Bahia, Lara mudou-se para a cidade de São Paulo, onde cursou Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). 

Foi coordenadora e educadora do Cursinho Popular Florestan Fernandes. Hoje é professora de Língua Portuguesa da rede municipal de São Paulo e mestranda do programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da USP, em que desenvolve pesquisa sobre literatura afro-brasileira e educação das relações étnico-raciais.

Qual é a importância de se apresentar e trabalhar com autores e obras afro-brasileiras na escola?

São muitos os caminhos possíveis. O primeiro tem a ver com a construção de um repertório vasto para as crianças, que contemple as diferentes produções brasileiras e estrangeiras. Se existem tantas obras afro-brasileiras, sobre assuntos e para públicos tão diversos, o mínimo que a escola pode fazer é apresentar esse repertório múltiplo, de autoria indígena, negra, branca, brasileira e de outros países latino-americanos e africanos.

Outro caminho é pensar a questão da representatividade. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2019, 56.28% da população se declara como negra (pretos e pardos). A professora Regina Dalcastagné afirma que reconhecer a si e ao outro na literatura é parte do processo de legitimação de identidades, por isso é tão fundamental uma pluralidade de perspectivas.

Além disso, entendo que a construção de uma escola antirracista deve ser um pacto e uma meta da sociedade. E a literatura tem um papel muito importante nisso tudo, uma vez que ela tem a potência de sensibilização, de libertação, de criação de um imaginário de possibilidades. Então apresentar obras literárias em que a criança negra pode ser absolutamente tudo, e não só o bandido ou a mulher sedutora, é dizer que outros mundos são possíveis.

Na pesquisa "A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004", Regina Dalcastagnè aponta que, no corpus analisado, dos 7,9% de personagens negros nas obras literárias, 73,5% são pobres e 20,4% são bandidos. E 56,3% dos personagens adolescentes negros são dependentes químicos contra 7,5% de adolescentes brancos na mesma situação.

Em sua opinião, o que deve ser oferecido na  formação inicial e continuada de professores  para que as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 sejam de fato implementadas nas escolas?

Acredito que deve haver, em primeiro lugar, sensibilização e formação sólida sobre temas como racismo estrutural e suas consequências, enfatizando como as práticas racistas destroem a escola. A partir disso, um olhar mais atento aos conteúdos, buscando sempre pensar “de onde esse texto parte? que olhar está colocado aí?”.

Nilma Lino Gomes, ex-ministra, professora e grande pesquisadora das relações raciais, tem uma série de textos que buscam entender o impacto que o racismo tem sobre estudantes, compreendendo a escola enquanto o espaço que ainda perpetua práticas e concepções altamente racistas.

Acredito que esse exercício é fundamental para todas nós, na tentativa de romper com a ideia de que existem verdades absolutas. Isso indica que não vamos deixar de ler autores brancos, claro que não! Mas saberemos que a voz de um homem branco não deve ser a hegemônica, que é apenas um ponto de vista e que existem muitos outros de acordo com o lugar ocupado na sociedade. 

Sempre falo de uma obra chamada Ensinando a transgredir: educação como prática de liberdade, de Bell Hooks. Apesar de ser estado-unidense, os relatos da autora se aproximam muito da realidade brasileira e contemplam tanto aspectos históricos e teóricos sobre as relações raciais quanto um olhar  subjetivo sobre a própria trajetória. Essas reflexões nos levam a refletir sobre a dinâmica das nossas escolas. Vale demais a leitura!

Assim, imagino que seja possível fortalecer a mediação de leitura, indo além da mera presença de um texto de autoria negra em sala de aula, uma vez que é papel de nós, professores, colaborar para a compreensão daquele texto, trazendo, inclusive, elementos que trascendam o que está escrito.

Em sua pesquisa acadêmica, quais são os caminhos que você vislumbra para o trabalho com a literatura afro-brasileira na educação básica?

A minha pesquisa parte de uma experiência de mediação de leitura da obra Leite do peito, de Geni Guimarães, com uma turma de EJA da zona norte de São Paulo. Com base nos comentários e relatos que surgem ao longo das leituras, busco compreender o impacto que a leitura de uma obra afro-brasileira pode ter sobre quem a lê, levando em consideração a percepção de si, de suas memórias e a possibilidade de se enxergar no texto literário e na autora. Isso para mim é muito marcante: olharem para a Geni e entenderem que ela é alguém como eles e que pode alçar grandes vôos ao contar sua história.

Sendo assim, aposto no papel humanizador da literatura, encarando-a enquanto um direito. E sendo um direito, precisamos levar para a escola obras que realmente dialoguem, ampliem os olhares, gerem reflexões e, principalmente, possibilitem novas perspectivas.

O Programa Escrevendo o Futuro tem diversos materiais que trazem a diversidade étnico-racial para a formação continuada de professores, como entrevistas e textos literários de autores negros, e orientações pedagógicas para trabalhar temas da literatura afro-brasileira. Você poderia comentar alguns desses materiais e como explorá-los nas práticas docentes?

Recentemente, o programa realizou uma live com as poetas e slammers Jéssica Campos e Tawane Theodoro. Vejo o slam como uma das expressões artísticas contemporâneas de maior potência para se pensar literatura nas escolas: é acessível na linguagem, na autoria - que poderia ser de um deles! - e no conteúdo, que trata do dia a dia de grande parte dos jovens periféricos, uma vez que tem como princípio colocar o dedo na ferida e falar de temas que costumam estar fora do cânone.

Os textos literários presentes no portal, como os de Lilia Guerra, Lima Barreto, Geni Guimarães e Conceição Evaristo, com certeza dão muito pano para a manga! Existem também muitos materiais que colaboram para a elaboração de sequências didáticas sobre textos e gêneros literários e podem ser utilizados para construir aulas muito bacanas!

Inclusive, recentemente tive a honra de compartilhar um pouco sobre esta temática junto a uma proposta de trabalho com a obra Leite do peito aqui no Portal!

Fora isso, o site tem muitas entrevistas lindíssimas com autores, o que nos possibilita adentrar o universo literário por uma outra porta. Vale demais conferir tanto as entrevistas em vídeo quanto as publicadas na revista Na Ponta do Lápis!


Confira estes e muitos outros conteúdos sobre cultura e literatura afro-brasileira produzidos pelo Programa Escrevendo o Futuro:

  • Indicação de leitura:  

Obras que dialogam com o universo negro afro-brasileiro

  • Entrevistas:

Roberta Estrela D’Alva: A poesia sempre vence

Marcelo D’Salete

Geovani Martins

Lilia Guerra: Perifobia, ‘a periferia é sempre mais distante

Conceição Evaristo: nasci rodeada de palavras

Bel Santos Mayer: literatura para nos tirar do lugar

Raquel Trindade: Uma vida dedicada à arte

Sergio Vaz: poetavoz da periferia

Vima Lia de Rossi Martin

  • Artigos:

Literatura afro-brasileira: Proposta de trabalho com o livro Leito do Peito, de Geni Guimarães

Carolina Maria de Jesus em quadrinhos: o livro traz história da escritora descoberta em São Paulo nos anos 1950

O mundo é vasto. A textualização do mundo, também - Conceição Evaristo

A literatura, os jovens e a escola: caminhos para a leitura literária e a formação de leitores - Esdras Soares e Lara Rocha

Olhares sobre a fala de Conceição Evaristo aos educadores finalistas da Olimpíada - Oluwa Seyi Salles Bento

Feminismo negro para um marco civilizatório - Djamila Ribeiro

  • Live:

Slammers Jéssica Campos e Tawane Theodoro

  • Textos em áudio:

Conceição Evaristo

  • Textos literários:

Ricardo Aleixo - Palavrear

Lilia Guerra - Dia de Graça

De mãe - Conceição Evaristo

Alicerce - Geni Guimarães

Lilia Guerra - Sábado de aleluia 

Homem ou boi de canga? - Lima Barreto


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