Dia de Graça

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14 junho 2018

Lilia Guerra

... quem tem carretel não perde a linha,

No samba é preciso improvisar...

 

(Samba no quintal – Toninho / Everaldo Cruz)

Beth Carvalho

Ganhaúma espantou uma galinha de perto da porta. Porcariada danada. Bicho insolente, tapado. Estendeu a toalha de banho puída no varalzinho. Banho de asseio, que chuveiro de verdade, na vila não tinha. Cheiro bom de café na vizinhança. Alcançou o tanque, examinou a fachada no caco de espelho pendurado na parede limosa. Barbudo, meneou a cabeça, aborrecido. Chateava-lhe a ideia de andar mal-ajambrado.Ultimamente, nem o da navalha pingava. Enquanto vivia, a mãezinha nunca permitiu que ele se apresentasse surrado. Lavadeira das melhores. Esfregava com primor suas camisas, as brancas quaravam ao sol, eram enxaguadas no anil e tão bem passadas que podiam mesmo ficar em pé. Não havia mês em que não lhe fornecesse dinheiro para a visita ao barbeiro e sustentava-lhe bem o vício dos cigarros, adquirido ainda na adolescência, junto do amor pela jogatina. A senhora o tratava a pão de ló, amava-o exageradamente. Mãe solo, abandonada pelo falso amor que a iludira e desprezada pela família, depositara no menino toda a sua energia. Em criança, era tratado como um principezinho e, jovem, como um rei. Nenhum trabalho estava à altura de seu filho, parecia-lhe sempre que desejavam explorá-lo. Preparava refeições frescas e nutritivas para ele, esperava-o para o almoço e para o jantar, embora muitas vezes, ele varasse a noite pelos botequins ou adormecesse nos braços de alguma dama, chegando a desaparecer por dias. Então, a pobre velha que não conseguia conciliar o sono até que ele regressasse, cochilava sentada à cadeira de cordão, assustando-se com todo barulho noturno e suplicando a Deus para que guardasse seu precioso menino dos perigos do mundo. Ele contava com a proteção de um patuá benzido por uma rezadeira. Adoecera de um sarampão agressivo aos cinco anos de idade e por pouco não perdeu a visão. A mulher receitou sete sessões de reza forte, chá de sabugueiro e banhos de picão. Para os olhos, água de pétala de rosa branca serenada. Encomendou também um pingente de figa, cruz e trevo, pendurados num alfinete dourado de cabeça. Benzeu o talismã e orientou uso contínuo. A mãe fez tudo bem direito e jamais permitiu que o filho saísse sem o objeto protetor. Homem feito, ainda utilizava-o pregado à camisa. Até que, numa ocasião, andou sumido por uns tempos e voltou a casa sem o amuleto. A mãe entristeceu-se e o repreendeu. Adorava em demasia aquele filho que, do seu jeito torto, também a amava e jamais levou um namoro a sério, nem nunca pensou em se casar ou constituir família, pois não cogitava a possibilidade de deixá-la. 

A boa mãe trabalhou até o dia de sua morte, quando de um mal súbito, caiu enquanto estendia roupas no quintal. Deixou o quarentão desamparado, a mercê da própria sorte, sem ofício, sem perspectiva, ganhando vez por outra algum no jogo, vivendo de filar aqui e ali.  Ganhaúma manteve-se morando no quartinho graças à consideração que o senhorio tinha pela correta inquilina de tantos anos. O homem temia que ela não tivesse paz na eternidade, se de lá pudesse saber que o filho dormia ao relento. Ainda assim, pressionava o boa-vida para que arranjasse uma colocação e cumprisse com suas obrigações.

Ganhaúma trancou a porta do quartinho e desmanchou a trança feita nos fios da cortina espanta mosquito. Cortina de cabelos soltos, sinal de que, tão cedo não voltava. Poupava encontrar o senhorio rondando. O velho conhecia o código.

Pela rua, o estômago chiava. Mão no bolso, passo curto de quem não sabe ainda pra onde vai. Matutava. Um pulo no Miúdo, de repente. Visita cordial para a mãezinha doente do mano e, quem sabe, esticar até a hora do almoço. Qualquer angu salvava o dia. 

Quebrou a esquina da Sete Quedas e esbarrou com uma pequena que vinha fumando um cigarro fino. Aspirou a fumaça que ela deixou para trás. Virou o pescoço tentando aproveitar mais um tanto. Por uma bamba, notou que a mocinha se livrou do careta ainda pela metade. Olhou de um lado e do outro. Tinha seu orgulho. Rua deserta. Voltou uns passos e apanhou o consolo, o filtro manchado de batom, com gosto de cereja. Só um milagre pra salvar o dia. Ouvira a mãe falar sempre em milagres, mas de perto, nunca vira.

A caminho do Miúdo, ganhou o movimento no começo da Embaré. Um corre-corre de moleque descalço. Férias escolares, julho. Logo completaria mais um inverno. Na esquina, um bote triste e vazio. Quisera ter um trocado para uma beiçada. FIADO, SÓ AMANHÃ, o cartaz era claro. Cruzou um camarada dos bons tempos, pensou em solicitar socorro, mas altivez não permitiu. Chegou à toca do maninho e notou tudo fechado. Bateu palma. Um cachorro manquitola se aproximou da cerca e latiu rouco, só pra cumprir obrigação. A vizinha alertou que não havia ninguém em casa. 

— Dona Santinha foi ao médico. O carro da prefeitura veio buscar.
Burros n’água. A vizinha enxergou decepção nos olhos dele. 

— Veio de longe, moço? Quer uma água? Um café? 

 Ficou sem jeito. Olhou melhor para a dona. Não recordava tê-la visto antes. Vizinho do Miúdo era Tião funileiro. 

— O moço vai aceitar o café? Terminei de passar inda agorinha, querendo, se achegue. — Seu Tião voltou para Belém. Alugou a casa pra mim. 
Pintadinha de amarelo, de fato, não parecia com a casa do Tião. Tinha placa de faço pé e mão pendurada na mureta. 

Ir entrando assim, sem conhecer o território não é coisa de malandro velho. É botar a mão em cumbuca. Vizinha entendeu tudo. 

— Tenha medo não, meu senhor. Sou viúva, não tenho filhos, nem medo da língua do povo. Ofereço gentileza a quem me der na veneta. E, de mais a mais, dona Santinha me recebeu na vizinhança com grande consideração e um amigo dela, não há de ser destratado por mim. Mantenho a porta aberta, qualquer coisa, grito!
Casa de cômodo. Cozinha ajeitada como há muito não via. Vaso de flor e toalha de renda. Ela tomou o bule e um copo do guarda-louça. Serviu o café e apanhou a lata de bolachas. Ganhaúma salivou, mas disfarçou a empolgação. Delatar que era esfomeado não podia. 

— O senhor querendo, pode aguardar por aqui. Miúdo acompanhou dona Santinha, pela hora do almoço deve estar de volta. 
Café dos bons, forte e doce na medida. Três bolachas pra não fazer feio. Repousou o olho no Plaza em cima da geladeira. Sensível, a dona da casa pôs o maço à disposição. 

— O senhor fuma? 

— Esqueci meus cigarros no bolso do casaco. 

— Entendo. Pois se sirva de um. Não faço caso e lhe acompanho. E se vamos compartilhar um bom momento, é bom que nos apresentemos. Graça. 

— Almir. Almir Ferreira. 

Graça tomou uma banqueta e ofereceu a cadeira do quintalzinho à visita, mas Ganhaúma preferiu acocorar-se junto ao muro, de onde via a rua. Fumaram em silêncio e pelos últimos tragos engataram conversa. 

— Não faço unha às segundas. 

— Nem eu realizo entregas. 

— O que é que o senhor entrega? 

— O que me encomendarem. 

Souberam coisas um do outro. Ele sacou a foto da mãe da carteira, ela mostrou retrato do falecido. Pelas onze horas, ela mexeu as panelas. 

— Gosta de sardinha frita no fubá? 

— Se gosto!

— Pois vou tacar uma dúzia delas no azeite. Estão no tempero desde ontem. Num instante boto o arroz no bafo e o feijão de coentro, refoguei pela manhã.
Ouviram barulho na rua. De certo, o carro trazendo dona Santinha. Fizeram que não escutaram.

Debaixo da pia, enfeitada com cortina de chitinha estampada, repousava a garrafa camarada.

— Senhor se agrada de um aperitivo estimulante de apetite?

— Não faço cerimônia, embora não careça. O perfume de sua boa comida já é o suficiente. 

— Sirva duas doses. 

— À sua vontade, dona Graça.

— Amigos me chamam Gracinha.

— Se me tomar por amigo, chegados me chamam Ganhaúma.

— Tomo sim. Sirva duas doses, Ganhaúma.

Viraram de vez a cachacinha amarela. No rádio, um samba de breque. À mesa, toalha alvejada, panela de arroz fumegando, o feijão vermelhinho. Deitadas na travessa, as sardinhas douradas se exibiam como moças expostas na areia da praia. Jilós e quiabos afogados num molho encorpado de tomate e cebola, fatias de pão dispostas para o deleite. Ganhaúma ficou zonzo. O estômago há muito sem trabalho manifestou-se, temeroso de não ser contemplado.

— Vai pimenta?

— Opa! E bem! 

O homem deixou de vez os não me toques e devorou o banquete. Das sardinhas crocantes, mastigou cabeça, lombo e rabo. A travessa ficou deserta.

— Que tal a bóia?

— Minha mãezinha há de me perdoar lá no céu. A melhor que já experimentei. 

— Palitos?

— Se não se importa.

— Um dedinho de doce de leite que eu mesma preparei?

— Ave Maria! 

— Um golico de café pra trancar com ouro? 

— Estou sem jeito...

— Não fique, apanhe outro cigarro.

Entre assuntos que surgiam, trocaram confissões:

— Nunca tive vontade de me casar, nem de ter filhos, mas hoje em dia, reconheço a falta que faz uma família. 

— Não fui mãe porque não pude. Sonhava em ter uma menina, que tinha até nome planejado: Ia se chamar Vera Eunice, em homenagem a um livro que li.

— Perdi muito dinheiro no jogo e ando numa pior, sem ocupação que me favoreça.

— Uma partida de dominó camarada? Topa?

— Não dispenso desafio.

Quando se deram conta do avançado da hora, chegava a noite menina. 

— Preciso ir Gracinha!

— Terminemos a partida. Ainda pensa em visitar dona Santinha?

— Oh, não! A pobre já deve estar recolhida.

Ganhaúma despediu-se ressabiado após a última rodada, vencido pela anfitriã. 

— Olhe, já vou mesmo. Agradeço a acolhida e o dia muito proveitoso.

— Espero que volte, amigo!

— Não vejo a hora!

Rua afora, Ganhaúma caminhou pensativo, avaliando a surpresa que lhe visitara naquela segunda-feira, a princípio, desfavorecida. Então, milagre era aquilo. Uma graça concedida suavemente. Gracejo. Gracinha.

In: Perifobia. 1ª edição. Brasil: Editora Patuá, 2018. 

Para ler a entrevista com Lilia Guerra clique aqui.

9 thoughts on “Dia de Graça

  1. Parabéns, adorei este conto! Podemos trabalhar em sala de aula como exemplo de gêneros textuais e ainda abrir discussão sobre esta geração canguru!!

  2. Fiquei a pensar após a leitura do conto “Dia de graça”. Trouxe-me reflexões a respeito da criança, família, da relação neto e avó, enfim, de situações que gravitam em torno da criação dos filhos. Precisamos aprender que as conquistas precisam ser dos filhos, com os filhos, e não fazer com que eles usufruam das conquistas sem saberem do quanto foi difícil. A menção a geração canguru foi inteligente, pois vem a colocar às claras esses paradigmas de criação estabelecidos por família que se portam como muita protecionista.

  3. “Dia de Graça”, fez-me lembrar do excesso de cuidados que nós, pais, temos hoje com nossos filhos. Não queremos que nada de mal aconteça a eles. Lógico! Não há nenhum mal nisso. Mas a grande questão é: até que ponto nosso excesso de zelo pode colocar em risco a autonomia da criança, do jovem e futuro adulto? Até que ponto, esse mesmo excesso, pode impedir que pessoas [criadas numa redoma de vidro] percebam a importância e o valor dos indivíduos na construção de sua vida? Quem não reverencia a existência dos outros, não dialoga, não compartilha, não respeita. Passa pela vida feito um trator, atropelando as pessoas.

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