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Autor: Esdras Soares
01 Setembro 2020

Foto Lívia Wu

Bel Santos Mayer é gestora da Rede LiteraSampa, integrante da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias e coordenadora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac). A instituição atua na defesa dos direitos humanos e desenvolve diversos projetos em Parelheiros, periferia do extremo sul da cidade de São Paulo. Nesta entrevista, realizada via videoconferência por força da pandemia da COVID-19, Bel compartilha sua trajetória, fala sobre a aventura de criar e apoiar bibliotecas comunitárias e destaca a potência da literatura em nos tirar do lugar

Esdras Soares

Você é educadora desde a adolescência, certo? Conte-nos um pouco da sua história.

Eu venho de uma família nordestina, meu pai e minha mãe eram vizinhos em Terra Nova, na Bahia, e os dois migraram para São Paulo nos anos 1960. Eles se casaram e foram pai e mãe muito jovens. A trajetória é a dos migrantes nordestinos que chegam a essa capital na época. Ela vai ser doméstica, ele metalúrgico. Fui a primeira filha deles em São Paulo. Eles tinham a educação como um valor, mas a vida trazia outras urgências, como a de precisar trabalhar muito cedo. Quando chego à 4ª série, vai dando aquela angústia: “Será que vou conseguir continuar a estudar ou não?”. Meus pais precisavam da minha força de trabalho, porque minhas duas irmãs eram mais novas.

Nós éramos poucos leitores no bairro. E eu fui movida por essa história de trazer mais gente para a leitura. Fui para a Favela Madalena começar a alfabetizar, com uma amiga, Nalva, que também é ativista social. Na nossa ideia, eram os adultos que não sabiam ler, e a surpresa foi encontrar muitas crianças que não iam para a escola, porque naquela parte do bairro não havia nenhuma.

Fui para o magistério e consegui cursar o Ensino Médio. Decidi ser professora. Teve certa decepção familiar com isso, mas eu já estava pega por aquela história. E, na hora de fazer a faculdade, meu pai falou: “Veja se faz alguma coisa de verdade”. Naquele tempo a gente achava que só quem mexia com números era de verdade... Então fui fazer Matemática, o que foi uma bobagem, porque ainda que a Matemática esteja tão ligada à Filosofia, não era aquilo o que eu queria exatamente. Foi importante aquela primeira formação, mas minha realização foi como alfabetizadora.

Por onze anos fui alfabetizadora da Rede Municipal de São Paulo, na gestão da Luiza Erundina. Era moradora do bairro, dando aula na EMEF Professor Arlindo Caetano Filho, dentro da favela da Viela Paulo Rosa, Zona Leste da cidade de São Paulo. Saí da sala de aula para coordenar a área de Ciências Matemáticas, da Zona Leste, do antigo Núcleo de Apoio à Educação IX. Mas a sala de aula era esse lugar da realização, de poder experimentar, sentir a escola como um espaço da comunidade.

Pode falar um pouco sobre sua atuação no Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac)? E da relação da instituição com a criação de bibliotecas comunitárias?

Ganhei uma bolsa de estudos e fui estudar Pedagogia Social na Itália. Quando voltei, no finalzinho de 1996, conheci Cida Bento, a diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), em um evento. Ela gostou da nossa conversa e me chamou para ir trabalhar com ela. Eu era ainda professora da rede, então fiquei me dividindo entre ser professora, militante na Zona Leste e consultora do CEERT, por algumas horas, para ajudar a organizar o programa de educação. Sou uma das fundadoras do Educar para a Igualdade Racial, com a Cida Bento. O CEERT funcionava na edícula da casa onde é o Ibeac. Um dia, Vera Lion, coordenadora de projetos do Ibeac, precisava de alguém para ajudá-la numa formação em Belém, alguém do CEERT falou: “Tem uma menina aí que entende muito de educação. Se você quiser, a gente vê se ela pode ir com você”. Eu fui com a Vera Lion e não nos desgrudamos nunca mais.

O Ministério da Justiça, que era o grande apoiador do trabalho que o Ibeac fazia de formação em direitos humanos, nos provocou a fazer o mesmo trabalho de formação das lideranças que era desenvolvido na Região Norte do Brasil, trazendo como argumento que algumas áreas periféricas de São Paulo estavam muitas vezes esquecidas e desconectadas do restante do país na questão do acesso às políticas públicas. Fui professora em Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, conhecia esse lado da cidade, e aí começa a primeira história do Ibeac de criação de bibliotecas.

Nós não chegamos como uma instituição para criar uma biblioteca. O Ibeac tem como princípio que a nossa atuação ocorre sempre em três eixos: formação, atuação no território e transformação. A transformação só pode acontecer a partir daquilo que as pessoas do território desejam. E nós fomos para dar formação de direitos humanos para os jovens, mas o que isso ia virar como atuação, transformação, não sabíamos. Então encontramos esses jovens que desejavam criar uma biblioteca comunitária e nos juntamos a eles, fundamos a Biblioteca Comunitária Solano Trindade, que está lá até hoje. Ficamos quase dez anos juntos, até eles conseguirem ser a organização responsável pelo espaço. Dentro daquela biblioteca há doutores, doutorandos, mestres. Quase todos os jovens que vieram daquela biblioteca são hoje pessoas de referência na cidade. E a gestão é feita por jovens que, em sua maioria, foram ou são alunos. Então dá uma alegria entender essa força que a biblioteca tem.

Como vocês chegaram a Parelheiros?

O Ibeac, desde 1981, já trabalhava e realizava muitas coisas. Em 2006, fomos conversar com os jovens da Cidade Tiradentes, com outros amigos que tinham sido formadores conosco, e decidimos que íamos experimentar levar para um território tudo aquilo que nós sabíamos fazer. E aconteceu que dentro do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, Parelheiros aparecia com os piores índices.

Nós decidimos, em 2008, ir conversar com os agentes comunitários de saúde e encontramos a Flavia Kolchraiber. Ela tinha participado de formações conosco e estava em Parelheiros sendo gerente de três UBS’s – Colônia, Barragem e Nova América –, porque ninguém queria trabalhar lá. Ela organizou as pessoas para conversarmos e contarmos quem éramos, e as pessoas disseram que gostariam que começássemos fazendo algum trabalho com os jovens. Era setembro de 2008, os jovens chegaram, eram 27. Começamos por onde sabíamos, que era falar de direitos humanos. E o direito à educação foi o que mais os jovens discutiam, e nisso eles colocam o desejo de reabrir a biblioteca da escola, que estava fechada. Era um espaço bacana para eles se encontrarem como jovens – mesas redondas, tinha mais silêncio. E a gente falou: “Que bacana. Vamos ajudar na reabertura da biblioteca da escola”. Mas biblioteca é um negócio que a gente sabe fazer e nós começamos a estimular os jovens a desejarem uma biblioteca deles.

Então é aí que começa a história da Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura?

Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura (BCCL) começa dentro da Unidade de Saúde. Nós tínhamos uma sala, na qual os agentes comunitários de saúde se encontravam para fazer as refeições, preencherem os formulários. A biblioteca começa lá com duas pequenas estantes e livros doados. Ela acabou ficando famosa por um fato inusitado. A comunidade, nesses espaços de conversa, reivindicava a chegada de um dentista. Os agentes, os conselhos de participação de saúde conseguiram que um dentista fosse designado, mas ele precisava de uma sala, e a única disponível era onde estava a biblioteca, e precisamos sair de lá.

Digo que é o único caso em que você sai da unidade de saúde para o cemitério e isso significa uma melhora. Porque foi o que aconteceu conosco. Atrás da unidade de saúde está o Cemitério de Colônia. Saímos da unidade de saúde e fomos ocupar a casa do coveiro, e isso foi uma maravilha. No início era motivo de medo e de vergonha, mas quando Helder Oliveira – grafiteiro, referência na Zona Sul, e conhecido no país todo – perguntou “Vocês têm vergonha ou orgulho?”, depois de alguns minutos de silêncio, a gente se olhou e falou: “A gente tem orgulho. A gente está ocupando os espaços que existem com literatura. Nada para nos envergonhar”. Então, começamos a ir para as ruas e deixar impresso nos postes e nos muros, poemas sobre vida. A biblioteca do cemitério está viva, vivíssima, e espalhando literatura sobre vida para a comunidade. A biblioteca começa a viajar, se mover.

Como se dá a formação dos mediadores de leitura da biblioteca?

No final de 2008, o Instituto C&A, que à época tinha um programa consistente de educação, o “Prazer em Ler”, abriu um edital para bibliotecas comunitárias. Claro que poderíamos – eu, Vera Lion –, sentarmos e escrevermos o projeto, mas queríamos construir isso junto com os meninos. Trago isso para dizer que essa já é uma etapa do processo de formação de mediadores. Ser capaz de pensar: qual o projeto que minha comunidade precisa, o que a minha biblioteca precisa? Como faço isso ir para o papel? E esse é um eixo da formação para os mediadores até hoje, que chama “Planejação”.

Aí começa toda a formação deles como mediadores. Porque não é que eles eram jovens leitores, alguns tinham relações até de desagrado com a literatura, dificuldades em língua portuguesa, então, começamos a trabalhar esse conceito do que é a mediação, de se colocar entre o livro e um leitor ou não leitor. E o que precisamos para isso é saber ler. Começamos também um trabalho para que eles conseguissem ganhar proficiência na leitura. Nós nos encontrávamos para ler, da literatura pensada para crianças à literatura pensada para jovens ou para adultos. Esse é outro eixo da formação do mediador: a formação como leitor.

Outro eixo da formação é a produção de resenhas. E não naquele lugar de “Vamos fazer uma síntese e ver se você entendeu mesmo o livro”. É assim: “Como você apresenta esse livro para outro colega seu? Como você conta?”. A ideia da resenha com uma ação que chamamos de “Literatura e Direitos Humanos: para ler, ver e contar”. A gente lê, olha para ver como essa literatura está presente na nossa vida e no nosso território e precisa contar para mais pessoas.

A “Caminhos da Leitura” faz onze anos em 2020. Dois jovens que são fundadores estão lá até hoje, o Rafael Simões e a Sidineia Chagas, outros também estão por lá há muito tempo, há nove, dez anos, alguns há cinco anos, e outros mais recentes. Eles são formadores de mediadores e mediadoras de leitura. E o que eles têm como estratégia? O Clube de Leitura, o Cine Debate, o Cortejo de Leitura, que é uma ação em que eles vão para a rua cantando e espalhando os livros. E, agora, no período de isolamento social, tudo isso foi para o espaço digital. Então eles fazem mediações de leitura, tem o podcast “Vozes Daqui de Parelheiros”. Tem um carro de som que percorre todos os bairros com informação sobre a COVID-19 e também com leitura de poesias.

Conte também um pouco sobre o trabalho da Rede LiteraSampa e da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias. Por que a necessidade de uma rede de bibliotecas?

Em 2010, fomos provocados pelo Programa Prazer em Ler a atuar em rede. Pelo edital, cada município poderia apresentar um projeto com quatro bibliotecas, então decidimos não concorrer entre nós mesmos, porque haveria apenas um contemplado por estado. A gente decidiu fazer uma das boas loucuras da nossa vida, que foi apresentar um projeto com as bibliotecas de Guarulhos, Mauá e São Paulo. Entre a biblioteca de Guarulhos e a de Parelheiros tem mais de cem quilômetros dentro de espaço urbano, e decidimos que a gente ia enfrentar esse desafio. O projeto foi aprovado, nós fomos contemplados e aí veio o desafio: como é que a gente vai se encontrar? Foi a primeira vez que as bibliotecas comunitárias reivindicaram o acesso à internet e isso pago por uma rubrica de um edital. Hoje somos 11 bibliotecas comunitárias e duas escolares.

A Rede LiteraSampa se encontra uma vez por mês, em um encontro presencial de dia inteiro, em cada uma das bibliotecas, e quinzenalmente a gente se encontra a distância. Essa aprendizagem de fazer reunião a distância foi maravilhosa para nós, mas a estratégia de circular pelo território tem alguns benefícios muito importantes. O espaço é um eixo de formação – olhar o espaço do outro, como o livro está disposto, quais são os títulos, como os móveis estão pensados para garantir a autonomia do frequentador daquela biblioteca. Também tem um lado humanizador – qual é a biblioteca longe? Nenhuma, né? Ou todas. Não dá para fazer os encontros só na biblioteca que é central. Às vezes é estratégia, você quer se encontrar com uma escritora que tem dificuldades de mobilidade, então é melhor marcar na biblioteca que esteja numa área central. Mas o rodízio humaniza nossa relação, conhecer a distância que o outro percorre também é um momento formativo.

Em 2015, as 13 redes locais de bibliotecas apoiadas pelo Programa Prazer em Ler criaram a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC). Nós somos agora 115 bibliotecas comunitárias, presentes em 16 estados, e temos trabalhado com alguns eixos: acervo, espaço, mediação, enraizamento comunitário e escrita, que tem sido muito precioso para nós. Os mediadores e mediadoras de leitura da rede têm feito várias publicações sobre as nossas práticas. Recentemente, um grupo participou de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), sobre as bibliotecas comunitárias enquanto resistência cultural na formação dos leitores. Quem são as bibliotecas comunitárias? Qual é esse Brasil que lê?

Isso um pouco da nossa atuação dentro do território nacional. Deixo um convite para quem ler essa entrevista, de visitar e conhecer as bibliotecas comunitárias da sua cidade.

Em um texto, Valter Hugo Mãe diz que “As bibliotecas deviam ser declaradas da família dos aeroportos, porque são lugares de partir e de chegar. Os livros são parentes directos dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros”. É isso mesmo?

Fico emocionada e feliz de poder ouvir essa pergunta, porque no ano passado (2019), em São Paulo, aconteceu a Balada Literária, e foi em homenagem a Paulo Freire. O Marcelino Freire convidou a Rede LiteraSampa e a Associação Vaga Lume pra fazer a abertura, a chamada para os autores, e eu fui a pessoa designada a receber o Valter Hugo Mãe. Foi uma alegria muito grande, porque aconteceu algo muito bonito. Quando ele deu uma entrevista para o lançamento do livro Contos de cães e maus lobos, leu um trecho sobre as bibliotecas, e uma amiga, a Cris Lima, da Biblioteca Comunitária Djeanne Firmino, me escreveu: “Puxa vida! Eu acho que já ouvi isso em algum lugar, esse conceito de que as bibliotecas são como tapetes voadores. Não foi você que falou isso?”. É que ela tinha participado da minha qualificação para o mestrado e eu havia usado a mesma metáfora que o Valter Hugo Mãe. E eu pude falar isso para ele pessoalmente quando o acolhi.

Acredito demais que a literatura é o principal veículo para nos tirar do lugar. É impossível, depois de uma leitura, continuarmos no lugar em que estávamos. A literatura e as bibliotecas que estão na literatura são o lugar onde a gente pode encontrar com a gente mesmo. A literatura nos proporciona uma viagem para dentro, e é dali que conseguimos partir para lugares inimaginados. As bibliotecas fazem a gente olhar o mundo de outro lugar, sair da lógica do labirinto em que nos debatemos, buscando a saída. Tem hora que o único jeito para sair do labirinto é sentar nesse tapete literário, olhar o labirinto de cima, pedir calma, pedir alma, diria Lenine, e falar: “Gente, quem sabe se a gente anda por aqui a gente sai melhor?”. E eu juntaria essas metáforas que o Hugo Mãe traz a outro conceito da antropóloga Michèle Petit, que é dizer que as bibliotecas são um centro de convergência e de irradiação. Eu acrescentaria: das transformações na gente e na sociedade.

Gostaria de retomar uma pergunta sua, feita em 2017, durante o TEDxSãoPaulo, e devolvê-la a você: “O que acontece quando trabalhadores trocam as suas ferramentas de trabalho por livros, por literatura?”.

Uma coisa que tenho ouvido dos jovens, e me emociona muito, é que quando um filho de trabalhador, uma filha de trabalhadora como eu sou, consegue ter a literatura no lugar da ferramenta de trabalho, entende e tem a certeza de que a nossa vida não vai ser conduzida só com a força dos nossos braços, com o suor da nossa pele, com o desgaste do nosso corpo no transporte público lotado, no trabalho para as coisas dos outros, para a casa dos outros. Quando a gente pega a literatura na mão, a gente se dá conta que pode mudar o destino que disseram que estava dado para nós. Consegue sonhar, e a gente não consegue nunca sonhar só pra gente. A gente começa a sonhar uma mudança que passa pela nossa família e a nossa família é grande, a gente vai chamando um e outro de mano, de mana, de irmão, de família.

Fico olhando, nesse momento, as várias lives que esses jovens que eu conheço têm feito, muitas vezes com livros atrás das imagens que eles estão projetando. Eu me lembro bem de uma formação que dei para eles há alguns anos, em que eu falava assim: “Coloca livro perto de vocês quando forem dar entrevista, tirar foto”. Porque chega de aparecer com o esgoto a céu aberto, com a nossa casa caindo aos pedaços. A gente é isso, mas é também os livros que está lendo, que está colocando na mão de outras pessoas. Então quando um filho de trabalhador pega um livro na mão, ele muda a história de um monte de gente, inclusive de suas mães. Hoje, lá em Parelheiros, temos mães estudando junto com seus filhos, gravando mediações para colocar nas redes sociais. O que acontece é isso, o mundo vai ficando melhor para todo mundo, melhor também para quem achava que literatura era luxo.

Além da literatura, você tem uma grande experiência na temática racial. A literatura pode contribuir com o enfrentamento do racismo? De que maneira?

Completamente. Minha entrada na literatura passa pelos autores negros que li e pela literatura que aconteceu, que segue acontecendo nas bibliotecas comunitárias, dentro dos saraus. A gente vai ter várias adjetivações, ela é literatura e ponto, mas essa literatura que as pessoas da periferia mantiveram viva – a literatura periférica, a literatura negra – não está num lugar só de reação ao racismo. Ela é também uma literatura de construção de novas identidades. Vejo que a literatura negra é um lugar de sobrevivência, de existência, e também de construção, de anúncio da sociedade em que queremos viver. Eu volto para minha pesquisa de mestrado, em que peço para os jovens indicarem, cada um, três livros que marcaram esses dez anos da “Caminhos da Leitura”. É impressionante, sempre estão ali os autores negros e negras que fizeram esse caminho com eles de dentro para fora. A literatura negra possibilita para nós um espelho, a gostar mais de nós mesmos. Nem todo mundo conseguiu fazer terapia para passar por isso.

O que esses escritores e escritoras te disseram, por meio dos livros? O que eles podem nos ensinar?

Se a gente olha a história do Brasil, de cada cinco dias vividos, quatro deles passamos com um regime de escravização de negros e negras. E o que eles me disseram é que esse passado foi imposto para nós. Não tem nada de natural na escravização de pessoas, na invisibilização de pessoas, no silenciamento de pessoas. Outra coisa que os autores e autoras negras me disseram era que eu tinha direito a dizer sobre mim, sobre minha mãe, sobre minhas irmãs, sobre os meus camaradas. A escrevivência de Conceição Evaristo, de Lima Barreto, de Machado de Assis, de Maria Firmina dos Reis, de Carolina Maria de Jesus, disse que a gente tem o direito de contar a nossa história, que ela importa e pode dar colo para alguns de nós.


Uma rodada para responder em poucas palavras

Um livro para a vida?

Vidas Secas, Graciliano Ramos.

Último livro que você leu?

Kindred, da Octavia Butler.

O que ler durante o isolamento?

Qualquer poesia que ajude a respirar. Dicas: Adélia Prado, Cuti, Drummond.

Escritor ou escritora?

Ana Maria Gonçalves, porque o romance Um defeito de cor é um marco; e a Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota), com o livro De passagem mas não a passeio.

O que é uma biblioteca comunitária?

Casa, jardim, porta e quintal. O melhor lugar para se estar.


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