Carolina Maria de Jesus em quadrinhos: livro traz história da escritora descoberta numa favela de São Paulo nos anos 1950

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16 outubro 2018

Por Marina Almeida


Autores falam sobre como a obra de Carolina pode ajudar a escola a discutir racismo, cultura negra e a

se aproximar da realidade dos alunos. HQ está entre as disponíveis para escolha pelo PNLD Literário.

 

Em meio a seu trabalho como professora de sala de leitura de uma escola da periferia de São Paulo, Sirlene Barbosa percebia a falta de identificação dos alunos com o conteúdo ensinado na escola e o pouco espaço destinado a escritores e personagens negros. A necessidade de trazer esses autores para a sala de aula junto com o desejo antigo de estudar a obra de Carolina Maria de Jesus se transformaram num livro sobre a escritora.

Sirlene e João Pinheiro, que é quadrinista, são os autores de Carolina (Editora Veneta, 2016) – uma biografia em quadrinhos de Carolina Maria de Jesus. Ao longo da obra acompanhamos um dia na vida da escritora pela São Paulo de 1955, já cheia de carros e grandes prédios. Ela caminha rapidamente por entre as ruas e sua silhueta fina com um grande saco às costas, onde carregava o lixo reciclável recolhido, contrasta com o tamanho da cidade. Ao fim do dia, ela volta para a favela, onde cuida sozinha de três filhos. À noite, à luz de um toco de vela, Carolina escreve sua história. Ali ela se permite até sonhar.

“Queríamos apresentar Carolina para os jovens, principalmente os da periferia, que não têm acesso a uma literatura que converse com a realidade deles”, conta João. Ele e Sirlene falaram sobre o livro numa palestra da série Caminhos da HQ, evento organizado pelo Itaú Cultural em setembro. O livro, que foi indicado ao prêmio Jabuti e ao Troféu HQ Mix, uma das mais tradicionais premiações dos quadrinhos brasileiros, foi pré-selecionado para o PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático) Literário 2019. Agora, as escolas interessadas em receber a obra, devem selecioná-la.

Linguagem visual

Em suas pesquisas sobre a São Paulo dos anos 1950, João descobriu que existem poucas representações sobre as favelas da época. As únicas fotos que encontrou da favela do Canindé, onde Carolina vivia, foram as feitas por Audálio Dantas – o jornalista que descobriu e editou os primeiros originais da escritora. “Tive que me basear em filmes da época e outros elementos para compor esse cenário. Até hoje não existem muitas representações gráficas sobre as periferias. Temos filmes, mas não é a mesma coisa, o desenho funciona como um filtro, trazendo uma nova visão sobre o lugar. Acredito que o livro pode ajudar a entender a própria história da cidade, de como surgiram as favelas de São Paulo, e a compor esse imaginário sobre a época”, destaca João.

Ele conta que se baseou nos próprios textos da Carolina para pensar suas imagens. “Ela fala que o centro era o lugar privilegiado, como a sala de visitas da cidade, o lugar mais luxuoso, onde exibimos os cristais. Já a favela é o quarto de despejo, onde escondemos tudo que é indesejável, que não é para ser visto pela sociedade.” Não à toa, o primeiro livro de Carolina, e o mais conhecido até hoje, chama-se Quarto de Despejo: Diário de uma favelada – publicado em mais de 13 países. A partir dessa metáfora, a história em quadrinhos (HQ) nos apresenta uma cidade de grandes proporções, onde uma pequena Carolina caminha por entre prédios enormes. Já na favela, os personagens têm quase o tamanho dos barracos onde vivem, que são muito simples. “São escolhas intencionais para contar visualmente essa história”, explica.

“Até hoje o que prevalece é uma visão idílica de favela, mas o livro da Carolina traz o oposto disso. Há muitos conflitos entre os moradores, até pela situação de vida muito difícil de todos. No nosso livro buscamos mostrar isso também: a miséria, as crianças em meio ao lixo, a Carolina dentro de seu barraco minúsculo escrevendo à luz de velas com o que ela achava nas ruas”, conta João. Mas mesmo em meio a tantas dificuldades, Carolina conseguia encontrar também alguma poesia: “ela conta que sonhou que pegava uma estrela na mão, cena que mantivemos na HQ, por exemplo”, ressalta.  

Os autores ainda chamam a atenção para a capa da HQ: uma ilustração baseada numa foto de Carolina autografando seu livro. “Ela tem uma história muito sofrida e difícil, mas também de muita liberdade e autonomia, então queríamos colocá-la na capa como a escritora que, de fato, foi, não como ‘a escritora negra favelada’, como ela foi apresentada pela mídia. É escritora e isso é o que mais importa”, diz João. Sirlene ainda lembra que Carolina fala em seus textos que tinha o sonho de ver seu nome impresso na capa de um livro. A foto representa a realização dessa conquista.

Desconhecimento

Para Sirlene e João, apesar de um movimento de redescoberta da autora nos últimos anos, sua obra ainda é pouco valorizada. “Até hoje é difícil encontrar alguns de seus livros à venda”, lembra João. “E Carolina não tem só Quarto de Despejo, escreveu Casa de Alvenaria, Pedaços de Fome, Diário de Bitita, contos, poemas e letras de música”, diz Sirlene.

Como professora, ela percebeu que nos currículos escolares o espaço para a obra da escritora ainda é muito pequeno. “Fiz uma pesquisa, em 2013, com professores de sala de leitura da diretoria de ensino em que eu trabalhava: de 40 professores, apenas 5 responderam que já tinham ouvido falar de Carolina, nenhum tinha trabalhado com os textos dela em sala de aula”, relata.

Sirlene, que pesquisa o currículo da Educação Básica em seu doutorado, também analisou todos os volumes de uma coleção didática voltada para o ensino fundamental 2. Os livros traziam textos de 32 autores, em média, mas nenhum deles negro. As mulheres também eram minoria: apenas 4 autoras são citadas. Ao verificar os livros de sua escola, outra surpresa: “trabalhava numa sala de leitura com mais de 30 mil livros e descobri que tínhamos uma média de 50 livros apenas com autores e/ou protagonistas negros. Se fosse contar os indígenas, o número era menor ainda... O aluno pensa: o que vou fazer naquele lugar se não tem nada a ver comigo? Quando fala de negro é só sobre a escravização, sempre numa situação de inferioridade.”

Carolina em sala de aula

Em sua prática de sala de aula, Sirlene já trabalhou com o livro Quarto de Despejo e com sua HQ biográfica tanto com crianças menores, a partir de 10 anos, quanto com adolescentes e adultos. “Funciona muito bem, porque acontece uma identificação com a obra. E como o livro é organizado por dias, não preciso ler todo o texto, posso pular alguns meses e trabalhar o que for mais interessante para a turma. Quando uso a HQ, procuro chamar a atenção para a linguagem visual também, não apenas o texto.”

Com os alunos menores, a professora percebe que a história traz comoção e identificação. “Eles vinham me contar: ‘professora, minha casa é igual à dela’. Depois, começavam a vê-la como uma espécie de cinderela negra, que venceu tantas dificuldades e conseguiu se tornar escritora.” Já com os adolescentes, o primeiro contato com a obra geralmente vem acompanhado de desconfiança. “Às vezes eles riem, não levam a sério, mas entendo que rejeitam justamente por perceberem que Carolina tinha algo muito parecido com eles.” Ela conta que conforme conhecem mais sobre a obra e a autora, passam a se interessar e a respeitá-la como escritora.

Atualmente a professora leciona para turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA), também na rede pública da periferia de São Paulo, e diz que com esses alunos a resposta é mais rápida. “Eles se identificam muito e não têm vergonha de revelar isso. Carolina fala muito de fome e, em uma passagem, fala que a fome é amarela. Já ouvi de muitos deles: ‘é verdade, já passei fome, cheguei a desmaiar, e a gente vê tudo amarelo mesmo’.”

“Acho importante ter essa representatividade na escola – e na nossa sociedade –, para os alunos acreditarem que eles também podem ser escritores, médicos, dentistas... E para isso precisamos ainda de políticas públicas de acesso ao ensino”, conclui Sirlene.

20 thoughts on “Carolina Maria de Jesus em quadrinhos: livro traz história da escritora descoberta numa favela de São Paulo nos anos 1950

  1. O livro que conta a história de vida da “catadora de lixo” Carolina de Jesus oportunizará a nossos alunos aprender com uma “mulher” guerreira que é possível alcançar o que se pretende. Carolina de Jesus não se acomodou com sua realidade, pelo contrário, através das folhas que encontrava por onde passava, na sua lida diária, ela, a todo o momento, reafirmava o seu não pertencimento àquele lugar e àquela situação. O gênero HQ é mais uma maneira inteligente de unir prazer e experiência, levando o aluno a mergulhar nesta história fascinante de Carolina de Jesus.

  2. Que bacana! Em minhas aulas com ensino fundamental, no período de 1996 a 2003, meus alunos leram o livro Quarto de despejo dessa autora e fizeram lindos trabalhos. Lembro-me que ficavam sensibilizados com a história a qual retratava a realidade de vários cantos do nosso país.

  3. Já tive duas experiências com o livro: com o 1º ano do ensino médio e o 9º fundamental II. Ao ler o livro me impressionei com o enredo, a história de vida da autora / protagonista. A receptividade dos alunos é impressionante a ponto de sensibilizar alguns que levam uma vida de conforto e em meio às dificuldades retratadas pela autora mostram-se impressionados com a simplicidade em que vivia a Carolina e seus filhos, assim como suas dificuldades. Portanto, para mim foi uma experiência maravilhosa e ainda está sendo.

  4. Gostei muito deste artigo! Eu tenho um TCC chamado Quarto de Despejo diário de uma favelada: Carolina vai à escola pela UFSC, nele eu abordei justamente a falta de escritores(as) negras(os) na escola. Minha pesquisa viu que nenhum aluno conhecia a literatura de Carolina e que os professores também não, mas a biblioteca da escola tinha o livro.

  5. Muito oportuna a obra de Carolina de Jesus para ser introduzida no universo escolar, desde os primeiros anos de iniciação à leitura das crianças. Também vivi dias difíceis em que, ocasionalmente, passei fome e concordo com a o amarelo do desespero com que a gente a gente enxerga o mundo, quando nos falta alimentação básica.

  6. Também nunca tinha ouvido falar de Carolina Maria de Jesus. Agora que ouvi, quero ler suas obras e essa biografia em HQ. Parece um belo trabalho que merece ser conhecido e compartilhado com meus alunos e alunas.

  7. Maravilha esta iniciativa!
    Na minha escola em que estou diretora tenho também esta preocupação com os respeito as diversidades e esta da Etnia Racial elenco como a número 1.
    Parabéns! Vou aproveitar o texto e passar para os nossos professores.

  8. A obra Quarto de Despejo, de Carolina de Jesus, é um diário sociológico da realidade da favela, vista a partir de uma perspectiva naturalista da vida. A retextualização dessa obra para HQ permitirá alcançar um maior número de leitores de faixa etária diferenciada, uma vez que a HQ vincula a linguagem visual à escrita torna a leitura bem atrativa. Parabéns pela iniciativa, professora Sirlene.

  9. Para mim, quando tive a oportunidade de participar de um seminário sobre a obra e vida de Carolina de jesus , foi um crescimento junto com alunos Cresci em minha vida profissional,Não olhei idade e nem série para mim é conhecer uma riqueza que traduz as palavras ditas por essa autora a um mundo de simplicidade e alegria , que ao mesmo tempo muda a maneira de ser do ser humano.
    Falar da organização em todos aspectos e sentidos é impossível, a maneira é tão bem organizada que a leitura é saudável e rica . Desta forma , gostaria de receber mais textos de Carolina de Jesus para mostra os meus alunos em especial o Ensino Médio o valor dessa Autora e suas palavras .

  10. Interessante este texto confesso que também não tinha ouvido falar á respeito desta escritora, vô procurar ter acesso para poder ler fiquei muito interessada Mas comentando sobre a historia em si as crianças estão precisando de mais conhecimento e informações para que tenham uma visão diferente do mundo com menos preconceito e mais amor; e beleza

  11. Eu trabalho o Projeto: A leitura é o seu passaporte. Já trabalhei o livro da autora Carolina “Quarto de despejo: Diário de uma favela. Ao trabalhar a obra, percebi que alguns alunos se identificaram com a narrativa, outros disseram que a biografia da autora, parecia a vida da vó, da mãe. Após explorar a obra, com seminário, reconto de história, ilustração, fiz um trabalho de produção de poema, trabalhando valores morais. Saíram produções maravilhosas!!! Ver o orgulho dos alunos dizendo que também eram escritores. Muitos ilustraram. Foi gostoso fazer esse trabalho. Foram momentos de aprendizado para mim.

  12. Concordo com as pesquisas realizadas e hoje percebo que os livros escritos para os menores, que tem relação com o tema é muito difícil de ser encontrado, percebi que a dificuldade não está só nos livros, pois é raro encontramos bonecas e bonecos na cor negra. Com isto percebesse que a discriminação ainda é real.

  13. Também considero importante essa representatividade na escola, porém, quando nós leitores nos deparamos com personagens iguais a Carolina, não nos traz alegria, apenas nos vemos retratados ali. A reflexão pode ser: No mundo existe alguém igual a mim. Porque normalmente esse personagens são fortes espiritualmente capaz de criar um novo mundo em sua volta. Só que a história é sempre contada alguém que não viveu aquilo, só observou.

  14. Parabéns pelo trabalho. Muito bom.
    Eu apresentava a Carolina e suas obras ao alunos do quinto ano mas me faltava material. Hoje estou aposentado.

  15. Gostei muito dessa matéria, a qual trouxe a luz Carolina Maria de Jesus como escritora, mulher, negra, pobre. Condição difícil, mesmo nos dias de hoje, admiro mulheres fortes e determinadas, capazes de superar grandes dificuldades e realizar seus sonhos. É de grande importância tratar desses temas na escola, tanto na escola da periferia quanto na escola particular, porque existem muitas realidades em nosso país, as quais muitos estudantes não têm como imaginar. Já conhecia o título do livro, mas nunca havia lido, creio que será um livro muito importante para o trabalho pedagógico na escola e para a vida dos meus alunos e para a minha própria.

  16. Realmente é fato, este tipo de livro, chega pouco à escola, mas as coisas estão mudando, quem sabe logo, outros aparecerão.

  17. Fantástico! Já trabalhei Quarto de Despejo, num oitavo ano e foi revelador. A obra fez com que os alunos se sentissem a vontade para expor suas vivências. Um aluno em especial, se interessou e se identificou tanto que esse ano lembrou dela num outro trabalho sobre o poder da mulher negra para a sociedade. Fico extremamente feliz pois agora também posso usá-lo com o sexto ano. Parabéns pela iniciativa.

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