Literatura afro-brasileira

 

 

Este material apresenta, a seguir, um texto sobre a importância de propor a leitura da obra de autora(e)s negra(o)s na escola. Depois, há uma sequência didática com orientações para o trabalho com o livro Leite do Peito, de Geni Guimarães. Para acessá-la, clique nos botões acima.

Ao longo do material, você encontrará algumas palavras, expressões, termos ou trechos marcados em laranja. Nesses casos, basta clicar para ver o seu significado ou um comentário sobre a atividade.

Lara Rocha

 

Por que trabalhar literatura afro-brasileira1 na escola?

Quando buscamos relembrar as aulas em que personagens negra(o)s apareceram ao longo de nossa vida escolar, frequentemente pensamos na escravidão ou em contos folclóricos. Hoje, enquanto professora(e)s, refletimos: será que estudantes negra(o)s se sentiam representada(o)s por aquelas figuras? Como será crescer vendo imagens que se parecem com você apenas em capítulos sobre o sofrimento e a exploração? Que referências estudantes brancos terão sobre a(o)s colegas? Como construirão suas relações a partir desses exemplos?

Na tentativa de reverter esse quadro, o por décadas criou estratégias e pressionou o Estado, de modo que, em 2003, foi sancionada a Lei 10.639, que altera a LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação ao incluir obrigatoriamente o ensino das histórias e culturas africanas e afro-brasileiras nos currículos escolares do ensino fundamental e médio. Desse modo, os cursos superiores, principalmente os de formação de professores, deveriam também adequar-se para contemplar os aspectos citados na lei.

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"Movimento Negro (ou MN) é o nome genérico dado ao conjunto dos diversos movimentos sociais afro-brasileiros, particularmente aqueles surgidos a partir da redemocratização pós-Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro e São Paulo." Fonte: https://www.geledes.org.br/movimento-negro

 

 

 

Essa legislação atende reivindicações históricas de movimentos sociais por uma pedagogia comprometida com a luta antirracista. Em decorrência, em 2004, o Conselho Nacional de Educação estabeleceu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, em que Literatura, assim como História do Brasil e Educação Artística, consta como componente curricular que deve, em especial, contemplar sistematicamente as diretrizes orientadas pela lei.

Assim, nos vimos obrigada(o)s a pensar: por que é tão importante falarmos desse assunto? Se não tivemos aulas sobre este tema na universidade, como poderemos ensiná-lo? E mais, como dar conta de trabalhar temas tão polêmicos e que podem ter repercussões inesperadas?

Com tantos desafios, muitas vezes nos sentimos paralisada(o)s e evitamos incluir a Literatura Afro-brasileira em nossos planejamentos. Para então reforçar a importância desse trabalho, vamos começar nossa conversa retomando alguns aspectos da história da literatura brasileira.

 

Um breve olhar sobre o lugar de negra(o)s na literatura brasileira

Em primeiro lugar, é notável que as participações da população negra no cânone se dão majoritariamente enquanto tema; raramente negras e negros são enunciadores de suas histórias. Tal característica, por si só, já soa insatisfatória, mas torna-se ainda mais grave quando relembramos a composição da população brasileira: Em 2019, segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), negra(o)s (preta(o)s e parda(o)s) eram maioria, representando 56,2% da população; os brasileira(o)s que se declaravam branca(o)s eram 42,8%.

Sabendo disso, por que conhecemos tão pouca(o)s autora(e)s negra(o)s?

Buscando hipóteses que justificassem tamanha ausência, o professor e pesquisador Eduardo de Assis Duarte (2008) destaca os séculos de escravidão e discriminação sustentada, mesmo após a abolição, por meio de políticas de extermínio e de negação de direitos básicos, como saúde e educação, como principais fatores para a construção de um imaginário de superioridade e dominação, impondo limites à cultura e identidade da população negra, e impossibilitando que contassem suas próprias histórias.

Consequentemente, a maior parte das obras literárias são construídas a partir de um ponto de vista branco e acabam evidenciando um olhar carregado de estereótipos, que não contemplam a complexidade de sujeitos negros.

Em pesquisa acerca da produção literária do Brasil e dos modelos sociais que a constroem, Regina Dalcastagnè (2005) elaborou uma espécie de perfil do escritor brasileiro: homem branco, heterrossexual, de classe média e do sudeste.

Sobre as personagens, 93,9% são brancas, em sua maioria, homens (62,1%) e heterossexuais (81%). Aos 7,9% de personagens negros, estão relegados papeis como bandidos ou contraventores (20,4%), empregados(as) domésticos(as) (12,2%) ou escravizados (9,2%). Destes, apenas 5,8% são protagonistas e 2,7% narradores.

O infográfico a seguir, publicado por Niege Borges no site Ponto Eletrônico, organiza os dados recolhidos durante esta pesquisa:

 

 

Você pode conferir o infográfico completo aqui.

Outros conhecidos estudos2 sobre a presença do negro na literatura brasileira tendem a confirmar esses dados, apontando personagens inexpressivas, com participações breves e pouco marcantes ou carregadas de elementos que reafirmam estigmas raciais. Podemos perceber tais características em clássicos como O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, em que a icônica Bertoleza é tratada de modo submisso e animalesco, enquanto Rita Baiana sustenta os estereótipos da mulata3 sedutora. Ou A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, em que a personagem atravessa afrontas e brutalidades dos senhores por meio do branqueamento. Desse modo, representações eurocêntricas e estereotipadas, existentes desde o século XVI, são evidenciadas e perpetuam-se enquanto referências históricas, estabelecendo hegemonicamente a perspectiva branca e violentando, até hoje, as raízes da negritude.

Assim, a produção literária hegemônica de autoria branca – que acaba por adentrar nossas bibliotecas e salas de aula – ainda que inclua personagens negros em suas obras, por muitas vezes reproduzir tipos e argumentos racistas e esvaziados de subjetividade, contribuiu para o apagamento do sujeito negro.

Por outro lado, embora historiografias da literatura brasileira ignorem, outras vozes existiram. Autoras e autores negros não se deixaram calar e aproveitaram-se de brechas, ainda que a estrutura racista desfavorecesse suas produções. É assim que identificamos, ainda no século XIX, nomes como Domingos Caldas Barbosa (1738-1800), Maria Firmina dos Reis (1822-1927), Luís Gama (1830-1882), Machado de Assis (1839-1908) Cruz e Souza (1861-1898), que sobreviveram ao esquecimento e à invisibilização.

No início do século XX, ganham destaque Lima Barreto (1881-1922), Antonieta de Barros (1901-1952) e Solano Trindade (1908-1974) que, apesar de limites impostos, difundem produções enredadas por aspectos raciais e sociais, e abrem portas para autora(e)s da segunda metade do século. Fortalecem-se aí produções literárias de autoria negra que assumem seu pertencimento étnico e criam uma literatura comprometida com as questões raciais, a exemplo de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), Abdias do Nascimento (1914-2011) e de autores dos Cadernos Negros4, como Oswaldo de Camargo (1936), Conceição Evaristo (1946), Geni Guimarães (1947), Cuti (1951), Miriam Alves (1952), Esmeralda Ribeiro (1958) e Márcio Barbosa (1959). Temos ainda nomes fundamentais como Cidinha da Silva (1967), Ana Maria Gonçalves (1970), Cristiane Sobral (1974) e Lívia Natália (1979).

A nova geração de escritora(e)s negra(o)s brasileira(o)s desponta nos século XXI tendo, principalmente, a internet, saraus e slams como grandes aliados para a divulgação de suas obras. É assim que passamos a conhecer figuras brilhantes como Nina Rizzi (1983), Jennyffer Nascimento (1984), Mel Duarte (1988), Luz Ribeiro (1988), Jarid Arraes (1991), entre tantas outras.

 

O papel da escola

Em 2003, com a promulgação da lei 10.639, institucionaliza-se então a presença da literatura afro-brasileira nas salas de aulas, visando o trabalho com produções que tenham uma abordagem mais sensível às múltiplas existências. A escola, consequentemente, tem um papel indispensável. Os recursos didático-pedagógicos, tanto por questões políticos-sociais, quanto pela qualidade do material, devem ter uma abordagem crítica e que inclua diferentes perspectivas. Esse caminho é fundamental para a construção de um currículo apropriado, amplo, que evite os perigos das histórias únicas5.

Se até pouco tempo a instituição escolar tem sido um espaço difusor de representações negativas sobre negras e negros (GOMES, 2005), é fundamental que assuma o compromisso de valorizar os grupos historicamente discriminados para o conjunto da comunidade escolar e que crie condições para que todas as pessoas reconheçam a si e ao outro como detentores de experiências positivas (CARREIRA e SOUZA, 2013, p. 40).

Do ponto de vista da formação do leitor literário na escola, o trabalho em sala de aula com produções afro-brasileiras comprometidas com práticas antirracistas possibilitam também o reconhecimento pelas alunas e alunos de figuras negras positivadas.

Dentre as muitas possibilidades, essa prática incentiva também a discussão sobre questões raciais, o rompimento do silenciamento histórico, além de possibilitar a maior circulação de autores pouco conhecidos no mercado editorial.

Vale ressaltar que estas obras podem – e devem! – ser trabalhadas das séries iniciais aos anos finais da Educação Básica e ainda adentrar os espaços universitários. Os textos contemplam desde a valorização de aspectos físicos, como os cabelos crespos, até elementos das religiões de matriz afro-brasileiras, além de retomar e criar novas narrativas em que leitores de diferentes idades podem se enxergar e experienciar aventuras, romances, mistérios e o respeito à diversidade. É extremamente significativo endossar que a construção da autoestima positiva não é viável individualmente, mas resultado das relações e referências. Enxergar o outro como sujeito, nesse caso, é também enxergar-se como sujeito.

Assim, o trabalho com essa temática em sala de aula é, acima de tudo, uma ação de cidadania, fortemente entrelaçada aos debates antirracistas contemporâneos, oriundos de ações que visam desconstruir os efeitos da estrutura opressora sobre a população negra, possibilitando uma positivação na esfera das relações raciais e da própria constituição da identidade da população negra.

 

BIBLIOGRAFIA

CARREIRA, D.; SOUZA, A. L. S. (Org.). Indicadores da Qualidade na Educação: Relações Raciais na Escola / Ação Educativa, Unicef, SEPPIR, MEC. São Paulo: Ação Educativa, 2013, 1ª edição

DALCASTAGNÈ, R. A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004. In.: Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n° 26, Brasília, jul.-dez. 2005, p. 13-71.

DUARTE, E. A. Literatura afro-brasileira: um conceito em construção. In: Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. Nº 31. 2008.

GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma breve discussão. In: BRASIL. Educação Anti-racista: caminhos abertos pela Lei federal nº 10.639/03. Brasília, MEC, Secretaria de educação continuada e alfabetização e diversidade, 2005. P. 39 - 62.

 


1 Apesar da existência de outros conceitos que contemplem essa temática, aqui optamos por adotar “afro-brasileira” por se tratar do que é utilizado na legislação.

2 BASTIDE,1973; BERND, 1987; BROOKSHAW, 1983; CAMARGO, 1987; CUTI, 2010; DAMASCENO, 1988; DUARTE, 2013; FONSECA, 2002; PROENÇA FILHO, 2004; SAYERS, 1958.

3 Entendemos que o termo mulata não é apropriado e já caiu em desuso. Utilizamos aqui apenas por ser o que foi empregado por Aluísio de Azevedo. Para entender mais sobre esta questão, recomendamos a leitura do artigo “Não me chame de mulata: uma reflexão sobre a tradução em literatura afrodescendente no Brasil no par de línguas espanhol-português” (http://www.scielo.br/pdf/tla/v57n1/0103-1813-tla-57-01-0071.pdf) e do poema homônimo de Jarid Arraes (https://www.geledes.org.br/nao-chame-de-mulata/).

4 Criada em 1978, e publicada anualmente e ininterruptamente desde então, a série Cadernos Negros tornou-se um marco, ao publicar contos e poemas de autoras e autores negros, tornando-se um dos principais veículos de divulgação da escrita afro-brasileira.

5 ADICHIE, Chimamanda. O Perigo da História Única. Vídeo da palestra da escritora nigeriana no evento Tecnology, Entertainment and Design (TEDGlobal 2009).


Sobre a autora

Lara Rocha é professora de Língua Portuguesa e Literatura da rede municipal de São Paulo. Mestranda em Letras – Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, pela Universidade de São Paulo (USP).

 

 

19 thoughts on “Literatura afro-brasileira

  1. Me interessou muito esse trabalho, gostaria de ajuda para introduzir isso na minha prática escolar. Como consigo as obras em PDF para trabalhar nesse período de pandemia, e porque não depois que tudo isso passar!

  2. O livro de Geni Guimarães “Leite do peito” é muito proveitoso, tenho trabalhado com a leitura de capítulos em minhas aulas, tem três anos e meus alunos (geralmente de 6° ano) amam ouví-las, as aulas ficam mais produtivas, porque aguardam ansiosos pela leitura, feita ao final das aulas. Confesso que são histórias que nos levam a refletir sobre vários temas.

  3. sabemos que diante do fatos e toda historia da construção dessa nação não pode ficar para traz pois somos uma só sociedade formada e constituída por todos tantos partos brancos e negros somos um só povo e os nossos direitos e deveres diante da sociedade fazemos e cumprimos, quando nos respeitamos e amamos iguais vivemos e formamos uma sociedade mais justa todo cidadão é igual diante de Deus e diante da lei tudo que é de direito devemos fazer para devolver com justiça a identidade e o que foi negado a este povo todo o tempo de sua tragetoria.

  4. Como foi bom deparar-me com esta próxima e clara explicação sobre a cultura afro-brasileira. E o quando ainda tenho que aprender para poder ensinar melhor meus alunos. Muito grata!

  5. Amei os depoimentos, não tem como negar que o ensino da cultura, bem como da literatura Afro-brasileira precisam ser trabalhados nas escolas de todo o país. Sem sombra de dúvidas que o conhecer nossas origens e ir além da escravização, se faz necessário a cada momento.

  6. Gostei das leituras e vídeos. Aos 43 anos passei por uma experiência incrivel. Em uma aula do mestrado no segundo semestre 2020, um colegs ao relatar um pouco da nossa história do recôncavo baiano para o professor que é de SC, percebi que de fato não conheço a verdadeira história. E estou muito focada em indicações de leituras para aprofundar este conhecimento. Direcionado a ancestralidade. Penso em começar a escrever um artigo sobre minha experiência. Só neste dia descobri que sou Banto. Sou mãe, mulher, negra, supervisora pedagógica, sigo o protestantismo mas sou Banto, na minha tragetória histórica, por questões culturais, politicas, econômicas e religiosa posso ter negado involuntariamente algumas peculiaredades do nosso povo, mas não nego minha ancestralidade. Tenho muitas experiências vividas em vários ambitos da sociedade, mas aqui está apenas um breve comentário. Com muitos pontos de indagações.

  7. Cabe a nós educadores promovermos o diálogo sobre a temática do racismo institucional em nossa sociedade. Devemos nos inquietar com naturalização de questões que não são naturais. A cultura afro-brasileira necessita de ser valorizada e até mesmo conhecida.
    Sejamos nós educadores faróis, através da lei 10639, que foi o marco inicial para os debates e intervenções.
    Militemos por uma cultura antirracista a partir dos corredores e salas de aula de nossas escolas até as grandes avenidas da sociedade e do mundo.

  8. Excelente discussão, uma vez que estamos passando por momentos complicados e uma leitura desta nos enche de entusiasmo para seguir em frente, como nos disse Freire: “Num país como o Brasil, manter a esperança viva é, em si, um ato revolucionário”.

  9. Assertiva essa proposta de ação pedagógica. Necessário se faz lançar tal discussão nas escolas, desde os anos iniciais até ao final do ensino médio a fim de intensificar a ação democrática, o valor ao próximo, o respeito à raça: HUMANA.

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