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Olhares sobre a fala de Conceição Evaristo aos educadores finalistas da Olimpíada

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Autora: Oluwa Seyi Salles Bento
04 Março 2020

“As Mães Pretas tiveram poder de interferência no maior bem simbólico da nação, que é justamente a língua.”

Na manhã que surgiu com um inibido sol, mas de abrasadora quentura, Conceição Evaristo cedeu mais luminosidade ao dia, com suas palavras. Entremeando uma visita ao Museu da Língua Portuguesa e a esperada cerimônia de premiação da 6ª- edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, a chegada de Evaristo foi aplaudida em pé por professores de todo o Brasil, seus pares na labuta da Educação pública.

Tivemos uma fala que coadunou animação, vasto conhecimento, engajamento e a gigante sensibilidade, já nossa conhecida, de sua produção literária. De largada, muito feliz pela homenagem da Olimpíada em forma de matronato – termo que a escritora prefere em detrimento do morfologicamente masculino patronato – e defendendo-se também professora, “que gosta de ficar em pé para ter a visão ampla da sala”, Evaristo salientou a grande importância do trabalho de professores e professoras, em suas escolas, em suas salas de aula.

Em diversos momentos de sua palestra, Conceição deu grande ênfase à língua, sob diferentes e complementares pontos de vista. Arrisco a afirmar, até mesmo, que a língua e seus fundamentais papéis foram o âmago das reflexões de Conceição. A autora falou da língua como traço de humanidade e cultura, como legado simbólico, como eixo fundamental da educação, como metáfora, como princípio de colonização e dominação, como direito básico e, sobretudo, como caminho de emancipação.

Enunciando a frase que intitula este modesto texto e citando, com prudência, a canônica obra de Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala, Conceição Evaristo tratou de dimensionar a importância que as mulheres negras escravizadas tiveram na estruturação oral do português brasileiro. As palavras do pretuguês, conceito de Lélia González, foram mastigadas e amaciadas pelas Mães Pretas e então melhor digeridas e reproduzidas pela prole escravizadora, especialmente no Nordeste do país, onde temos uma fala mais branda.

E, mais adiante, referindo-se justamente aos diferentes falares do Brasil, Conceição ponderou como, dependendo de quem se trata, de onde vem, o juízo acerca do domínio da língua desse indivíduo muda radicalmente. “Guimarães Rosa criava neologismos, Carolina Maria de Jesus errava”, disse Conceição, em tom provocativo. A autora, então, enfatizou o caráter de construção social dos valores linguísticos, no geral organizado por grupos que detêm poder econômico, recomendado que o ensino da língua portuguesa, a fim de não reprimir o aluno ou desmemoriá-lo acerca de sua agência linguística, deve focalizar a norma popular como registro diferenciado, que pode ser utilizado em contextos informais e não como erro.

Transitando da dificuldade em corrigir, em sala de aula, textos que não se adequam ao registro formal sem solapar a competência do aluno à dificuldade de analisar os textos literários finalistas da Olimpíada, Conceição confessou que se questionou muito acerca do “que ficou para trás”. Afinal, o que valorizar na literatura? Nesse momento, muito mais de reflexão que de respostas, Conceição salientou o poder sentimental da literatura, já que “todo ser é poético” e nós “não estamos livres da comoção”.

Partindo do tema “O lugar onde vivo”, a autora afirmou que o exercício de escrita proposto pode ter sido um momento para sensibilizar os alunos diante da vida, de seus lugares de origem e de suas particularidades positivas ou não. Segundo Conceição, o valor e os efeitos de tal experiência talvez só sejam percebidos no futuro.

Além disso, Conceição comentou sobre a importância de receber com respeito, no ambiente escolar, o conhecimento prévio do aluno, posto que a pobreza que permite experiências é também lugar de episteme, criatividade e aprendizagem. Negar esse dado é generalizante e redutor.

Ao fim desse agradável encontro que enriqueceu a todos, Conceição desejou que a Olimpíada siga provocando os muitos mais participantes, de muitas mais escolas, a pensarem em si e no mundo por meio da escrita, a praticarem a escrevivência e a exercitarem o direito da cidadania, já que “a escola é o espaço em que se ensina e se aprende a viver em coletividade”.

As fortes palmas que se seguiram à palestra de Conceição demonstraram mais que agradecimento e aclamação: foram a prova viva do encantamento que seres poéticos provocam. Muitos vivas a Conceição Evaristo!

Oluwa Seyi Salles Bento é graduada em Letras e mestranda (bolsista Capes) do Programa de Pós-graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (FFLCH-USP), com pesquisa intitulada “Orixá e literatura afro-brasileira – A esteticização dos arquétipos da deusa iorubá Oxum em narrativas de Conceição Evaristo”.


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