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Entrevista: “Poetavoz da periferia”

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Autor(a): Sérgio Vaz, NPL nº 22

 

Poetavoz da periferia

Luiz Henrique Gurgel, Cida Laginestra, Regina Clara
Fotos: Márcia Minillo

 

Ele tomava conta do armazém de secos e molhados do pai, num bairro da periferia de São Paulo. Nas horas de pouco movimento, atrás do balcão, lia o que lhe caía nas mãos. Daí a começar rascunhar os primeiros versos no papel de embrulhar pão foi um pulo. Anos depois, o velho armazém já tinha outro dono, virou o "Bar do Zé Batidão", boteco típico de bairro e único espaço público daquela comunidade. Foi ali que o poeta Sérgio Vaz e amigos criaram um dos fenômenos culturais mais interessantes e originais do Brasil dos últimos tempos: o Sarau da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), que há doze anos ininterruptos promove, toda quarta-feira, um encontro para ler, falar e cantar poesia. Donas de casa, professores, empregadas domésticas, estudantes, aposentados, operários, gente da comunidade que se reúne e apresenta, livremente, os próprios versos. Conheça um pouco mais da história de Sérgio e da iniciativa que vem inspirando projetos semelhantes em todo o país.

 


Vida na periferia e a formação do leitor

Vim de Minas Gerais para São Paulo. Morávamos em uma casa pequena. Meu pai gostava muito de ler – estudou até o Científico, hoje Ensino Médio. Ele nunca deixou faltar livros. Nessa época, ele estava interessado no livro Eram os deuses astronautas?, do escritor Erich von Däniken. Não era o tipo de literatura que eu compreendia, mas ele teve a sensibilidade de me oferecer outros títulos, mais adequados à minha idade. Aos 12 anos, eu tinha o sonho, como todos os meninos, de ser jogador de futebol. Costumo dizer que ainda tenho esse sonho. Eu ficava no armazém de secos e molhados do meu pai, aqui no bairro, no espaço que hoje é a Cooperifa. Pela manhã, como não tinha movimento no empório, aproveitava para ler tudo o que chegava às mãos e escrever – em papel de pão – versos de amor, poemas. Na escola havia a leitura obrigatória, um livro por mês: A ilha perdida, de Maria José Dupré; O ateneu, do Raul Pompeia; Olhai os lírios do campo, do Erico Verissimo. Também conheci a obra de Gabriel García Márquez. Mas na década de 1970 o interesse pela poesia não era comum. Eu tinha vergonha de dizer que gostava de poesia, considerada, por muitos, coisa de afeminado ou lunático. Sentia-me diferente dos outros garotos. Trazia comigo a indignação, o sentimento de justiça. Não era bom aluno, mas gostava de escrever. A professora de língua portuguesa percebia que as palavras que eu usava em minha composição não eram comuns. Naquela época, os professores que davam aula em nossas escolas eram de classe média. Vinham à periferia só para dar aula. A USP, para os jovens da periferia, significava ir para o Senai – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial –, ensino profissionalizante.

 

Descobrindo a metáfora e o primeiro livro independente

A música popular brasileira também influiu na minha formação. Na época da ditadura, eu estava no Exército. Um sargento me ouviu cantarolar: “Caminhando e cantando / E seguindo a canção / Somos todos iguais / Braços dados ou não [...]”. Era Pra não dizer que não falei das flores, do Geraldo Vandré. Indignado, ele gritou que aquela canção era de subversivo, de guerrilheiro que pretende derrubar o poder. Isso me instigou a ouvir música de outra forma. A palavra liberta a pessoa. Descobri o conteúdo das letras, as metáforas, como no filme O carteiro e o poeta, baseado na vida de Pablo Neruda. Assim, me apaixonei pela poesia. Descobri Federico García Lorca, Charles Baudelaire, Mário de Andrade.

Em 1988, lancei um livro. Pretensioso, achava que o mundo estava esperando meu livro chegar para começar a andar. Mostrava o livro aos amigos, mas não conseguia vendê-lo. Fiz cartões-postais com poema, marcadores de livros, insistia na divulgação, e nada. Até resgatei a oralidade e dizia os poemas em diversos lugares. Tem uma frase incrível do Ferreira Gullar que eu não esqueço e contribuiu para que eu transformasse em poesia os acontecimentos da comunidade, o que vejo nas ruas, o sofrimento, a alegria, o desabafo do povo: “Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz”.

 

Cultura fora do centro

O agito cultural – cinema, teatro, biblioteca – sempre ocorre no Centro. Nada na periferia. Pensei em aproveitar o espaço de uma fábrica abandonada em Taboão da Serra [cidade vizinha à capital paulista] para fazer uma peça de teatro, show, capoeira. Fizemos alguns encontros. A fábrica foi derrubada. Marcos Pezão – amigo que iniciou comigo a Cooperifa – disse que podíamos nos reunir num bar para dizer e fazer poesia. Nem sabíamos o que era sarau. Escolhemos a quarta-feira, dia de jogo de futebol, para vir somente pessoas que gostam de poesia.

Nos primeiros encontros tínhamos doze pessoas. Falávamos vinte poesias cada um. Começamos a convidar as pessoas que gostavam do nosso trabalho. Pezão passou a divulgar o sarau no jornal em que trabalhava. A notícia foi se alastrando: “Tem um cara que fala poesia no bar”. Começou a chegar gente. O contágio foi feito. Depois de um dia cansativo de trabalho, empregadas domésticas, estudantes das escolas do bairro, operários, professores tiraram a poesia da gaveta, ganharam voz. Poema de amor, raiva, rancor, desabafo. A pessoa faz a gentileza de pegar o microfone e dizer o poema e a plateia, a gentileza de ouvi-lo. Às vezes o jovem não sabe que gosta de poesia e a intenção da Cooperifa é aproximá-lo da poesia. O interesse da população da periferia está voltado para o futebol. O lazer é a televisão, não há incentivo à leitura.

Após um ano, voltei para a minha “senzala” – o bar que trabalhei dos 12 aos 22 anos –, que hoje me liberta. Bar lotado de gente dizendo e ouvindo poesia. A escuta da poesia despertou o interesse pela literatura. “O que você gosta de ler? Aqui não há censura.” Começam a pegar livros, a gostarem de ler, a enxergarem melhor a vida. Jovens que frequentam o sarau voltaram a estudar. Temos vários TCCs, teses de mestrado, documentários, de jovens daqui.

Nos anos 1990, pela primeira vez, saí da periferia. Fui ao bairro do Bixiga [bairro boêmio da região central de São Paulo]. Barzinhos com música, rua cheia de gente na calçada, uns tocam violão, outros tomam vinho. Parece o povoado mágico de Macondo, de Gabriel García Márquez. Um mundo bem diferente do meu! Como no conto O cobrador, de Rubem Fonseca, pensei: “Vocês me devem cultura”. Foi assim que a minha sede de cultura aumentou. Onde saciar a minha sede? Sair da periferia, ir até o Centro para assistir a uma peça de teatro, ver um filme. E como fica quem vive na periferia?

Neste espaço, para reverter a distância dos bens culturais, fiz muita coisa. Peça de teatro antes do sarau, apresentação do “Cinema na laje”. Foi a oportunidade de muitas pessoas, de mais de 60 anos, assistirem pela primeira vez a uma peça de teatro, a um filme. Tantos teatros, cinemas, museus, concentrados na cidade, e a maioria da população da periferia nunca entrou em um deles. Vivemos num país desigual, sem alvará de funcionamento; não tem licença para ser pátria. A periferia tem direito ao acesso à cultura.

 

A literatura da periferia

A literatura grega é feita pelos gregos, a literatura negra é feita pelos negros, a literatura da periferia é feita pelas pessoas da periferia. Ela traz em si a dor, a pobreza, a violência, a violência policial, a falta de saúde, a brutalidade, a criminalidade. No texto, você escuta o estampido do tiro que mata o jovem, você vê o sangue derramado. Temos a responsabilidade de traduzir o que se passa por aqui. Não é melhor por isso. Só representa a comunidade. Quando fazemos nossa literatura, somos protagonistas, podamos o atravessador. É a nossa vez. É a caça que conta a história. Quando as pessoas leem um livro, meu ou de outro autor da periferia, elas se identificam, sentem-se representadas. Hoje, nós estamos escrevendo sobre a nossa realidade, quem sabe logo mais vamos fazer ficção. Estamos aprendendo. Hoje, conquistamos o direito – que antes foi negado – de contar nossas histórias.

 

Cooperifa + escola pública do bairro = sarau

A escola é lugar de muitas histórias. Aos poucos, professores e alunos foram chegando ao sarau. Antes da Cooperifa, fazíamos o projeto “Poesia contra violência”. Eu ia às escolas, explicava que era escritor e pedia para bater um papo com os alunos. Reuníamos os alunos e falávamos de poesia. Eles se espantavam. “Você é novo, escritor e está vivo!” Eles pensavam que todo escritor, ou era velho ou já havia morrido. Percebi o distanciamento dos alunos da literatura, da arte. Enxergavam o escritor como figura sagrada. Então, convidei os professores para trazerem os alunos aos encontros. Para retribuir a visita, fazíamos o sarau na escola. Nosso papel é mostrar para os meninos que a escola é muito importante. Nós chegamos à escola como aliado. Ajudamos a mobilizar os alunos. O professor mostrava que o escritor era próximo, também morava na periferia, criando uma identidade com os alunos. Quando visito a escola cito Mano Brown, vocalista do grupo de rap Racionais MC’s, e digo: “Isso é poesia”. “Então, eu gosto de poesia”, respondem os meninos.

Somos parceiros do professor. Associamos a escrita a uma coisa boa. Os alunos passam a ver, a ouvir o outro – isso é protagonismo. Escreve-se um poema e sabe-se que ele será lido, aplaudido, no nosso sarau. Apostamos nele como escritor. Não é uma aula de teoria. Nós o convidamos a escrever. No meio do barulho, da animação, se faz poesia. Não há disputa. Todos são incentivados. O importante é perceber o gancho, sentir o código do lugar. O fazer ajudou a despertar a vontade de escrever. As pessoas escrevem suas poesias, mostram umas para as outras, querem uma opinião. Sempre pergunto: “Você achou legal?”. É delicado interferir. Com muito jeito, pedimos para que leia novamente o verso. Tem palavra repetida? Escreveu duas vezes a palavra “saudade”. Será que dá para trocar por outra: “lembrança”, “recordação”, “nostalgia”. Você vai dando pistas. Tira o excesso, limpa as arestas, sem interferir na essência. O poema é do autor.

 

Da Cooperifa para o mundo; do mundo para a Cooperifa

É preciso trabalhar, agir, fazer. Vou lançar o livro Dias que não doem, pela Editora Global. Estou fazendo O encontro poético no Itaú Cultural [Programa de web-rádio transmitido pelo site da instituição. Vaz já entrevistou o cantor e compositor Criolo e a jornalista Eliane Brum], e O sarau rap, no Centro Cultural São Paulo. Também fui para a Alemanha fazer palestra em duas universidades. A Cooperifa rompeu a visão da periferia. Pela simplicidade que é feita, espalhou-se para outros Estados: tem no Rio de Janeiro, em Salvador. Mia Couto, que falou lindíssimo. Xico Sá, Zezé Motta, Elisa Lucinda, Marcelo Rubens Paiva, Eliane Brum, Marcelino Freire, e tantos outros escritores, jornalistas, músicos, vieram conhecer e participar do sarau. Literatura pode ser feita em qualquer lugar. Ainda há muito preconceito. Não é só racial. Tem o linguístico também. Outro dia, uma especialista reclamou que estávamos ensinando as pessoas a escreverem errado. Respondi: “Quando a gente fala ‘nóis vai’ é porque nóis vai mesmo”. Você devia premiar e não julgar o texto da dona de casa, do operário, que, depois de um dia de trabalho duro, escreve poesia. É fácil dizer que a poesia é ruim, ignorando o esforço de quem a escreveu, a trajetória escolar daquela pessoa, o que foi oferecido a ela na escola. O preconceito existe porque ultrapassamos a ponte. Viajei, montei sarau em muitos Estados. Somos totalmente autônomos. Lançamos mais de cem livros. Na Cooperifa fazemos resistência cultural.

 

 

Revista Na Ponta do Lápis
Ano IX
Número 22
Agosto de 2013

 

 

 

 

Saiba mais:

Veja também a Reportagem: A poesia perdeu a pose.

Assista ao vídeo Jogo de ideias, produzido pelo Itaú Cultural em 2008.


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