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sua prática / reflexão teórica

Experiências de Bibliotecas Comunitárias na promoção do direito à literatura e direitos humanos das juventudes

Bruno Souza de Araujo, Ketlin Aparecida da Silva Santos, Suilan de Sá do Vale

14 de dezembro de 2022

Em um país onde as necessidades básicas ainda são urgentes para uma parcela significativa da população, falar de literatura como direito humano pode parecer uma contradição, ou menos relevante. Porém, vemos um avanço, ou melhor, um alargamento na concepção de direitos humanos e percebemos que questões subjetivas, ora vistas por alguns como menos relevantes, são consideradas fundamentais na integralidade da humanidade.

Para Antonio Candido “[…] a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob a pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e portanto nos humaniza” (CANDIDO, 1989, p. 122). Assim, podemos afirmar que a literatura como uma linguagem da cultura é fundamental para a constituição da consciência de cidadania e da formação de uma sociedade justa e equânime.

Neste texto, iremos evidenciar o protagonismo das juventudes nas Bibliotecas Comunitárias para a democratização do acesso ao livro e à literatura e na promoção e defesa da literatura como direito humano.

Importante dizer que, atualmente, quase um quarto da população brasileira é composta por pessoas de 15 a 29 anos1, ou seja, estamos diante da maior geração de jovens da história brasileira. Este grupo, ora é visto como enorme potencial para o desenvolvimento social e econômico do país, ora como aquém das questões relevantes da atualidade, e enfrenta um contexto excludente, violento e desafiador. Mas, de que jovens estamos falando?

Neste artigo, escolhemos intencionalmente, quando nos referimos aos jovens, usar o conceito de juventudes no plural, considerando as diferentes condições juvenis, seus dilemas, desafios e singularidades.

As Bibliotecas Comunitárias como promotoras de direitos

As Bibliotecas Comunitárias são espaços geridos pela comunidade que se encontram e estão localizadas, principalmente, em zonas periféricas com alta densidade demográfica, marcadas por diversas formas de vulnerabilidade, como pobreza e violência, com ausência ou escassez de serviços públicos de qualidade. Estes locais não enxergam as pessoas frequentadoras como meros usuários, que recebem conhecimento e cultura de forma passiva, mas sim interagentes numa relação que é constituída entre a biblioteca e o indivíduo, na qual ela ou ele propõe, participa e interage. Essa perspectiva também contribui para o alargamento da concepção de biblioteca (comunitária ou não), que vai se transformando em uma promotora da cultura e da democratização do livro, literatura e direitos humanos.

O que podemos observar de mais inovador nas experiências das Bibliotecas Comunitárias em relação às juventudes é o espaço para a materialidade, onde as(os) jovens encontram lugar para a vazão de sua criatividade e potencialidade. No caso da literatura, encontram palavras para ordenar seus pensamentos e descrever suas realidades, para assim transformá-la. Desta forma, as Bibliotecas Comunitárias se tornam locais aglutinadores das juventudes daquela comunidade, já que esse grupo busca uma perspectiva de coletividade, e onde se movimentam em direção aos seus desejos e projetos de vidas que estão sendo construídos, por vezes na família, na escola, coletivos e movimentos sociais.

A relação de interagentes construída nas Bibliotecas Comunitárias possibilita que as(os) jovens despontem como protagonistas da produção literária. Pode-se afirmar que esses territórios de leitura se constituem como espaços de literatura juvenil, pois suscitam o desenvolvimento da autonomia, novas formas de diálogos e experiências com esses e essas jovens.

O campo da literatura juvenil é difícil de demarcar, pois fica complexo estabelecer quais são suas especificidades. Há correntes de pensamentos, por exemplo, que enxergam a(o) jovem como receptora(or), consumidora(or) e pré-estabelece a literatura “adequada” para aquele grupo como se não pudessem se arriscar em outras narrativas e textos. Entretanto, nos contextos onde as Bibliotecas Comunitárias estão inseridas, o relevante é aproximar as juventudes do universo literário, participando dos clubes de leituras, saraus literários ou propondo e criando programações culturais. Essa atuação oportuniza a autonomia de escolher os próprios livros que desejam ler e de se responsabilizar pelo espaço que desejam construir em suas comunidades. Além de consumir, esta juventude também produz textos literários.

Um exemplo de fomento à participação da juventude no mundo da literatura é a consolidação da Rede Metropolitana LiteraSampa em 2010, uma Rede de Bibliotecas Comunitárias e Escolares, espalhadas por São Paulo, Mauá, Guarulhos e Santo André que hoje tem uma quantidade significativa de jovens representando, gestionando, conduzindo e produzindo nesses espaços comunitários, e onde pode-se constatar a vivência de ações e produções literárias construídas pela juventudes mediante diálogos e trocas de experiências.

Para conhecer a Rede LiteraSampa clique aqui

Portanto, conceber espaços de materialidades para o protagonismo das juventudes é a forma com que as Bibliotecas Comunitárias transformam e ressignificam suas existências, visando potencializar seus fazeres e saberes coletivos.

Outro exemplo de como a literatura contribui com a materialidade da cidadania de jovens é o projeto “Literatura e Direitos Humanos: Para Ler, Ver e Contar” (LDH), tecido pela Rede Literasampa e IBEAC - Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário desde 2019. Esta ação contou, até o momento, com 53 indicações de livros literários, em sua maioria escritos por mulheres e homens negros, indicados por: Bel Santos, Rogério Pereira, Cuti, Letícia Liesenfeld, Ana Maria Gonçalves, Luiz Ruffato e Camila Dias. Os encontros proporcionaram a leitura de 36 obras, entre elas Cidade de Deus, de Paulo Lins e Meu crespo é de rainha, de bell hooks.

O projeto tem como objetivo fomentar a leitura por meio de círculos literários com jovens das Bibliotecas Comunitárias que compõem a Rede Literasampa e convidados de outras bibliotecas. Para a leitura do livro escolhido, o grupo se encontra uma vez por mês, onde são partilhadas impressões literárias, mediante cadernos de anotações nos quais são registrados seus sentimentos, destacadas partes e trechos importantes do livro e relatadas suas vivências. São promovidos encontros formativos com escritores, seminários e saraus poéticos em diferentes espaços. Em parceria com a revista Viração, foi lançado em 2020 uma edição especial com o tema Literatura e Direitos Humanos, nesta publicação todas as(os) jovens que participam do projeto contribuíram na escrita, podendo ser encontrada nela indicações literárias, orientações de como realizar um sarau, cartas de escritores, crônicas e muito mais!

Clique aqui para conhecer a edição 116 - Literatura e Direitos Humanos da revista Viração

Os círculos de leitura são exemplos de democratização do acesso ao livro, leitura e literatura, a fim de recriar e reescrever o mundo por meio desta linguagem literária, entendendo que o ato de ler é uma ferramenta de apropriação e conexões, é o lugar das iniciativas e do erro, potencializando a subversão política de ser e estar no mundo. Podemos perceber essa apropriação e identificação pela literatura concretizada nos círculos de leitura no relato da Duda Pimentel, que segue:

“Me vi leitora quando comecei no projeto. Digo que me “vi” como algo novo, mas na verdade me reconheci leitora assim que iniciou. Ressignificando minha vida, eu me vejo no que leio, no que escrevo, no que ensino. Há três anos me reconheço leitora, num círculo literário, junto com outros jovens leitores e periféricos. E além de todas as lindas oportunidades que me proporcionou, conhecer autores, mediar oficinas, escrever resenhas, possibilitou enxergar a literatura como meu direito. Direito de conhecer, de questionar, de gostar ou não gostar, direito de ocupar lugares e de pertencer. A literatura nos faz enxergar o mundo de outras maneiras. Eu me emociono, sinto raiva, angústia, alegria, eu me sinto viva. Não há nada melhor que sentir seu corpo vivo, carregado de emoções, reverberando cada palavra de um texto. Arte, a literatura me faz sentir presente. Me reconheço leitora graças ao projeto, que me tornou mais sensível e observadora. Assim eu sigo levando a “palavra” da literatura, do ensino, do direito de ler, de ser, de ver e contar.”2

Esse depoimento revela nossa visão de literatura enquanto direito humano e de juventudes numa perspectiva conceitual ampliada. Valorizamos a força da experiência cotidiana, reconhecendo nas juventudes suas individualidades, seus desafios concretos e também suas potencialidades, percebendo como o território forma e informa suas percepções de mundo e de como existir nele. Pensando nisso, separamos a seguir três noções que achamos importante você, educadora(or), considerar na formação de jovens leitores nas escolas e espaços de leitura. São elas:

1. Valorização da Experiência Coletiva

Conhecer uns aos outros, estabelecer um espaço de confiança, cumplicidade e muita conversa entre os interagentes é a forma que acreditamos chegar mais próxima das tomadas de decisões democráticas e das relações sócio afetivas. Neste sentido:

   Representatividade importa. Em um grupo é vital garantir as diversidades, pluralidades e as criatividades.

   Planejar para ninguém ficar de fora: incentive a participação das(os) jovens no registro e comunicação dos círculos de leitura, a fim de estabelecer um engajamento em todo o processo de trabalho com o livro.

   Usar a tecnologia a seu favor facilita os encontros intergeracionais, amplia a interatividade e as divulgações.

2. Reconhecimento do Território como Componente de Direitos

Nossa abordagem de território se expande para além do espaço geográfico, que por sua vez tem sua importância e informa também como as relações se constituem localmente. Quanto mais às margens dos centros urbanos, mais vulneráveis são os territórios, como demonstram alguns indicadores de desenvolvimento humano. O que tem nos interessado na abordagem de território é como este se desponta como espaço relacional, coletivo e particular e, por isso, a leitura literária pode ser uma prática para explorar esse território simbólico e objetivo. Para trabalhar com essa perspectiva, é importante:

   Reconhecer que o território sempre está em disputa, pelas relações que se estabelecem.

   Compreender o território como um conceito transversal que atravessa todas as questões nele presente.

   Assumir o protagonismo das juventudes de canalizar e multiplicar soluções para os contextos que estão inseridos.

3. Prática da Autonomia

As práticas da educação bancária não torna as(os) estudantes protagonistas de suas aprendizagens, ou mesmo de sua própria autonomia. É importante ter em vista o processo de vir a ser, e isso pode ocorrer em meio às atividades didático-pedagógicas fundadas nos princípios da autonomia durante o processo da aprendizagem. Portanto, para pensar o desenvolvimento dessa autonomia, é importante:

   Compartilhar a responsabilidade das ações de aprendizagens.

   Estimular a liberdade de aprender e ensinar.

   Promover a autonomia das ações de aprendizagens.

Confira outros materiais que abordam a relação de jovens com a leitura e a formação de leitores na escola:

- A literatura, os jovens e a escola: caminhos para a leitura literária e a formação de leitores - artigo escrito por Esdras Soares e Lara Rocha.

- Entrevista com Vima Lia de Rossi Martins, docente da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP).

Parte I

Parte II

Considerações finais

No decorrer do texto foram apresentadas ações a partir das vivências e experiências de jovens com atividades literárias territoriais, principalmente nas Bibliotecas Comunitárias. A Rede LiteraSampa proporciona uma trajetória de protagonismo e autonomia constituída à medida que as(os) jovens de cada Biblioteca Comunitária vão tomando a responsabilidade no controle das ações, desde as práticas de mediação de leitura até a coordenação de suas respectivas bibliotecas e, posteriormente, integrando no planejamento e execução das atividade de gestão da Rede.

A partir das funções de mediadoras(es) de leitura, as(os) jovens foram preenchendo os espaços e dependências, antes tomados por outras gerações, e assumindo responsabilidades cada vez maiores em gestar suas próprias ações. Percebe-se que responsabilidade no agir, liberdade de criação e proposição de atividades são conceitos indissociáveis para o processo de desenvolvimento da autonomia dos sujeitos. Nas palavras de Freire:

A autonomia vai se constituindo na experiência de várias, inúmeras decisões que vão sendo tomadas. [...] Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Por outro lado, ninguém amadurece de repente, aos vinte e cinco anos. A gente vai amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. Não ocorre em data marcada. É neste sentido que uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade. ( 2021, p.105).

 

Desta forma, a reflexão aqui proposta sobre literatura, direitos humanos, juventudes e Bibliotecas Comunitárias foi feita de forma interseccional, pois as ausências das políticas públicas, em termos gerais, impactam a nós – juventudes – diretamente. Podemos afirmar que as Bibliotecas Comunitárias são um movimento de resistência cultural, pois para além de serem guardiãs de um acervo literário, configuram-se, por vezes, como o espaço mais democrático do território, focando não somente em leitoras(es), mas em possíveis novas(os) leitoras(es), e nos desafios da comunidade que se expande para além das prateleiras das bibliotecas, reconhecendo as(os) jovens como agentes instigadoras(es) e protagonistas de uma comunidade leitora.

  1. <https://pp.nexojornal.com.br/topico/2021/09/23/A-plataforma-que-re%C3%BAne-dados-sobre-a-popula%C3%A7%C3%A3o-jovem-no-Brasil> Acessado em 05/12/2022

  2. Duda, tem 20 anos, é arte-educadora e mediadora na Biblioteca Comunitária Ademir dos Santos, e integrante da Rede LiteraSampa.

Referências

ABRAMO, Helena W. A condição juvenil no Brasil contemporâneo. In: ABRAMO, Helena W.; BRANCO, Pedro P. M. (Orgs.). Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2005. p. 38-39.

CANDIDO, Antonio. Direitos Humanos e literatura. Ed. Brasiliense, 1989, p. 122.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 71ª Ed. Paz & Terra. Rio de Janeiro, 2021.

Sobre os autores

Sobre os autores

Bruno Souza de Araujo atua na área social na região de Parelheiros e Jardim Ângela, em São Paulo. Pedagogo, possui formação em direitos humanos pelo Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC) e também integra a rede de Jovens Transformadores pela Democracia da Ashoka. Itegrante do coletivo Encrespad@s que atua com formação de professores e jovens para disseminar uma educação antirracista.

Ketlin Aparecida da Silva Santos é pedagoga, mediadora de leitura e gestora há 12 anos na Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura/IBEAC, integrante do coletivo Encrespad@s, articulista do programa Entre Redes da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC).

Suilan de Sá do Vale é integrante do Coletivo de Esquerda Força Ativa. Coordenadora da Biblioteca Comunitária Solano Trindade, articulista do programa Entre-Redes da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) e co-gestora da Rede Metropolitana LiteraSampa.

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