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sua prática / sala de professoras

“Criança é substantivo abstrato? Eu dependo dos meus pais para viver.”

Mayssara Reany

06 de dezembro de 2023

Vocês já refletiram sobre o lugar do não saber em nossa vida docente? Nem sempre nos sentimos confortáveis para compartilhar relatos de situações em que não soubemos dar uma resposta para uma pergunta feita em sala de aula. O medo de não saber explicar determinado conteúdo, por vezes, é paralisante.

Como professoras e professores, nós temos que administrar muitas situações que vão além do que podemos prever em nosso planejamento. No ano passado, quando eu lecionava para a turma do sexto ano, uma pergunta, feita pelo estudante Marcos, causou-me muita reflexão e desconforto. Após a identificação de desvios relacionados à grafia de substantivos próprios com letra minúscula, nos textos das(os) estudantes, iniciei o trabalho com a turma sobre a classe gramatical dos substantivos.

Nessa aula, estudamos os tipos de substantivo e dialogamos sobre alguns trechos de textos selecionados. Dando seguimento, montamos coletivamente mapa mental, no quadro, classificando os substantivos em comuns e próprios; simples e compostos; concretos e abstratos; primitivos e derivados. Ao finalizar a explanação, perguntei às crianças se todas haviam entendido o processo de montagem do nosso mapa mental, a maioria balançou a cabeça em afirmação ao que eu havia dito. Assim, elas foram direcionadas para a atividade impressa. Depois de algum tempo, fito os olhos em um dos estudantes que parecia intrigado ao realizar os exercícios. Sentei-me ao lado de sua cadeira e perguntei se poderia ajudar. Então, ele disse:

 - Professora: criança é substantivo abstrato, né?

Naquele momento, curiosa sobre o que levaria Marcos a pensar isso, eu disse:

 - Como chegou a essa conclusão?

Ele respondeu, do jeitinho mais meigo possível:

 - É que eu dependo dos meus pais para viver e a senhora disse que o substantivo abstrato depende de um outro ser ou de uma outra coisa para existir, então eu acho que criança é substantivo abstrato.

Ao me deparar com a questão do Marcos, fui tomada pelos sentimentos de ternura e, ao mesmo tempo, de desespero. Em meu pensamento, eu dizia: “nossa, que fofinha a poesia da pergunta”. No entanto, aquela pergunta também causou-me dúvida sobre como poderia resolver a situação. Entendi que minha explicação precisava ser melhor, mais didática. Assim, eu respondi ao Marcos que a palavra criança não poderia ser considerada como um substantivo abstrato e ele me perguntou novamente:

 - Mas você disse que o substantivo abstrato depende de um concreto, não foi?

Por algum motivo, tudo o que vinha à minha mente não era capaz de desfazer o nó causado pela explicação anterior. No meu pensamento havia um espaço totalmente vazio no lugar onde deveria haver uma memória de explicação. Uma notória interrogação se desenhou nos meus olhos e, assim, resolvi compartilhar a minha aflição com ele:

 - Marcos, você fez uma excelente observação, eu realmente expliquei de uma maneira que o levou a pensar que a palavra criança poderia ser considerada como substantivo abstrato. Posso te confessar uma coisa? Hoje eu não consigo pensar em uma forma melhor para te explicar, mas prometo que amanhã, com toda certeza, eu encontrarei uma maneira.

Quando respondi isso ao Marcos, a turma me olhou daquele jeitinho que um sexto ano tem de olhar quando vê que a professora está em “apuros”, ou, talvez, tenha sido apenas um olhar de curiosidade mesmo, ao me ouvir dizer que não sabia explicar de outro modo. O fato é que a exposição desse “lugar”, o não saber, mexeu comigo.

Fui para casa pensativa, num misto de vergonha e cobrança interna. Entretanto, ao mesmo tempo, estava motivada para aprender um outro modo de explicar, um modo que fizesse mais sentido para as crianças e que tornasse aquele momento de aprendizado mais significativo. Naquele dia, em busca de resposta, reli as gramáticas que tinha em casa, mas ainda não conseguia pensar em uma maneira mais didática de explicar, pois aquele era o meu primeiro ano lecionando para crianças tão pequenas.

Resolvi acessar o YouTube e, ao pesquisar sobre como explicar substantivos abstratos para crianças, encontrei uma videoaula1 produzida, durante a pandemia, pela professora Vilma Ribeiro. Nesse vídeo, a professora explica uma forma de perceber o substantivo abstrato utilizando o desenho. Ela observa que quando o substantivo é concreto, ele pode ser desenhado diretamente, sem a necessidade de desenhar outro ser para explicá-lo. No caso do substantivo abstrato, para desenhá-lo, necessariamente precisamos desenhar alguém ou algo que o represente.

Sabe quando, finalmente, nos sentimos satisfeitas(os) com a explicação para uma dúvida? Foi isso o que aconteceu comigo naquele momento. Eu estava animada com a descoberta e decidi transformá-la em uma brincadeira, uma aula de substantivos concretos e abstratos com desenhos. No dia seguinte, retomei o exercício com a turma e compartilhei com Marcos a solução que havia encontrado para respondê-lo.

Marcos sorriu e demonstrou um olhar de satisfação por sua pergunta ter sido o motivo da minha busca. Agradeci ao Marcos, diante da turma, por fazer uma afirmação tão perspicaz e disse que, muitas vezes, como professora, a gente precisa mesmo pesquisar para encontrar maneiras mais significativas de explicar.

Novamente, eu disse para a turma que os “substantivos abstratos poderiam indicar noções, ações, estados ou qualidades de alguns seres”2, falei sobre como descobri que o desenho pode nos ajudar a identificar substantivos abstratos quando temos dúvidas e pedi às(aos) alunos que desenhassem alguns substantivos (alegria, tristeza, amor, bondade, beleza, etc) no quadro.

Como a pergunta do Marcos foi o motivo da minha busca, pedi a ele que fosse o primeiro a desenhar a alegria no quadro. Satisfeito, ele seguiu com o pincel na mão e desenhou uma pessoa com um sorriso, conversamos sobre como foi preciso desenhar uma pessoa primeiro para demonstrar o sentimento. Depois, pedi ao Marcos que desenhasse uma criança, ele desenhou um menino usando um boné. Assim que ele terminou, eu refiz a pergunta para ele:

 - E então, criança é substantivo concreto ou abstrato?

Ele, com a voz indicando ligeira timidez, respondeu:

 - É concreto, né?

Eu respondi que sim, ele se mostrou orgulhoso por ter acertado a resposta. A aula foi divertida, as(os) estudantes participaram bastante, tanto desenhando quanto dando sugestões de palavras para serem desenhadas. Confesso que depois de ver o engajamento da turma com a proposta, fiquei satisfeita. Algumas(Alguns) colegas de Marcos relataram que também tinham dúvidas sobre substantivos abstratos, mas que conseguiram entender depois da aula com desenhos.

Ao conversar sobre esse assunto, em um encontro formativo, Tereza Ruiz me fez uma pergunta que me deixou muito reflexiva:

 - Qual o lugar da para a aprendizagem em nosso fazer docente?

O que eu havia representado em minha narrativa como lugar de não saber, em primeiro momento, ganhou um novo significado: “o lugar da aprendizagem”. Sim, o incômodo do não saber é o que nos provoca e nos move para o saber. Essa conversa ficou ecoando um desejo de trazer uma provocação para a nossa Sala de professoras.

Socialmente, por uma questão de herança do modo tradicional de educação, por vezes, atribuímos ao não saber um significado angustiante. Parece que nós, professoras(es) temos de demonstrar conhecimento o tempo todo. Entretanto, é a consciência do não saber que estrutura as trilhas da aprendizagem. O medo de expor o não saber, pode nos desestimular. Sobre isso, eu gostaria de compartilhar um trecho da obra de Madalena Freire (2022, p. 62) com vocês:

“ [...] O medo faz parte do processo de aprendizagem, do agir, do fazer. Termômetro que se está nascendo, construindo o novo, é o gosto de medo no corpo. Não fomos educados para enfrentarmos o medo desta construção e sim para a passividade silenciosa, omissa do não se expor, para bem educadamente reproduzir o conhecimento.

Enfrentar o medo de se expor, de assumir-se, rompendo nossa couraça autoritária, é o anúncio de uma nova relação numa concepção democrática de educação, em que cada um aposta e depende do outro e de si, para a construção de sua autoria, do conhecimento e de sua história.”

Como Madalena diz, o medo é mesmo o termômetro que aponta a construção do novo. Se não fosse pela pergunta amorosa e perspicaz do Marcos, que causou-me um sentimento de dúvida e medo de exposição, eu não teria feito o esforço de encontrar outra forma de explicar, outra maneira de saber.

Conversar com as crianças e ter esse espaço seguro de demonstrar o nosso não saber, também, pode ser precioso para criar o espaço seguro que desejamos em nossas salas de aula. Ao dizer a uma criança que não sabemos, mas que buscaremos a resposta, abrimos para ela a mesma possibilidade. Desse modo, ensinamos pelo nosso exemplo de que sempre é tempo de aprender e que esse lugar, o da aprendizagem, é o que nos move para as transformações que tanto queremos em nossas vidas.

E vocês? Conte-nos de quais medos nasceram aprendizagens? Quais histórias trazem de perguntas feitas por estudantes que despertaram a busca por novos saberes?

 


  1. Aula postada no canal do YouTube Professora Vilma Ribeiro em 24 de janeiro de 2021.
  2. Gramática Essencial, de Celso Cunha. Organização de Cilene Cunha, p.97.

 


Referências:

CUNHA, Celso. Gramática do português contemporâneo: edição de bolso. Organização de Cilene da Cunha Pereira. Rio de Janeiro: Lexikon; Porto Alegre, RS, 2010.

FREIRE, Madalena.Educador, educa a dor. 11ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

RIBEIRO, Vilma. Substantivos concretos e abstratos. YouTube, 24 de janeiro de 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=jhvZ1aiDc8I&ab_channel=ProfessoraVilmaRibeiro>. Acesso em: 24/11/2023.

 

Sobre a autora

Mayssara ReanyMayssara Reany é mestra em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em Letramentos e Práticas Interdisciplinares, também pela UnB. Professora da educação básica, desde 2013, lecionou no Ensino Médio por sete anos e, depois, seguiu para Secretaria de Educação do Distrito Federal, atuando na Gerência de Pesquisa, Avaliação e Formação Continuada para Gestão, Carreira Assistência, Orientação Educacional e Eixos Transversais (GOET). Participou ainda da Subsecretaria de Formação Continuada dos Profissionais da Educação/EAPE como formadora do Programa Mulheres Inspiradoras (2020 e 2021). Em 2022 desenvolveu o seu trabalho como professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental II. Atualmente, é professora da Sala de Recursos Generalista do Centro de Ensino Médio Setor Leste, em Brasília.

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