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sua prática / reflexão teórica

Slam das Minas: mulheres na batalha poética

Marina Almeida

07 de dezembro de 2017

Uma batalha de poesia autoral, sem acompanhamento de instrumentos musicais ou objetos cênicos, apenas a palavra e o corpo de quem declama a poesia – esse é o slam. O movimento, que começou nos EUA nos anos 1980, chegou ao Brasil em 2008 e desde então tem se espalhado por diversas cidades do país. Só no Campeonato Brasileiro de Slam (Slam Br), uma competição nacional cujo finalista se apresenta na Copa do Mundo de Slam, participaram 53 grupos de diferentes estados brasileiros.

No Slam das Minas, de São Paulo, apenas mulheres participam das batalhas. Elas falam de suas vivências, dificuldades e do machismo que sofrem em seu dia a dia. A ideia é garantir um espaço seguro para que as mulheres possam se expressar livremente, explicam Pamella Araújo, a Pam, de 23 anos, e Carolina Peixoto, 29, que participam da organização do slam. Elas ainda contam como se descobriram poetas ao participar do movimento, passaram a ler mais autores e como as batalhas de poesia podem ajudar os alunos a se interessar mais por leitura e escrita.

 

No Slam das Minas alguns temas como o assédio, a repressão sexual da mulher, o racismo e a homofobia são muito frequentes. Por que é importante para as mulheres falarem sobre essas questões? Esses debates podem ser levados para dentro da escola também?

Pam – Com certeza eles devem ser levados para a escola. O slam vem de uma tradição de rua, assim como a batalha de MC’s e o rap, e traz um cunho social muito forte. Quem participa, na sua maioria, são pessoas da periferia, que falam sobre seus problemas, seja o racismo, homofobia, opressão... E no Slam das Minas aparecem questões que permeiam a vida da mulher, então falamos de machismo, assédio, as mulheres pretas falam de racismo, as mães de suas questões. Alguns professores relutam em levar essa poesia da rua para a escola, mas é muito mais fácil conversar com o aluno trazendo uma realidade mais próxima dele primeiro. E todo mundo gosta de competição, então uma batalha de poesia torna tudo mais interessante.

Carol – O slam se torna uma ferramenta, a poesia no geral. Ela me trouxe uma consciência política e social que eu nunca tive, comecei a repensar minhas atitudes que reproduziam o machismo, o racismo em alguns momentos. A poesia falada tem esse poder de discutir, causar um incômodo. Eu tive contato com Cecília, Drummond, Quintana na época da escola, mas nunca gostei. A partir do momento que conheci a poesia falada, eu me interessei por outros estilos também. Hoje leio Drummond e adoro. O slam é uma forma de dialogar com as pessoas e despertar seu interesse.

 

O Slam surgiu como uma competição de poesia entre grupos marginalizados da sociedade. Por que fazer um slam só para mulheres?

Carol – O primeiro slam só de mulheres surgiu em Brasília, com a Tati Nascimento e umas manas dela. Fizemos um debate com ela sobre a importância de eventos assim, o que deu origem a uma primeira edição experimental do Slam das Minas aqui. Nesse primeiro evento colou muita gente e percebemos que realmente precisávamos de um espaço assim em São Paulo também. Até a gente conseguir recuperar nosso lugar na história vamos precisar de um espaço só para negros, outro só para mulheres, outro para gays. Em 2015, na final do Slam Br, a primeira rodada tinha mais mulheres que homens, mas só uma passou para a segunda fase e ela não chegou à final. A gente participava desses espaços, mas ainda não estava sendo ouvida e reconhecida. No Slam das Minas, não, a maioria é mulher, tem muita gente participando pela primeira vez.

Pam – É até um problema, porque 90% do público é mulher também. E a gente está ali para falar não só para as mulheres, elas já sabem o que é sofrer com o machismo. Nos outros espaços não é uma questão de falta de respeito, mas é algo da sociedade como um todo. Somos ensinados a não gostar de ouvir voz de mulher, porque “é irritante”, “é fina”, não queremos escutá-las. Aí quando você vai ouvir mulheres no microfone, falando poesia, acaba não dando nota para elas, porque já ouve com uma barreira, nem presta atenção no que estão dizendo. No Slam das Minas só batalha mulher e não aceitamos homens machistas lá, porque é um espaço de segurança para as mulheres, para elas poderem falar o que quiser sem medo, sem se sentir intimidada. Já se uma mulher que frequenta o espaço fala coisas machistas, entendemos que é importante que ela esteja ali para conversarmos.

Carol – Lá a gente quer curar as mulheres e não os homens machistas. Que eles busquem transformação e evolução em outro lugar.

 

Além do texto, a performance – o ritmo da leitura dos poemas, a entonação, os gestos – tem um papel relevante nos Slams. Isso influencia na avaliação de quem se apresentou? Por que esses elementos são importantes?

Carol – O jurado é escolhido na hora e a avaliação depende de como a poesia bate nele. Eu, Carol, gosto muito de ouvir algo que seja diferente do que os outros estão falando e, na performance, presto muita atenção no ritmo. Gosto quando a poeta consegue usar bem o corpo, os tons de voz, alternar os ritmos... E é assim também que aprendi a me apresentar: vendo e me experimentando.

Pam – Performance chama mais a atenção, porque não estou só falando, estou mostrando. Você não está só ouvindo, está vendo, consegue sentir com mais força o que eu quis dizer com aquilo, mexe com suas emoções.

 

Como vocês se descobriram poetas? Já escreviam quando conheceram os slams?

Pam – Minha mãe sempre me deu diários – nós, mulheres, não somos muito colocadas para falar, mas para escrever, sim. E foi depois de um acidente sofrido na minha família que me deu o negócio da poesia, foi quando comecei a escrever muito sobre problemas meus, sobre o que sentia. No ano seguinte, em 2011, conheci os saraus e foi um alívio, foi quando consegui tirar algumas coisas do coração. Escrevo desde então.

Carol – Sempre escrevi diários. Também escrevia muitas crônicas sobre algo que me deixava triste ou irritada, mas não tinha essa linguagem poética. Comecei a frequentar os saraus em 2012 com meu irmão e foi quando comecei a escrever também poesia e a me reconhecer poeta. Os saraus também trazem isso de que não precisa rimar, ter métrica para ser poesia. Você pode ter seu estilo, sua linguagem.

 

Quais são suas maiores influências na literatura? E quanto às mulheres escritoras, quem vocês gostam de ler?

Carol – Ultimamente minhas referências são muito da galera que está na cena, tanto que a maioria dos livros da minha casa são de autores e poetas amigos. Meu irmão, Tiago Peixoto, é um poeta muito inspirador, ele tem uma delicadeza na escrita ao mesmo tempo em que às vezes traz um soco no estômago. Gosto muito do Sérgio Vaz também, um dos primeiros poetas marginais que eu conheci. Quanto às mulheres, a própria Pam, a Mel Duarte e a Luz Ribeiro [participantes do Slam das Minas]. Gosto de aprender com elas, ver como constroem o texto... Também gosto muito da Rita Apoena, Viviane Mosé, Elisa Lucinda, J. K. Rowling, que escreveu Harry Potter, a Chimamanda Adichie...

Pam – Dos clássicos, gosto muito da Ana Cristina César, Clarice Lispector, Cecília Meireles. Leio muito uma polonesa chamada Wisława Szymborska, que é muito boa. Li agora Jóquei, da Matilde Campilho. Gosto da Elisa Lucinda, que é atriz e poeta, nem participa de slams, mas tem a performance dentro dela. Agora pensando nos poetas que estão à margem, que somos nós, eu li o último livro da Maju [Maria Júlia Pinheiro], Alteridade, que tem uma escrita muito bonita. Tem a Ryane Leão, que escreveu o Tudo nela brilha e queima, e a Lâmia Brito, que escreveu o Todas as funções de uma cicatriz.

 

Criar um slam nas escolas pode ser uma forma de incentivar os alunos a se interessar pela leitura e pela escrita? Como organizar um slam numa escola?

Pam – Com certeza. Fizemos uma oficina com o Slam do 13 em três escolas da zona sul de São Paulo, quatro encontros em cada escola: levamos poetas para eles conhecerem, apresentamos poesias e a performance, depois escrevemos juntos e montamos um slam. As crianças adoram! O Emerson Alcalde, que é do Slam da Guilhermina, fez isso em várias escolas da zona leste da cidade e criou um Slam Interescolar. Este ano 40 escolas de diversas regiões participaram.

Carol – Os alunos mesmo conseguem organizar. Já nos apresentamos em escolas a convite dos próprios alunos. Acho que eles podem sim organizar slams e têm mesmo de entender a escola como um espaço deles. No Slam das Minas tem música e microfone apenas, outros slams não usam nem microfone, só a voz. O principal é querer, saber que o evento é muito legal, mas precisa de organização.

Pam – E quem quiser ter uma palhinha na escola, tenho certeza que qualquer slam que for convidado vai topar participar, porque todos têm essa consciência de que a escola é o lugar onde queremos estar.

Carol – Amanhã vamos com o Slam das Minas para Santos, convidados por uma professora que está trabalhando cultura periférica com seus alunos. Eles já foram a uma apresentação nossa e foi muito legal, são meninos de 10, 11 anos e prestaram muita atenção, recitaram seus textos, muito bem construídos, com um cunho político muito forte. E são crianças de um dos bairros mais carentes da cidade.

Pam – Achei interessante esse trabalho de tentar pegar esses alunos pelo coração. O que essa criança gosta? Ela gosta de funk. Funk é cultura, mas não quero que ela ouça uma música falando de assédio, vou buscar um funk que fale da questão social. E tem. Foi isso que essa professora fez e foi assim que ela descobriu os slams também.

 

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