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Arte é deixar marca

Arte é deixar marca

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Autor: Jéssica Nozaki
21 Dezembro 2016

Na Oficina Regional de Memórias Literárias, os 125 alunos semifinalistas entrevistaram Stênio Diniz, xilógrafo, desenhista, compositor e poeta popular. Veja, a seguir, um relato sobre essa experiência transformadora que impactou não somente os estudantes, mas também – e de forma especial – o próprio artista.

 

Tudo posto em seu lugar

Ele chegou com dois talheres nas mãos. Vestia camisa quadriculada, calça jeans, sandália e um sorriso de vigor e sutileza. Cabelo grisalho, três vincos de rugas bem definidos na testa. A pele seca de quem, no ar condicionado, fica fora de seu habitat natural. Dois talheres nas mãos. 

A sala onde iria acontecer a entrevista também estava pronta; tudo posto em seu lugar: cadeiras alinhadas, xilogravuras expostas, 125 alunos sentados, empunhando lápis, papel e Curiosidade, essa estrela de vida inteira. 

Ele entrou e, ao entrar, os talheres nas mãos encontraram uma nova função de existir: ali, eram para tilintar música. Cantando e tocando, Stênio Diniz fez questão de se dar a conhecer já por meio da arte. Para ele, a maior beleza da língua portuguesa é a musicalidade. Para ele, arte se faz com qualquer material, com qualquer recurso. 

O convidado logo se tornara anfitrião, e as conversas ansiosas se calaram para dar voz ao artista. Era mais do que respeito: de repente, estavam todos lá, de fato, presentes. 

A partir das perguntas cuidadosamente pensadas pelos estudantes, Stênio falava sobre sua trajetória na xilogravura e sobre os acontecimentos de sua vida. Como o narrador de Walter Benjamin*, trazia a sabedoria na arte de narrar e deixava sua marca “artesanal” em cada causo contado. Respondia sem intenção de confundir. Sem frases de efeito, sem frases feitas. Mas sem esquecer os óbvios. 

Rumos e impressões

Logo de início, Stênio rememorou a família. “Não falaria sobre minha pessoa sem antes falar dos meus ancestrais. Só sou quem sou porque tive o avô que tive, porque tive vivência com a família que me embasou”. E isso não representa uma influência abstrata, mas uma experiência literal e empírica. Seu avô, José Bernardo da Silva, era o dono de um dos maiores polos da literatura de cordel e da cultura nordestina do país: a tipografia São Francisco. Foi nesse ambiente que Stênio se criou e, desde muito menino, se aproximou dos encantamentos que tomou para si. 

Começou catando papel e acabou cavando madeira: aos 15 anos, já produzia suas próprias xilogravuras, inspirado em grandes mestres como Noza e Walderêdo Gonçalves. “A chave de fazer é a vontade. A prática se pega nas tentativas”, disse o artista, que recriou as capas de alguns dos maiores clássicos do cordel, como Proezas de João Grilo, Chegada de Lampião ao Inferno, e A Vida de Pedro Cem

Com o passar do tempo, as paisagens da história mudaram, ganharam mais contrastes, “ispinho e fulô”. O cordel perdia espaço para a televisão e, aos poucos, a produção diminuía. 

A tipografia passou a se chamar Lira Nordestina, nome cunhado por Patativa do Assaré, grande entre os grandes. Logo em seguida, foi vendida para o Governo do Estado do Ceará e reconhecida como patrimônio cultural. Para Stênio, no entanto, esse reconhecimento só pode ser completo se a gráfica estiver cumprindo sua real missão: se estiver ativa, produzindo. Foi também assim: entre narrativas e opiniões, Stênio, em tudo o que contava, parecia indicar caminhos para a divulgação e para a preservação da cultura. 

O artista também contou de que forma seu trabalho achou independência da tipografia. Aos poucos, começou a receber encomendas para produzir xilogravuras com outras dimensões, maiores do que as que fazia para os cordéis. Logo foi convidado para expor suas obras em Brasília e, em seguida, na Bienal de São Paulo. “Foi nessa época que comecei a entender que o que eu fazia era arte”. Uma arte que não procura identificação, mas que quer forjar no público as lembranças que nunca teve. “Retratar cenas dramáticas era uma forma de colocar essa realidade na casa das pessoas para que elas chegassem a compreender, a bater um sentimento”.
 

Feira interior
Primavera interior

Tendo sempre lutado por justiça social, pelos direitos dos artesãos, pela democratização da arte, Stênio falou sobre a militância contra a ditadura militar, tempo em que ele “escapou de armadilhas e de coisa muito pesada”. Falou ainda sobre o reconhecimento de sua obra, dentro, mas principalmente fora do país. Foram 13 viagens para a Alemanha – onde seu trabalho é bastante admirado – para fazer exposições e shows. “Conhecer outros lugares é muito importante. A gente evolui no trabalho, mas também nas andanças. Se você está só naquele canto, por onde é que vai vir a evolução?”. 

O Sertão também esteve presente nas perguntas dos alunos e nas descrições de Stênio. As ruas de Juazeiro, os carros-de-boi, a vida pulsante no mercado, os sons e cheiros da feira, os vendedores de cordel... Comparações entre o passado e o presente que inspiraram e comoveram a todos.

Das memórias, escolher em quais permanecer 

Atentos, os estudantes anotavam o que podiam. A tarefa que lhes foi dada, de escrever um texto de memórias literárias a partir da entrevista, exigia verdadeiramente ouvir e ressoar a história ouvida. Exercícios de aproximação e desvelamento. 

Já para Stênio, conversar sobre o passado e ver tanta gente curiosa sobre sua trajetória foi a semente em terra fértil que fez brotar uma vontade inédita. Agora, também ele deseja puxar um fio desse novelo de vários momentos a tecer. A partir da experiência com a Olimpíada, Stênio quer, ele mesmo, registrar suas memórias. 

De volta ao Cariri, logo se debruçou em sua mesinha. O estilete e a madeira deram lugar à caneta e ao papel. Dois dias dedicados à escrita;14 páginas dedicadas a contar os primeiros anos de sua vida. “Como fiquei feliz em participar da Olimpíada de Língua Portuguesa! Foi um momento único e muito responsável. Quando cheguei em Juazeiro, ainda fantasiado com tudo, pensei em escrever sobre a minha emoção. Escrevi sobre as minhas lembranças a partir de dois anos de idade até completar dez anos”. 

Agora, Stênio manuseia também outras matérias-primas: de um lado, o texto, a intenção do texto, seus múltiplos significados. “Na fala, você é interrompido... Por escrito, está tudo lá”.  De outro lado, as lembranças, as recordações de uma época. “A pessoa lembra quando tem algo contundente, marcante. Senão passa desapercebido.

Lembrar é como abrir um cofre; mas quando a gente se dedica e se concentra, vai vendo tudo como num filme”, diz o xilogravador. 

Stênio ainda pretende escrever sua autobiografia completa, década por década, até os dias atuais. Por enquanto, ele nos presenteia com um pequeno trecho de suas memórias mais distantes: 

“Entre dois e três anos, eu transitava na tipografia que era vizinha à casa dos meus avós. Tinha uma porta que ligava uma casa à outra. O barulho das máquinas funcionando era muito grande. Um barulho constante, meio ensurdecedor. Tinha duas máquinas enormes, de uns quatro a cinco metros de comprimento, e com a largura de um adulto de braços abertos.

A tipografia tinha muitos funcionários, mais de dez! Uns quatro faziam a composição gráfica dos cordéis com tipos móveis. Seu Expedito, poeta, era quem fazia a revisão ortográfica. O meu tio, João Alberto, imprimia a capa dos cordéis em uma máquina impressora que era movida com os pés; então, ele passava o dia inteiro pedalando.

(...)

Cada uma das máquinas imprimia dez mil cordéis por dia! Como eram muitos impressos, meu avô, José Bernardo, que eu chamava de ‘paizinho’, contratava pessoas para dobrar as folhas impressas nas suas próprias casas. A gráfica tinha um carrinho-de-mão em que um funcionário levava, todo dia, as folhas impressas para as casas das pessoas, e trazia os cordéis já dobrados. Eu gostava muito dessa parte: eu ia em cima das folhas impressas, e voltava em cima dos cordéis já dobrados. Era um passeio que eu adorava fazer”. 

Artista de várias faces e de profundas camadas, Stênio passou a se arriscar no exercício de encontrar as palavras dos instantes que valeram a vida. É assim, também por esse caminho, que ele expressa um pouco mais do seu propósito: “arte é lutar contra o egoísmo próprio para transmitir alguma coisa. Arte é deixar marca”.
  

* BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 197-221. 

No texto “O narrador”, Walter Benjamin fala sobre a importância do narrar para a transmissão do conhecimento e reflete sobre o declínio dessa prática.


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