Literatura como direito humano: arte, educação e justiça social se entrelaçam na Ocupação Antonio Candido

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Autora: Marina Almeida
30 Maio 2018

Em cartaz até 12 de agosto, em São Paulo, mostra evidencia, por meio de documentos e vídeos, pensamentos de um dos maiores intelectuais brasileiros

“ (...) a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade.” As palavras do crítico literário Antonio Candido, publicadas no ensaio O Direito à Literatura (1988), revelam como um dos maiores intelectuais brasileiros entendia a relação entre o acesso à leitura e os direitos humanos. Para reafirmar a importância de seu pensamento para o Brasil de hoje, no ano em que o autor completaria seu centenário, o Itaú Cultural inaugurou a Ocupação Antonio Candido, que ficará em cartaz até 12 de agosto, em São Paulo.

Um painel em tamanho real que retrata parte da biblioteca pessoal de Candido, com as grandes obras brasileiras e clássicos da literatura mundial, abre a Ocupação e é o primeiro convite a que entremos em seu mundo de livros. Durante a exposição, outros serão feitos, seja por ele próprio falando nos vídeos sobre a importância da literatura para o ser humano, seja através de seu entusiasmo pela leitura, que transparece em seus cadernos e anotações.

Além do crítico literário e intelectual, a Ocupação mostra outras facetas de Antonio Candido: o educador extremamente comprometido com o ensino, o militante político e o homem familiar. Todos os documentos da exposição são inéditos para o público, desde fotos familiares, o boletim escolar dos primeiros anos, textos pessoais nunca publicados e ainda anotações e revisões feitas pelo autor em algumas de suas principais obras, como destaca Claudiney Ferreira, que participou da curadoria da Ocupação e é gerente do núcleo de Audiovisual e Literatura do Itaú Cultural.

Laura Escorel, neta de Candido e uma das curadoras da exposição, explica que buscava uma parceria para a preservação desses documentos e o apoio do Itaú Cultural resultou na Ocupação. “Esse acervo apresenta um aspecto humano do professor Antonio Candido, mostra a clareza e a generosidade que ele tinha para transmitir seu pensamento, que é um aspecto do socialismo dele, de procurar fazer as coisas acessíveis, não construir um texto que seja difícil”. 

Para as crianças, o Itaú Cultural organizou uma oficina sobre como produzir um livro em todo seu processo de impressão e encadernação. Por demandar um espaço maior, a oficina, realizada aos finais de semana, não utiliza a área da Ocupação. Além disso, como sempre acontece, também são realizadas visitas guiadas pelo educativo da exposição, com explicação sobre as obras e os documentos. A mostra também é acessível para pessoas com deficiência visual ou auditiva. No site da Ocupação Antonio Candido também é possível acessar alguns vídeos, depoimentos e documentos sobre o autor.

 

Literatura como direito humano

Na Ocupação, os próprios objetos expostos mostram esse movimento de uma leitura do texto literário como parte do mundo à sua volta e de uma defesa da educação que se conecta com seu entendimento da importância da literatura para o ser humano. Assim, vemos num dos documentos, Candido associar, por exemplo, o final da primeira parte de Os Sertões, em que Euclides da Cunha fala sobre o martírio do homem da terra, ao Brasil de 2001, onde o martírio ecológico e social é causado pela busca excessiva de lucro, e apontar no Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) uma saída para o problema histórico do país.

Os trechos do texto O Direito à Literatura, como o que abre esta matéria, também estão espalhados pelas paredes do espaço, fazendo essa ligação constante entre arte, educação e militância. Num dos vídeos da mostra, Candido diz que o “direito à literatura deságua na justiça social” e que é uma brutalidade fazer com que uma pessoa cresça e viva sem poder desenvolver a capacidade de ler Machado de Assis ou Dostoiévski. Ele contesta a ideia, em voga nos anos 1930, de uma literatura proletária feita para o operário: “por que discriminá-lo?” E conta sobre um experimento feito na França por um escritor, em que algumas dessas obras foram sugeridas aos operários, que não se interessaram pelos livros: “muito chato”. Em seguida, eles ganharam livros de grandes autores, como Balzac e Stendhal, e a reação foi oposta: adoraram. “O pobre queria boa literatura”, conclui. Mas Candido também faz questão de reconhecer a literatura popular, como produção importante e digna de mérito. O ideal, no entanto, aponta o crítico, seria que todos os grupos sociais tivessem acesso às diferentes criações literárias.

 

Intelectual das letras  

O trabalho acadêmico do crítico está organizado, na mostra, em torno de duas obras que exemplificam a variedade de seus trabalhos: Parceiros do Rio Bonito e Formação da Literatura Brasileira. Na primeira, o autor estuda a cultura caipira e o cururu, uma dança cantada do interior paulista. Resultado de sua tese de doutorado em Ciências Sociais, o livro analisa a influência das culturas indígenas, africanas e portuguesa na formação dessa cultura caipira e os impactos trazidos a ela pelo latifúndio e a urbanização.Além dos relatos, fotos e documentos, é possível ouvir uma seleção de cantadores caipiras cantando o cururu. As músicas foram selecionadas a partir da coleção particular de Antonio Candido.

Já a partir de Formação da Literatura Brasileira, obra em que analisa a constituição de um sistema literário no Brasil e é uma referência para os estudos da área, podemos ver um crítico com uma visão abrangente de toda a história da literatura nacional. Num dos depoimentos, ele aponta para o caráter extremamente elitista da literatura brasileira: na colônia, era uma elite escrevendo sobre si mesma. A partir do romantismo, já surgem algumas obras com personagens que representam o povo. É o caso de Memórias de um Sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida) e, mais tarde, de O cortiço (Aluísio Azevedo), entre outros. Essa seria já uma grande conquista a caminho de um modelo mais equilibrado.

 

Crítica e autocrítica

Entre os recortes de jornais expostos encontramos artigos críticos de Candido sobre autores que então ainda eram desconhecidos, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa em seus livros de estreia, ou João Cabral de Melo Neto, ainda desconhecido no Sudeste. Apesar da profissão de risco, como ele próprio se refere ao trabalho de avaliar autores iniciantes sem ter outras referências a respeito, seus textos mostram o olhar apurado e certeiro. Nas páginas publicadas no Diário de S. Paulo, ele já aponta que Rosa deve se tornar um dos grandes escritores brasileiros ou, a respeito de uma iniciante Lispector, que ela pode se tornar uma das vozes mais originais de nossa literatura e que sua primeira experiência “já é uma nobre realização”.

Em seus artigos e textos, também é possível acompanhar um pouco de seu processo criativo, de construção do texto e de revisão constante de seu próprio trabalho. “A autocrítica aparece muito nos documentos. Ele riscava seus textos, revisava o estilo, colocava pensamentos até diversos do que tinha escrito inicialmente, mesmo nos textos já publicados. Tinha sempre essa preocupação com o apuro”, diz Claudiney.

 

Educador e militante

Em diversos cadernos, podemos ver as anotações de um professor que fazia questão de preparar todas as suas aulas. Ele também incentivava outros professores a fazerem o mesmo e tinha a preocupação de que seus alunos formassem outras gerações. Candido também defendia a profissionalização do trabalho de professor universitário, com dedicação integral ao ensino. Num dos vídeos da mostra, em que fala sobre seu gosto por ensinar, o professor declara humildemente que aprendeu muito também com seus estudantes.

Ainda que o posicionamento político do crítico perpasse diversos de seus trabalhos, alguns documentos da Ocupação revelam sua ligação mais direta com a militância política. Em algumas cartas trocadas com o MST, por exemplo, o crítico se diz honrado com o convite para dar seu nome à biblioteca da Escola Nacional Florestan Fernandes, ligada à organização, mas recusa a homenagem, pois é contrário a que se nomeiem órgãos e instituições em celebração a pessoas vivas. Após sua morte, a biblioteca recebeu finalmente o nome do professor. Claudiney lembra que esse também é um fator interessante de sua trajetória: “ele era militante político mesmo sem ter participado de nenhuma organização tradicional. Apesar de ter ligação com o PT e o MST, nunca foi parte do corpo orgânico dessas instituições, mas tinha uma visão muito aprofundada de política.”

 

Vida pessoal

Leitor precoce, Candido lia muito, sobretudo desde os nove anos, e livros muito acima do esperado para sua idade. Desde cedo, orientado por sua mãe, ele também se acostumou a fazer anotações sobre suas leituras, opiniões e autores favoritos. Os cadernos de anotações sobre livros e ideias irão acompanhá-lo por toda a vida, como pode ser conferido na Ocupação. Já o boletim de um jovem Antonio Candido chama a atenção pela avaliação mediana recebida em português: nota 7.

Num dos depoimentos, Candido conta que se apaixonou por Fausto (Goethe) aos 13 anos e, junto com seus irmãos, brincava de encenar cenas do livro. A obra, que o marcou profundamente, foi relida muitas outras vezes: “li Fausto a vida inteira”.

Nos vídeos, ele ainda conta sobre quando conheceu sua esposa, a professora Gilda de Mello e Souza: uma amizade que se transformou em amor, segundo ele, sem passar pela doença da paixão. E rebate a fama de sério: “eu era muito engraçado. Todas as noites fazia um espetáculo cômico para as minhas filhas”. Isso até 1964, ele diz. O golpe o deixou triste.

Ocupação Antonio Candido

Até 12/08

Entrada gratuita; livre para todos os públicos

De terça a sexta, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h

Itaú Cultural

Av. Paulista, 149. São Paulo, SP.

http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/antonio-candido/ 


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