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5ª FlinkSampa: a consciência negra pela literatura

5ª FlinkSampa: a consciência negra pela literatura

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Autor: Ricardo Santos
22 Novembro 2017

O diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda,
fala na abertura do evento, que teve apoio do Sesc

A celebração da consciência negra começou mais cedo em São Paulo este ano. A partir de 16 de novembro, durante três dias, a 5ª FlinkSampa – Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra – reuniu na Faculdade Zumbi dos Palmares diversas personalidades para debater, difundir e valorizar a produção artística negra brasileira. O evento foi organizado pela instituição de ensino e pela ONG Afrobras (Sociedade Afro-Brasileira de Desenvolvimento Sociocultural). Além de diversos bate-papos literários, ao longo do evento houve um seminário sobre educação inclusiva, uma mostra de curtas-metragens, um espaço de beleza e empoderamento da mulher, exposição e venda de livros e atividades para crianças, numerosas por conta das visitas escolares.

O grande homenageado do evento, em torno de quem se organizou a programação literária, foi o escritor Paulo Lins, autor do romance Cidade de Deus (1997), que deu origem ao filme homônimo com quatro indicações ao Oscar. O livro, no entanto, não é mero suporte à obra audiovisual. Foram tema de debate as qualidades de sua escrita ágil, de sua temática crua e de sua abordagem, ora brutal, ora lírica.

Ao lado do autor, o professor Eduardo de Assis Duarte, colaborador do Programa de Pós-graduação em Letras da UFMG, retomou as razões por que comparou Cidade de Deus, no ano seguinte ao lançamento, a Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. “O que ocorre no Grande Sertão é que o bandido envelhece, vai pra rede e fica lá lembrando da sua vida. E os bandidos de Paulo Lins nunca ficam velhos, porque morrem todos antes. A violência um tanto glamourizada de Grande Sertão: Veredas recebe um outro tratamento.”

Ainda sem jeito pela comparação tantos anos depois, Paulo Lins admitiu, além da inspiração de autores como Machado de Assis e Dostoiévski, a importante influência de Guimarães Rosa em seus neologismos. Um deles, representativo da obra, é o termo “neofavela”, que o autor emprega para marcar a passagem, na década de 1970, de um cenário quase romântico de rodas de samba e malandragem para o violento palco do tráfico de drogas e de armas.

O autor atribuiu o recrutamento do crime organizado à desestruturação familiar e social na favela. “As pessoas entram para essa criminalidade ainda crianças. Se não se entra até os 15 ou 18 anos, não se entra mais. Então podemos dizer que o Brasil não cuida das nossas crianças”, analisou ele, para quem o descaso por parte do poder público não é acidental. “A criminalidade, o tráfico de armas, o ensino do colégio público e a exclusão social não são dificuldades, são um projeto político. Vivemos assim porque a elite quer que a gente viva assim.”

 

O romance na periferia

(A partir da esquerda) O escritor Marcelino Freire, a curadora Guiomar de Grammont,
o homenageado Paulo Lins, o escritor Ferréz, o mediador Uelinton Alves e o escritor
Fernando Bonassi debateram sobre a prosa urbana contemporânea

Outra mesa de fecunda discussão foi a que reuniu Paulo Lins aos escritores Marcelino Freire, Ferréz e Fernando Bonassi. Este, ao olhar para o grupo e levar em conta sua origem partilhada, fez seu diagnóstico. “A gente representa a entrada da periferia na paisagem da cultura. Temos isso em comum, para o bem e para o mal. Para o bem porque a gente tá aqui e isso é honroso pra cacete, para o mal porque a gente às vezes é lido como alguma coisa que não passa do campo social. Essa é a mazela da literatura de periferia hoje: ser visto como uma coisa que representa algo social e portanto pode ser mal feito. Então essa obra tem que ser duas vezes melhor do que aquela produzida fora da periferia, para que ela seja entendida como arte, e não apenas um relato de periferia.”

A conversa sobre afirmar sua qualidade literária e superar o estigma de autor vulgar fez surgir na mesa o nome de Carolina Maria de Jesus (1914-1977). A escritora mineira, negra, viveu boa parte da vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, e sustentou os três filhos catando papeis e fazendo pequenos serviços. Estudou apenas até o segundo ano do primário, mas gostava de ler, e escrevia em cadernos que encontrava no lixo. A extrema miséria em que vivia é relatada em seus diários com crueza, argúcia e sensibilidade; apesar disso, até hoje há quem questione o estatuto literário, e mesmo a autoria, de seus escritos.

Marcelino Freire interveio na discussão lembrando a discórdia que houve em abril deste ano na Academia Carioca de Letras, quando um acadêmico afirmou que a obra da autora não era literatura. “O que garante a boa literatura é o olhar e a maneira que se escreve. O escritor não escreve só com a caneta, escreve com o corpo. E a Carolina Maria de Jesus é corpo puro, emoção pura naquilo que ela vivenciava. Eu duvido que um escritor, por mais cercado de bibliotecas que esteja, consiga chegar àquela imagem da fome, àquela cor amarela da fome a que ela consegue chegar de forma extraordinária, porque ela sabia muito bem do que estava falando, no corpo, na alma e na voz.”

 

Divulgando a produção marginal

Para além da produção da literatura marginal ou periférica, o grupo abordou a distribuição das obras, em geral preterida pelo mercado editorial. “É uma luta constante para não ser apagado”, disse Ferréz. “Tem seis edições atuais do Diário de Anne Frank nas livrarias. Só judeu sofreu? Judeu sofreu, tem que contar a história, mas a gente é vira-lata até em sofrimento! Pelo menos vamos ler a história do nosso povo! Seis versões, atualizadas, capa dura, capa mole, sem capa, do jeito que você quiser; mas não tem Diário de Bitita, de Carolina. Não tem Quarto de despejo. É sacanagem demais, tem-se um processo de apagamento da história do nosso povo.”

Curadora da programação literária da FlinkSampa desde 2015, a escritora e professora da Universidade Federal de Ouro Preto, Guiomar de Grammont, também lamentou o desconhecimento da obra de Carolina Maria de Jesus. “Não é apenas por um aspecto étnico-social que ela deveria ser lida nas escolas brasileiras, mas porque é uma literatura de alto nível; tem um lirismo, uma delicadeza, momentos de rara beleza, de melancolia, de observação do mundo. É uma literatura sobretudo que emociona, porque é um Brasil que muitas pessoas não conhecem, principalmente jovens. Acho que se Carolina fizesse parte da formação das crianças brasileiras em todas as escolas, elas se tornariam adultos com mais responsabilidade e mais desejo de transformar a sociedade brasileira para a superação da desigualdade, da fome, da dor, da exclusão dessas pessoas.”

Ao final da conversa, o grupo lembrou o dramaturgo Plínio Marcos e os autores da literatura marginal da década de 1970, que faziam uma distribuição mais artesanal de sua produção. Exemplo recente, Ferréz afastou-se do mercado literário tradicional há alguns anos e lançou o selo Povo, pelo qual publica seus livros e os de colegas. “Eu me sinto muito melhor quando eu publico a obra e consigo dar, vender barato. É uma coisa minha”, comentou ele, para quem esse entusiasmo de distribuição é fruto da vontade de que seus livros cheguem aos jovens. “Eu não tinha senso crítico, eu aprendi com a literatura. Acho que a molecada tinha que ter direito a senso crítico logo cedo, pra poder errar menos. Pobre não pode errar logo cedo que depois não tem como consertar.”

 

Poesia, África e outras manifestações

Encerramento do evento teve participação do presidente da Academia
Brasileira de Letras, Domício Proença Filho, à direita do reitor ao microfone

Como os primeiros livros de Paulo Lins foram de poemas, também houve um encontro dedicado ao gênero e à visceralidade da produção poética marginal. Sérgio Vaz, poeta e fundador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), que encontrou na poesia o único jeito de se comunicar com o mundo, discursou sobre o engajamento dessa literatura. “A literatura periférica é feita por gente que mora na periferia. É uma literatura nossa, que nos pertence. É uma literatura onde a realidade é posta, com nosso sofrimento, com nosso amor, nossa cor, nosso samba, é onde as pessoas morrem e escorre o sangue pela página, é onde a mãe chora e o sal da lágrima desce pela página, é onde a gente faz sexo e o gozo também escorre pela página. É um lugar sem filtro. Onde nós, pobres e negros, podemos ser quem a gente quiser.”

O samba, manifestação cultural negra por excelência, abordada no mais recente romance de Paulo Lins (Desde que o samba é samba, 2012), mereceu uma mesa de discussão com a presença de Martinho da Vila. Outro ponto alto da festa foi a conversa com Walcyr Carrasco, autor das novelas Xica da Silva (1996), que há mais de 20 anos colocava uma protagonista negra na televisão, e Do outro lado do paraíso, atualmente na TV Globo retratando uma comunidade quilombola e discutindo o racismo. A atriz Zezé Motta, que participa da trama atual e que encarnou Xica da Silva no filme de 1976, foi homenageada neste 20 de novembro, em cerimônia na Sala São Paulo, com o 15º Troféu Raça Negra, prêmio também organizado pela Afrobras e pela Faculdade Zumbi dos Palmares.

A FlinkSampa ainda abriu espaço para debates sobre a situação da população negra no Brasil e a relação literária com os países africanos lusófonos, temas caros à curadora e à faculdade. A representação do negro na produção cultural audiovisual foi tratada em uma conversa com as atrizes Maria Gal e Maria Ceiça. Em outro bate-papo, o humorista Hélio de la Peña conversou com as escritoras Elisa Lucinda, também atriz, e Veralinda Menezes, também cantora, sobre o humor contra o racismo na literatura e a produção de narrativas infantis que valorizem a criança negra. Quanto à África, além da participação de autores de língua portuguesa, o presidente da República do Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, também ele escritor, compareceu ao evento para lançar seu livro O Albergue Espanhol e discutir as vozes polifônicas da literatura com a escritora Conceição Evaristo, premiada na edição de 2015 do Jabuti.

Todas essas atividades condensaram em três dias o debate de muitas questões atuais pertinentes à população negra no Brasil. A esperança externada na fala final do reitor da faculdade, professor José Vicente, é que essas palavras ecoem e continuem a fortalecer uma luta não por um bem-estar unilateral, mas pelo respeito comum à dignidade da pessoa humana e pela construção de uma sociedade mais democrática.


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