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É preciso ser outros

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Autora: Luciana Fátima de Souza
23 Junho 2020

Escola Estadual Anita Costa Dona
Olímpia/SP

Era minha primeira experiência com o gênero Memórias literárias e também com uma turma de 7º ano. Sabia que seria um caminho de desafios e aprendizagem não só para os alunos. Por isso, comecei estudando a própria Olimpíada. Entrei no Portal Escrevendo o Futuro e passeei por diversos links: de gênero ao tema, de textos finalistas aos Cadernos do Professor. Depois de muita pesquisa, anotações, recortes, impressões e análises, era hora de anunciar o desafio aos alunos.

Anunciei aos alunos a inscrição na Olimpíada, e para minha surpresa, vi vários rostinhos maravilhados com a notícia, ansiosos por mais detalhes. Fui explicando passo a passo o que já sabia, outras questões anotava para pesquisar depois. Para minha alegria e aumento da responsabilidade, boa parte dos alunos estava animada. Era um caminho sem volta.

Para introduzir a proposta do que seria realizado, imprimi, destaquei e li em voz alta trechos da apresentação do gênero Memórias literárias no Portal Escrevendo o Futuro, produzido por Anna Helena Altenfelder e Regina Andrade Clara. Queria estimulá-los a ver a beleza que há no resgate das vivências do nosso povo.

Nos dias seguintes, reservei o final das aulas para leitura em voz alta de textos finalistas das edições anteriores do concurso. Antes, porém, pedia para que os alunos deitassem a cabeça nas carteiras, fechassem os olhos e se deixassem retroceder no tempo por meio da minha leitura. Pedia para que eles deixassem despertar o máximo de seus sentidos para que pudessem sentir os cheiros, sabores, texturas; ver as paisagens, casas, pessoas; ouvir as melodias, ruídos, vozes de cada memória lida. Depois pedia para que tentassem expressar as sensações que vivenciaram. Eles pareciam gostar dessa atividade, pois todos os dias se antecipavam me lembrando da leitura.

Para minha alegria, a escola tinha dezenas de exemplares do livro Memórias inventadas, do Manoel de Barros. Li alguns textos em voz alta e comentamos, pedi para que lessem e comentassem. Muitas risadas em "Obrar" e "Escova". E aos poucos fui soltando as rédeas da leitura, pedia para que lessem o próximo texto em silêncio, depois comentassem. Veio o sinal da troca de aula e a surpresa: "Professora, posso levar para casa o livro? - pediu Ana Júlia. "Professora, posso também levar? - pediu Beatriz. "Professora..." "Pessoal, quem quiser levar, só levantar a mão para eu anotar o nome aqui no diário". Foram seis livros emprestados. Pouco? Eu comemoraria ainda que fosse apenas um.

Manoel de Barros me ajudava na tarefa de lhes revelar nas memórias a poeticidade. Além disso, mostrava-nos como a imensidão do lugar onde vivemos pode ser relativa. Do seu quintal, podíamos desvendar não só o que havia de antigo em suas vivências, mas o que havia de permanência. Aproveitava a escolha de textos preferidos entre os alunos para explorar vários aspectos estéticos. Em "O apanhador de desperdícios" quão propícios foram os versos "Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto".

O próximo passo foi pedir a primeira produção: os alunos deveriam escrever as memórias de sua própria infância. Algum fato marcante, contado de forma poética. Muitos alunos revelavam já ali talento literário, mas recebi também alguns textos que não passavam de relatos. Selecionei os textos mais próximos de memórias e pedi para que os alunos lessem para sala. Recortei trechos desses textos, coloquei-os na lousa e exploramos sua carga poética: "são justamente os pequenos fragmentos dessas memórias que me embarcam no passado (...) finalmente ia conversar com a areia novamente"- Ana Lígia.

Para explorar a temática "O lugar onde vivo", aproveitei que na cidade há um Museu de História e Folclore, e pedi para que os alunos visitassem-no com seus familiares e depois fizessem anotações sobre o como aquele lugar nos contava sobre o passado de nossa cidade. Na sala de aula, compartilhamos as anotações.

Levei também para sala um samba do cantor "Boca Nervosa", intitulado "Memórias de uma infância" ou "Memórias de Olímpia". Nessa canção, velhos hábitos dos moradores são expostos, associando-os sempre a antigos espaços, comércios, bairros da cidade.

Na próxima fase, para o preparo da entrevista, construímos coletivamente um roteiro com várias perguntas para o propósito. Deixei claro que se tratava de perguntas norteadoras. Pedi também para que os alunos, antes da entrevista, colocassem a música sobre as memórias de Olímpia para o entrevistado ouvir. Assim, ele teria mais estímulos para se lembrar de detalhes marcantes das vivências e sentimentos coletivos.

Aos poucos as entrevistas foram chegando. Foram poucas. Parte da sala não se sentiu encorajada a entrevistar alguém, e como não havia muito tempo hábil para nova estratégia, precisei improvisar e optei pelo compartilhamento das entrevistas realizadas e a produção individual das memórias.

Quando os textos foram chegando, pude confirmar certos talentos literários na sala: "aquele buraco de luz fez a criança ter uma infância", Ana Júlia. Que alegria e que responsabilidade para não deixar morrer ali um escritor. Gabriel, Ana Júlia e Ana Lígia se destacaram em suas produções, mas a qualidade dos textos da sala em geral era muito variada. Porém, quando comparei com os primeiros escritos, veio a satisfação de perceber que todos, em alguma medida, haviam progredido.

Levei os textos para casa para correção. E antes de dar início às reescritas, separei trechos de Terra Sonâmbula, de Mia Couto, para analisarmos a poeticidade que caracteriza o lugar de vivência daquelas personagens. Depois de várias reescritas, a comissão avaliadora elegeu o texto da Ana Lígia para representar a escola, na fala de sua avó, as vivências e sentimentos de nossa cidade ainda agrícola, com seus cafezais na década de 60.

A partir dos passeios e entrevistas propostas, percebi que a Olimpíada pode ser caminho também para estreitar laços familiares por meio do conhecimento e valorização da própria história de seus entes e da comunidade. E após um percurso cheio de experiências novas com a série e com a Olimpíada, fiquei pasma ao receber a notícia de que o texto da aluna Ana Lígia estava na Etapa Semifinal. De um início de caminho cheio de incertezas à conquista da seleção, é um divisor de águas nas nossas próprias crenças sobre nossa capacidade e na dos alunos.

Sei que esse foi apenas o primeiro passo. Estou ansiosa para me preparar para próxima Olimpíada, bem como estimular a participação dos meus colegas. Até mesmo os alunos de outras escolas já estão motivados pela conquista da Ana Lígia e também de outra aluna minha, Victória, semifinalista na categoria Crônica. Desafiar-se a crescer é aceitar que as incertezas e ausências de plenitude nos movam para aprendizagens. E como diria Manoel de Barros em "Biografia do orvalho": A maior riqueza do homem é sua incompletude/ nesse ponto eu sou abastado (...) mas eu preciso ser outros".


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