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A sinfonia de duas línguas no argumentar dos primogênitos da pátria

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Autora: Deuzanira Lima Pinheiro
23 Março 2020

Escola Indígena 19 de abril

Goiatins / TO

"Quem me dera ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante..." Era o que dizia a banda Legião Urbana na música "Índios". 

Apesar de estar trabalhando por apenas dois anos em uma escola de Educação Indígena bilíngue, intercultural e diferenciada, foi através da Olimpíada de Língua Portuguesa que enxerguei a oportunidade de fazer com que os mais simples fossem vistos como os mais importantes. O desejo foi tomando conta do meu coração, e assim, fui arrebatada pelo impetuoso anseio de colocar os meus alunos para compor uma sinfonia argumentando sobre "O lugar onde vivo". 

No primeiro dia de aula, convoquei a equipe escolar e os alunos para falar da 6ª edição da Olimpíada, pois precisava ouvir um "sim" para dar início à sinfonia argumentativa que o gênero Artigo de opinião pede. Convidei minha colega, a professora Tais Põchutô Krahô, para reforçar minha fala em Mêhĩ Jarkwa (Língua Mãe) e facilitar o entendimento dos alunos. A mesma falou que a Olimpíada é um desafio novo para os alunos indígenas Krahô, já que estavam participando pela primeira vez. Ademais, respirei fundo e alcei a pergunta: "Vamos participar da Olimpíada de Língua Portuguesa?" E ouvi um "sim" daqueles silenciosos alunos que estavam sentados embaixo de uma mangueira; o brilho nos olhares floresceu mais do que os "sins", naquela aula iluminada apenas pelas lâmpadas externas da escola e pela vontade de fazer com que os filhos deste solo sejam argumentadores de suas histórias. 

Iniciei a sequência didática oferecida pela Olimpíada, incorporando às oficinas a realidade diferenciada dos meus alunos e sua língua mãe, demonstrando que para produzir um bom repertório sinfônico era preciso aperfeiçoar habilidades de escrita da língua portuguesa, como coerência, coesão e concordância nominal. Por conseguinte, lancei mão de outros artigos de opinião vencedores da Olimpíada, no qual os primogênitos da pátria leram suavemente. De repente, o aluno José Dílson exclama: “Professora, para nós é muito difícil!” Isso se deve ao fato de alguns não entenderem o significado de muitas palavras da língua portuguesa. Mas antes que eu os encorajasse, fui interrompida pelo sino, avisando que minha aula tinha terminado. 

Na volta para casa, o questionamento do aluno "martelava" minha mente, montei várias palavras com seus respectivos significados, como: conectivos, tópicos frasais, dentre outras palavras que eles pudessem ler e usar no decorrer do texto. Criei uma orquestra sinfônica exemplificativa, no qual a música que aguçava os ouvidos dos meus tímidos e silenciosos alunos era a característica estrutural do gênero artigo de opinião, como: posicionamento diante do tema, argumento que sustenta a tese e, por último, uma síntese que apresenta a solução para o problema. E assim, a orquestra foi produzindo sons. 

Pesquisei textos argumentativos sobre diversos assuntos, para que meus estudantes lessem e apresentassem seus argumentos afinados, utilizando as duas línguas no "Palanque da Leitura", projeto que eu já desenvolvo na escola. Um vaivém de argumentos tomou conta daquele palco como uma sinfonia ritmada. Hora da essência da língua mãe aguçar mais o ouvido da platéia. Logo começou a surgir novas palavras da língua portuguesa no vocabulário dos calouros. 

Em um determinado momento, as aulas mudaram de ritmo e a sinfonia foi ritmada por saberes tradicionais representados no universo cultural com narrativas orais indígenas, protagonizada com o ritual Pàr Cahàc (Ritual de fim de luto), em que a comunidade institucionalizou-se como escola, promovendo os saberes culturais e o uso da língua materna, no qual os alunos interpretaram um dueto fortalecendo a cultura do lugar com uma educação indígena que é permeada pelo multiletramento e o bilinguismo. De acordo com a pesquisadora Eunice Dias de Paula: "A interculturalidade, quando pensada no cotidiano de uma escola indígena, está intrinsecamente ligada à questão dos conhecimentos"1

Desse modo, os educandos retornaram para a sala de aula com um rico capital cultural para ser lapidado e incorporado às oficinas da Olimpíada, no qual argumentaram sobre a relação do indígena krahô com a natureza realizada através dos rituais. Diante disso, pedi aos alunos que expressassem suas angústias baseando-se na realidade vivida na comunidade e em algo que estivesse interferindo nas manifestações culturais e no estilo de vida do povo Krahô. Daí surgiram muitas questões polêmicas, dentre elas a destruição do meio ambiente nos arredores da Reserva Krahô.

Aprofundamos o conhecimento sobre artigos de opinião, analisando suas características linguístico- discursivas e a abordagem dos argumentos citados sobre os temas. Os alunos fizeram pesquisas com anciões da comunidade, uma verdadeira biblioteca viva, para fortalecer as argumentações sinfônicas do gênero sobre as questões polêmicas. Portanto, com toda essa bagagem, estavam prontos para transcrever os acordes da fala para a folha em branco que o esperava em sala de aula. 

A folha em branco começou ganhar cor com o tracejado da caneta, e a nossa rotina tornou-se uma maratona percorrida em dois turnos na escola. No decorrer de um, as aulas de reforço eram intensas, tornando às vezes o tempo curto para nós que festejava cada linha transcrita. 

A emoção tomou conta do meu coração, quando numa tarde ensolarada e quente do mês de agosto, refletia na pupila do meu olhar a imagem daqueles alunos escrevendo seus textos, mais uma vez sentados embaixo de uma mangueira. O acalento do meu coração era ver a evolução dos meus aprendizes. Dentre eles, uma aluna grávida de oito meses destacava-se por estar ali naquela aula de reforço fazendo sua produção, isso tudo era uma "injeção" de ânimo para mim. 

Outro momento singular foi quando meus colegas cederam seus notebooks e a sala dos professores para se tornar um "anfiteatro", no qual os alunos fizeram as digitações dos seus textos. Aquela pequena sala foi preenchida por sentimentos de alegria e ansiedade, que transbordavam através dos gestos expressos por aqueles que estavam tendo o primeiro contato com aquele equipamento tecnológico. 

A minha mente percorre toda essa caminhada repleta de sinfonia argumentativa, desafios, aprendizagem e conquistas, protagonizadas através da Olimpíada de Língua Portuguesa. Também por aqueles alunos simples, porém, de cultura rica, que vivenciam uma educação diferenciada, muitas vezes em uma sala de aula instituída em locais sem paredes e muros, cobertos apenas pelo teto verde das árvores. Portanto, alegro-me em ensinar e aprender com os mais simples, que para mim, são os mais importantes.

_____________

1 - PAULA, Eunice Dias de. A interculturalidade no cotidiano de uma escola indígena. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-32621999000200007.

 


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