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Aos sessenta e oito do segundo tempo - E agora, professora, o sonho acabou?

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Assunto: null
Autor(a): Márcia Cristina Fassbinder Zonatto

EE Angelina Franciscon Mazutti 

Campos de Júlio/MT 

 

“E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José?”. É com este maravilhoso poema de Drummond, o qual de certa forma tem muito a ver com a minha trajetória durante a 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, que inicio este relato. Durante os 68 dias de paralisação, devido à greve dos servidores de educação, uma pergunta não queria calar: “E agora, professora, o sonho acabou?”. Esta incógnita soava em meus ouvidos como uma melodia da sinfonia de Beethoven. Confesso que andei de mãos dadas com o desassossego durante todo esse período, pois, ao mesmo tempo em que lutávamos por melhorias na educação mato-grossense, vivíamos cenas de angústia em relação ao andamento das oficinas da olimpíada.

Confesso que andei de mãos dadas com o desassossego durante todo esse período

Após realização de minha inscrição junto à Olimpíada, debrucei-me sobre o material disponível no Portal Escrevendo o Futuro. Aproveitei e me apossei de muitos saberes que ainda eram desconhecidos em minha prática pedagógica, no tocante ao gênero memórias literárias. Cuidadosamente, detalhei cada uma das etapas do trabalho, apresentei o gênero que seria estudado, iniciei a alimentação temática, selecionei os textos "Transplante de menina", de Tatiana Belinky, e "Parecida mas diferente", de Zélia Gattai, tirei cópias e, em seguida, realizamos a audição deles.

Dei continuidade com as interrogações sobre as características e informações relevantes nos textos; chamei atenção para as marcas linguísticas, as figuras de linguagem, os pronomes e verbos; explanei sobre as diferenças entre relato histórico, diário e memórias literárias, a partir do relato "O mercador de escravos", deAlberto da Costa e Silva, do diário "Minha vida de menina", de Helena Morley, e de "Memória de livros", de João Ubaldo Ribeiro. Acredito que a partir desse momento, com a diferenciação desses gêneros, os alunos conseguiram ver uma luz no final do túnel, uma vez que, em seus depoimentos, eles arriscaram-se em dizer que agora estavam preparados e era só partir para a escrita.

os alunos conseguiram ver uma luz no final do túnel, uma vez que, em seus depoimentos, eles arriscaram-se em dizer que agora estavam preparados e era só partir para a escrita

Ouso dizer que estes alunos, apesar de algumas dificuldades, são os melhores - aos olhos dos pais, os filhos refletem a sua imagem; e aos olhos do professor, os alunos também serão reflexos de si. Hoje, tenho certeza, mais do que nunca, que o bom relacionamento que tenho com eles foi um ingrediente fundamental para o crescimento deles e para incendiar a chama olímpica dentro de cada um dos meus ousados e insaciáveis alunos em busca de conhecimento.

Acrescentei que todos nós temos lembranças, episódios, fatos pitorescos, nostalgias - sejam das brincadeiras da infância, de uma viagem ou de lugares especiais. O importante é saber que todos nós temos registrado em “nosso HD”, chamado memória, muitas lembranças marcantes que valem a pena serem reveladas. Além dos registros da memória, possuímos no seio da comunidade marcas de transformação, objetos que permitem a aproximação com o passado.

Além dos registros da memória, possuímos no seio da comunidade marcas de transformação, objetos que permitem a aproximação com o passado

Partimos para o momento dos vestígios do passado. Deleguei aos alunos uma expedição investigativa com familiares, vizinhos, amigos e pessoas próximas de seu convívio, a fim de resgatar objetos antigos, fotografias dos moradores, bem como de lugares. Orientei-os, caso encontrassem esse material, que pedissem emprestados esses objetos para realizarmos uma exposição na sala de aula. Dada a tarefa, lá se foram os alunos. Confesso que gostaria de ser uma “mosquita” para segui-los nessa missão que lhes foi delegada.

Chegada a hora do reencontro, eles trouxeram em suas bagagens depoimentos de alguns pioneiros do município. De posse do material coletado, organizamos uma pequena exposição na própria sala de aula. Elegemos o título: “Vitrine da Saudade”. Foi gratificante ver um pouco da história de nosso município e dos pioneiros exposta ali sobre as mesas. Tudo bem organizado: jornais, revistas, lampiões, ferro à brasa, relógio solar, a velha picareta, foices, machados, serrotes, as motosserras e as fotografias das primeiras casas, comércios, escolas, igrejas, etc.

Após esse momento tão importante para os jovens escritores, é chegada a hora das primeiras palavras contemplarem o espaço em branco da folha de caderno. Dessa forma, pude constatar que muitos dos alunos já tinham se apossado das características do gênero. Foi a hora de adentrar na parte da menção ao plano global do texto de memórias literárias. Realizei cópias do texto "O valetão que engolia meninos e outras histórias de Pajé", de Kelli Carolina Bassani, aluna semifinalista da 3º edição do Prêmio Escrevendo o Futuro - 2006. Recortei-as e entreguei aos grupos para que eles organizassem o texto seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos. Em seguida, com o texto já montado sobre as mesas, coloquei o CD para audição. Assim, os alunos puderam verificar se a ordem em que haviam montado o texto estava de acordo com o original. Dando sequência, solicitei que grifassem no texto os trechos que situa o leitor no tempo e espaço, trechos esses que remetiam às lembranças do entrevistado.

Em uma roda de conversa elaboramos as questões que norteariam a entrevista. Questionário pronto, os alunos foram a campo entrevistar os pioneiros de nosso município. De posse dos dados coletados, iniciaram a retextualização. Para mim e para os alunos foi uma verdadeira recapitulação da história de Campos de Júlio, contada à luz dos pioneiros que por aqui desbravaram em meados da década de 80. Histórias fantásticas! Para registrar essas informações, publicaremos um livro artesanal, intitulado Retrospectiva - passado e presente, a quem pertence?, com todos os textos produzidos por eles.

Histórias fantásticas! Para registrar essas informações, publicaremos um livro artesanal, intitulado Retrospectiva - passado e presente, a quem pertence?, com todos os textos produzidos por eles


Pânico quando ouvimos nos bastidores da escola o comunicado: “Paralisação geral". Foi quando os questionamentos não queriam calar. Os alunos queriam saber como ficariam as produções. Eram tantas perguntas que eu não sabia o que falar, então preferi me calar por alguns instantes e fiz uma retrospectiva das oficinas que havíamos feito - momentos inesquecíveis, pensei eu cá, e disse-lhes que, caso quisessem, as orientações e reescritas poderiam ser mediadas pelo bate-papo do Facebook e pelo aplicativo Whatsapp. E foi assim, durante os 68 dias. Consegui orientá-los, na porta de casa, na rua, no mercado, durante as caminhadas. Aconselhei que visitassem o Portal Escrevendo o Futuro e que fossem ousados e se apossassem do conhecimento ali disponível.

Retornando às aulas, reunimo-nos e cada um pode contar um pouco de sua trajetória na reescrita do texto final. Nesse momento, aos 68 do segundo tempo, foi preciso dar os últimos retoques aos textos. Dei aos alunos os critérios de avaliação do gênero e solicitei que observassem se o texto estava dentro dos parâmetros exigidos.

E, agora, professora, o sonho acabou? Não me restam dúvidas: mais convicta do que nunca, digo que o sonho está apenas começando, pois recebi a notícia de que o aluno Luiz Henrique, menino ousado, foi entrevistar - sabem quem? - o prefeito, em pleno horário de expediente, em seu gabinete, no Paço Municipal. Até cafezinho tomou lá, sentindo-se gente importante. É com ele que superei as turbulências que por aqui passaram e agora estou com aquele friozinho na barriga, prestes a alçar voo para as próximas etapas da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro.


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