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Óculos de leitura: A literatura e os leitores jovens

Óculos de leitura: A literatura e os leitores jovens

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Maria Zélia Versiani Machado é professora da Faculdade de Educação da UFMG e pesquisadora do Ceale
(Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita) da FAE/UFMG.

O mundo ia lhe ensinando assim:
dava a ele um encanto e depois o quebrava.
João Anzanello Carrascoza


Se nos reportamos à infância, sabemos que, antes de aprender a ler, a imaginação criadora e a exploração sonora e semântica próprias das brincadeiras infantis se misturam à descoberta do mundo e com ela se confundem. É assim que no colo da mãe, do pai, dos avós, palavras, ritmos e movimentos produzem elos prazerosos entre o adulto, que já está no mundo, e a criança, que quer se sentir nele, ao som de versos como: “Serra, serra, serrador, quantas tábuas já serrou?”. A princípio, não interessa à criança o significado das palavras, mas a sonoridade da sequência, que embala o movimento de ir e vir e produz sensações alternadas de medo e de segurança. Reconhecidas as relações entre as formas orais e escritas da literatura, não há como negar que para a criança pequena a porta de entrada para o universo da literatura se orienta pela experimentação essencialmente lúdica e poética da linguagem.

Sabendo da força dos repertórios orais na formação do gosto pela literatura, muitos poetas reforçaram, em suas obras, o forte lastro da literatura infantil com as “fórmulas” poéticas da oralidade, que tanto atraem a criança pequena, em composições em que voz e gestos são complementares. No âmbito das narrativas, contos para crianças podem ser ouvidos, desde muito cedo, pela voz do adulto; vistas em filmes e desenhos animados nas telas; lidas em edições de obras que contam e recontam as histórias infantis. As narrativas se misturam à vida na infância e cumprem, assim, o papel de mostrar que a vida tem seus sabores e dissabores.

Se essa dimensão afetiva da linguagem foi explorada antes, durante e depois da alfabetização, será muito mais fácil dar continuidade à experiência anterior de quem já vem descobrindo o mundo e busca respostas para questões de difícil explicação, que a literatura tenta dar. Entrar no mundo letrado pela porta da literatura gera um efeito simbólico em que a escrita constitui experiência da subjetividade e da alteridade, que repercutirá por toda a vida. No entanto, é bom lembrar que para o bem, se a experiência foi prazerosa; para o mal, se se impõem objetivos de natureza diversa do da leitura literária, que anulam a condição de abertura do texto, em mediações malsucedidas. Na infância, a escrita surge, assim, não como um código descolado da vida do leitor, ela é a linguagem que possibilita conhecer o mundo e a si próprio, na identificação com personagens, no envolvimento com os sons, com os ritmos, com as rimas; enfim, no contato com a ficção e a fantasia.

Tal como sucede com outros aprendizados, é sempre bom ressaltar que se aprende a gostar de histórias inicialmente pela voz do adulto, leitor já conhecedor de repertórios de textos ficcionais e poéticos, que apresenta à criança e ao jovem não só as narrativas e os poemas, mas também os suportes onde eles são registrados, onde são dados à leitura. Daí o acesso a livros, telas, suplementos de jornais, folhetos, enfim, a todo e qualquer portador de texto da literatura, também fazer parte desse processo, o que amplia significativamente o que se concebe como aprendizado da leitura literária. E não paramos por aí, pois esses portadores de textos têm modos de circulação próprios que, para aqueles que iniciam o contato com o mundo das letras, não se assimilam tão facilmente, sobretudo quando essa circulação depende de práticas institucionalizadas de leitura como as da escola, das bibliotecas e de outros espaços sociais de leitura, que se distanciam daquelas garantidas no ambiente familiar.

Isso tudo não significa que para se tornar um leitor o jovem tenha que necessariamente passar pela experiência anterior, daí a existência de pontos de partida, no plural. A experiência literária pode ser adiada e, em contextos de formação, é muito comum encontrar leitores que descobrem a literatura muito depois da infância, quando já se tornaram jovens ou adultos. Saber das trajetórias diferenciadas ajuda os formadores de leitores a encontrar estratégias adequadas para favorecer interações mais significativas e prazerosas de leitura literária, a começar pela melhor escolha de sugestões que fazem a seus alunos.

Silviano Santiago, em texto sobre a riqueza da viagem simbólica e a frustração da viagem real, afirma que:

para o adolescente, a leitura acaba sendo um prenúncio da viagem que fará, ou nunca fará. Depende. Caso seja um ávido leitor de romances, terá conhecido na intimidade das aventuras rocambolescas não apenas outras cidades do seu próprio país, como outras cidades do mundo. Terá tido acesso a vários pontos de vista que descrevem a cidade que lhe apetece como uma obsessão. Terá lido variados autores que a descrevem e a fazem funcionar com as voltas e as velocidades programadas das hélices de um liquidificador. Terá, ao final de algum tempo, um panorama mais rico daquela cidade que do bairro onde nasceu e vive. (1998)


No entanto, é preciso completar: não se nasce “um ávido leitor de romances” e fazer ou não viagens simbólicas não é apenas uma decisão pessoal. Sabemos que para os jovens se apropriarem de determinados bens simbólicos, um passaporte ajudaria muito na realização dessas viagens.

Grande parte das crianças e dos jovens só tem acesso a livros de literatura quando ingressa na escola. Cabe, então, a esses espaços de leitura a promoção de condições que possibilitem o contato pleno com os livros, preparando o caminho para a leitura literária que se quer ampliada a cada ano da escolaridade. Sabese que essa preparação é fundamental para o prosseguimento do gosto pela leitura literária nos anos seguintes ao da formação inicial.


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