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Autora: Elizete Vilela de Faria
28 Abril 2021

Elizete Vilela de Faria Silva é formada em Letras e especialista no Ensino de Língua Portuguesa (CEPEP/FECF), professora da Rede Municipal de Ensino de Divinópolis (MG), e mediadora do curso on-line “Caminhos da Escrita”, do Programa Escrevendo o Futuro.


— Bom dia, mãe, tudo bem? Precisamos conversar sobre as atividades remotas de seu filho, pode ser?

— Ô, professora, desculpa. Tô no serviço, pode ser de noite?

— Pode sim, que horas posso ligar novamente?

— Liga lá pelas nove. Paro lá pelas seis, mas vou a pé e quando chegar vou fazer janta e arrumar umas coisinhas. Nove horas é bom que dá pra gente conversar tranquilo. Cê não se importa não né?

— De jeito nenhum, ligo às nove então. Obrigada.

Esse é um dos diálogos que tive com as famílias de meus alunos durante o período de atividades remotas. Está reproduzido na íntegra, mas preciso confessar um detalhe: eu menti. A verdade é que eu me importava. Não por ter que voltar a ligar, mas pela realidade revelada por trás daquela conversa. Realidade essa que se mostrou ainda mais inquietante quando liguei à noite e descobri que a família tinha apenas um celular. Por isso, os filhos só faziam as tarefas depois que a mãe chegava do trabalho. Com a voz aparentemente resignada, a mãe também me informou que a internet “era pouca, mas isso não era muito problema porque usava o Wi-Fi da patroa para baixar os exercícios. Assim, quando os meninos iam fazer, não gastavam a internet. Mas eles ficam enrolando para fazer”. Este, aliás, havia sido o motivo de minha ligação: a falta de devolutiva das atividades. Mas, ao ouvir o relato daquela mãe, essa passou a ser uma preocupação secundária. Coloquei-me no lugar dela e imaginei como deveria ser difícil trabalhar fora o dia todo e chegar em casa com a responsabilidade de, além de fazer as tarefas domésticas, ajudar os filhos com as atividades escolares. Não me senti menos desconfortável ao me colocar no lugar dos meninos e me imaginar tendo que dividir um celular, à noite, para fazer os exercícios propostos. 

Esse episódio é um exemplo dos inúmeros desafios do ensino a distância, que com o isolamento social surgiu, imperativamente, diante de nós. Quando relembro o caminho percorrido até aqui me sinto desafiada e inquieta com tudo que estamos vivendo. Mas, arrisco-me a dizer que tenho uma certeza: a escola jamais será a mesma. Muita coisa mudou na maneira de construirmos o ensinar e o aprender. Mudou, sobretudo, a forma de nos olharmos. Escola, alunos e famílias já não se veem da mesma forma de antes. Passamos a compreender melhor a importância do papel de cada um.

Essa certeza torna-se ainda mais forte, quando direciono o meu olhar para o tempo e desenho o caminho percorrido neste ano escolar tão atípico.

Olhar para o passado: início do ano letivo

Lembro-me perfeitamente do primeiro dia de aula: o pátio da escola, hoje silencioso e vazio, estava repleto de sorrisos de adolescentes que se abraçavam e conferiam as listas de turmas. “Peguei você de novo”, diziam alguns de meus alunos do ano passado, ao mesmo tempo em que corriam para me dar um abraço. (Abraços, ai, que falta fazem!)

Os dias que se sucederam, seguiram uma rotina cuidadosamente planejada: apresentação da turma, diagnósticos, elaboração dos combinados e aulas, várias aulas. Eu, os alunos, os cadernos, a lousa e o giz. Todos juntos, dividindo o mesmo espaço, sem imaginar que em breve existiria uma tal de “distância de segurança”.

De repente, algumas palavras, hoje tão presentes em nosso cotidiano, começaram a pipocar na sala de aula: Coronavírus e Covid-19; pandemia e isolamento social. Entre uma conversa e outra, um aluno chegou a dizer “Esquenta não, gente. Isso é coisa de rico.” Não era. E no dia 17 de março tivemos a nossa última aula presencial.

Esse passado, embora ainda tão próximo, já me parece distante e revisitá-lo provoca certa angústia. Fico com a impressão de que lá deixei algo que jamais poderei buscar. Talvez, seja porque quando entramos na quarentena não imaginávamos que ela seria tão longa. Sinto que não me despedi adequadamente de meus alunos. Gostaria de ter lhes dito, olhos nos olhos, coisas como: “Não vai ser fácil, mas vamos conseguir”, “Não soltem as mãos, continuamos a ser uma turma”.

A quarentena foi se estendendo e, em meados de abril, outro grupo de palavras passou a fazer parte das conversas entre educadores. Aulas, que até então eram adjetivadas apenas pelos conteúdos curriculares, ganharam novos adjetivos: remotas, síncronas, assíncronas, não presenciais. As cadeiras, organizadas em círculos para as reuniões de planejamento, foram substituídas por pequenas janelas, numa sala virtual. Ficamos íntimos do Zoom e do Meet. Para dar sequência ao ano letivo, as gerações X, Y e Z teriam que trabalhar juntas e reaprender tanto a ensinar quanto a aprender.

Sempre fui aberta às mudanças, mas minha primeira reação foi de apreensão. Preocupava-me o fato de a escola, principalmente a pública que atende ao Ensino Fundamental, não estar familiarizada com a modalidade de ensino a distância.

Nosso primeiro passo foi entrar em contato com os responsáveis pelos alunos para sondar o tipo de ferramentas digitais às quais tinham acesso. Surgiu a primeira barreira: a dificuldade de comunicação. Muitos números não atendiam e outros, nem sequer existiam. Teve ainda o desafio do “fuso horário”: muitos pais estavam no trabalho e tínhamos que ligar à noite. Foi uma força-tarefa que consumiu vários dias e dezenas de ligações. Às vezes precisávamos ligar para uns cinco números até conseguir contato com alguns alunos. Para outros, não conseguimos. Passo seguinte? Ir até a casa deles. Tarefa que ficou a cargo da coordenadora, que foi três ou quatro vezes num mesmo endereço.

Após esse contato inicial, montamos um grupo de WhatsApp para cada turma. Naquele momento, um novo desafio surgia: a dificuldade de conectividade e acesso à internet que alguns enfrentavam. Isso acabou limitando as plataformas e materiais que poderíamos utilizar. “Professora, vídeo muito longo, meu celular não baixa”; “Meu pacote de internet é limitado”; “O celular que uso é da minha mãe e ela só chega de noite”, “Tenho três irmãos e usamos só um celular, vou atrasar a tarefa”, esses são exemplos de problemas que nos foram reportados. Diante disso, decidimos por consenso que, inicialmente, o envio de atividades dar-se-ia por telefone e grupo de WhatsApp.

A partir daí, iniciou-se um trabalho incansável na tentativa de fazer essa nova forma de ensinar dar certo. Paralelamente ao papel de professor, coloquei-me também no papel de aluna. Perdi a conta de quantas lives e tutoriais assisti e dos aplicativos que baixei buscando aprimorar as aulas. Elaborei apostilas, gravei videoaulas e até me arrisquei a participar de teleaulas exibidas aqui na região – estratégia que a nossa Secretaria de Educação adotou para tentar ampliar o acesso dos alunos ao ensino a distância. Mas, tudo isso não foi suficiente para chegarmos a todos. Seja pelas barreiras sociais e tecnológicas, seja pelas barreiras emocionais e motivacionais, muitos não foram alcançados.

Olhar para o presente

Após alguns meses de ensino remoto e de testar diferentes formas para atenuar a distância entre o que gostaríamos e o que é possível fazer, posso dizer que conseguimos avançar. Fizemos um cronograma para o envio das atividades e organizamos plantões diários. Devido às dificuldades de acesso à internet que muitos alunos possuem, ainda não conseguimos transmitir aulas on-line, mas foi possível montar pequenos grupos de estudos para tirar dúvidas e explicar as matérias. Elaboramos devolutivas em vídeo e escritas e periodicamente convidamos representantes dos alunos para nos darem um feedeback do nível de dificuldade e interesse em relação às atividades propostas. Aos poucos, estamos conseguindo ampliar o letramento digital de alunos e professores e nos arriscando a utilizar outras plataformas para a realização das atividades. Uma das observações que fiz nesse processo, foi que, apesar de pertencerem a uma geração que já nasceu conectada, nossos alunos não estavam habituados a utilizar a tecnologia como ferramenta de estudo e isso tem sido aprendido pouco a pouco.

Avançamos! Mas ainda temos muitos desafios. As desigualdades, que já eram tão visíveis no ensino presencial, tornaram-se ainda mais excludentes. Em uma era altamente tecnológica, muitos alunos ainda não têm acesso à internet e, mesmo recebendo cópias impressas das atividades, não conseguem, de fato, estarem inclusos no processo. E há aqueles, cuja aprendizagem continua sendo negligenciada pela família, que lhes nega apoio e orientação, tornando-os invisíveis dentro do próprio lar. Mas, por outro lado, temos muitos pais que abraçaram o ensino remoto e se desdobram para ajudar seus filhos.

Clarice Lispector tem razão: “cabem muitas coisas em um olhar”. Mas vou parando por aqui. Chegou a hora de olhar para frente e desenhar nosso futuro. Trabalhemos para que ele seja menos desigu@l!


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