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Autora: Heloisa Pires Lima
24 Março 2021

Heloisa Pires Lima é doutora em Antropologia Social, atua na área editorial, desde 1995, como escritora, editora e pesquisadora da área.


Vendo as gêmeas no canal do YouTube “Pretinhas Leitoras”, lembrei-me do meu brincar em tempos idos. A televisão ainda não era protótipo para a diversão, mas entre amigas dividíamos comidinhas de folhagens, corda de pular, bebês de borracha e livros. Então, chegaram os gibis. A Disney entrou em nossas vidas, arrebatadoramente. Uma vizinha era igualzinha à Maga Patalógica. Outro, o próprio Gepeto, ele copiava os personagens em placas de madeira, recortava os contornos e os coloria antes de seguirem para as paredes dos quartos da gurizada. De nossa caseira disneylândia até hoje, eu sei que as histórias em quadrinhos (HQs) foram apenas uma das diversificações da marca. De parques temáticos à plataforma de streaming, ela foi muito além das singelas animações, desde 1923. E todo esse maravilhamento em inúmeras linguagens pode ter o foco ajustado. São representações culturais, argumentos que informam, em grande escala, uma geração.

No repertório Disney, vale notar, o Pato Donald não é apenas um pato. Ele é o Donald Fauntleroy Duck, marinheiro, jovem, hétero e mal-humorado, cujos atributos icônicos remetem, de imediato, à ascendência europeia e não asiática ou africana. Há embutido nele certo modelo de humanidade. Visto que África ou Europa são ideias construídas por contextos produtores de significação e de efeitos históricos, elas circulam nos ambientes educativos, em especial, nas bibliotecas, videotecas, brinquedotecas que atuam, tal qual os comportamentos, para a percepção de uma ou outra raiz.

Veja que a explícita referência “África da Disney” surgiu na 32ª- animação com o título final O rei Leão (1994). Sobrepondo o drama Hamlet, de Shakespeare, a trama centra uma monarquia onde o herdeiro é acusado pela morte do pai, armação do tio usurpador do trono. O jovem expulso realiza uma longa jornada de crescimento até reordenar o direito. Mas que África é essa?

O primeiro Rei Leão

Grosso modo, a fauna, clichê de seu exotismo, salta na paisagem entre uma acácia aqui, um Kilimanjaro¹ acolá. Entre as antropomorfizadas, Rafik, o macaco mandril, conselheiro real, faz as vezes de um espírito muito sabido com trejeitos de mestre zen. As escuras hienas, carregadas de sinais negativos, se opõem à fofura maximizada dos leões dourados. Aliás, dos três dubladores negros, Whoopi Goldberg interpretou a líder do grupo. Porém, a gradação notória está nas jubas. A do maldoso Scar, de olhos verdes, destoa dos parentes “do bem”, quase todos arruivados. Os semblantes justapostos auxiliados pelo áureo literal dos leões incluem Nala, a namorada de olhos azuis. São tipos que reportam distantes realezas negro-africanas.

Coube, então, à musicalidade a tarefa de reaproximação. A “Auimaue” (1939) composta por Solomon Linda, da sociedade Zulu, aliás, alvo de enorme polêmica relacionada ao usufruto dos copyrights, foi o sucesso. Todavia, quase todas as demais são de Elton John, inclusive a de expressão suaíli Hakuna Matata. No site oficial ele reitera serem “canções ultrapop, para crianças e adultos se divertirem”.

Esse retrato de África para crianças, mesmo a nossa interna, ganha melhores contornos se relacionado à produção europeia de Michel Ocelot, que simultaneamente, publica o livro Kiriku e a feiticeira (Milan, 1999) e o filme de mesmo nome (fim de 1998)².

Áfricas em perspectivas

Michel Ocelot costuma dizer que o herói minúsculo e nú, que ainda dentro do ventre fala com a mãe, emergiu das narrativas populares da África Ocidental, mais propriamente na Guiné, onde ele viveu dos 6 aos 12 anos. Das vagas memórias desse encantamento, ele cita o que lia: François-Victor Équilbecq, com narrativas recolhidas por administradores coloniais franceses, e o maliense Amadou Hampâté Bâ, no livro Contes initiatiques peuls.

Por trás da tela, a direção musical do senegalês Youssou N’Dour privilegia a integridade e a força dos instrumentos tradicionais. Para as dublagens, atores africanos de língua francesa preservam sotaques. Dentro, a inovação está na construção do corpo africano. A postura corporal, como o andar dos altivos guerreiros, preenche de positividade a referência. A expressão facial afetuosa de Kiriku facilita identificações por qualquer infância.

A perspectiva troca uma África genérica pela circunscrita sociedade senufo encontrada na Costa do Marfim, Burkina Faso e Mali. Entre outros elementos, lá está o Grande Calao da mitologia senufo, pássaro cujo longo bico encontra o ventre.

O tema do bem e do mal não é tratado de modo maniqueísta. Embora bem localizados, a complexidade humana aflora dinamismos. A malvada Karabá é também a mulher que sofreu uma violência cujo sofrimento formou um espinho alojado no eixo do corpo. Os aldeões, às vezes, tomam atitudes nada bondosas, os velhos nem sempre são sábios, a busca voluntariosa de Kiriku recebe nuanças que vão da coragem ao medo, da invulnerabilidade à fragilidade. Em alguns momentos, o contraste entre o personagem decidido e o conformismo dos parentes em meio aos afazeres cotidianos opina sobre a saga do devir africano entre o fatalismo e a emancipação tomada pelas próprias mãos. O bordão dos por quês na jornada protagonista estrutura o herói: sagacidade, habilidade em armar estratégias ou agir com ingenuidade. A realização do feito é o que o torna um homem crescido. Destruidor de fakenews, ele derruba uma série de crenças dos aldeões, torna visível o invisível, penetra nos locais definidos como proibidos e desmancha poderes destrutivos.

Da vegetação regional aos pormenores da decoração ou do motivo dos tecidos demonstram a realização de pesquisa cuidadosa. Todavia, ela convive bem com as pinturas do artista francês Henri Rousseau (1844-1910). Paixão do diretor, o estilo de enfatizar o detalhe das cenas e a composição exacerbada dos tons está imbricado nas ilustrações.

Em comum com O rei Leão, certa orientalização para mediar o tema. O bebê Kiriku e o sentar em lótus do velho mestre deixam escapar o senufo. Mas, ambas as animações positivam o imaginário África. Todavia, a segunda rebate o tom generalista da primeira, pois a representatividade adensa a ótica da representação.

O rugido da Leoa

Nenhuma África para as infâncias é ipsis litteris a qualquer das realidades daquele continente e sim como ela foi percebida por um instante expandido na audiência que possa alcançar. A recriação, como considerou Youssou N’Dour sobre Kiriku, são imagens idílicas de uma África mítica e estilizada. Enfim, uma África do conto para crianças. Mesmo as histórias da carochinha, por mais realismos que possam incluir, são apenas meios para chaves emocionais angariarem amadurecimentos, ou se enclausurarem, de vez, no interior de algum sentimento com valor de realidade. A narrativa é um cantinho para lidar com as emoções, onde o tempo razão é lento porque encontra algo imensamente significativo como a ação da mitologia, fonte das fadas.

Clyde Ford, professor e terapeuta, em O herói com o rosto africano (2000), compreende o discurso diaspórico como narrativa mítica. A jornada de recuperação de uma face enfrenta injustiças e façanhas de um passado recriado, cujo herói ou heroína encontra e derrota forças espetaculares e depois regressa com a dádiva preciosa, conquistada a duras penas. No diagnóstico do quiroprático, a escravidão africana gerou, para os nela envolvidos, uma área de dor crônica. O tratamento precisa desbloquear narrativas abafadas. Portanto, esculpir imagens acerca das origens continentais é produzir discursos políticos em torno das históricas relações raciais e de classe sem perder de vista a dimensão profunda que elas transportam.

Assim é o sui generis álbum visual de Beyoncé, Black is King (2020), parte de O rei Leão, e também realizado e distribuído pela Disney após a versão em 3D (2011) e o remake fotorrealista (2019)³. A proposta não apenas complementa, mas reinterpreta a mesma história. Em primeiro plano, a curadoria estrelar prospecta a representatividade ativa buscando o talento de profissionais das artes visuais para além da presença trivial musical, dança e a dramaturgia. Afro-diversidades geram uma espiral de símbolos, releituras de releituras embaladas em suntuosidade. O narrador da unidade estética fala a partir da história afro-americana. Uma das memórias refaz o nado sincronizado dos anos 1950 em torno de Esther Williams, marca de beleza do país. Frações como essa remetem, com a mesma intensidade, ao passado e ao futuro que refaz a lógica do “esse lugar não é seu” para “essa cultura é a minha também”. A inversão afirmativa transforma o proscrito em rei. Simba, aqui, é um menino preto aprendiz do orgulho ancestral. Quem é você é a pergunta. Você é parte de algo muito maior, é a pista. A gala do leão é opulência pura cujas composições do álbum são, literalmente, trilhas. O resultado só pode ser compreendido pelo seu oposto, ou seja, a superabundância de desqualificações históricas disponibilizadas pela ficção. Black is King repõe a ausência de África das três versões Disney anteriores. O realce em afro-humanidades, suas filosofias, estéticas, musicalidades etc., no plural e plenamente reconhecíveis. E se não forem? Estude!

É relevante, ainda, notar uma interlocução, nesse patamar Disney, com Pantera Negra, o primeiro super-herói negro dos quadrinhos criado pela Marvel Comics (1966) e com um filme de 2018. O elo ficou gritante após a morte de Chadwick Boseman, o Pantera Negra, ocorrida no meio deste artigo (28 de agosto de 2020). A fantasia, sucesso continentes afora, alicerçou exigências do ator como a de novos contratos garantirem 50% de profissionais negros. Assim como Beyoncé, a mãe de gêmeos, são produtores de modelos mentais para uma geração. Pois, a concretude do imaginário age sobre o modo de perceber a identidade, se construtiva ou não.

Logicamente, blockbusters sobrevoam uma infinidade de vidas simples, menos monárquicas e copiosamente íntegras em experiências comunitárias. Guardiãs de simbólicos potentes para representações culturais podem vir a ser estratégicas para o convívio entre populações reais.


1. Monte Kilimanjaro, situado no norte da Tanzânia, próximo à fronteira com o Quênia, é o ponto mais alto do continente africano.

2. O livro e o desenho animado contam a história de Kiriku, um menino muito pequeno que, embora tenha acabado de nascer, decide enfrentar a terrível Karabá, feiticeira que devorou seu pai e outros homens, secou a fonte de água e roubou as riquezas da vila.

3. A primeira versão de O rei Leão foi a animação de 1994. No ano de 2011, a produção foi relançada em 3D, para em 2019 ganhar um remake realista digital. Por fim, em 2020, a cantora estadunidense Beyoncé lança o filme musical e álbum visual Black is King, uma recriação da saga.


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