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Oralidade e ensino de língua portuguesa

Oralidade e ensino de língua portuguesa

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27 Setembro 2017

Falar na escola:
um pouco de história

Tratar da oralidade como saber escolar ou conteúdo de ensino de língua portuguesa é abordar um componente curricular presente na história desse ensino desde sua gênese, ainda em meados do século XIX, quando a disciplina língua portuguesa foi-se oficializando nos programas e currículos da nascente escolarização formal no Brasil.

Estudos sobre a história do ensino de língua portuguesa traçam o percurso pelo qual a linguagem oral foi moldando-se como objeto de ensino com base em saberes sobre os usos da palavra, mais especificamente, sobre o uso retórico da palavra, ou seja, sobre a técnica ou a arte de falar em público.

Quais instrumentos ou recursos didáticos eram empregados?

Exercícios de recitação, de leitura expressiva ou de leitura em voz alta e de composição oral (narrações, descrições, exposições, resumos etc.) são os instrumentos didáticos do professor de língua portuguesa para tornar presente e fazer circular o saber sobre oralidade na sala de aula.

A esses instrumentos associam-se estreitamente aqueles que dão a base material ao saber escolar sobre oralidade: as coletâneas, seletas ou antologias e os livros de leitura de textos considerados modelos de bem falar e bem escrever.

 

Quais funções a oralidade desempenhou?

A vocalização (ou oralização) desses textos-modelo tem pelo menos três funções didáticas, a saber:

  • o treino da pronúncia, da dicção e da fluência em leitura, sobretudo tratando-se dos anos iniciais de escolarização;
  • a fi xação dos temas ou assuntos dos textos (por exemplo, temas de natureza patriótica ou moral que buscavam contribuir na construção de uma identidade para a nação brasileira e de um caráter para o cidadão brasileiro);
  • a incorporação de modos de dizer considerados claros, corretos e elegantes, emprestados a autores renomados, em textos de diferentes tipos e gêneros.

Breve exemplo: A composição oral em Júlio Nogueira

Vejamos como parte dessas funções da oralidade aparece nos comentários e nas recomendações feitos pelo professor Julio Nogueira em seu manual A linguagem usual e a composição, publicado em 1929.

No capítulo “A composição oral”, o professor apresenta seu método de ensino que inclui ampla lista de “exercícios de elocução”, entre os quais se encontram: narração de um acidente; descrição de um passeio, de uma festa cívica, escolar, religiosa; discussão em torno de um “thema social”; pequenos discursos para “festas escolares ou familiares; brindes por ocasião de anniversario...”.

Esses exercícios encontram sua justificativa na finalidade de formação das gerações de jovens para o exercício público da linguagem oral. Nas palavras de Julio Nogueira:

 

Esses e outros exercícios, que hão de desenvolver consideravelmente a capacidade dos nossos jovens para o uso da palavra, prepararão decerto gerações melhores de homens públicos, que saibam exprimir-se com clareza, correcção e até com a discreta elegancia que a todos empolga. O homem que fala bem, seja na conversação vulgar, seja em tom oratório, impõe-se á consideração de todos. É mais facil encontrar leaders entre os oradores de turmas que entre os bisonhos colegas que apenas os applaudiam. Não esqueçamos que falar bem, expor o pensamento ou opinião sem esforço nem repetições ociosas, prender a attenção de todos constitue já a melhor das recomendações....

(Nogueira, 1929, p. 317. Grafia do original.)

Não é demais lembrar que, na conjuntura histórica brasileira de toda a primeira metade do século passado, a escolarização não alcança sequer uma parcela mínima da população: assim, tanto os “oradores de turmas”, os futuros leaders, quanto os “bisonhos colegas que apenas os applaudiam” não representam senão uma parcela privilegiada da elite urbana brasileira que tem acesso ao letramento escolar.

A oralidade revisitada: desafios atuais

Passados um século e meio de construção dessa tradição de ensino de língua portuguesa, começa a se desenhar, a partir dos anos 1980, a proposição de uma alternativa de tratamento da oralidade.

Qual oralidade ensinar?

Nessa alternativa que se desenha para o ensino de língua portuguesa, a oralidade adquire um estatuto autônomo em relação aos outros componentes curriculares tanto do ponto de vista do saber ou do objeto de ensino quanto do método de ensino (instrumentos didáticos e atividades).

Do ponto de vista dos objetos de ensino ou conteúdos, selecionam-se saberes relativos aos modos de funcionamento sociodiscursivo, à organização textual e aos recursos linguísticos de:

  • gêneros orais (formais e públicos), como o debate, a assembleia e a exposição oral;
  • gêneros textuais em que a oralidade é representada pela escrita, como aqueles da cultura popular ou oral: cordel, mitos, provérbios e lendas.
  • gêneros textuais em que a oralidade aparece estreitamente combinada com a escrita e com outros sistemas semióticos (imagens fixas ou animadas, gestos, cores, sons etc.), como ocorre com os gêneros das mídias impressa, televisiva e digital (HQs, programas televisivos, emissões videogravadas, jogos digitais, gifs, memes ou podcasts, filmes de animação etc.).

Do ponto de vista dos métodos de ensino, propõe-se que a abordagem da oralidade ocorra no seio de práticas de recepção e produção que reencontrem e ampliem as experiências e os repertórios culturais dos indivíduos que chegam à escola. Figura desse esforço é a necessidade que adquire o princípio de contextualização do saber pela proposição de percursos de ensino e de aprendizagem mais ou menos flexíveis, em sequências ou projetos didáticos.

 

Quais os desafios atuais?

Do ponto de vista didático, entre os desafios do tratamento da oralidade e dos gêneros textuais orais nas práticas de ensino de língua portuguesa, estão aqueles que remetem:

  • à natureza dos temas – próximos às experiências e aos interesses dos alunos e, ao mesmo tempo, distantes de umas e de outros pela complexidade de repertórios culturais que permitem mobilizar, o que pode permitir fugir, por exemplo, à redução do processo de produção da opinião à emissão de “contra” ou “a favor” desprovida de informação;
  • às estratégias e aos recursos textuais de formulação e reformulação dos repertórios temáticos gerados com vistas à exposição pública. Esse desafio supõe questões bastante instigantes, como a relação entre oralidade e escrita: note-se que o processo de produção do debate oral, por exemplo, ocorre imbricado à produção de um conjunto de textos escritos e orais, entre os quais, as notas escritas pelos alunos em seus cadernos e os diálogos orais que estabelecem nas atividades em grupo, quando do planejamento do debate.
  • aos modos de vocalização pública dos repertórios temáticos selecionados e (re)formulados, para um dado auditório. A elocução propriamente dita do gênero textual permite promover ações de apreciação das produções realizadas, à medida que elas ocorrem e ao final delas, ocasiões em que os alunos podem distanciar-se de suas próprias ações e daquelas dos colegas para pensar sobre elas (avaliá-las, ajustá-las, reforçá-las etc.).

Ensinar oralidade hoje: qual a finalidade?

Esses desafios didáticos desenham a faceta formal do tratamento da oralidade no ensino de língua portuguesa (formas de funcionamento e organização). Há, entretanto, outra faceta desse tratamento que é transversal aos desafios mencionados e que pode ser sintetizada na indagação: por que ensinar a linguagem oral?

Assim, para nós, professores, formadores de professores e pesquisadores do ensino de língua portuguesa, a pergunta central quanto ao ensino da oralidade não se reduz à delimitação de quais saberes selecionar ou à definição de quais instrumentos didáticos mobilizar, mas tem a ver fundamentalmente com a finalidade em jogo, ou seja, em favor de qual formação da criança e do jovem brasileiro se propõe ensinar os gêneros orais, com vistas à construção de que educação e de que sociedade brasileira.

 

Para saber mais

Documento consultado
NOGUEIRA, Julio. “Composição oral”, in: A linguagem usual e a composição. Rio de Janeiro: Livraria Editora Leite Ribeiro Freitas Bastos, 1929, pp. 311-322.

Sobre história do ensino de língua portuguesa
RAZZINI, Márcia de Paula Gregorio. O espelho da nação: a antologia nacional e o ensino de português e de literatura (1838-1971). Instituto de Estudos da Linguagem. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2000. Tese de doutorado.
ROJO, Roxane Helena Rodrigues. “Gêneros de discurso/texto como objeto de ensino de línguas: um retorno ao trivium?”, in: SIGNORINI, Inês (org.). Rediscutir texto, gênero e discurso. São Paulo: Parábola Editorial, 2008, pp. 73-108.
SOARES, Magda. “Português na escola – História de uma disciplina curricular“, in: BAGNO, Marcos (org.). Linguística da norma. São Paulo: Edições Loyola, 2002, pp. 155-177.

Sobre oralidade e ensino de língua portuguesa
BENTES, Anna Christina. “Oralidade, política e direitos humanos”, in: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, leitura e escrita. São Paulo: Contexto, 2010, pp. 41-53.
GOMES-SANTOS, Sandoval Nonato. A exposição oral – nos anos iniciais do Ensino Fundamental. São Paulo: Cortez Editora, 2012.
_____. “Modos de apropriação do gênero debate regrado na escola: uma abordagem aplicada”, in: Delta – Documentação de estudos em linguística teórica e aplicada. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, v. 25, 2009, pp. 39-66.
MARCUSCHI, Luiz Antonio. “Oralidade e ensino de língua: uma questão pouco ‘falada’”, in: DIONÍSIO, Angela Paiva; MACHADO, Anna Rachel; BEZERRA, Maria Auxiliadora (orgs.). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2000, pp. 21-34.
ROJO, Roxane Helena Rodrigues; SCHNEUWLY, Bernard. “As relações oral/escrita nos gêneros orais formais e públicos: o caso da conferência acadêmica”, in: Linguagem em (Dis)curso, v. 6, nº- 3, set./dez., 2006, pp. 463-493.

 

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