Especial Geni Guimarães

 

(...) Mas armada de alfabeto, vivo na espreita.

Traduzo intenções veladas,

Tiro do sol a peneira,

Continuo passo a passo,

portando minha bandeira:

Sou inteiramente negra. Brasileira.

(Versos do Trato, Poemas do regresso)

A escritora e professora Geni Guimarães é a homenageada da 7ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa como um reconhecimento à sua importante trajetória na literatura e na educação. Homenagear Geni Guimarães é presentear professoras, professores e estudantes com sua literatura enraizada de histórias vividas. É embrenhar-se na leitura de seus poemas e contos, palavras de alerta contra injustiças, preconceitos, violência, sofrimento, racismo. É admirar sua coragem (...) “Enquanto posso pensar,/escrevofalo (...) Poefaço/minhas histórias (...). É dar visibilidade ao seu apreço pela liberdade, diversidade, ancestralidade e militância. É reverenciar, esparramar sua escrita pelo mundo (...) “como setas indicando caminhos para nosso futuro de luta.”

“O que me bate no coração e nos olhos, eu escrevo.”

Geni e seus irmãos Dirceu, Zezinho e Cema.

Professora, poeta e ficcionista, Geni Mariano Guimarães nasceu na área rural do município de São Manuel, interior de São Paulo, em 08 de setembro de 1947. Filha de Sebastiana Rosa de Oliveira e Benedito Mariano de Camargo, Geni é a décima primeira filha entre doze irmãos, dos quais conheceu apenas 9. Aos cinco anos, mudou-se para Barra Bonita, onde passou a frequentar a escola. No caminho de quase uma hora e meia que percorria para estudar, comia as frutas que encontrava pelo caminho. Para complementar a renda, vendia maços de agrião colhidos pelo pai e dava aulas de Português para as colegas ricas, assim juntava dinheiro para o desejado “lanche de aliche” - um delicioso sanduíche de pão e sardinha.

Na contramão do que se pode imaginar, Geni não olha para sua infância com sofrimento. As aventuras na roça, o amor da família, os aprendizados na escola permeiam uma memória afetuosa sobre as vivências de criança.

 

Infância Acesa

De manhã, café minguado,

fraquinho, morno, cansado,

saltava do velho bule.

eu me apossava da brochura,

pés na estrada, terra dura

ia pra escola estudar.

 

Meninos fortes, bonitos,

barrigas fartas, redondas,

cortinas alvas em pompas,

mentiam-me um mundo novo

e me iludiam com igualdade sonhada.

Uma carteira envernizada

sutilmente me acurralava

nos desejos de senhores,

minha caixa com seis lápis,

 

 

se escondia envergonhada

ante outras caixas compridas:

trinta e seis lápis em cores.

 

E a tarde, de volta, em casa,

vendo meu jantar no canto

do fogão movido a brasas:

e adivinhando meu pai

rachando a lenha pro fogo

pés descalços,

chapéu roto,

eu não sabia porque

vinha um doer tão profundo

que o meu peito se estreitava,

sentia um desejo louco

de pegar aquelas brasas

e botar fogo no mundo.

 

“Eu comecei a escrever porque sim!”

Sebastiana Rosa de Oliveira,
mãe de Geni Guimarães

O ventre poético de sua mãe garantiu a Geni uma vida cheia de lirismo: as rimas do Repente enchiam a casa na hora do jantar e garantiam a diversão da família. Assim, “saltou a Geni poeta”.

Na dedicatória de um dos seus livros, Geni agradece a sua mãe: “Pelo útero, pelo leite, pela fé, pela paz, por essa herança poética que transcende.”

Por volta dos 6 anos, escreveu para o 13 de maio um poema sobre a Princesa Isabel, a quem idolatrava por acreditar que havia garantido liberdade à população escravizada. “Eu era inocente”, afirma a autora.

Jorge Amado, Cecília Meireles e José Mauro de Vasconcelos fazem parte do repertório que primeiro chegou às mãos de Geni, que se incomodava com alguns estereótipos sobre a negritude que permeavam as obras.

Geni iniciou sua carreira de escritora publicando seus primeiros trabalhos no Debate Regional e no Jornal da Barra. Ainda na adolescência, decide entregar para a professora de Língua Portuguesa um poema, na tentativa de ter sua produção reconhecida. Espera ansiosamente o momento em que a professora encontrará o texto, mas ao final da aula, quando a docente se levanta, o papel cai e é pisado pelo salto da mulher. Essa cena segue forte na memória da escritora, que costuma relembrar, numa espécie de vingança literária, que a professora ainda estava viva quando ela publicou seu primeiro livro, Terceiro filho. Para financiar sua obra de estreia, em 1979, Geni e o marido decidem vender o Fusca da família.

 

"Quando a gente escreve à mão, com letra cursiva, parece que alma da gente pinga e verso fica melhor"

 

Manuscrito do poema Contradição, de 1979,
publicado em Terceiro Flho.

Geni no lançamento de Terceiro Filho,
sua primeira publicação, em 1979.

Nos anos 80, Geni Guimarães passa a frequentar encontros de autores negros em São Paulo e aproxima-se do grupo Quilombhoje, composto por escritores como Cuti e Oswaldo de Camargo. Publica então dois contos no volume 4 dos Cadernos Negros, obra organizada pelo grupo.

"Quando eu percebi que eu me escrevia, que eu escrevia os meus familiares negros, então eu me firmei na literatura negra."

Entende-se por literatura negra, ou afro-brasileira, a produção literária cujo sujeito da escrita é o próprio negro. É a partir da subjetividade de negras e negros, de suas vivências e de seu ponto de vista que se tecem as narrativas e poemas assim classificados.

Foi num desses encontros em São Paulo, depois de ler o conto “O enterro da barata”, que Geni foi procurada para lançar um livro, como conta a autora em entrevista à Revista estadunidense Callaloo, em 1995:

 

“Quase morri de medo e na hora comecei a tremer diante das pessoas, da televisão e muitos meios de comunicação, e eu, numa mesa, além do mais, entre homens, eu era a única mulher da mesa e do interior, a pequena ali. Fiquei desesperada e avisei, de público, que eu não sabia falar sobre aqueles escritores que todo mundo estava falando, aqueles nomes difíceis; que eu só sabia fazer o meu trabalho. E li um conto chamado “O Enterro da Barata”, que é lindíssimo. [...] Então, quando terminei o trabalho estava sendo aplaudida de pé; pensei que fosse com outra pessoa e, nessa hora, apareceram três editoras querendo publicar meu trabalho.”

 

A autora então dedica-se à escrita de suas memórias e lança Leite do Peito, que depois viria a se tornar A cor da ternura, obra que recebeu o prêmio Adolfo Aizen e o Jabuti - maior premiação literária brasileira.

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Criada em 1978, e publicada anualmente e ininterruptamente desde então, a série Cadernos Negros tornou-se um marco, ao publicar contos e poemas de autoras e autores negros, tornando-se um dos principais veículos de divulgação da escrita afro-brasileira.

 

— Pai, o que que mulher pode estudar?

— Pode ser costureira, professora... — Deu um risinho forçado e quis encerrar o assunto.

— Deixemos de sonho.

— Vou ser professora — falei num sopro.

Meu pai olhou-me, como se tivesse ouvido blasfêmia.

— Ah! Se desse certo... Nem que fosse pra mim morrer no cabo da enxada. Olhou-me com ar de consolo. — Bem que inteligência não te falta.

— É, pai. Eu vou ser professora.”

Trecho do conto Alicerce.

Diploma do Curso de Formação de Professores Primários,
realizado no Colégio e Escola Normal de Barra Bonita, 1970.

Foi ainda menina, inspirada pelo pai, que Geni Guimarães decidiu ser professora. Formou-se no magistério em 1970 e ingressou, no início dos anos 90, na Faculdade de Letras, no município de São Manuel.

Geni afirma que a relação com os colegas de turma era tensionada - “não estavam acostumados a ver uma mulher negra como a melhor aluna da turma”. Geni atuou 28 anos como professora na Rede Estadual de São Paulo, passando por diversos municípios do estado, como Barueri e Embu das Artes.

Clique aqui para ler a entrevista completa

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“Sondadora do mundo”: uma conversa com Geni Guimarães

Num bate papo recheado de emoções, a homenageada da 7ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa fala sobre seu processo de escrita, memórias e a experiência como professora.

A entrevista foi guiada pela professora Lara Rocha e pela jornalista Mônica Cardoso.


Escrevendo o Futuro – Em outras conversas, a senhora afirmou que veio de um ventre poético. Como foi o seu primeiro contato com a literatura?

Geni – Então, a minha mãe era lindamente poeta. Era analfabeta e era poeta. Por isso que eu acho que o poema não começa das letras, começa da alma. E a minha mãe cantava Repente, então quando eu me vi, eu estava falando Repentes, que eram coisas até poéticas. Depois eu comecei, de supetão, a escrever os meus versinhos. Aí saltou a Geni poeta, graças a Deus. Foi muito bom. Eu gosto muito de mim nessa literatura, nessa vida, então eu comecei assim em poemas escritos, com versinhos, como o  que eu fiz para a Princesa Isabel, que está em A Cor da Ternura e em Leite do Peito: “Era boa para os escravos e parecia um mel. Acho que era irmã de Deus. Viva a Princesa Isabel”. Eu era inocente.

Escrevendo o Futuro – E além da sua mãe, quais foram as suas primeiras referências enquanto escritores?

Geni – Então, eu lia o que eu alcançava. Tinha alguns livros na escola, eu trabalhei no hospital da minha cidade, que tinha uma biblioteca, então eu “roubava” os livros e levava para a casa e lia. Então eu li muito José Mauro de Vasconcelos, li Cecília Meireles, que eu amo, e Jorge Amado. Eu lia o que eu podia ler. Eu não sabia nada da literatura negra. Eu acho que eu nem sabia que eu era negra. Depois, mais tarde, eu tive contato com os escritores negros: Cuti, Conceição Evaristo, Éle Semog, Oswaldo de Camargo e outros. E daí então eu fui começando a enxergar o que eu tinha que fazer, que era me registrar e registrar o ser humano negro. E fui, não parei mais, e caminho em passadas longas.

Escrevendo o Futuro – Aproveitando esse gancho, a senhora se identifica enquanto uma autora de literatura afro-brasileira?

Geni – Eu me identifico completamente. Por quê? Porque eu me sondo, eu sondo a sociedade, eu sondo a pessoa negra e não negra, e eu só tenho a me identificar e carregar essa bandeira, de modo a conscientizar a sociedade. Então eu me sinto inteiramente dentro dessa literatura afro-brasileira, desse trabalho afro-brasileiro.

Escrevendo o Futuro – A senhora sempre conta que adora ficar na calçada conversando com as vizinhas, que tem uma vida muito simples. E esse imaginário de uma escritora conversando  na calçada  está muito distante dos escritores que a gente costuma ver na escola, que em geral são homens brancos, muito ricos, que trabalham em seus escritórios. Qual a importância para os nossos estudantes em perceber a humanidade, a proximidade deles com uma escritora?

Geni – Então, eu não sou por imaginar, mas eu quero que eles me sintam, assim, porque eu não sou só a escritora, eu sou uma mulher negra, eu tenho vários contatos, várias vivências. Então eu não sou só a escritora. É como eu digo, que eu me sento na calçada com as vizinhas, eu converso muito com a minha irmãzinha, eu não tenho vontade de viver só essa vida de escritora. E eu não quero ser só uma escritora sentada à frente de um computador. Eu quero ser tudo isso que Deus me deu a oportunidade de ser. Eu me acho o bastante. Eu reconheço os meus defeitos e as minhas qualidades, então essa coisa universal do meu ser, enquanto gente, eu acho muito bom. Daí eu não sei como é que eu posso fazer o educando, principalmente, entender que Deus não nos deu para viver dentro de um espaço, não nos fez para viver dentro de um espaço. Eu acho que ele nos fez para viver universalmente. Porque eu sou uma mulher, que com esse nome já, que eu conquistei na literatura, eu desço a pé no centro da cidade, converso com todo mundo, me sento nas lojas. Eu acho que tem até pessoas aqui que não sabem da minha literatura, até onde chegou a minha literatura. E é disso que eu gosto, de poder ser comum. Eu não quero ficar prensada em um espaço, eu nasci para voar. Então é isso que eu quero.

Escrevendo o Futuro – No ano passado a senhora publicou um livro de poemas inéditos, Poemas do Regresso, e já tem mais dois no forno: Via Verso e Contos do lugar comum. E essa produção tem acontecido em um momento muito difícil para o mundo. Hoje, o que motiva a senhora a escrever e quais são as suas maiores inspirações?

Geni – Então, o que me motiva a escrever é essa possibilidade de, mesmo encarcerada por uma pandemia, ainda poder ver. E não posso te falar assim: isso me motiva, aquilo me motiva. Eu vejo a vida e escrevo a vida. Então qualquer coisa pode motivar a minha verve poético-literária, não tem uma coisa X. Eu acho que em Poemas do Regresso eu digo isso, olha: “Sondadora do mundo, embora aguda e suspeita, teço palavras para nas curvas das asas reinventar o paraíso”. Então, sabe, eu não quero ficar nesse sofrer. Eu vim aqui para viver, eu quero viver. Então não tem X, assim, que me inspire. Então o que me bate no coração e nos olhos, eu escrevo.

Escrevendo o Futuro – A senhora costuma dizer por aqui que é sua maior fã. O que mais admira na sua própria literatura?

Geni – A minha coragem de ser o que sou. Porque eu acho que nós precisamos ter muita coragem para ser verdadeira dentro dessa sociedade. Então é isso que eu gosto de mim. Não sei se admiro, mas eu gosto muito de mim nessa força bruta um tanto moldada. Não sei se você me entende, porque eu tenho umas... Eu fico assim pensando que eu tenho umas colocações muito próprias do meu eu.

Escrevendo o Futuro – Poeta, né?

Geni – É. Poeta. Tiro de letra. Eu tenho um poema que diz assim: “Não sei onde está, mas eu tenho”.

Escrevendo o Futuro – Uma parte muito significativa das suas lembranças, foi para os livros. E quando a senhora conta sobre momentos da sua infância, muitas vezes são passagens que estão em livros como Leite do Peito ou A cor da ternura. É possível que às vezes a memória e a literatura se confundam?

Geni – Não se confundem, se misturam. Eu acho que se misturam, porque as minhas memórias, assim, de família estão completamente misturadas com a minha literatura. Eu tento agora escrever o hoje também, mas eu não posso, não tenho como dormir sem acordar para o ontem. Então fica tudo meio misturado. É o que eu digo, não se confundem, se misturam.

“E às vezes os poemas até saem muito fortes, muito fortes, porque eu não quero engolir essa violência da porcentagem maior de mulheres negras presas, da porcentagem maior de assassinatos de mulheres negras e de negros de um modo geral. Não dá. Eu não posso me calar. Não aguento.”

Escrevendo o Futuro – Comparando seus primeiros textos, Balé das Emoções, Terceiro Filho, e as produções atuais, a senhora acha que houve uma mudança temática em sua literatura?

Geni – Houve mudança sim, porque a vida, o nosso viver mudou. E a literatura acompanha o nosso viver, mesmo que não quiséssemos. Então vai mudando. Por exemplo, muitas pessoas já me disseram que no Poemas do Regresso, que é o meu último livro de poemas, estão coisas muito fortes, muito fortes. Por quê? Porque eu tenho consciência da mudança do tempo, eu tenho consciência da mudança social, do quanto nós estamos introjetados no todo da sociedade, nós negros. E às vezes os poemas até saem muito fortes, muito fortes, porque eu não quero engolir essa violência da porcentagem maior de mulheres negras presas, da porcentagem maior de assassinatos de mulheres negras e de negros de um modo geral. Não dá. Eu não posso me calar. Não aguento. Então quando eu coloco alguma questão assim violenta no papel, parece que eu me descarrego um pouco, porque a minha preocupação é enorme com a sociedade, não só com crianças negras, mas também com as crianças brancas. Porque a criança não nasce racista, ela se torna, então é preciso que a gente mostre a verdade, de que temos a pele de cor diferente, de jeito diferente, mas que somos gente, com as nossas diferenças, as nossas amarguras, as nossas potencialidades. Então eu tenho muito essa preocupação. É por isso que eu não posso parar.

Escrevendo o Futuro – O que fez a senhora ter vontade de ser professora?

Geni – Então, eu virei professora por causa do meu pai, está no livro a Cor da Ternura. Nós morávamos numa fazenda, era distante da cidade uma hora e meia. E um dia, conversando com o meu pai, eu morria de orgulho de vê-lo naquela luta, sempre... E um dia, eu chegando da escola, eu acho que eu estava no primário,  o administrador da fazenda falou: “O senhor é bobo. O senhor está estudando a sua filha para quê? Depois ela casa e acabou”. O meu pai sabiamente respondeu: “Eu não estou estudando ela para mim, é para ela mesma”. Eu fiquei totalmente encantada e depois conversando com o meu pai, eu falei: “Pai, o que o senhor acha que mulher pode ser? Pode estudar o quê?”. Meu pai falou: “Olha, pode ser professora, costureira...”. Eu fui no pico. Eu falei: “Eu vou ser professora”. E me tornei professora por causa dessa questão do meu pai. Foi a coisa mais linda que você pode imaginar o dia da minha formatura. Assim, sabe, a minha família na cidade, em meio a tantas famílias ricas e brancas, só a minha família negra, e eles me aplaudindo em pé. Não olharam para quem estava do lado, nada, era eu. O foco para eles era eu. E depois, chegando à casa, à noite, voltamos a pé para a fazenda, daí o meu pai falou: “Cadê o danado do diploma? Que eu vou dormir com ele debaixo do travesseiro, que é para ter sonho bom”. Eu podia ser diferente? Não dava para eu ser diferente, sabe? (emocionada). Com uma família dessa não dava para ser diferente, é muita raiz, muito amor, muita simplicidade. E as coisas que aconteciam na minha casa comigo e a minha família só tinham que me dar esse rumo. Meu pai separando dinheiro que meus irmãos todos ganhavam trabalhando na lavoura, separando um tanto e falando: “Olha, esse dinheiro é para a menina estudar”. (emocionada) Vocês me perdoem, eu sou muito chorona, eu sou muito emotiva. Não sei se a gente pode chorar assim quando está gravando, mas...

Escrevendo o Futuro – A gente deve. Como a senhora vê a importância da educação para as nossas crianças?

Geni – A educação é importantíssima. E eu acho que estão plantando o melhor hoje, com os olhos mais abertos. Até eu dizia outro dia que eu acho que mais no meu tempo do que agora, o professor estava muito preocupado com o educando, não com a pessoa, com o ser. Então eu acho que está havendo uma transformação nesse relacionamento. Até hoje eu faço isso, quando eu estou diante de uma criança, de um adolescente, eu analiso, assim, não sei se é um defeito bom, eu analiso muito a postura da criança, o olhar da criança. Porque é aí que eu vou descobrir o ser humano. E muitas vezes, a criança está precisando mais de uma educação no ver-se gente, do que no ver-se aprendiz, do que no ver-se educado com o alfabeto. Eu tenho as artimanhas que eu usei e uso para chegar ao sentir da criança, e eu acho que todo mundo deveria usar. Eu fiz grandes descobertas e pude recuperar, assim, muitas crianças dentro desse meu jeito de ser.

Teve uma menina que não queria entrar na sala de aula porque ela não gostava de professora preta. Ela chegou, ficou emburrada na porta e disse: “Eu não vou entrar porque eu não gosto de professora preta”. E a diretora, para resolver o problema: “Não tem importância, eu a mudo de classe”. Eu disse: “Não. Deixe-a aqui comigo”. Ela ficou em pé. Daí foi intervalo, a hora que nós voltamos do chamado recreio, que falavam antigamente, ela chegou à porta e eu falei: “Olha, você não poderia cuidar da minha bolsa para mim?”. Imagina, dar uma incumbência dessa para uma criança, o tanto que era importante, cuidar das coisas da professora. Eu pus uma cadeira do lado da minha mesa, pus a minha bolsa, e de vez em quando eu precisava de um lápis, de uma borracha, de uma caneta, ela enfiava a mão e me dava. E ficou ali. Ela não escreveu, não fez nada. Só que na saída, ela me deu a resposta que eu mais esperava, ela falou: “Professora, a senhora gosta de pão com manteiga de avião?” Eu falei: “Gosto”. (Ela respondeu): “Então amanhã eu vou trazer pão com manteiga de avião para a senhora”. Pronto. Sabe? Foi tão fácil. Eu me emociono cada vez que eu me lembro dessas histórias, porque eu lembro e fico agradecendo a Deus por ter me dado a palavra e por ter me dado esse amor pelo ser humano.

Escrevendo o Futuro - Essa passagem é parte do conto “Força Flutuante”, não é? A senhora teve uma postura grandiosa com aquela aluna. Mas a gente sabe que o racismo é muito pesado, é muito violento, e nem sempre conseguimos reagir, às vezes a gente se cala. Quantas professoras não passam por situações como essas e não conseguem responder? Então a menina olhou para a senhora e disse que tinha medo de professora preta. E a senhora enquanto professora preta tinha medo de quê? Como se sentia na escola?

“Não. Eu não nasci para ficar no chão”.

Geni – Olha, era só eu na escola de professora preta, e por incrível que pareça, eu sempre fui tão dona de mim, dos meus sentimentos, que passavam por mim frases racistas, coisas horríveis, e eu não engolia, eu só colocava na língua para desfazer depois.

Quando eu fiquei grávida do meu primeiro filho, ele tem hoje 48 anos, eu ficava enorme na gravidez, acho que porque meu esposo era grandão, e eu essa miudeza, eu ficava enorme, e a diretora que resolvia, veja bem que absurdo, quando você poderia entrar em licença. Ela me deixou em classe mais de 20 dias depois do tempo certo que eu poderia entrar em licença. E eu quase nem andava mais de tão... Eu tive que por uma tipoia na barriga para erguer, você acredita? Para poder fazer xixi. E cada vez que eu falava que queria ir ao banheiro, que eu tinha vontade toda hora de fazer xixi e às vezes não conseguia, eu tinha que pedir para uma pessoa ir pedir para a diretora, veja bem, e depois ir e me acompanhar no banheiro. Então foi doído? Foi. Mas eu escrevi o meu livro antes da morte dela. Ela viu que ela não me derrubou. E hoje muitos professores daquela época falam comigo a respeito disso. E eu só digo: “Não. Eu não nasci para ficar no chão”. Eu sempre digo isso. É duro enfrentar o racismo? É. Mas se nós, que somos educadoras, não procurarmos alguma coisa para nos livrar ou enfrentá-lo, para ajudar as crianças, outras pessoas se livrarem dele ou enfrentar, quem mais pode? A gente que pode falar com muitas pessoas juntas, não é? Então é isso, eu enfrento.

Escrevendo o Futuro – E qual foi seu maior aprendizado como professora?

Geni – Eu acho que eu dei aula uns 28 anos. E eu aprendi com os alunos que eu deveria ter dois olhos no rosto e na nuca mais um, para ver de todos os lados e aprender de todos os lados. Aluno me ensinou muito, coisas assim que eu não imaginava que eu fosse aprender. Coisas tão simples, coisinhas que eles me davam, bilhetinho, pedaço de lanche, isso foi me ensinando a crescer no amor e alfabetizar com o amor na frente. O amor abrindo portas para alfabetizar de verdade. Às vezes eu saía de casa depois da aula e ia à casa de alunos para ensinar e eu voltava sábia, por ver a família, o que as famílias me ofereciam. Uma vez uma mulher, eu fui à casa e ela tinha cozinhado milho, então milho verde, então eu me sentei com eles e fiquei lá comendo milho verde. Depois que eu saí, eu falei: “Olha cada coisa que o aluno me ensina. Será que existe outra professora que vai à casa do aluno, se senta ali e fica comendo milho verde? Ou eu que sou tonta demais?”. Mas eu aprendi com os professores também, porque eu via a diferença, eu fazia a diferença.

Escrevendo o Futuro – Olhando para esses desafios que enfrentamos na escola, temos duas grandes conquistas do movimento negro deste século, a Lei de Cotas e as Leis 10.639 e 11.645, que instituem a obrigatoriedade do ensino da literatura e da cultura e da história africana, afro-brasileira e indígena nas escolas. Então hoje, diferente do tempo em que a senhora estava em sala de aula, existe algo que nos respalda. Como a senhora vê a importância dessas políticas públicas?

Geni - Então, eu vejo que nós fizemos com que se hasteasse uma bandeira. Não foi por nada que nos “deram” essas leis. Foi por causa da nossa vivência de pressão e de cobrança, que alguma coisa deveria ser feita, que deveria também não haver necessidade dessas leis, não é? Posto que somos iguais. Mas eu vejo, eu pego assim com muita vontade, gostando muito, porque pelo menos algumas barreiras essas leis vão derrubar, mesmo que não queiram que caiam. Então eu acho bom e a gente tem que ficar pensando em leis mesmo para quebrar esse muro vergonhoso. Porque se não se faz por amor, que se faça pela lei, não é?

Escrevendo o Futuro - A senhora é a escritora homenageada da 7ª Olimpíada de Língua Portuguesa. Como recebeu esse convite dentro da proposta do concurso, que incentiva a produção dos alunos em diversos gêneros?

Geni - Eu fiquei muito, muito feliz com isso, porque é exatamente isso que a literatura tem que fazer, em minha opinião, mostrar para a criança, para o adolescente, para todos, um modo de transgredir com bondade a sua própria regra. A literatura faz isso. Sempre que eu coloco transgredir com alma, com bondade, as próprias regras é abrir os olhos, dar a visão certa, honesta, íntegra das coisas.

Escrevendo o Futuro – Se a senhora puder deixar um presente para as próximas gerações, o que seria?

Geni – A literatura. A literatura. A literatura, porque, olha, eu li Carolina Maria de Jesus e ela me deixou o presente da vivência dela, e talvez me ajudasse muito a mudar a minha vivência, a minha vida. Então eu acho que o que eu posso deixar para a literatura... Para a minha família, eu deixarei a casa onde eu moro, o lugar onde eu vivo. Deixarei para os meus filhos, os netos; para os meus netos, os bisnetos, porque o poeta transcende, mas, principalmente, o que eu fiz, o que eu vivi com a minha literatura. A minha herança é essa, assim como tantos outros escritores fizeram. Então eu quero ser um espelho sem rachadura. Tá bom?


1. Em pesquisa acerca da produção literária do Brasil e dos modelos sociais que a constroem, Regina Dalcastagnè (2005) elaborou uma espécie de perfil do escritor brasileiro: homem branco, heterrossexual, de classe média e do sudeste. Alguns dados dessa pesquisa estão presentes aqui.

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Depois de perder o marido, Idelvaldo Guimarães, em 2003, Geni permaneceu um longo período em depressão. Sobre esse tempo, costuma afirmar que se esqueceu de tudo. Foi num dia em que reencontrou um livro com seu nome na capa que se lembrou de quem era, e impulsionada por amigos como Cuti, “desdormiu” e retomou a escrita, publicando O Pênalti, em 2019, e Poemas do Regresso, em 2020.

A relação de Geni com sua família transcende o cotidiano. Mãe de dois filhos, Cristhian e Clesly, Geni hoje vive rodeada de netas e netos, com quem mantém viva a tradição da cantoria em volta da mesa de café. Frequentemente, ao relembrar memórias afetivas com o pai, a mãe e irmãos, Geni questiona: “tinha como eu ser diferente?”

Idelvado Guimarães,
marido de Geni.

"O que me move

é ainda a tênue esperança

de pastorear estrelas e traduzir o balbuciar das plantas."

Sustento, 2020.

Geni, filhos, noras e neta(o)s: Cristhian (Kiko), Symon, Clesly (Kelly), Rosângela, Matheus, Sandra, Esther e Sara.

Todos os dias, Geni recebe em sua casa suas vizinhas para conversar e trocar receitas, e tem orgulho em afirmar que muitas nem conhecem ao certo sua carreira de escritora: “Eu gosto de poder ser comum, eu não gosto de ficar prensada num espaço. Eu nasci para voar.”

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“Sondadora do mundo”: uma conversa com Geni Guimarães

Num bate papo recheado de emoções, a homenageada da 7ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa fala sobre seu processo de escrita, memórias e a experiência como professora.

A entrevista foi guiada pela professora Lara Rocha e pela jornalista Mônica Cardoso.


Escrevendo o Futuro – Em outras conversas, a senhora afirmou que veio de um ventre poético. Como foi o seu primeiro contato com a literatura?

Geni – Então, a minha mãe era lindamente poeta. Era analfabeta e era poeta. Por isso que eu acho que o poema não começa das letras, começa da alma. E a minha mãe cantava Repente, então quando eu me vi, eu estava falando Repentes, que eram coisas até poéticas. Depois eu comecei, de supetão, a escrever os meus versinhos. Aí saltou a Geni poeta, graças a Deus. Foi muito bom. Eu gosto muito de mim nessa literatura, nessa vida, então eu comecei assim em poemas escritos, com versinhos, como o  que eu fiz para a Princesa Isabel, que está em A Cor da Ternura e em Leite do Peito: “Era boa para os escravos e parecia um mel. Acho que era irmã de Deus. Viva a Princesa Isabel”. Eu era inocente.

Escrevendo o Futuro – E além da sua mãe, quais foram as suas primeiras referências enquanto escritores?

Geni – Então, eu lia o que eu alcançava. Tinha alguns livros na escola, eu trabalhei no hospital da minha cidade, que tinha uma biblioteca, então eu “roubava” os livros e levava para a casa e lia. Então eu li muito José Mauro de Vasconcelos, li Cecília Meireles, que eu amo, e Jorge Amado. Eu lia o que eu podia ler. Eu não sabia nada da literatura negra. Eu acho que eu nem sabia que eu era negra. Depois, mais tarde, eu tive contato com os escritores negros: Cuti, Conceição Evaristo, Éle Semog, Oswaldo de Camargo e outros. E daí então eu fui começando a enxergar o que eu tinha que fazer, que era me registrar e registrar o ser humano negro. E fui, não parei mais, e caminho em passadas longas.

Escrevendo o Futuro – Aproveitando esse gancho, a senhora se identifica enquanto uma autora de literatura afro-brasileira?

Geni – Eu me identifico completamente. Por quê? Porque eu me sondo, eu sondo a sociedade, eu sondo a pessoa negra e não negra, e eu só tenho a me identificar e carregar essa bandeira, de modo a conscientizar a sociedade. Então eu me sinto inteiramente dentro dessa literatura afro-brasileira, desse trabalho afro-brasileiro.

Escrevendo o Futuro – A senhora sempre conta que adora ficar na calçada conversando com as vizinhas, que tem uma vida muito simples. E esse imaginário de uma escritora conversando  na calçada  está muito distante dos escritores que a gente costuma ver na escola, que em geral são homens brancos, muito ricos, que trabalham em seus escritórios. Qual a importância para os nossos estudantes em perceber a humanidade, a proximidade deles com uma escritora?

Geni – Então, eu não sou por imaginar, mas eu quero que eles me sintam, assim, porque eu não sou só a escritora, eu sou uma mulher negra, eu tenho vários contatos, várias vivências. Então eu não sou só a escritora. É como eu digo, que eu me sento na calçada com as vizinhas, eu converso muito com a minha irmãzinha, eu não tenho vontade de viver só essa vida de escritora. E eu não quero ser só uma escritora sentada à frente de um computador. Eu quero ser tudo isso que Deus me deu a oportunidade de ser. Eu me acho o bastante. Eu reconheço os meus defeitos e as minhas qualidades, então essa coisa universal do meu ser, enquanto gente, eu acho muito bom. Daí eu não sei como é que eu posso fazer o educando, principalmente, entender que Deus não nos deu para viver dentro de um espaço, não nos fez para viver dentro de um espaço. Eu acho que ele nos fez para viver universalmente. Porque eu sou uma mulher, que com esse nome já, que eu conquistei na literatura, eu desço a pé no centro da cidade, converso com todo mundo, me sento nas lojas. Eu acho que tem até pessoas aqui que não sabem da minha literatura, até onde chegou a minha literatura. E é disso que eu gosto, de poder ser comum. Eu não quero ficar prensada em um espaço, eu nasci para voar. Então é isso que eu quero.

Escrevendo o Futuro – No ano passado a senhora publicou um livro de poemas inéditos, Poemas do Regresso, e já tem mais dois no forno: Via Verso e Contos do lugar comum. E essa produção tem acontecido em um momento muito difícil para o mundo. Hoje, o que motiva a senhora a escrever e quais são as suas maiores inspirações?

Geni – Então, o que me motiva a escrever é essa possibilidade de, mesmo encarcerada por uma pandemia, ainda poder ver. E não posso te falar assim: isso me motiva, aquilo me motiva. Eu vejo a vida e escrevo a vida. Então qualquer coisa pode motivar a minha verve poético-literária, não tem uma coisa X. Eu acho que em Poemas do Regresso eu digo isso, olha: “Sondadora do mundo, embora aguda e suspeita, teço palavras para nas curvas das asas reinventar o paraíso”. Então, sabe, eu não quero ficar nesse sofrer. Eu vim aqui para viver, eu quero viver. Então não tem X, assim, que me inspire. Então o que me bate no coração e nos olhos, eu escrevo.

Escrevendo o Futuro – A senhora costuma dizer por aqui que é sua maior fã. O que mais admira na sua própria literatura?

Geni – A minha coragem de ser o que sou. Porque eu acho que nós precisamos ter muita coragem para ser verdadeira dentro dessa sociedade. Então é isso que eu gosto de mim. Não sei se admiro, mas eu gosto muito de mim nessa força bruta um tanto moldada. Não sei se você me entende, porque eu tenho umas... Eu fico assim pensando que eu tenho umas colocações muito próprias do meu eu.

Escrevendo o Futuro – Poeta, né?

Geni – É. Poeta. Tiro de letra. Eu tenho um poema que diz assim: “Não sei onde está, mas eu tenho”.

Escrevendo o Futuro – Uma parte muito significativa das suas lembranças, foi para os livros. E quando a senhora conta sobre momentos da sua infância, muitas vezes são passagens que estão em livros como Leite do Peito ou A cor da ternura. É possível que às vezes a memória e a literatura se confundam?

Geni – Não se confundem, se misturam. Eu acho que se misturam, porque as minhas memórias, assim, de família estão completamente misturadas com a minha literatura. Eu tento agora escrever o hoje também, mas eu não posso, não tenho como dormir sem acordar para o ontem. Então fica tudo meio misturado. É o que eu digo, não se confundem, se misturam.

“E às vezes os poemas até saem muito fortes, muito fortes, porque eu não quero engolir essa violência da porcentagem maior de mulheres negras presas, da porcentagem maior de assassinatos de mulheres negras e de negros de um modo geral. Não dá. Eu não posso me calar. Não aguento.”

Escrevendo o Futuro – Comparando seus primeiros textos, Balé das Emoções, Terceiro Filho, e as produções atuais, a senhora acha que houve uma mudança temática em sua literatura?

Geni – Houve mudança sim, porque a vida, o nosso viver mudou. E a literatura acompanha o nosso viver, mesmo que não quiséssemos. Então vai mudando. Por exemplo, muitas pessoas já me disseram que no Poemas do Regresso, que é o meu último livro de poemas, estão coisas muito fortes, muito fortes. Por quê? Porque eu tenho consciência da mudança do tempo, eu tenho consciência da mudança social, do quanto nós estamos introjetados no todo da sociedade, nós negros. E às vezes os poemas até saem muito fortes, muito fortes, porque eu não quero engolir essa violência da porcentagem maior de mulheres negras presas, da porcentagem maior de assassinatos de mulheres negras e de negros de um modo geral. Não dá. Eu não posso me calar. Não aguento. Então quando eu coloco alguma questão assim violenta no papel, parece que eu me descarrego um pouco, porque a minha preocupação é enorme com a sociedade, não só com crianças negras, mas também com as crianças brancas. Porque a criança não nasce racista, ela se torna, então é preciso que a gente mostre a verdade, de que temos a pele de cor diferente, de jeito diferente, mas que somos gente, com as nossas diferenças, as nossas amarguras, as nossas potencialidades. Então eu tenho muito essa preocupação. É por isso que eu não posso parar.

Escrevendo o Futuro – O que fez a senhora ter vontade de ser professora?

Geni – Então, eu virei professora por causa do meu pai, está no livro a Cor da Ternura. Nós morávamos numa fazenda, era distante da cidade uma hora e meia. E um dia, conversando com o meu pai, eu morria de orgulho de vê-lo naquela luta, sempre... E um dia, eu chegando da escola, eu acho que eu estava no primário,  o administrador da fazenda falou: “O senhor é bobo. O senhor está estudando a sua filha para quê? Depois ela casa e acabou”. O meu pai sabiamente respondeu: “Eu não estou estudando ela para mim, é para ela mesma”. Eu fiquei totalmente encantada e depois conversando com o meu pai, eu falei: “Pai, o que o senhor acha que mulher pode ser? Pode estudar o quê?”. Meu pai falou: “Olha, pode ser professora, costureira...”. Eu fui no pico. Eu falei: “Eu vou ser professora”. E me tornei professora por causa dessa questão do meu pai. Foi a coisa mais linda que você pode imaginar o dia da minha formatura. Assim, sabe, a minha família na cidade, em meio a tantas famílias ricas e brancas, só a minha família negra, e eles me aplaudindo em pé. Não olharam para quem estava do lado, nada, era eu. O foco para eles era eu. E depois, chegando à casa, à noite, voltamos a pé para a fazenda, daí o meu pai falou: “Cadê o danado do diploma? Que eu vou dormir com ele debaixo do travesseiro, que é para ter sonho bom”. Eu podia ser diferente? Não dava para eu ser diferente, sabe? (emocionada). Com uma família dessa não dava para ser diferente, é muita raiz, muito amor, muita simplicidade. E as coisas que aconteciam na minha casa comigo e a minha família só tinham que me dar esse rumo. Meu pai separando dinheiro que meus irmãos todos ganhavam trabalhando na lavoura, separando um tanto e falando: “Olha, esse dinheiro é para a menina estudar”. (emocionada) Vocês me perdoem, eu sou muito chorona, eu sou muito emotiva. Não sei se a gente pode chorar assim quando está gravando, mas...

Escrevendo o Futuro – A gente deve. Como a senhora vê a importância da educação para as nossas crianças?

Geni – A educação é importantíssima. E eu acho que estão plantando o melhor hoje, com os olhos mais abertos. Até eu dizia outro dia que eu acho que mais no meu tempo do que agora, o professor estava muito preocupado com o educando, não com a pessoa, com o ser. Então eu acho que está havendo uma transformação nesse relacionamento. Até hoje eu faço isso, quando eu estou diante de uma criança, de um adolescente, eu analiso, assim, não sei se é um defeito bom, eu analiso muito a postura da criança, o olhar da criança. Porque é aí que eu vou descobrir o ser humano. E muitas vezes, a criança está precisando mais de uma educação no ver-se gente, do que no ver-se aprendiz, do que no ver-se educado com o alfabeto. Eu tenho as artimanhas que eu usei e uso para chegar ao sentir da criança, e eu acho que todo mundo deveria usar. Eu fiz grandes descobertas e pude recuperar, assim, muitas crianças dentro desse meu jeito de ser.

Teve uma menina que não queria entrar na sala de aula porque ela não gostava de professora preta. Ela chegou, ficou emburrada na porta e disse: “Eu não vou entrar porque eu não gosto de professora preta”. E a diretora, para resolver o problema: “Não tem importância, eu a mudo de classe”. Eu disse: “Não. Deixe-a aqui comigo”. Ela ficou em pé. Daí foi intervalo, a hora que nós voltamos do chamado recreio, que falavam antigamente, ela chegou à porta e eu falei: “Olha, você não poderia cuidar da minha bolsa para mim?”. Imagina, dar uma incumbência dessa para uma criança, o tanto que era importante, cuidar das coisas da professora. Eu pus uma cadeira do lado da minha mesa, pus a minha bolsa, e de vez em quando eu precisava de um lápis, de uma borracha, de uma caneta, ela enfiava a mão e me dava. E ficou ali. Ela não escreveu, não fez nada. Só que na saída, ela me deu a resposta que eu mais esperava, ela falou: “Professora, a senhora gosta de pão com manteiga de avião?” Eu falei: “Gosto”. (Ela respondeu): “Então amanhã eu vou trazer pão com manteiga de avião para a senhora”. Pronto. Sabe? Foi tão fácil. Eu me emociono cada vez que eu me lembro dessas histórias, porque eu lembro e fico agradecendo a Deus por ter me dado a palavra e por ter me dado esse amor pelo ser humano.

Escrevendo o Futuro - Essa passagem é parte do conto “Força Flutuante”, não é? A senhora teve uma postura grandiosa com aquela aluna. Mas a gente sabe que o racismo é muito pesado, é muito violento, e nem sempre conseguimos reagir, às vezes a gente se cala. Quantas professoras não passam por situações como essas e não conseguem responder? Então a menina olhou para a senhora e disse que tinha medo de professora preta. E a senhora enquanto professora preta tinha medo de quê? Como se sentia na escola?

“Não. Eu não nasci para ficar no chão”.

Geni – Olha, era só eu na escola de professora preta, e por incrível que pareça, eu sempre fui tão dona de mim, dos meus sentimentos, que passavam por mim frases racistas, coisas horríveis, e eu não engolia, eu só colocava na língua para desfazer depois.

Quando eu fiquei grávida do meu primeiro filho, ele tem hoje 48 anos, eu ficava enorme na gravidez, acho que porque meu esposo era grandão, e eu essa miudeza, eu ficava enorme, e a diretora que resolvia, veja bem que absurdo, quando você poderia entrar em licença. Ela me deixou em classe mais de 20 dias depois do tempo certo que eu poderia entrar em licença. E eu quase nem andava mais de tão... Eu tive que por uma tipoia na barriga para erguer, você acredita? Para poder fazer xixi. E cada vez que eu falava que queria ir ao banheiro, que eu tinha vontade toda hora de fazer xixi e às vezes não conseguia, eu tinha que pedir para uma pessoa ir pedir para a diretora, veja bem, e depois ir e me acompanhar no banheiro. Então foi doído? Foi. Mas eu escrevi o meu livro antes da morte dela. Ela viu que ela não me derrubou. E hoje muitos professores daquela época falam comigo a respeito disso. E eu só digo: “Não. Eu não nasci para ficar no chão”. Eu sempre digo isso. É duro enfrentar o racismo? É. Mas se nós, que somos educadoras, não procurarmos alguma coisa para nos livrar ou enfrentá-lo, para ajudar as crianças, outras pessoas se livrarem dele ou enfrentar, quem mais pode? A gente que pode falar com muitas pessoas juntas, não é? Então é isso, eu enfrento.

Escrevendo o Futuro – E qual foi seu maior aprendizado como professora?

Geni – Eu acho que eu dei aula uns 28 anos. E eu aprendi com os alunos que eu deveria ter dois olhos no rosto e na nuca mais um, para ver de todos os lados e aprender de todos os lados. Aluno me ensinou muito, coisas assim que eu não imaginava que eu fosse aprender. Coisas tão simples, coisinhas que eles me davam, bilhetinho, pedaço de lanche, isso foi me ensinando a crescer no amor e alfabetizar com o amor na frente. O amor abrindo portas para alfabetizar de verdade. Às vezes eu saía de casa depois da aula e ia à casa de alunos para ensinar e eu voltava sábia, por ver a família, o que as famílias me ofereciam. Uma vez uma mulher, eu fui à casa e ela tinha cozinhado milho, então milho verde, então eu me sentei com eles e fiquei lá comendo milho verde. Depois que eu saí, eu falei: “Olha cada coisa que o aluno me ensina. Será que existe outra professora que vai à casa do aluno, se senta ali e fica comendo milho verde? Ou eu que sou tonta demais?”. Mas eu aprendi com os professores também, porque eu via a diferença, eu fazia a diferença.

Escrevendo o Futuro – Olhando para esses desafios que enfrentamos na escola, temos duas grandes conquistas do movimento negro deste século, a Lei de Cotas e as Leis 10.639 e 11.645, que instituem a obrigatoriedade do ensino da literatura e da cultura e da história africana, afro-brasileira e indígena nas escolas. Então hoje, diferente do tempo em que a senhora estava em sala de aula, existe algo que nos respalda. Como a senhora vê a importância dessas políticas públicas?

Geni - Então, eu vejo que nós fizemos com que se hasteasse uma bandeira. Não foi por nada que nos “deram” essas leis. Foi por causa da nossa vivência de pressão e de cobrança, que alguma coisa deveria ser feita, que deveria também não haver necessidade dessas leis, não é? Posto que somos iguais. Mas eu vejo, eu pego assim com muita vontade, gostando muito, porque pelo menos algumas barreiras essas leis vão derrubar, mesmo que não queiram que caiam. Então eu acho bom e a gente tem que ficar pensando em leis mesmo para quebrar esse muro vergonhoso. Porque se não se faz por amor, que se faça pela lei, não é?

Escrevendo o Futuro - A senhora é a escritora homenageada da 7ª Olimpíada de Língua Portuguesa. Como recebeu esse convite dentro da proposta do concurso, que incentiva a produção dos alunos em diversos gêneros?

Geni - Eu fiquei muito, muito feliz com isso, porque é exatamente isso que a literatura tem que fazer, em minha opinião, mostrar para a criança, para o adolescente, para todos, um modo de transgredir com bondade a sua própria regra. A literatura faz isso. Sempre que eu coloco transgredir com alma, com bondade, as próprias regras é abrir os olhos, dar a visão certa, honesta, íntegra das coisas.

Escrevendo o Futuro – Se a senhora puder deixar um presente para as próximas gerações, o que seria?

Geni – A literatura. A literatura. A literatura, porque, olha, eu li Carolina Maria de Jesus e ela me deixou o presente da vivência dela, e talvez me ajudasse muito a mudar a minha vivência, a minha vida. Então eu acho que o que eu posso deixar para a literatura... Para a minha família, eu deixarei a casa onde eu moro, o lugar onde eu vivo. Deixarei para os meus filhos, os netos; para os meus netos, os bisnetos, porque o poeta transcende, mas, principalmente, o que eu fiz, o que eu vivi com a minha literatura. A minha herança é essa, assim como tantos outros escritores fizeram. Então eu quero ser um espelho sem rachadura. Tá bom?


1. Em pesquisa acerca da produção literária do Brasil e dos modelos sociais que a constroem, Regina Dalcastagnè (2005) elaborou uma espécie de perfil do escritor brasileiro: homem branco, heterrossexual, de classe média e do sudeste. Alguns dados dessa pesquisa estão presentes aqui.

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Atualmente, a autora vive com Cema, sua irmã, personagem importante de suas narrativas e assunto central das conversas com Geni, que afirma: “minha bússola, meu parâmetro, minha noção exata das respostas”.

Cadeira de balanço

Vesga, contempla o sol,

se inebria da beleza

que somente o teu ver

vê no mundo

 

Pinta tudo

na infinidade das cores

que capta da natureza

 

A sua lua,

é sem fases e sem eclipses.

Pura e boa, perdoa

a insensatez dos homens

na barriga do planeta.

 

Menina pena,

dá-me o teu néctar de alfazema

e me respira.

Brinca de brincar comigo,

rouba-me das nuvens e me acolhe plena.

 

Para minha irmã Cema, minha bússola.

 

 

 

 

 

 

 

Dentre as muitas repercussões da obra de Geni, foi marcante a presença de ‘A cor da ternura’ no desfile da Rosas de Ouro, em 1990, que teve como enredo “De Piloto de fogão a chefe da nação” e levou o título de campeã do Carnaval Paulista naquele ano.

Em 2020, Geni foi a homenageada do ano na Balada Literária, evento dedicado à música, literatura e artes, em que foi lançado um documentário sobre sua história, dirigido pela cineasta Day Rodrigues.

Aos 74 anos, Geni Guimarães é um dos maiores nomes da Literatura afro-brasileira. Seus primeiros livros serão relançados e obras inéditas também estão sendo produzidas. Sua literatura é espelho e fortalece quem a encontra. Sobre seu legado, Geni Guimarães afirma:

“Já não morro mais, eu e Conceição não morremos mais, nós escrevemos como setas indicando caminhos para nosso futuro de luta, de quebras de racismo, de preconceitos, e da nossa afirmação enquanto gente negra dentro de uma sociedade que faz muita força para nos derrubar. Mas nós não caímos e não vamos cair, porque nós estamos plantando. E minha mãe dizia: quem planta, colhe.”

 

OBRAS LITERÁRIAS

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Poemas e contos:

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Terceiro filho. Bauru: Editora Jalovi, 1979 (poemas).

 

Poema “Contradição”

      "Tive tanto medo de trair-me

      no excesso das palavras,

      na demora do silêncio,

      na medida dos gestos

      que comecei a me guardar em mim.

 

      Tive tanto medo do meu "eu"

      que cortei os braços dos meus versos

      andei sob medidas,

      com medo de me encontrar.

 

      São tristes as minhas grades, que forcei-me um

      brado de independência.

 

      Desmedi as palavras,

      Encurtei meu silêncio,

      suturei os braços dos meus versos.

      Mas tanto tempo estive presa

      que meteu-me medo a liberdade

      E fiquei completamente acorrentada

      Como todo este espaço que existe no universo."

 

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Da flor o afeto, da pedra o protesto. Barra Bonita: Ed. da Autora, 1981, 1ª e 2ª ed. (poemas).

 

Trecho do poema "Integridade"

      "Ser negra

      Na integridade

      Calma e morna dos dias

 

      Ser negra,

      De carapinhas,

      De dorso brilhante,

      De pés soltos nos caminhos.

 

      Ser negra,

      De negras mãos,

      De negras mamas,

      De negra alma."

 

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Leite do peito. São Paulo: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. 2 ed. 1989 (contos).

 

Trecho do conto “Força flutuante”

      "Com o certificado na bolsa, saí para procurar emprego.

      Consegui numa escola uma substituição para o ano todo: dar aulas numa classe de primeira série que “havia sobrado”, pois as professoras efetivas no cargo, já haviam optado por alunos maiores e em processo de alfabetização mais avançado.

      No pátio do estabelecimento, tentando engolir o coração para fazê-lo voltar ao peito, suportei o olhar duvidoso da diretora e das mães, que, incrédulas cochichavam e me despiam com intenções veladas.

      Só faltaram pedir-me o certificado de conclusão, “para simples conferência”."

 

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A cor da ternura. São Paulo: Editora FTD, 1989. 12 ed. 1998 (contos).

 

Trecho do conto “Alicerce”

      "Meu pai chegou do trabalho na lavoura, tirou do ombro o bornal com a garrafa de café vazia e sentou-se num degrau da escada da porta da cozinha.

      Pediu-me que fosse buscar o rolo de fumo de corda, que ia, enquanto esperava o jantar, preparar os cigarros para a noite e o dia seguinte.

      Eu trouxe e ele, ao desembrulhar o fumo, deu com a cara do Pelé sorrindo no jornal do embrulho. Enquanto desamassava o papel para ver melhor, disse-me:

      — Este sim, teve sorte. Lê aí pra mim, filha. Fala devagar, senão eu não decifro direito.

      Peguei o jornal e comecei a ler o comentário que contava façanhas esportivas e dava algumas informações sobre a vida fantástica do jogador. Muitas palavras eu não sabia do significado, mas adivinhava quando olhava no rosto do meu pai e ele soltava ameaços de risos, sem tirar o olho da mão trêmula que picava o fumo.

      — Benzadeus. Você viu só, minha filha? Era assim como nós. O pai dele é que deve não se caber de orgulho. Ver um filho assim, acho que a gente até esquece das durezas da vida.

      Deu um suspiro comprido e acrescentou:

      — Se a gente pelo menos pudesse estudar os filhos...

      Senti uma pena tão grande do meu velho, que nem pensei para perguntar:

      — Pai, o que que mulher pode estudar?

      — Pode ser costureira, professora... — Deu um risinho forçado e quis encerrar o assunto.

      — Deixemos de sonho.

      — Vou ser professora — falei num sopro."

 

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Balé das emoções. Barra Bonita: Ed. da Autora, 1993 (poemas).

 

Poema "Infância Acesa"

      "De manhã, café minguado,

      fraquinho, morno, cansado,

      saltava do velho bule.

      eu me apossava da brochura,

      pés na estrada, terra dura

      ia pra escola estudar.

 

      Meninos fortes, bonitos,

      barrigas fartas, redondas,

      cortinas alvas em pompas,

      mentiam-me um mundo novo

      e me iludiam com igualdade sonhada.

      Uma carteira envernizada

      sutilmente me acurralava

      nos desejos de senhores,

      minha caixa com seis lápis,

      se escondia envergonhada

      ante outras caixas compridas:

      trinta e seis lápis em cores.

 

      E a tarde, de volta, em casa,

      vendo meu jantar no canto

      do fogão movido a brasas:

      e adivinhando meu pai

      rachando a lenha pro fogo

      pés descalços,

      chapéu roto,

      eu não sabia porque

      vinha um doer tão profundo

      que o meu peito se estreitava,

      sentia um desejo louco

      de pegar aquelas brasas

      e botar fogo no mundo."

 

livro

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Poemas do regresso. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2020.

 

Poema “Ressonância”

      "Enquanto posso pensar,

      escrevofalo.

      Tiro as amarras dos nervos

      e as sustento em fogo brando.

 

      Poefaço

      minhas histórias,

      dou aos meus netos, Zumbi

      com seus feitos de bravura e glória.

 

      Enquanto posso pensar,

      falescrevo,

      reencarnando Mandela,

      pintando uma nova tela

      para enfeitar o peito dos meninos.

 

      E quando não mais puder

      hastear na fala esta bandeira,

      sacudir toda a poeira,

      despejada sobre nós, então,

      daí então, os passos que andei, os gritos que gritei,

      regerão a orquestra da descendência.

 

      Meu replante, meu transplantes,

      trovoarão.

      Mais que trovão, serei o eco."

Infanto-juvenil:

livro

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A dona das folhas. Aparecida: Editora Santuário, 1995 (infantil).

 

Trechos do livro A dona das folhas

      "Ai que a barriga me dói!

      Ainá pra li, Ainá pra cá,

      Barriga me dói

      pra cá, pra li, pra lá.

 

      Dona Conceição

      quase elouqueceu

      - Doutor Evaristo,

      me dê um remédio

      que cure a Ainá."

 

      [...]

 

      "E na terça-feira

      Vindo do quintal

      saiu uma voz

      do pé de romã:

      - Poejo com mel, ramos de hortelã.

 

      Ainá sobre a cama

      toda curvadinha

      pergunta chorando:

      - E quem é você?"

 

      [...]

 

      "O galho da planta

      virou braço e mão

      e deu cuida cheinha

      de favos de mel"

 

livro

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O rádio de Gabriel. Aparecida: Editora Santuário, 1995 (infantil).

 

Trecho do livro O rádio de Gabriel

      "Gabriel é uma figura!

      Como toda criança, vive correndo e pulando.

      Apronta cada uma que parece duas.

 

      Ele é doido por estórias infantis.

      Quando não está com um livro nas mãos, está diante da televisão, de boca aberta nos desenhos com suas estórias atrapalhadas."

 

livro

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Aquilo que a mãe não quer. Barra Bonita: Ed. da Autora, 1998 (infantil).

 

Trecho do livro Aquilo que a mãe não quer

      "Tudo ia muito bem, até o dia em que a Dona Jô, mãe do Lipe, abriu a porta do quartinho do fundo e viu onde era que a dupla guardava suas obras-primas.

      –Tirem tudo daqui! - ordenou muito brava

      – Eu limpo e vocês sujam?

      – Dona Jô - tentou explicar Bilico -, nós…

      Que nada! A mulher não quis saber: Botou a mão na cintura e repetiu a ordem."

 

livro

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O pênalti. São Paulo: Editora Malê, 2019 (infantil).

 

Trecho do livro O pênalti

      "No segundo tempo, já nos acréscimos, um atacante do time africano furioso por antever a derrota deu uma cotovelada no rosto do Kayodê que fez jorrar sangue do nariz.

      Ele deu um grito tão doído que ecoou no estádio lotado.

      Meu irmão, que eu imaginei que fosse cair, rolar no chão, não caiu.

      Levantou-se com muita dificuldade. Com a mão esquerda tapava nariz, mas com a direita, o dedo em riste, apontou para nossa bandeira que tremulava no topo do local.

      Acordei.

      Estava transpirando muito, sôfrego, dolorido.

      Ao olhar para mim, percebendo o meu pânico, Kayodê me sacudiu gritando:

      - Kamau! Kamau! O que foi?

      - Quase nada. Um pesadelo, só isso.

      Levantei-me e fui lavar o rosto."

 

Traduções:

The color of tenderness. Tradução de Niyi Afolabi. Trenton, NJ: Africa World Press, 2013.

Antologias:

Cadernos negros 4. São Paulo: Edição dos Autores, 1981.

Axé. Antologia contemporânea da poesia negra brasileira. Organização de Paulo Colina. São Paulo: Global Editora, 1982.

IKA. Zeitschrift für Kulturaustausch und internationale Solidarität, maio 1984, nº 25.

A razão da chama. Antologia de poetas negros brasileiros. Organização de Oswaldo de Camargo. São Paulo: GRD, 1986.

O negro escrito: apontamentos sobre a presença do negro na literatura brasileira. Organização de Oswaldo de Camargo. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1987.

Schwarze Poesie,Poesia Negra. Organização de Moema Parente Augel. St. Gallen/Köln: Edition diá, 1988.

Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica.  Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 2, Consolidação.

DEPOIMENTOS

Pelo que você homenagearia Geni Guimarães?

  

 

Pela coragem de começar e recomeçar. Por representar como autora e personagem a subjetividade de mulher negra. Pela voz sensível, afetiva e ao mesmo tempo corajosa e contundente. Por ser professora e nos comprometer com uma educação antirracista. Geni Guimarães merece nossa homenagem, por ser como diz um de seus versos, “ brasa acesa, atenta, ao gosto de ser pulmão latente".

Anna Helena Altenfelder

Presidente do Conselho de Administração
do Cenpec Educação

  

 

Desde que conheci suas obras no Cadernos Negros, você tem sido uma grande inspiração na minha escrita. Sua vitória como mulher negra, mãe, esposa e profissional é uma luz nas nossas trajetórias. Recentemente, fiquei muito emocionada vendo suas entrevistas e livros, sinto muita saudade da sua presença entre nós. Sua existência é preciosa para mim.

Cristiane Sobral

Escritora

  

 

Querida Dona das Folhas, recheadas de tudo aquilo que o racismo e machismo não querem ler e nem ouvir tocar no rádio das garotas e garotos afro-brasileiros. Sua cor da ternura, talvez herdada da ingenuidade da tua mãe, me cativou profundamente e acredito que irá alimentar a fome de literatura de gerações e gerações de leitores e leitoras e novos e novas escritoras que encontram nas suas palavras de mulher a magia e o axé para prosseguir. Aceite esta homenagem como prova da sua Odara e generosa presença nesta desigual terras Brasilis que precisa escutar a sua voz.

Jackeline Romio

Professora e organizadora das antologias de mulheres negras Louva-Deusa

  

 

Felicidade é a minha de ter sido gerado pela poesia do ventre da poeta. Minha Mãe, sou um ser abençoado por ser seus contos e suas poesias. Minha mãe, rainha e a inspiração de Deus. Te amo.

Clesly Guimarães

Filho

  

 

Eu homenageio a minha avó por sua história e por sua representatividade. Colocar em palavras sentimentos de maneira forte é um dom, vivê-los é uma grandeza, inspirar o mundo com tais é inexplicável. Que ecoem seus versos para todos.

Symon Guimarães

Neto

  

 

Essa é a segunda edição da Olimpíada de Língua Portuguesa em que homenageamos uma escritora. E é de enorme relevância para a equidade na educação do Brasil que façamos uma nova homenagem a uma escritora negra. Nós começamos com Conceição Evaristo e, neste ano, a escolhida, com muita honra e alegria, é Geni Guimarães. Essa escritora e educadora, nascida em uma pequena cidade do interior de São Paulo, tem uma relevante produção pouco conhecida. E equidade é mostrar escritoras de extrema qualidade e inspiradoras na literatura para um público amplo, que reconhecerá a autora maravilhosa de poesias e de contos.

Angela Dannemann

Superintendente do Itaú Social

  

 

Toda homenagem a Geni Guimarães. Sempre. Porque Geni é uma das grandes poetas brasileiras ao lado de mulheres como Adélia Prado e Conceição Evaristo. Porque ela é a própria poesia em pessoa. Quando diz e canta e conta, em seus poemas, de sua casa, de suas vizinhas, de sua família. Da luta contra o racismo, contra a intolerância. Quando Geni lê o que escreve, os versos estão escritos, 'inscritos' em seu corpo. Não tem um verso que Geni não tenha defendido antes no peito. Na memória, no olhar. Na própria vida. Homenagear Geni é celebrar a palavra viva.

Marcelino Freire

Escritor e Organizador
da Balada Literária

  

 

Eu homenagearia Geni Guimarães pelo fato de ela ter escrito uma obra-prima da literatura brasileira: o livro Leite do peito, no qual ela recria com enorme sensibilidade episódios de sua infância e adolescência e ainda relata uma experiência incrível vivida em seu primeiro dia de aula como professora. Ao ler esse livro, entramos em contato com a violência do racismo cotidiano, que impacta a subjetividade das crianças negras, e também com a potência do cuidado e da empatia, capazes de promover vínculos afetivos emancipadores.

Vima Lia de Rossi Martin

Professora de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa no curso de Letras da USP

  

 

A vida e as histórias da minha avó serviram de exemplo para o meu pai e hoje servem de exemplo para mim. Através da minha avó pude crescer com uma literatura que retratava crianças como eu. E, se hoje eu me sinto linda e valorizada com meus traços, é porque tive esse incentivo na infância. Fazer com que as pessoas se sintam representadas através da literatura é um ponto muito importante para quebrar barreiras, e, por isso, acho que ela deve ser homenageada.

Sara Guimarães

Neta

  

 

Homenageio Geni Guimarães por seu fazer literário terno e forte. Pela existência que ela transforma em texto e que, apesar da realidade escrita, nos faz crer que outra vida é possível e necessária. Por seu compromisso com a educação, por sua carreira como professora e, mais ainda, por inscrever a autoria de mulheres negras na literatura brasileira.

Conceição Evaristo

Escritora

  

 

Querida Geni, te homenageio por você ser parte deste grupo de mais-velhas que trouxe o novo às nossas vidas. Sua literatura é unguento à nossa alma cansada da branquitude masculina, classemediana e heteronormativa. Viva nóis! Viva o povo negro. Viva você, Geni.

Dinha

Poeta e Editora Independente da
Me Parió Revolução.

  

 

Geni Guimarães deve ser homenageada simplesmente por existir! Deve ser bendita por fazer muitas de nós, suas alunas, acolher a própria existência. Precisa ser honrada por ser caminho pavimentado, asas contra o vento, tinta inapagável nas páginas da nossa literatura. Eu a reverencio, ancestral viva, porque ela e tantas outras escritoras provam que a caneta é espada, escudo e abrigo do povo negro.

Oluwa-seyi Salles Bento

Poeta e pesquisadora

  

 

A minha homenagem a Geni Mariano Guimarães com certeza seria pelo fato dela ser uma verdadeira guerreira na luta incansável contra o preconceito racial. Sua sensibilidade foi capaz de através de poesias e contos relatar, de forma única, suas vivências de dor e preocupação com o racismo. Com certeza é minha principal referência quando se fala em literatura de mulher negra. Sigo na certeza de que seus passos serão eternizados na vida daqueles que anseiam pela igualdade racial.

Cristhian Leandro Guimarães

Filho

  

 

Eu homenagearia a Geni Guimarães pela mulher guerreira e batalhadora que é. Pela educação, cuidado e carinho que deu para a nossa família. Pela simplicidade no jeito de viver e se relacionar com o próximo. Pelo amor e dedicação que tem com todos em sua volta. Te amo, vó!

Matheus Guimarães

Neto

Criado com o Padlet

Créditos

Pesquisa e texto: Lara Rocha

Edição: Mônica Cardoso

Produção e web design: Helder Lima

Colaboração: Geni Guimarães e Symon Guimarães

Parceiros

 

 

 

Coordenação técnica

Iniciativa

 

9 thoughts on “Especial Geni Guimarães

  1. Nos mostra que não há sonhos impossíveis, tudo é possível para aquele que crê. Através da educação, o mundo pode se transformar em melhor.

  2. Adorei conhecer o trabalho e a pessoa de Geni Guimarães!!! Me identifico muito com a história dela. Sou professora e escritora também. Gostaria muito de conhecê-la pessoalmente. Parabéns pelo documentário!!!

  3. Sua força e delicadeza com as palavras nos deixa emudecidos com tanto encanto, sra poeta Geni. PARABÉNS por tamanho labor linguístico. Parabéns, portal escrevendoofuturo, pelo empreendimento. Geni Guimarães e sua escrita são luzes no caminhar de muita gente.

  4. Encantada com seu labor linguístico, poeta Geni Guimarães. PARABÉNS! Parabéns, tbm ao portal escrevendoofuturo pela iniciativa em mais uma vez nos apresentar uma representatividade feminina e negra na Olimpíada da língua materna. Quanto ORGULHO!

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