Mia Couto: contar histórias para tomar posse do mundo

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Marina Almeida

Em palestra para alunos e professores, o escritor moçambicano fala sobre seu processo de escrita, movimentos de resistência e a importância dos jovens contarem suas próprias histórias

Pedro Napolitano Prata
Pedro Napolitano Prata

“Esta possibilidade de estarmos juntos, à volta das histórias e dos livros, é quase um ato político. Eu vivi num regime de ditadura e até os meus 20 anos era proibido haver ajuntamentos de mais de oito pessoas. Celebrar, conversar, debater ideias e o nosso mundo é já um ato de resistência, em que dizemos: nós estamos aqui.” Com esta convicção sobre a importância dos encontros, o escritor moçambicano Mia Couto participou de um debate com professores e alunos da ETEC Santa Ifigênia, em São Paulo, dia 20 de setembro. No evento, falou sobre livros, leitura, processo de escrita e de escuta, censura, racismo, meio ambiente e educação.

O autor, que participou do movimento de libertação moçambicana – o país foi colônia de Portugal até 1975 –, conta que para ser aceito num grupo de resistência precisou passar por uma espécie de entrevista chamada ‘narração de sofrimento’, em que cada um contava aos demais a sua história. “As pessoas começaram a relatar o que haviam sofrido e eu pensava: sou um privilegiado, não vão me deixar entrar. Tive tempo de pensar numa frase – ‘sofri porque vi os outros sofrer’ –, mas quando cheguei lá fiquei engasgado e não disse coisa nenhuma. Um dos homens que estava na mesa perguntou-me: você é aquele jovem que publica poemas no jornal? Então pode entrar, nós precisamos da poesia.” Foi a primeira vez que o escritor viu o reconhecimento de que a poesia podia mudar o mundo.

Processo de escrita

Semanas antes do encontro, os alunos leram os contos do livro O fio das miçangas e prepararam muitas perguntas sobre o olhar feminino revelado em muitas dessas histórias. Para o autor, trata-se, sobretudo, de perder o medo de ser outro. “Eu precisava inventar personagens femininas na minha história, mas sou de um tempo em que a construção da identidade masculina era rigorosíssima e isso me construiu. Pensei que havia técnicas, mas não há. A resposta para mim foi perder o medo de visitar esse meu lado feminino. Acho que fui mulher naquilo que posso ser mulher naquele livro.”

Mia Couto conta que viu na escrita uma forma de reconhecer sua própria existência e ser ouvido, já que era um jovem muito silencioso. “Esse desejo de chegar até o outro é o que me move ainda hoje a escrever”. Para ele, é preciso também manter um olhar de encantamento e infância, de quem vê o mundo como algo que ainda não conhece e não tem medo disso.

Sobre seu processo de criação, ele explica que às vezes algo circunstancial, como uma fala ou um olhar, que aparentemente não tem história, pode funcionar como uma gota d’água para algo maior se desenvolver. “Escrevo todos os dias, mesmo que eu não esteja em um momento criativo. E sempre reescrevo – todo escritor é um reescritor.”

Ele diz que muitas vezes começa a escrever sem saber qual será exatamente o rumo de suas histórias e que seus personagens o guiam. “Meu texto é um cavalo selvagem e eu gosto que seja assim”. Ele também falou sobre sua crença no papel do leitor como coautor do que escreve: “só faz sentido quando o leitor toma posse dessas histórias”.

Contar histórias

Pedro Napolitano Prata
Pedro Napolitano Prata

Mia Couto defende que mais importante do que a leitura é resgatar o prazer único de criar suas próprias histórias e ser outros. “Isso é anterior ao livro, que é a corporização desse desejo. Esse papel de ser produtor de seu próprio imaginário está relegado, somos consumidores cada dia mais, imaginam por nós.” Para o autor, criou-se uma fronteira falsa entre a oralidade e a escrita, promovendo uma hierarquia maior ao texto. “Eu comecei por escutar, ainda hoje escrevo porque escuto. Essa dificuldade de nos apagarmos para ouvir realmente o outro, não só a palavra, mas o silêncio do outro, o corpo, as pausas, esse é o segredo.”

Ele diz que convida seus filhos e agora os netos para a leitura, mas, sobretudo, para o desejo de estar junto e que, mesmo que alguns de seus netos não leiam, quando se trata do momento de ouvir histórias todos se sentam: “o livro vai acontecer para eles, porque realiza esse prazer”. O autor conta que é pensando nisso que a Fundação Fernando Leite Couto, que tem com seus irmãos, está criando bibliotecas e que a ideia é atrair os jovens não só pelos livros, mas pela contação de histórias.

E a arte de narrar também se aprende. “Minha mãe era uma contadora de histórias que transformava o banal em algo extraordinário. Ela viajava para sua infância e adolescência – meus pais saíram muito cedo de Portugal e, por razões políticas, não podiam voltar. Era através dessas histórias que ela fazia o regresso, aquilo era um barco”. Além da mãe, as histórias que as vizinhas contavam também povoaram sua infância. “Ali na cozinha se contavam histórias fascinantes – e talvez fofocas, não interessava –, era uma maneira de tomar posse do mundo e convertê-lo naquilo que era um objeto de desejo.” Já sobre o pai, que era poeta, ele conta que tinha uma sensibilidade para o não visível.

Identidades múltiplas

Entre escutar as histórias familiares e as moçambicanas, ele via a fronteira entre África e Europa na rua de sua casa. “Misturava as histórias na minha cabeça e mesmo as que não pertencem à minha tradição familiar se apoderaram de mim, e tenho orgulho disso”, diz o escritor ao falar sobre a construção de seus personagens negros. “O escritor pode ter múltiplas identidades.”

Ele lembra que até sua independência, Moçambique vivia sujeito a uma política sistemática de racismo. Com o fim da colonização, a maioria negra do país assume o poder. “Não quer dizer que não tenha mais racismo – não conheço país em que não exista –, mas houve um processo de 40 anos que curou muito dessas feridas. Hoje já se colocam outras questões em debate, como a presença da mulher e a presença maior de outras etnias negras que são minoritárias na literatura...”

Muitas perguntas de alunos e professores questionaram o escritor sobre caminhos frente a um momento em que os livros e a cultura voltaram a sofrer censura no Brasil. Para Mia Couto, essa é uma resposta que só pode ser dada pelos próprios brasileiros. “Muitas pessoas vêm me dizer, ao fim de encontros como este, que choraram do princípio ao fim. Acredito que choramos porque não sabemos que resposta dar, como construir alguma coisa que resista contra isso”. Ele lembra que em Moçambique foi importante encontrar pontos em comum que uniam as várias resistências que existiam fragmentadas pelo país.

Meio ambiente

Pedro Napolitano Prata
Pedro Napolitano Prata

Biólogo de formação, Mia Couto foi questionado pelos alunos sobre as queimadas de florestas e as mudanças climáticas. Para ele, é preciso ter claro que não se tratam de questões ambientais, mas políticas e econômicas, pois são esses interesses que estão na causa dos problemas: “é preciso mudar o mundo inteiro.”

Por outro lado, o autor diz temer a ideia de que estamos no limiar do fim do mundo: “isso cria uma ansiedade por políticas ambientais, mas também cria um medo que não tem resposta. E perante essa angústia coletiva, é mais fácil ter a ideia de que precisamos de um salvador, um messias, que esse é um caminho mais fácil, porque as instituições não bastam. É um bocado perigoso”. Ele ainda falou sobre o sentimento de culpa que se cria nas pessoas ao gastarem água, por exemplo, muitas vezes esquecendo-se dos principais poluidores e consumidores de recursos, que representam os grandes interesses econômicos. “O discurso ecológico foi domesticado”.

Educação

Os professores e alunos também tinham curiosidade para entender como é o ensino em Moçambique. Mia Couto explicou que o país ainda tem uma maioria quase analfabeta e que, mesmo nas escolas, os livros são raros: “a maior parte dos alunos nunca tiveram sequer um livro em mãos”. O escritor lembrou de quando um menino de cerca de 12 anos, que vendia amendoim nas ruas do bairro, bateu à sua porta com um livro seu nas mãos. O garoto tinha visto uma menina sair da escola com um livro que tinha a fotografia do escritor na contracapa. Como conhecia o autor, ele seguiu a menina e perguntou: “esse livro é do Mia Couto?”. Quando ela disse que sim, ele arrancou o livro de suas mãos e foi devolvê-lo para o escritor. “Eu dei aquele livro ao menino, claro, mas fiquei pensando o quanto para nós essa é uma relação banal, de que um livro tenha um autor, e para ele não.”

Mia Couto ainda contou que Moçambique tem uma devoção quase religiosa à escola: “primeiro porque a maior parte dos alunos andam 5 ou 10 quilômetros para chegar a uma, segundo porque os pais não puderam ir à escola e terceiro porque veem a escola como um passaporte para sua própria salvação – muitas vezes de maneira ilusória”. Em suas visitas, ele conta que é recebido com muito silêncio e com olhares de quem está numa janela a espreitar o mundo. “É muito bonito. Por outro lado, falta fazer com que a escola seja mais viva, mais inquieta, onde os meninos possam dizer coisas, serem mais sujeitos de si próprios”, conclui.

O autor ainda criticou os sistemas educacionais: “parecem ter sido montados para transmitir os saberes da pior maneira possível”. Ele acredita que falta contar as histórias que nos trouxeram até esses conhecimentos, pois é a partir delas que os alunos poderão se conectar com aquele conteúdo.

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