Marcelino Freire

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05 de fevereiro de 2018

Marcelino Freire é autor de romances, contos e poemas. Seu livro “Contos Negreiros” ganhou o prêmio Jabuti em 2006, enquanto seu primeiro romance “Nossos Ossos” recebeu o prêmio Machado de Assis pela Biblioteca Nacional, em 2014. Incansável, ele ainda coordena oficinas de criação literária e é idealizador de eventos literários.  Nesta entrevista, ele fala sobre a cumplicidade entre professor e aluno, os pontos de intersecção entre escritores de diferentes gerações e como utilizar as diversas possibilidades da internet no ensino da literatura.

Mônica Cardoso

 

Como o professor pode libertar a literatura do papel burocrático exigido nas provas e despertar o encantamento pela leitura?

Literatura é emoção. Leia um poema ou um trecho de um livro em sala de aula, mas leia com sentimento. O aluno vai ficar tocado e querer continuar a leitura em casa. Ele não precisa saber o significado de todas as palavras nem entender o que o escritor quis dizer. Com isso, o professor vai ganhando o aluno pela cumplicidade. Mais importante do que ler é viver.

 

 

Se o aluno vivencia essa leitura em sala de aula, ele sente que o professor é um companheiro e não alguém que exige respostas para perguntas.

 

 

 

É possível promover o intercâmbio entre escritores consagrados e linguagens mais contemporâneas, seja na literatura e na música, para provocar o interesse do aluno?

Somos todos humanos que vivemos em séculos diferentes, mas carregamos as mesmas dores e dúvidas. Dá para ler o conto “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, que fala sobre a escravidão, e contextualizar com um rap do Emicida. Acho que Eça de Queirós conversa tranquilamente com Ferréz porque ambos escrevem sobre seu entorno. Ah, mas a linguagem de Eça é dificílima. Então vamos comparar a linguagem da cidadezinha portuguesa de Eça com a do Capão Redondo de Ferréz. Cada um tem seu modo de falar que representa seu modo de estar no mundo.

Com temas e linguagens mais próximos à realidade do aluno, como incluir textos da atual geração de escritores nas aulas?

Com a internet, a literatura tem recursos mais legais do que no meu tempo. Vamos procurar as redes sociais desses escritores? Vamos tentar conversar com o poeta Sérgio Vaz pelo Facebook? Que tal ver um vídeo da Conceição Evaristo lendo um texto dela no YouTube? Vamos brincar! Meu conto “Da Paz”, que fala sobre os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo, foi publicado no livro “Racife”, de 2008. E há duas semanas, uma poeta chamada Naruna interpretou este texto no programa Manos e Minas da TV Cultura. Até agora, o vídeo teve milhares de visualizações, o que mostra o potencial da internet.

Como você vê o aumento do número de saraus nos últimos anos, o que contribui para o maior contato com a literatura e a produção de textos autorais dos participantes?

Olha que engraçado. Antigamente, o sarau era feito na casa grande e agora ocorre nos bares da periferia.

 

 

É tirar a literatura do pedestal e aproximá-la das pessoas.

 

 

É misturar literatura com batata frita e envolver a comunidade. Ali todos vão ouvir e ser ouvidos. Como acompanho os saraus há algum tempo, vi crianças crescerem e se tornarem leitores e autores. Eu saio dos saraus tomado pela emoção e essa energia precisa estar na sala de aula, com a escola se integrando a esse movimento. Por exemplo, o professor e escritor Rodrigo Ciríaco organiza, desde 2006, o sarau Os Mesquiteiros na Escola Estadual Jornalista Francisco Mesquita, na periferia de São Paulo.

 

No livro “Os cem menores contos brasileiros do século”, você convidou cem autores para escreverem contos de até 50 letras. Pegando um gancho na escrita enxuta do Twitter, esta pode ser uma forma criativa para estimular a produção de textos?

Vamos fazer uma brincadeira já que esses dedinhos são tão rápidos para digitar no celular? Leia um conto da Clarice Lispector, peça para os alunos pinçarem uma frase com até 140 caracteres e escreverem um Twitter para enviar aos demais, fazendo uma espécie de corrente literária. Outro bom exercício é ler um conto, pedir para o aluno escolher uma frase que tenha se identificado e escrever um microconto. Ele vai começar a perceber o que nunca tinha pensado: a avó dele, a rua onde mora, as frutas que come. Tenho certeza de que todo mundo gosta de escrever.

 

Como professor de oficinas de criação literária há mais de 15 anos, quais dicas poderia compartilhar?

O professor tem que instigar o aluno a escrever livremente, do jeito dele, com suas emoções, mesmo que esteja errado, para que esta escrita seja desbloqueadora. O aluno vai se sentir valorizado. Depois, discutimos a gramática. Deixe o aluno encontrar a sua maneira de escrever.

 

 

Apenas o bom escritor tem sua maneira própria de escrever. Se qualquer pessoa pode escrever o seu texto, este texto não é seu.

 

 

Você é curador da Balada Literária, evento que chegou à 12ª edição em São Paulo, à 3ª edição em Salvador e que foi realizado pela primeira vez em Teresina. Como é a experiência de aproximar público e escritores?

A Balada Literária sempre promoveu essa conversa estreita entre autores e leitores. É a literatura sem frescura. Quando o Antonio Candido participou da Balada, as pessoas sentadas no chão podiam até puxar o cadarço do sapato dele.  O público se sente à vontade e participante do evento.

 

 

É isso que precisa existir na sala de aula: que as pessoas se sintam juntas, acolhidas e percebidas pela literatura.

 

 

Você disse que a literatura te salvou porque mostrou o que não sabia ou não enxergava, como o poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira, que retrata a situação degradante do ser humano. É esse o papel do escritor?

Eu gosto do escritor que percebe o mundo e diz coisas que me tiram do chão. O escritor tem que tirar o leitor do senso comum, daquela fila em que todos vão para o mesmo matadouro, e mostrar outras possibilidades. Isso torna o leitor mais consciente da sua função no mundo, do que ele pode batalhar para melhorar a sua realidade e a do outro, se tornando um cidadão melhor. E isso não é pouco. É algo que nos garante respirar porque é preciso estar atento e forte, principalmente no momento atual.

 

10 thoughts on “Marcelino Freire

  1. Literatura não é frescura, é emoção! Marcante esta entrevista ao trazer a visão do escritor Marcelino Freire sobre uma literatura mais “livre e solta”! E eu que já amava a literatura agora não consigo mais viver sem ela…

  2. Que entrevista incrível! Ficou com várias ideias para as minhas aulas de Literatura deste ano. Já comecei a pôr em prática as dicas do Marcelino.

  3. Olá, sou professora de sala de leitura, e esse será meu segundo ano e diante das circunstâncias do avanço da tecnologia fica difícil competir, também acredito que ler diariamente os fazem terem mais interesse, adoraria poder receber textos e mais ideias como essas de sua entrevista maravilhosa, tal como poder recebe lo em nossa escola!
    Deixo desde já o convite a EE Leico Akaishe prof. / Ribeirão Pires.- SP.
    Parabéns pelo trabalho e dedicação.

  4. Gostei bastante da fala de Marcelino Freire. Ele deu dicas muito interessantes para serem vivenciadas em sala de aula. Também gosto muito de trabalhar oficinas de leitura e produção textual com os estudantes. Faço isto dentro e fora da escola, quando sou convidada

  5. Olá! Sou professora de Língua Portuguesa e sou apaixonada por cada letra e pela possibilidade infinita que temos de brincar com elas (e eu brinco muito!). Amei essa entrevista. Vou aproveitar muitas dicas deixadas aqui. Grata, Marcelino Freire.

  6. Marcelino Freire, você é um profissional da educação que faz a diferença. Marcante sua entrevista! Além do aprendizado adquirido, fiquei feliz quando mencionou o texto “O Bicho” de Manuel Bandeira, pois foi a primeira leitura de textual realizada com meus alunos do primeiro ano Médio, este ano. Parabéns pelo seu trabalho e o contato com Antonio Candido!

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