Eu, a leitura e a escrita parte 2

11 abril 2018

Abraço de amor

Juliene Marques
Tubarão (SC)

Álbum de figurinhas. Esta é a minha mais longínqua lembrança com as palavras. Meu pai trazia novas figurinhas para que eu montasse o meu álbum e, nele, além das imagens, havia os balões com as falas das personagens. Uma história em quadrinhos. Lembro que lia e relia aquela história, como quem já tinha um enorme domínio com as letras.
Eu procurava, nos livros que tínhamos em casa, imagens para descobrir o mundo. Havia uma enciclopédia sobre animais, com fotos e características de várias espécies. Lembro-me de suas imagens até hoje. Também tínhamos o que não poderia faltar: gibis. Eu, como muitas crianças, criava muitas narrativas, releituras de histórias que não conhecia, e me divertia com isso. Meu pai era o meu leitor preferido. Sempre o abordava pedindo que lesse “uma historinha” para mim, o que ele fazia com muita alegria.
Com o tempo, aprendendo a cada dia mais na escola, quis ler, de verdade, as histórias escritas. Passei a desvendar e criar textos. Desse modo, assumi o posto de leitora na minha casa e, por saber ler, lia para minha irmã mais nova, assumindo o papel que meu pai executou em minha vida. Também lia para minha vozinha, pois ela enxergava muito pouco. Bulas e versículos bíblicos eram os gêneros textuais preferidos dela, hoje sei o motivo.
Na escola, pegava livros infantis semanalmente. Os meus preferidos, na época, eram “Juju, a estrelinha preguiçosa”, pois a protagonista tinha o meu apelido, e “Nos ombros fortes de papai”. Mais adiante, passei a ler a coleção “Quem tem medo” e, não poderia deixar de citar, “A bruxa Salomé”, que me causava realmente pavor, pois apresentava imagens bem realistas. Além disso, os gibis nunca ficaram para trás. Foram, certamente, os meus melhores aliados para ter uma leitura efetiva e, também, afetiva. Turma da Mônica, Mickey, Pato Donald, Chico Bento e muitos outros foram meus parceiros de aventuras.
Na pré-adolescência, passei a ler livros “maiores”, como “Meu pé de laranja lima” e “O menino do dedo verde” - estes eu guardo até hoje comigo. A revista Todateen e a HQ Witch ganharam vez, assim como os pôsteres dos galãs da televisão. Nessa época, também enchia minhas agendas com letras de músicas e trechos preferidos das obras que lia.
Já na adolescência, meu pai voltou a me influenciar na leitura. Começou a me indicar alguns romances estrangeiros que ele tinha em casa. Aliada ao meu pai, tive uma professora de Química que amava best sellers e que me indicou várias obras. Foi com esta docente que aprendi a marcar na agenda tudo o que lia e que queria ler. Faço isso até hoje. Essa fase foi muito marcante para mim, pois foi quando senti a dor da perda. Minha mãe e minha avó paterna, que era uma mãe, faleceram no mesmo mês. Foi muito difícil encarar essa situação e tive a leitura como aliada e refúgio. Lia Sidney Sheldon, Irving Wallace e Danielle Steel. Lia à tarde, à noite e em todos os momentos em que podia. Vivia em outro mundo. Eu era outras pessoas. Homens, mulheres, crianças e idosos. Não queria viver a minha vida naquele momento.
Da pré-adolescência à idade adulta, nunca abandonei minhas agendas anuais, que funcionam como diários de relatos pessoais e registro de tudo o que me encanta. É ali que guardo o que me toca. Ainda continuo, hoje, anotando letras de músicas, trechos de obras que gosto, versículos bíblicos, enfim, múltiplos fichamentos.
Depois de iniciado o curso de Letras, passei a me aventurar pela literatura brasileira e por clássicos da literatura universal. Machado de Assis, José de Alencar, Clarice Lispector, Paulo Leminski, Lygia Fagundes Telles, Gabriel Garcia Marquez, Miguel de Cervantes, Dostoiévski, enfim, conheci vários novos amigos. Posteriormente, na pós-graduação, passei a me dedicar a leituras teóricas e filosóficas referentes à educação e à política contemporânea. Durante e após o ensino superior, passei a escrever muito, produzindo textos acadêmicos sobre os temas que me interessam na minha área.
Agora atuo em sala de aula e me percebo diante do desafio de contagiar os jovens com o prazer de ler um texto, de ser outras pessoas por meio da narrativa, de criar o impossível através da linguagem escrita, de carregar água na peneira e viver com despropósitos, como diria Manoel de Barros. Em um tempo em que a pergunta “para que ler o livro se tem o filme?” reina, conquistar um leitor é uma raridade. O jovem tem pressa. O mundo tem pressa. E a pressa faz com que atropelemos a vida. Nesse atropelo, muita informação fica no não entendido ou no mal compreendido. E, no meio da tristeza de ouvir “li, mas não entendi nada”, o desafio se renova e faz com que eu me lembre de que, assim como eu precisei da leitura para vencer grandes obstáculos, meus alunos também precisam dela. Precisam de mim. Precisam de professores que mostrem a capacidade que todos têm, pessoas que digam que é possível.
Hoje preencho o álbum de figurinhas em sala de aula: completando lacunas, conectando os espaços que estavam em branco, construindo e reinventando novas histórias. Leio não só por mim, mas também por outros. Busco textos que encantem. Obras que contagiam. Narrativas que prendam, efetivamente, o leitor, para que ele, assim como eu, não fuja nunca mais dos braços da leitura e se sinta acolhido, como em um abraço de amor.