Entre as veredas de Rosa: literatura no sertão

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12 setembro 2018

Marina Almeida
Projeto leva caminhantes para conhecer as paisagens de Guimarães Rosa; nas comunidades visitadas, pesquisadora mostra como apresentar o autor para crianças e adultos

Nas mais de 600 páginas de Grande Sertão: Veredas, Diadorim, Riobaldo e seu bando de jagunços percorrem léguas sem fim do interior de Minas Gerais. Enquanto perseguem seus inimigos, travam batalhas sangrentas e vivem talvez a mais bonita história de amor da literatura brasileira, os personagens atravessam paisagens do noroeste mineiro, como o rio Urucuia, o Vão-dos-buracos, a Serra das Araras e o Liso do Sussuarão. Há cinco anos, sempre em julho, um grupo de caminhantes se reúne para refazer parte deste trajeto a pé, descobrindo a vegetação por trás das descrições do autor, a população sertaneja que inspirou seus personagens e vivenciando a própria experiência da travessia de longas distâncias.

No percurso do Caminho do Sertão, questões socioambientais e literárias se entrelaçam nas discussões e atividades culturais desenvolvidas ao longo dos seis dias e 186 quilômetros de caminhada. A seleção dos participantes é feita a partir de uma carta de intenções e o grupo, de cerca de 50 caminhantes, reúne estudantes, pesquisadores, professores, artistas e interessados em geral na obra de Guimarães Rosa e no sertão mineiro.

Como Diadorim mostrando a Riobaldo a beleza dos animais e das plantas do sertão, os textos do autor guiam o olhar dos caminhantes para os detalhes da paisagem e também das pessoas e de suas histórias. A natureza do cerrado, tão presente nos livros de Guimarães Rosa, se apresenta sem pressa para quem caminha a pé. Ver um redemoinho se formar no horizonte, as gradações de cores da areia, as aves do caminho ou as mudanças da vegetação do cerrado a cada trecho (algumas vezes também em forma de devastação ambiental) acrescenta cores, cheiros e sons às passagens conhecidas antes apenas pela leitura. Encontrar em meio ao chão arenoso e ao calor do sol sertanejo, sombra de buritis e água corrente parece um presente para o caminhante cansado ou para o jagunço ferido. Caminhar a partir dali pela vereda também faz pensar em novos significados para a obra de Guimarães Rosa a partir desse reconhecimento das paisagens.

 

Sonoridade roseana

Ao fim do primeiro dia, um pequeno barco ajuda os caminhantes a cruzar o rio Urucuia. Antes da travessia, Elson Barbosa, um dos guias do percurso, narrou o encontro de Diadorim e Riobaldo, que acontece numa barca como aquela. Ao longo de todo o trajeto, ele, que é condutor ambiental do parque Grande Sertão: Veredas, em Chapada Gaúcha (MG), declamou trechos das obras de Guimarães Rosa destacando seu ritmo e entonação. “Além de uma interpretação muito forte, o Elson tem o sotaque natural do interior mineiro, não é uma fala caricata”, ressalta a professora Rosa Amélia Pereira da Silva.

Para ela, um dos pontos fortes para apoiar a leitura do autor com os alunos é justamente trazer a força da oralidade de suas obras. “Seu texto é muito sonoro e essa concretização oral ajuda os alunos a criar imagens, a entender o texto”, conta. O próprio Elson chegou a se apresentar em escolas e comunidades da região. “Os alunos ficam encantados quando ouvem-no declamar Guimarães Rosa”, conta.

Ao constatar que o autor é muito reconhecido na região, mas pouco lido, mesmo nas escolas, a pesquisadora Rosa desenvolveu, em sua tese de doutorado, uma metodologia para trabalhar a obra de Guimarães Rosa na Educação Básica. “Eu ouvia muito as pessoas dizerem: conheço de ouvir dizer, mas ler nunca li [Guimarães Rosa]. Muitos moradores da região e mesmo alunos não o reconheciam como escritor, falavam que era um contador de histórias, da perspectiva da contação oral, que foi um historiador, geógrafo ou até que foi um tropeiro que andou pela região”, conta. Em sua pesquisa, ela recolheu até relatos de moradores sobre a suposta passagem do autor pela região, mas não existem registros de que ele tenha chegado até lá. Guimarães Rosa fez uma expedição com boiadeiros pelo interior de Minas Gerais em 1952, mas não chegou até o Vale do rio Urucuia. Acredita-se que a precisão das descrições do autor deve-se ao seu interesse pelos estudos de geografia e cartografia.

 

Formação de leitores

Após realizar uma série de oficinas de leitura com seus próprios alunos do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG – Campus Arinos), a pesquisadora desenvolveu um curso de formação de 

professores-leitores para os docentes da região. “No sertão, Guimarães Rosa ganha ares de mito, mas as pessoas não leem. A fama de que o seu texto é difícil também atrapalha", lembra.

Após a formação, Rosa acompanhou o trabalho de alguns desses professores em suas próprias turmas. Ao final, o projeto foi aplicado tanto a alunos do ensino médio quanto nas duas últimas séries do ensino fundamental e na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Numa segunda fase, ela ainda levou as oficinas de leitura a cinco comunidades ribeirinhas percorridas no trajeto do Caminho do Sertão – Sagarana, Morrinhos, Vila Bom Jesus, fazenda Menino e Arinos.

Todo o processo de leitura e discussão acontece com os alunos sentados em roda, no que ela chama de ciranda dialógica. “Quero que eles percebam que ali todos têm voz, podem falar e colocar sua interpretação. Mostrar que as interpretações de cada um vão se complementando umas às outras e que eu, como professora, não tenho a chave final da leitura do texto”, explica. Num primeiro momento, ela também faz questão de destacar para os alunos a importância do sertão e da cultura da região como fontes de inspiração para o autor, natural do interior mineiro.

 

Cirandas de leitura

A professora Rosa conta que optou por trabalhar com os contos do autor, mais curtos, porém com a mesma densidade filosófica das novelas e romances. Na seleção dos textos, ela considera alguns critérios: “precisa ter um conflito instigante e uma aproximação com a vida deles. Tenho uma linha muito pessoal de buscar os textos com os quais eu mesma me identifico ou estabeleço uma relação afetiva”. Ela defende que o professor ensina pelo exemplo e que, para instigar o aluno ao ler, é preciso que ele próprio se sinta mobilizado pela narrativa.

O primeiro movimento da ciranda é o da motivação: propor alguma discussão, jogo ou brincadeira que crie, nos alunos, o interesse pela leitura. E para cada texto, a estratégia adotada é diferente. Para trabalhar o conto Fita verde no cabelo, por exemplo, Rosa partiu de um exercício de reconhecimento das simbologias associadas às cores. “Ao final montamos um painel e apareceram relações muito interessantes, como o marrom, que foi associado à poeira, ao gado e ao cansaço. A partir disso, lemos o conto buscando entender como as associações ao verde ampliavam nossa interpretação do texto.”

A idade dos alunos também deve ser levada em conta ao pensar na atividade. Rosa explica que trabalhou o conto A terceira margem do rio com alunos de diferentes idades, mas a partir de propostas diferentes. “Com os alunos do ensino médio, o ponto de partida foi a discussão da simbologia do três: o que é, onde está e existe uma terceira margem do rio? Já com os alunos do fundamental, partimos de uma discussão sobre obediência. Após a leitura do texto, buscamos entender o que levou o filho a substituir o pai na sua tarefa de passar o dia dentro do barco.”

 

Leitura solidária

A professora e pesquisadora defende que, enquanto não desenvolve autonomia na leitura, o aluno precisa contar sempre com o apoio do professor e da turma. Quando o texto é de difícil entendimento, ela prefere apresentar essa primeira leitura, valorizando a dramaticidade dos diálogos e a sonoridade do texto. “Se o personagem fala gritando, solto um grito durante a leitura; se tem uma dor, busco revelar essa dor na minha voz... Para isso, busco conhecer muito bem o texto, fazer marcações e planejar sua leitura”. Já um texto de estrutura mais simples pode ser lido de forma colaborativa pelos estudantes. “Ao ouvir um deles lendo de forma mais dramatizada, o outro também se inspira a fazer de forma parecida. E eles percebem que essa leitura que respeita a marcação de entonação do texto e a pontuação facilita muito o entendimento”, aponta. Para ela, é importante atribuir a responsabilidade da leitura aos alunos, mas de forma segura, sem desqualificar sua leitura, o que pode acabar afastando-o da literatura.

Quanto ao vocabulário desconhecido, Rosa conta que pede para os alunos tentarem compreender as palavras pelo contexto numa primeira leitura. Outras atividades incluem a busca de palavras de valor semântico semelhante para entender como as repetições ampliam o sentido de um conto ou identificar palavras antagônicas justapostas para compreender o sentido que estão construindo no texto.

Após os exercícios de mobilização para o texto, leitura e compreensão do sentido mais literal das histórias, Rosa elege um fio condutor para direcionar a discussão com os alunos sobre os contos. Ela ressalta que a dinâmica de cada turma pode levar a caminhos muito diferentes. Por isso, além de conhecer bem o texto, Rosa recomenda que o professor peça para o aluno mostrar no texto onde buscou sua interpretação. Apesar da profundidade dos temas de Guimarães Rosa, a professora conta que encontrou análises muito elaboradas: “ouvi de um aluno que a terceira margem do rio seria o próprio homem. Outro disse que a terceira margem é a água correndo. Existem críticos que defendem essa ideia, de que a correnteza seria a terceira margem, e uma criança conseguiu chegar a essa mesma conclusão”.

 

Ressignificação artística

Seu trabalho com cada conto de Guimarães Rosa sempre terminava com uma proposta de ressignificação daquela obra em diferentes linguagens artísticas: dramática, 

poética, prosa, pintura, entre outras. As produções deram origem a um blog, um filme produzido pelos alunos e dois livros. Publicados com apoio do Instituto Cresertão e da Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Vale do Rio Urucuia, eles reuniram as produções dos alunos de três escolas.

A partir do trabalho com os alunos e professores, Rosa ainda desenvolveu oficinas para levar a leitura de Guimarães Rosa para as comunidades rurais da região. Abertas a todos, essas cirandas reuniram pessoas das mais diferentes idades e níveis de escolaridade, com resultados também surpreendentes: “a interpretação das pessoas mais velhas, por conta de sua vivência sertaneja, traz analogias que nós, que estamos longe da experiência do sertão, temos dificuldade de fazer”, relembra. A professora conta que o objetivo desses encontros também é fazer com que os moradores se reconheçam na obra de Rosa e percebam que eles podem ser personagens tão inspiradores quanto os encontrados em seus textos.

Ouça um trecho da leitura de Grande Sertão: Veredas, feita durante o percurso:

 

Conheça o Parque Nacional Grande Sertão Veredas.

14 thoughts on “Entre as veredas de Rosa: literatura no sertão

  1. Gente,estou extasiada.!
    Com a.criatividade, o trabalho, a idéia…
    Sou professora e trabalho na formação continuada da minha cidade, Vila Velha. E gostaria muito de mostrar esse projeto para os professores
    Parabéns

  2. Gostaria se saber se estão disponíveis as produções realizadas nessa pesquisa. Tenho interesse em conhecê-las porque estou desenvolvendo uma pesquisa com contos de Guimarães Rosa para alunos do 6º ano de uma escola pública no município de Ibirité.

  3. A prosa do Guimarães ouvida da boca de quem tem lugar de fala é muito inspiradora e me faz sentir como se eu fizesse parte desse sertão, que, deveras, sou.

  4. Estou desenvolvendo um projeto coma obra de Grandes Sertões Veredas em uma turma do 9 ano na minha escola, e tenho muito interesse nesse projeto

  5. Eu sou Maria Zenaide Carneiro Simões Leciono com Ciências do 6º ano ao 9º ano, Mas me encantei por esse trabalho com certeza as crianças aprendem com mais facilidade. Achei a cara do nosso aluno do sertão pra fixar melhor nossa identidade.Parabéns!

  6. Entender Guimarães Rosa, tem sido um desafio na minha condição de leitora, mas, ao mesmo tempo, é fascinante! Conhecer um pouco mais sobre a obra de Rosa e o lugar por ele descrito, com certeza me instiga mais na aventura que é a sua literatura.

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