“Dentro do meu dentro” A experiência literária de Geni Guimarães

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Mulher, terminando o ginásio.
Mulher, cursando o normal, a caminho do professorado, cumprindo o prometido.
Mulher, se fazendo, sob imposições, buscando forças para ser forte.
Mulher, cuidando da fala, misturando palavras, pronúncias suburbanas aos mil modos de sinônimos rolantes no tagarelar social requintado.
Mulher, jogando cintura, diante das coações e preconceitos.
Mulher, contudo e apesar, a um passo do tesouro: o cartucho de papel.”

Geni Guimarães. “Mulher”, in: A cor da ternura. 12ª ed. São Paulo: FTD, 1998, p. 81.

 

Transformar a dor em poesia não é movimento fácil. Apesar do lugar comum que é crer na tristeza como motor criativo, recolher os cacos e torná-los arte é desafio, sobretudo, quando o que dói é violência antiga e inacabada. Talvez seja esse um dos traços que nos cativam ao ler Leite do peito. Com a 1ª edição publicada em 1989, o livro é composto por contos autobiográficos que atravessam a história da autora da infância à vida adulta. Geni Guimarães empresta seu nome à protagonista e nos conduz por algumas passagens de sua vida: cheinhas de amor e dengo, apesar dos açoites do racismo. O que temos em Leite do peito é a escrita que nasce do cotidiano, da memória e das experiências da autora e de sua comunidade. A potência de sua obra, entretanto, não se encerra aí. A escrita impecável nos transporta para o lado da menina Geni e faz enxergar, junto com ela, a paisagem da roça, a criançada a caminho da escola, comidas gostosas compartilhadas com a família.

Como afirma a autora em sua “Oferenda”1, nada disso é poder sobrenatural: o “coração repleto de ternura e alma transparente”, o “aço” que lhe faz mais forte, e a “fé” têm conexão direta com sua família. Sem ela, não haveria escrita alguma. Foi sua mãe – poeta, ainda que pouco escrevesse – quem deixou, como herança para Geni, a literatura.

E já no primeiro conto do livro a força desse laço fica evidente. “Primeiras lembranças” parece fotografia antiga: a mãe sentada na cadeira trançando o cabelo da menina que mamava; o amor que cabe no universo de um abraço.

A poesia nasce também da conversa com os bichos, das baratas ao bicho de pé, e perpassa a tentativa de se comunicar por latidos e miados, buscando achar resposta para sua imaginação inalcançável:

“Quando eu perguntava que cor era o céu, me respondiam o óbvio: bonito, grande, azul… Não entendiam que eu queria saber do céu de dentro. Eu queria a polpa, que a casca era visível. Por isso foi que eu resolvi manter contato com as pessoas só em casos de extrema necessidade. Ao contrário dos seres humanos, os animais se mostraram amigos e coerentes. Aprendi a falar com eles.” (“Enterro da barata”, p. 35.)2

Leite do peito é marcante porque é processo. Conto a conto, descobrimos a menina Geni – seu jeito de entender o mundo e ser entendida por ele. A sequência narrativa nos possibilita amadurecer junto com a personagem.

A vida escolar da personagem é significativa especialmente para nós professoras. Textos como “Tempos escolares” e “Metamorfose” deveriam ser bibliografia básica das licenciaturas. Os contos nos mostram por onde não ir e o impacto que uma aula descomprometida e desatenta às desigualdades raciais e às experiências de sujeitos negros no Brasil pode ter. Na trajetória de Geni, a narrativa da professora violentava o imaginário acerca de sua ancestralidade, retratando a população escravizada como “bobos, covardes, imbecis”, que “não reagiam aos castigos, não se defendiam” (“Metamorfose”, p. 62).

SAIBA MAIS

Sabemos que ainda é desafiador construir efetivamente uma Educação das relações étnico-raciais, mas a prática antirracista deve ser nosso compromisso. Aos poucos, nas atividades de cada docente, nas conversas de corredor, vamos firmando valores e rompendo com a Pedagogia do Evento: falar de identidade é tarefa para o ano todo, e não apenas para novembro. Para instigar a reflexão e estimular o trabalho com a literatura afro-brasileira, desenvolvemos uma sequência didática sobre o tema, que tem como eixo a mediação de leitura da obra Leite do peito, de Geni Guimarães. Você pode acessá-la na seção “Formação – Literatura em Movimento” do Portal Escrevendo o Futuro3.

O racismo ali fica evidente, sem vergonha. Machuca tanto por dentro que a vontade é machucar por fora com pó de tijolo para tirar a negritude à força, pensando ser ela a culpada do sofrimento. A cena descrita, presente no conto “Metamorfose”, é provavelmente uma das mais dolorosas da obra e marca o processo de constituição identitária de Geni. A falta de confiança em si e a relação conflituosa com sua cor tornam-se parte do processo de autopercepção e tomada de consciência:

“Dentro de uma semana, na perna só uns riscos denunciavam a violência contra mim, de mim mesma. Só ficaram as chagas da alma esperando o remédio do tempo e a justiça dos homens.”4 (“Metamorfose”, p. 66.)

O livro também nos apresenta Vó Rosaria, “uma velha senhora negra que morava noutra fazenda com uma família de fazendeiros. Nunca ninguém soube por que razão morava com aquela família, nem qual a sua idade certa” (“Tempos Escolares”, p. 46). Cercada pelas crianças da região, a senhora sentava-se para narrar “tão lindas e tristes histórias” que versavam sobre a escravatura e a abolição. Vó Rosária contava sobre a força e a esperteza das negras e dos negros, assim como a bondade da Princesa Isabel. Aquela narrativa enchia a menina de inspiração e a fazia querer escrever versinhos para homenagear a princesa. Ali, diferente do espaço escolar, a contação de histórias e o aconchego da família, fortaleciam a identidade e o nascimento poético de Geni.

Mais que por sorte, é por amor que Geni Guimarães vai se encontrando na beleza de sua cor, origem e história. Em “Alicerce”5 (p. 72) quando o sonho de ser professora é sonhado também pelo pai, a menina logo questiona “Pai, que cor será que é Deus… [...] – É que se ele fosse preto, quando ele morresse, o senhor podia ficar no lugar dele. O senhor é tão bom”. O pensamento espontâneo e aparentemente ingênuo é, na verdade, revolucionário. Não só por subverter a “sagrada escritura”, como afirma o pai, mas por levar para casa o “passarinho verde” da felicidade que, mesmo em tempos difíceis, contagiou a todos com a gargalhada.

Se é pelo amor que Geni aprendeu a potência da negritude, é pelo amor que buscará driblar o racismo. No primeiro dia de aula como professora, mais uma vez é obrigada a enfrentá-lo. A violência presente no olhar inquisidor das mães que questionam seu lugar ali; a violência gritada pela aluna, que chorando na porta da sala afirma: “Eu tenho medo de professora preta” (“Força flutuante”, p. 101).

A frase nos assusta. A protagonista até deixa de ser o centro das atenções e nos alongamos a refletir sobre o porquê daquela postura: Crianças podem ser racistas? Como as crianças se tornam racistas? Procurando respostas, encontrei o artigo “Em busca de uma infância cidadã: socialização, identidade e pertencimento racial”, em que a professora e pesquisadora Eliane Cavalleiro (2009) apresenta a ideia de que o “aprender a ser racista” perpassa pela “socialização racial”6. Esse conceito organiza ideias já conhecidas, como a noção de que aprendemos a ser quem somos nos espaços que frequentamos, mas consolida também a agência das crianças: não é um simples jogo de influência, mas uma troca com o meio.

Lembremos então que, no conto “Força flutuante”, a primeira ação discriminatória notada por Geni parte do “olhar duvidoso da diretora e das mães” (p. 101), consequentemente, sendo a família e a escola as principais instituições de socialização na infância, as crianças dificilmente construirão de antemão outro imaginário acerca da negritude. Assim, podemos entender que a fala da aluna de Geni não é uma malvadeza de criança, mas decorrência do racismo que permeia suas relações em casa e no ambiente escolar.

Ao notar que existe uma questão entre aluna e professora, surge a diretora e propõe mudar a menina de sala, assim evitariam qualquer conflito. Geni pede então que ela lhe dê uma chance para contornar a situação. Cheia de malemolência, a professora finge precisar de ajuda e envolve a menina na dinâmica da aula, dando-lhe algum destaque e conquistando-a.

Ao final, nós leitores somos agraciados com um diálogo carinhoso: “Amanhã eu vou trazer de lanche pão com manteiga de avião, a senhora gosta de lanche com manteiga de avião na lata? – Adoro. – Vou dar um pedaço grandão pra senhora, tá? – Obrigada.” (“Força flutuante”, p. 104).

Abre-se aqui um leque de possíveis leituras, emoções e julgamentos. Sei que muita gente se encanta sem pudor com a postura de Geni e acaba valorizando a posição supostamente complacente da narradora. Confesso que eu tenho cá minhas ressalvas. Fico dividida entre idolatrar Geni e querer lhe dar um abraço ao lembrar de quando eu vivi situação semelhante. Foi na saída da escola, no meu primeiro dia de aula como professora na Educação Básica, que escutei de longe: “Viu a professora nova de português? Tem cabelo de vassoura”. Por dentro, ainda sinto essa história se remoendo. Principalmente porque, diferente de Geni, não tive reação. Fui embora e deixei o absurdo sem resposta. Infelizmente.

Talvez então por compartilhar um pouquinho da dor que doeu em Geni não consigo olhar para esse conto e simplesmente exaltar sua postura. Fico só pensando no dolorido que deve ter ficado lá no íntimo daquela professora que, ao invés de ser acolhida, foi subestimada também pela diretora, mas ainda assim engoliu o choro, a raiva, a dor e acolheu.

Quantas de nós conseguiríamos ter a serenidade de chegar junto de quem nos ofendeu? É raro. Mas não é raro porque simplesmente não somos pessoas boas, evoluídas. Mas porque cada uma de nós tem um tempo, uma vida, uma bagagem que nos faz agir como agimos. E precisamos acolher nossos sentimentos também. Já dizia Dona Geni: “Tem hora que a gente não consegue só ser sorvete. Tem hora que dói alguma coisa e a gente passa a ser um pouquinho aquele amargo da ameixa”7. Nosso ódio, nossa vontade de desaparecer e chorar deve ser acolhida tal qual a aluna de Geni.

Isso não significa – de modo algum! – negar a grandiosidade do gesto da professora Geni. Ali, mais uma vez, ela revolucionou as relações, remexeu as ideias e inspirou sentimentos lindíssimos.

O que não vale é, depois de conhecer essa história, sair por aí cobrando que sejamos todas Geni: pedagógicas e pacientes com todos que nos machucam. Ali, ela era a professora em sala de aula, lidando com uma criança em fase de alfabetização. Transpor o ocorrido para exigir de sujeitos negros que não demonstrem incômodo ou pontuem com firmeza o racismo é se isentar de qualquer responsabilidade, infantilizando a si mesmo e a qualquer pessoa que se diga ignorante quanto à temática das relações raciais.

Deixemo-nos então inspirar por toda a trajetória da personagem e da escritora Geni Guimarães, reconhecendo que o fato de driblar com serenidade certas situações não apaga a violência nem homogeneíza os comportamentos de sujeitos negros. “Para que me incluas, é preciso que te mudes para dentro do meu dentro”, escreveu Geni Guimarães no poema “Conteúdo”8. Assim, se incluir, enxergar e compreender é compromisso, que nos mudemos para dentro de quem que se dói e acolhamos.

 


Lara Rocha é professora de Língua Portuguesa e de Literatura da rede municipal de São Paulo. Mestranda em Letras – Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, pela Universidade de São Paulo (USP).


1. “Oferenda” é a dedicatória que abre a sequência de contos do livro de Geni Guimarães, Leite do peito (Belo Horizonte: Mazza Edições, 2001).

2. Os contos indicados neste artigo – “Enterro da barata”, “Tempos escolares”, “Metamorfose”, “Alicerce” e “Força flutuante” – são de Geni Guimarães e estão inseridos no livro Leite do peito (Belo Horizonte: Mazza Edições, 2001).

3. Disponível em <https://www.escrevendoofuturo.org.br/blog/literatura-em-movimento/literatura-afro-brasileira>. Acesso em 18 de maio de 2021.

4. Vale destacar que o trecho foi alterado na publicação A cor da ternura (São Paulo: Editora FTD, 1998), reedição de alguns contos presentes em Leite do Peito (Belo Horizonte: Mazza Edições, 2001). Aqui, optei por acrescentar a versão presente em A cor da ternura.

5. Texto publicado no Portal Escrevendo o Futuro. Disponível em <https://www.escrevendoofuturo. org.br/blog/literatura-em-movimento/alicerce>. Acesso em 18 de maio de 2021.

6. A socialização é um processo em que “o indivíduo ao mesmo tempo em que internaliza o mundo que lhe é mostrado, pode agir para transformar e intervir em seu meio, pois esse processo não é simplesmente ensinado: a criança mostra-se um parceiro ativo, podendo procurar novas infor-mações em outros lugares, que não exclusivamente o familiar. Descarta-se, sobretudo, a possi-bilidade de um desenvolvimento puramente espontâneo. Ele está diretamente ligado às influên-cias externas a que as crianças são submetidas, visto que é ela um ser social que reproduz o mundo de acordo com as suas experiências”. (Eliane Cavalleiro. “Em busca de uma infância cida-dã: socialização, identidade e pertencimento racial”. Portal Geledés, 18/6/2009. Disponível em <https://www.geledes.org.br/em-busca-de-uma-infancia-cidada-socializacao-identidade-e-pertencimento-racial>. Acesso em 14 de abril de 2021.)

7. Geni Guimarães. “Homenagem a Geni Guimarães”, in: Ciclo de Debates Perspectivas Étnico-raciais em Diálogos Interdisciplinares. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, 2020.

8. Geni Guimarães. “Conteúdo”, in: Poemas do regresso. Rio de Janeiro: Malê, 2020.

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