O percurso de escrita do relato de prática: do relato do vivido à proposta de uma reflexão singular


Margarete Schlatter
Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Com base em anotações de diário e memórias de trocas com colegas professores, é possível decidir sobre o foco da reflexão que, entre tantas no percurso, o professor-autor-formador percebeu como especialmente relevante para compartilhar com colegas professores-autores. O que motivou essa reflexão? O que nas suas ações bem particulares pode ser especialmente inspirador para o trabalho dos colegas? (Schlatter; Garcez, 2017, p. 16)

Neste relato descrevo brevemente os passos que Michele Mendes Rocha de Oliveira e eu trilhamos para a escrita de seu relato de prática “Clássicos: uma ponte entre o passado e o presente”. Diante da tarefa inicial proposta – escrita de relato por Michele e comentário meu sobre o relato –, decidimos nos debruçar sobre o desafio do que está proposto no “Especial Relatos de Prática” e construir uma interlocução de colegas professores para percorrer as etapas de sistematização e reflexão sobre o vivido, em uma primeira versão do texto, até a decisão sobre o destaque de uma reflexão percebida pela autora como especialmente relevante nessa experiência e, por isso, com potencial para formar e inspirar colegas leitores.

A primeira versão do relato apresentou o percurso do trabalho realizado e, desde o título, já buscava um recorte que focalizasse uma reflexão sobre um dos aspectos tratados: a relação dos conteúdos curriculares com a vida dos alunos. No decorrer do texto, no entanto, a apresentação das etapas da sequência didática e das características do contexto de ensino levantou outras questões que poderiam tornar-se relevantes e que demandaram novas decisões sobre o recorte. Na leitura dessa versão, fiz uma série de comentários como leitora que quer saber mais, opina e propõe alguns focos para a reescrita a partir de aspectos que foram me chamando a atenção e sobre os quais gostaria de ler mais. Combinamos que conversaríamos após essa etapa.

Nesse primeiro encontro virtual, conversamos a partir dos meus comentários. Conheci mais sobre os estranhamentos iniciais dos alunos em relação à leitura de textos “antigos”, aprendi como, em um contexto de poucos recursos, Michele foi buscando ideias e soluções locais e possíveis para propor um ensino que fizesse sentido para os alunos, compreendi como desenvolveu determinadas etapas da sequência didática, como os alunos fizeram as avaliações e as reescritas, o que mais estudaram e como foram se tornando protagonistas de suas aprendizagens. Cada uma dessas questões poderia ser foco de um relato diferente e, aos poucos, vimos que, nesse percurso específico, o que se tornou mais relevante para Michele – e a instigou por um semestre – foi como motivar os alunos para a leitura de clássicos. Estava decidido o foco da reflexão para este relato e a orientação para a reescrita. Ao clicar no link disponível no final desta página, você pode visualizar a versão inicial e os comentários e, no final do arquivo, a sistematização de algumas reflexões sobre as quais conversamos e que poderiam orientar a reescrita.

Após esse encontro, Michele retomou os pontos que conversamos para reescrever o texto. Na leitura da segunda versão, fiz ainda alguns comentários e sugestões, levando em conta, principalmente, a abrangência do tema e as informações necessárias para dar concretude à reflexão proposta. Conversamos novamente para acrescentar alguns detalhes e descartar outros. A comparação das duas versões mostra, até certo ponto, o percurso percorrido: organizar, sistematizar e relatar o que foi vivido, conversar e analisar o que aconteceu, ponderar sobre sugestões e destaques, rever e ressignificar o que foi vivido, decidir sobre o que foi mais relevante nessa experiência, buscar novas justificativas, descartar o que não contribui, reler e revisar o texto tendo em vista o propósito e a interlocução. Pode-se observar, por exemplo, que alguns comentários foram considerados na reescrita; outros, embora tenham sido discutidos no encontro, não se tornaram relevantes para desenvolver a reflexão destacada (por exemplo, informações sobre os critérios de avaliação ou exemplos de textos para o trabalho com o gênero textual). Nesse sentido, é importante frisar que as sugestões dos colegas leitores serão consideradas e avaliadas pelo autor com base na reflexão que decidiu propor em seu relato: ele saberá selecionar o que é relevante para narrar as particularidades de sua prática autoral contextualizando-as no tempo-espaço em que as vivenciou.

Em nova conversa com Michele para concluir o nosso percurso da escrita, ela me relatou que este é o terceiro relato de prática que escreve e que neste conseguiu fazer o que queria já ter feito no primeiro: selecionar um aspecto que considerasse mais relevante para desenvolver uma reflexão sobre o que aprendeu e agora pode ensinar. Ressaltou a importância de mostrar o relato para um colega, porque este poderá perceber aspectos que, para outros professores como ele, seriam importantes valorizar. A interlocução possibilita rever a narrativa do vivido e, pelo olhar do outro, distanciar-se para decidir o que priorizar neste momento e o que guardar para outros relatos. E nessa nossa trajetória conjunta reafirmo uma convicção: a prática vem com a prática, e com muita conversa. Que possamos nos encontrar mais, trocar ideias, pensar junto e reinventar nossos caminhos para uma educação que faça sentido e que gere aprendizagem.

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