Clique nas fotos e leia os relatos de prática compartilhados pelos dez professores que participaram do

Seminário Nacional Escrevendo o Futuro: com a palavra, o professor-autor, realizado em 2017.

Literatura de cordel: um caminho para o ensino da escrita

José Gilson Lopes Franco

Escola de Tempo Integral Dom Antônio de Almeida Lustosa

Fortaleza / CE

Literatura de cordel: um caminho para o ensino da escrita

José Gilson Lopes Franco

Escola de Tempo Integral Dom Antônio de Almeida Lustosa | Fortaleza / CE

Quando em abril deste ano recebi o desafio de montar uma proposta para trabalhar o ensino da escrita em sala de aula, fui contagiado por essas emoções que nos chegam repentinamente. Mas a euforia inicial foi, aos poucos, dando lugar a um sentimento de insegurança. Cheguei a achar que não faria um bom trabalho, pois realizar uma sequência didática consultando materiais previamente preparados é uma coisa; elaborar uma SD especificamente para ensinar um gênero textual, trabalhando questões relacionadas à escrita dos estudantes, é inteiramente outra.

Considerar os princípios de uma SD; pensar o passo a passo; selecionar os autores e textos de referência; refletir sobre o estudo das características desse gênero; planejar as estratégias de escrita para a produção de texto e, principalmente, os encaminhamentos para a reescrita, é um ato marcado pela singularidade.

Um sentimento de ansiedade começou a mover-me. Mas não perdi tempo. Voltei à fonte dos teóricos, relendo Bakhtin e os trabalhos de Dolz e Schneuwly. Consultei os cadernos da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, companheiros de longos anos de jornada. Reli com atenção o material constante na “Maleta do formador”, de 2004 e, no tópico “Caminho das pedras”, encontrei um modelo pragmático com esquemas facilitadores sobre como elaborar uma SD.

O passo seguinte foi a escolha do gênero textual – literatura de cordel. Considerei as particularidades que o cordel traz: o valor dele na cultura local; as temáticas que aborda; o sentimento de pertença; a questão da oralidade; o desafio de dizer o texto em voz alta; além do fato de ser regional, nascido e propalado nos rincões mais perdidos do sertão nordestino.

Inicialmente planejei 14 oficinas, mas tive que reescrever a proposta, considerando o tempo de que dispunha, elegendo prioridades e especificidades, deixando-a mais “enxuta” e objetiva. A elaboração de atividades requer bastante objetividade, e a organização criteriosa do tempo de cada oficina é fundamental.

A primeira oficina foi a que gerou maior expectativa, pois tratava do engajamento das turmas. Com o plano de aula na mão, apresentei aos estudantes a proposta e eles se mostraram bastante animados. Falei sobre gêneros textuais, realcei a importância da literatura de cordel e apresentei a eles os objetivos que pretendíamos alcançar com o estudo; celebramos os acordos iniciais e realizamos um plano de trabalho com 12 oficinas.

Estudaram as origens do cordel, e depois abriram o “Baú de cordéis”, preparado previamente para aquela oficina, com livros de autores como Leandro Gomes de Barros, João Melchíades Ferreira e Patativa do Assaré. Sentados ao chão, analisaram títulos e capas , fazendo comparações, identificando semelhanças e diferenças. Anteciparam temáticas a partir das ilustrações e descobriram a importância da criatividade para os títulos dos cordéis. Essas descobertas foram compartilhadas em duplas, e depois socializadas em um grande círculo que se formou na sala.

Entraram em contato com uma grande variedade de temas, conheceram algumas características do gênero, como a organização das estrofes e das sextilhas, principal modalidade entre os cordelistas. Ao final dessa oficina, os estudantes montaram um painel de acompanhamento da SD, onde também seriam expostas as produções individuais.

No segundo encontro, os estudantes leram vários cordéis e compreenderam a situação de produção do gênero. Conheceram as obras de alguns poetas da terra, cujos poemas propagavam a cultura local, fazendo referências ao Nordeste, exaltando orgulhosamente amor à terra e às particularidades do falar. Além disso, realizaram a releitura de clássicos da literatura na linguagem do cordel.

Nas oficinas seguintes, os alunos produziriam sextilhas. E logo surgiu o primeiro dilema, o qual me reclamou intervenção imediata: muitos alunos não conseguiam compor uma sextilha sequer. Detinham minimamente as informações pertinentes ao gênero, no entanto, faltavam-lhes ideias sobre o que escrever. Fui enumerando algumas possibilidades de temas e propus a eles a escrita de um texto coletivo: “Pessoal, vamos fazer juntos?”

Aceitaram de imediato. Com os temas sugeridos por eles: futebol, amor, amizade, escrevemos várias sextilhas no quadro. A escrita colaborativa trouxe ideias e deu fôlego ao processo. Estabeleceu-se uma verdadeira batalha para encontrar as melhores rimas e, na simplicidade das folhas quase encardidas, fizeram surgir os primeiros versos. Foi uma das melhores oficinas, pois contou com o envolvimento do grupo.

Com a leitura das produções iniciais, vieram as primeiras constatações: ausência de título ou título sem relação com o tema abordado; problemas de desenvolvimento da temática, ausência de elementos próprios da composição (estrutura) do cordel; problemas de ordem gramatical, entre outros. Percebi que os estudantes tinham muito a dizer e que não lhes faltavam assuntos sobre os quais escrever; mas a dificuldade estava em elaborar o pensamento, dizê-lo de maneira organizada, concretizando-o em palavras.

Continuamos com as atividades de leitura e de produção do gênero. Fiz as orientações para que realizassem as intervenções em suas produções individuais e, para tanto, utilizei-me do bilhete orientador como instrumento de interação no processo de aprimoramento dos textos.

A reescrita foi um desafio homérico. Os estudantes mostraram-se pouco dispostos e receptivos: recebiam textos e bilhetes, com comentários e observações, mas não devolviam as produções em tempo hábil, o que trouxe certo atraso. Foi a etapa mais demorada, pois às vezes perdiam os textos; outras vezes, esqueciam as produções em casa; ou mesmo se recusavam a refazê-las. Mas, compreendi a natureza quase “braçal” da reescrita e, aos poucos, fui conseguindo convencê-los.

As oficinas continuaram, as intervenções foram realizadas, os estudantes perceberam a beleza da literatura de cordel renderam-se à reescrita que, aos poucos, foi se mostrando efetiva e aprenderam a dominar características do gênero através dos procedimentos de escrita que realizaram. Os textos revisados foram publicados em pequenos livretos de cordel, lidos pelos professores e expostos no pátio da escola para leitura de toda a comunidade escolar.

A sequência didática realizada possibilitou que os estudantes desenvolvessem o gosto pela leitura, apresentando uma clara evolução na sua capacidade leitora, permitindo também avanços significativos nos procedimentos da escrita textual. Além disso, vários estudantes perderam a timidez, melhorando a expressão oral através das rodas de conversas e da recitação de cordéis, a partir de enunciados reais; dialógicos, nos dizeres de Bakhtin. E, por fim, os estudantes fundaram um grupo de cordelistas, cujo objetivo é apresentar-se nas escolas da rede municipal de ensino da cidade de Fortaleza.

Escrevo-te estas bem traçadas linhas

Elizete Vilela de Faria

Escola Municipal Otávio Olímpio de Oliveira

Divinópolis / MG

Escrevo-te estas bem traçadas linhas

Elizete Vilela de Faria

Escola Municipal Otávio Olímpio de Oliveira | Divinópolis / MG

“Professora, por que está acontecendo tantos assaltos no bairro?”; “É justo eu ter que arrumar a casa e a cozinha enquanto meu irmão não faz nada?”; “Nossa! Estragaram o bebedouro de novo!”; “É certo minha mãe controlar meu celular?”; “Queria ter cabelo bom”.

Esses são alguns exemplos de assuntos que surgiam em sala e acabavam rendendo algumas discussões. Isso me fez perceber que minha turma de oitavo ano estava com uma necessidade de falar sobre temas que faziam parte do cotidiano deles e que, de alguma forma, os incomodavam.  Diante disso pensei em oportunizar um momento para conversarmos sobre isso. Como já havíamos trabalhado textos instrucionais e eles conheciam a estrutura do gênero “regras do jogo”, propus-lhes que criassem jogos de trilha com algumas dessas temáticas e neles indicassem os problemas e apresentassem soluções. De acordo com os temas mais recorrentes tivemos: trilha da cidadania, trilha do respeito e preconceito, trilha do caminho para a escola, trilha do bairro, trilha da violência e trilha da adolescência. No dia da apresentação, cada grupo falou um pouco sobre o seu tema. Em seguida, os alunos jogaram as trilhas.

Num segundo momento, sondei sobre qual dos temas gostariam de discutir um pouco mais e escolheram falar sobre respeito e preconceito.  Perguntei-lhes então o que poderíamos fazer para que as discussões que faríamos na sala de aula ultrapassem os muros da escola e alcançassem outras pessoas, ou seja, o que poderíamos fazer para que nossas vozes fossem ouvidas.  Pensamos em produzir um texto que fosse distribuído à comunidade e sugeri-lhes que desenvolvêssemos um projeto que tivesse a carta aberta como gênero principal, visto que a função comunicativa deste texto atenderia os nossos propósitos. Assim surgiu o projeto Escrevo-te estas bem traçadas linhas – unindo nossas vozes contra o preconceito. Antes de pensar no passo a passo da proposta e de elaborar a sequência didática para o trabalho com o gênero, pedi que os alunos registrassem suas expectativas em relação ao projeto. Eles ajudaram-me a planejar o caminho que seguiríamos.

O projeto foi desenvolvido em 16 oficinas que contemplaram: a superação do preconceito, o estudo da língua, o estudo dos elementos estruturais do gênero e o processo de escrita e reescrita dos textos. Na primeira oficina pedi-lhes que escrevessem uma carta aberta a fim de fazer um diagnóstico do conhecimento prévio que possuíam sobre o gênero. Houve muitas perguntas como: “É igual uma carta normal?”, “Precisa ter remetente?”, “Onde eu coloco o nome do destinatário”?.  Essas dúvidas permitiram-me perceber que, embora não conhecessem o gênero carta aberta, tinham conhecimento dos gêneros epistolares.

Avaliei as produções e fiz um mapeamento do resultado. A partir daí levantei as principais dificuldades da turma em relação à língua portuguesa e aos elementos estruturais do gênero. Identifiquei, por exemplo, a necessidade de trabalhar a paragrafação e a divisão dos períodos, visto que a maioria das produções apresentavam períodos extensos que induziam a erros de concordância e comprometiam a coesão.

As quatro oficinas seguintes foram dedicadas ao estudo da estrutura do gênero. Iniciei-lhes apresentando-lhes a carta que os artistas brasileiros escreveram em favor da preservação da floresta Amazônica e, a partir dela, utilizando o recurso do Datashow, fomos identificando os elementos que compõem o gênero. Depois, em grupo, lemos e comparamos diferentes exemplos de cartas, identificando tema, interlocutores e intenção comunicativa. Os alunos não tiveram dificuldades para identificar esses elementos, indo até além da análise que propus. Eles perceberam, por exemplo, que em alguns casos, para construir o sentido da carta aberta, o leitor precisa ter conhecimento prévio do assunto que está sendo tratado. Perceberam ainda que a carta aberta pode servir como fonte histórica, visto que costuma abordar temas relacionados a determinados momentos pelos quais o país ou uma comunidade está passando, como foi o caso da carta aberta de Clarice Lispector, analisada com os alunos em uma dessas oficinas iniciais. Em outro momento, analisamos três tipos de cartas – pessoal, do leitor e comercial -, a fim de apontar as diferenças e semelhanças entre elas e a carta aberta. Os alunos identificaram facilmente as semelhanças, mas tiveram um pouco de dificuldade em apontar a função comunicativa de cada um dos textos.

As quatro oficinas seguintes objetivaram sanar as dificuldades detectadas na análise do diagnóstico inicial.  Com a autorização prévia da aluna-autora, levei para a sala textos cujos parágrafos não se encontravam devidamente distribuídos. Solicitei-lhes que fizessem a reescrita atentando para a paragrafação e identificando outros desvios cometidos pela autora.  Além da objetividade ao fazer essa tarefa, foi possível perceber que a turma mostrou-se muito respeitosa e, em momento algum, de acordo com as palavras da própria autora, emitiram julgamento sobre o texto. Depois que fizeram a reescrita individual, fizemos a correção coletiva no quadro e fomos comentando os desvios cometidos. Em seguida, dei voz à aluna para expressar o que ela sentiu ao ver seu texto sendo reescrito e ela disse que “foi muito legal, o texto ficou melhor e até eu enxerguei coisas que não tinha visto”. Nestas oficinas também trabalhei delimitação e argumentação, tendo como base trechos de cartas produzidas pelos próprios alunos na atividade diagnóstica.

A terceira parte do projeto, da nona à décima segunda oficina, foi dedicada à alimentação temática. Além de pesquisas extraclasses e confecção de cartazes abordando os diferentes tipos de preconceito, lemos e interpretamos vários textos em sala – reportagens, notícias, charges, anedotas, textos publicitários, etc. Assistimos a alguns vídeos e filmes e os discutimos. Houve também uma roda de conversa com a participação de três representantes de grupos de militância contra o preconceito. Os alunos tiveram também oportunidade de relatar situações em que eles ou algum conhecido tinha sido vítima de preconceito.  Neste momento ficou evidente o quanto atitudes preconceituosas podem machucar as pessoas. Um dos alunos relatou que já apanhara do padrasto e de outros jovens simplesmente pelo fato de ser homossexual. Uma das alunas comentou que, ao ouvir os relatos, percebeu que a atitude preconceituosa dela poderia alimentar o preconceito de outras pessoas e disse que não queria contribuir para aumentar o sofrimento de pessoas que são discriminadas simplesmente por serem ou pensarem diferentes dos demais.

As quatro últimas oficinas foram dedicadas à escrita e reescrita dos textos. Iniciamos com uma produção coletiva em que os alunos foram apresentando as ideias e eu as registrei no quadro. Tomei o cuidado de não me limitar a ser simplesmente um escriba e fiz as intervenções necessárias a fim de ajudá-los a consolidar os conhecimentos adquiridos até então. Antes de iniciar o texto, fizemos “um esqueleto” delimitando o tema – preconceito de gênero -, a tese e anotando alguns argumentos que poderiam ser utilizados. Em seguida fomos para o processo de produção que contou com a colaboração de todos.  Embora no início todos quisessem falar ao mesmo tempo, e alguns quisessem que suas ideias prevalecessem sobre a dos colegas, foi possível conduzir a atividade de maneira que chegassem a um consenso, para que a voz de todos aparecesse no texto. Para isso, fizemos a seleção de ideias semelhantes e acrescentamos aquelas que eram complementares.

Tivemos a sugestão de quatro títulos diferentes e a turma elegeu um. Em outro momento os alunos fizeram a escrita individual e trocaram os textos entre si para que um escrevesse um bilhete orientador para o outro. Nesta atividade, os alunos demonstraram ter compreendido o objetivo do bilhete orientador e apresentaram sugestões que realmente contribuíram para melhora dos textos.

Ao comentarem sobre a escrita dos bilhetes, os alunos disseram que apontar as coisas que precisam ser melhoradas é mais difícil do que elogiar. Entenderam bem o objetivo da proposta da atividade e os bilhetes foram bem recebidos pelos colegas. Fizeram então a primeira reescrita do texto e os entregaram para a minha apreciação. Devolvi as produções com um bilhete orientador feito por mim. A partir disso partiram para a reescrita final. Para finalizar escolhemos, dentre os textos produzidos, uma carta aberta que foi reproduzida e distribuída à comunidade em um evento escolar.

Avaliando nossa trajetória, percebo que nosso caminho foi marcado por diferentes paisagens. Em alguns momentos tivemos que parar para abastecer a mochila, retirar algumas folhinhas secas e até mesmo redefinir rotas. Mas nosso objetivo foi alcançado. Por meio de bem traçadas linhas, os alunos conseguiram levantar suas vozes sobre o preconceito. Vozes essas que puderam ser ouvidas dentro e fora da escola. Mas, sobretudo, dentro de cada um de nós.

Crônica: essa paixão que desvela o cotidiano

Maira Andréa Leite da Silva

EMEF Harmonia

Santa Cruz do Sul / RS

Crônica: essa paixão que desvela o cotidiano

Maira Andréa Leite da Silva

EMEF Harmonia | Santa Cruz do Sul / RS

Para quem vive aqui no Sul, fica mais fácil entender a linguagem de cada estação.

O meu verão começou com o rebuliço do início do ano letivo. Alunos novos, apresentações, sorrisos, um calor que visivelmente emanava de cada um pelo contentamento do reencontro. Enquanto lá fora o sol brilhava intensamente, dentro da sala de aula eu teria pela frente o desafio de transmitir a 28 alunos do 9º ano a paixão pela leitura e escrita de crônicas. A perspectiva de trabalhar a crônica me encantava, pois sentia haver no gênero maior possibilidade de identificação com o cotidiano dos alunos. Eu sabia que os livros não faziam parte da rotina da maioria deles e que a leitura passava longe de ser o exercício preferido da classe, então decidi conhecê-los melhor e deixar que o verão fosse embora para iniciar a conquista.

Eis que no final de março, quando o calor já se despedia, acolhi o convite da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro para me aventurar em um projeto através de um gênero textual. Não resisti, me deixei seduzir: o gênero crônica, obviamente, foi o escolhido. Junto com o outono veio então a perspectiva de renovação: elaborar uma sequência didática que fizesse com que o aluno, antes de mais nada, se identificasse com o gênero. E como as árvores no outono se despem de sua folhas, também me despi de antigas práticas. Reli as oficinas do caderno A ocasião faz o escritor e as adaptei. Incluí nelas novas crônicas, atividades e perspectivas. Era preciso inovar para encantar os meus alunos.

No início de abril, quando o vento já anunciava a chegada do frio, senti o ambiente propício para o início da minha conquista. Comecei a atraí-los com a revelação da minha paixão pelo gênero crônica. Com perguntas tentei diagnosticar seus conhecimentos que se revelaram bastante superficiais. Para tentar ajudá-los no reconhecimento, distribuí uma folha xerocada com a definição e características do gênero. Na sequência exibi o vídeo Palavra Puxa Palavra – Crônica e lemos os textos da coleção da Olimpíada. Depois de uma boa conversa, o texto A Última Crônica, de Fernando Sabino, foi eleita a crônica favorita. Analisamos tema, personagens, cenários e emoções. E o olhar atento do escritor para o cotidiano que pulsa.

A julgar pela concentração, pensei que os ventos estivessem soprando a meu favor. Na aula seguinte, pedi então que realizassem a primeira produção: uma crônica sobre emoções vividas na escola. Minha intenção era que se sentissem motivados e cheios de assunto. Uma chuva de dúvidas acabou com a calmaria: “Como é que eu começo?”; “É pra contar uma história?”; “Eu não sei fazer crônica!”. Sabia que a resistência à escrita era uma barreira que teríamos que transpor. Acalmei-os, respondendo as indagações. Eu também escreveria um texto. Alguns me olharam meio incrédulos, mas foram se acalmando. Sinal que a tempestade estaria passando.

Na aula seguinte uma aluna veio me mostrar seu texto e, para meu espanto, ela havia escrito sete páginas. Depois da correção, percebi que, assim como ela, muitos ainda estavam apegados aos textos puramente narrativos. Faltava-lhes apurar o olhar e encontrar o tom da crônica. Também a pontuação e a paragrafação, muitas vezes inexistentes, eram desafios a serem considerados.

Levei então para sala de aula a crônica Lixo, de Luís Fernando Veríssimo. No quadro, fui chamando a atenção sobre o uso da pontuação, a estrutura dos parágrafos e a intencionalidade na criação do discurso: recursos do cronista. Após essa atividade coletiva, conversei individualmente com cada aluno, antes da reescrita. Procurei valorizar o primeiro escrito, elogiei os pontos fortes e ajudei-os a aprimorar o olhar sobre situações descritas que podiam ser particularizadas. Nova dúvida: como garantir que tivessem autonomia nas próximas produções? Era preciso reconhecer a linguagem da crônica. Dedicamos momentos de estudo sobre as figuras de linguagem como recurso para a escrita. Aliar teoria e leitura foi a estratégia que usei para que se aproximassem cada vez mais do gênero.

A segunda produção da turma foi inspirada na oficina Olhos atentos no dia a dia. Aproveitei a saída de campo para uma exposição agropecuária local, e pedi que os alunos fotografassem com os celulares cenas que pudessem render uma crônica. A atividade agradou no início, porém houve grande dificuldade em trazer a vida retratada nas fotos para as palavras da crônica. Durante a roda de leitura, um aluno que pouco se conhecia como escritor produziu uma crônica humorística e foi bastante elogiado pelos colegas. No entanto, outros confessaram que não gostaram de seus textos. Nesse momento conversamos sobre os tons da narrativa numa crônica e um exercício acabou dando origem a uma terceira produção na qual o aluno escolhia o tom desejado.

Quando findava o primeiro trimestre do ano letivo, minha paixão pelas crônicas me fez transgredir os limites planejados e ir além do permitido, estendendo e ampliando minha sequência didática por mais um mês. Pedagogicamente percebi que a prática semanal da escrita ia se mostrando bastante eficaz para que a qualidade dos textos melhorasse. Foram mais duas produções em sequência, inspiradas por fotos de dentro e de fora da escola. A ideia era aprimorar a porção cronista de cada um. Depois de cada produção, o texto passava pela minha correção, centrada no que o aluno poderia retomar numa próxima escrita. Depois, nas rodas de leitura, a turma comentava suas percepções leitoras quanto à adequação ao gênero, avaliando também os textos dos colegas.

Mas veio o inverno. Com frio e chuva, as faltas eram frequentes. Paralisações e eventos escolares fizeram-me adiar o reencontro com as crônicas. Havíamos estudado as figuras de linguagem, mas não as percebia incorporadas aos textos. Tempo de recolher. Nessa fase pensei em desistir, parecia não conseguir recuperar o tempo perdido e terminar meu projeto.

Quando tudo parecia perdido, o sol volta a brilhar: a ideia de trabalhar as figuras de linguagem nas músicas chega como o gás que faltava. Era preciso fortalecer a linguagem literária da crônica. Letras de músicas variadas ajudaram nesse momento. Na aula, o texto Como Nasceu Aquela Conversa, de Luís Henrique Gurgel, baseado na música de Noel Rosa Conversa de Botequim, foi esclarecedor para que os alunos entendessem a proposta. Arrisco a dizer que Da Canção à Crônica foi minha melhor aula e as crônicas produzidas pelos alunos, as mais criativas. Entusiasmada, escrevi um bilhete orientador para cada aluno, incentivando-os à reescrita e a verificar o que poderia ser melhorado. O resultado fez jus a minha expectativa, pois a linguagem conotativa apareceu com maior frequência nos textos.

A Pátria de Chuteiras, de Nelson Rodrigues, alimentou a nossa conversa sobre o que seria a temática da última crônica. Com a publicação de uma coletânea de crônicas, vi sorrisos iluminando o saguão da escola. Nova estação? Dos vinte oito alunos que iniciaram o projeto, vinte e cinco concluíram o trabalho e tiveram duas ou mais crônicas publicadas. O resultado, a meu ver, aponta que o objetivo foi alcançado. Mas devo dizer que nem todas as dificuldades foram superadas, a produção textual e a reescrita devem continuar como processo permanente. Ciclos de estudos e melhorias. Comprovadamente as transformações dentro da sala de aula são como as da natureza, acontecem a seu tempo, quando você menos espera a árvore seca e floresce, anunciando a chegada de outra primavera.

Quem poderá nos defender? A escrita cidadã

Michele Mendes Rocha de Oliveira

Instituto Federal do Amazonas - Campus Tabatinga

Tabatinga / AM

Quem poderá nos defender? A escrita cidadã

Michele Mendes Rocha de Oliveira

Instituto Federal do Amazonas - Campus Tabatinga | Tabatinga / AM

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Tinha pedras do tipo poeira, buracos, acidentes e falta de iluminação no meio do caminho que levava ao Instituto. Tinha um grande empecilho na estrada até o conhecimento: a falta de asfaltamento adequado da Rua Santos Dumont, em que fica localizado nosso campus do Instituto Federal do Amazonas, em Tabatinga. Esse velho problema da intrafegabilidade da via, devido à péssima pavimentação realizada em 2014, acabava prejudicando a permanência escolar dos nossos alunos e afetando toda a comunidade do bairro. No início do ano letivo, isso se agravava, porque, nessa época, estávamos no inverno amazônico, período de intensas chuvas. A lama escorregadia que se formava e os muitos buracos faziam com que alunos, pais, servidores do Campus e moradores dos arredores estivessem à mercê de possíveis acidentes, que podiam ser agravados pelo grande fluxo da via. O ônibus do IFAM que transporta os alunos, inclusive, já havia ficado atolado na lama, obstruindo a porta e dificultando a saída dos alunos do veículo.

Como minhas aulas estavam concentradas no início da manhã ou no fim da tarde, eram os momentos em que pululavam os comentários dos alunos sobre a dificuldade de acesso ao Campus. Muitos deles questionavam o motivo pelo qual os governantes ignoravam as necessidades do povo. Mesmo sem saber como, os estudantes queriam agir em favor da comunidade, pois desejavam fortemente, de alguma maneira, defender seus direitos, solucionar esse problema que vivenciávamos todos os dias. Foi a partir dessa necessidade dos alunos de buscar soluções para essa demanda da comunidade que surgiu o projeto “A argumentação que leva à estrada da cidadania”, o qual que tinha como objetivo a escrita de uma Carta de Solicitação ao prefeito do município para o asfaltamento da Rua Santos Dumont.

Para dar corpo à ideia de escrever a Carta, planejei quatro etapas, que continham várias oficinas: 1 – Motivando os alunos; 2 – Conhecendo o Gênero- Carta Oficial de Solicitação; 3 – Produção da Carta Oficial de Solicitação; 4 – Socialização. Dentro dessas oficinas, uma das atividades mais interessantes foi o Ciclo de Palestras, que contou com a participação dos professores de História, Biologia, Geografia, Química e Sociologia. Nas palestras, os alunos puderam ter uma visão mais ampla e crítica do problema, atentando para os impactos sociais da falta de trafegabilidade da via, aprendendo sobre as características do solo e do clima da Amazônia e o tipo pavimentação que deve ser utilizada em Tabatinga, o concreto. Com isso, produziram argumentos para defender a necessidade de pavimentação adequada e apresentaram a solução mais viável para o problema, o concretamento da Santos Dumont.

Na atividade sobre os elementos articuladores e os tipos de argumentos e na oficina de reescrita, utilizei como base o material Caderno do professor – Artigo de Opinião. Segundo a necessidade que fui percebendo nos alunos durante essa atividade, acrescentamos mais um uso de elemento articulador, o de “conformidade”, já que precisavam dele para a construção de argumentos do tipo “Argumento de Autoridade” e/ou “Exemplificação”, entre outros. Como cada turma ficou responsável por entrevistar um dos grupos afetados pela situação da rua – pais, alunos, servidores e moradores – e eles utilizaram a falas coletadas em seus textos, a utilização da conformidade foi imprescindível.

Baseando-me novamente na necessidade que surgia, trabalhei o uso de pronomes de tratamento e do verbo “vir”, já que os alunos demonstraram dificuldade em sua conjugação. Preparei, no meio do percurso, sem planejamento prévio, um adendo ao que já estávamos trabalhando, a fim de dar conta dessa demanda. Ver os elementos gramaticais sendo abordados na aula pela necessidade e não pela mera imposição, transformou meu agir docente. Ademais, observar que, para além disso, os alunos estavam usando os conteúdos trabalhados em língua portuguesa com um real sentido, visto que a linguagem exercia seu papel social, foi lindo!

Apesar da adesão, do empenho e da aprendizagem dos alunos e dos ganhos em minha jornada docente, encontramos inúmeros entraves na realização do projeto como, por exemplo, a dificuldade em encontrar corpus e bibliografia, por termos pouco acesso a livros e jornais na região, a internet de péssima qualidade e a recorrente falta de luz no município, o qual é abastecido por um grande gerador movido a combustível. Além disso, surgiram obstáculos, devido ao fato de que no Campus o 3º ano conta com apenas 2 tempos de aula, em que devem ser abordados todos os conteúdos de Língua Portuguesa, Literatura e Produção Textual. Por isso, algumas atividades que denotavam mais tempo tiveram de ser revistas.

No momento da reescrita, ainda que tivesse planejado usar bilhete orientador, utilizei em apenas uma das versões, devido ao grande número de estudantes. Resolvi, então, adotar outro método, que poderia ser chamado de “conversa orientadora”. Assim, oralmente e individualmente, orientava-os , apontando os pontos positivos e negativos, sugerindo mudanças em sua escrita.

O fato de as atividades de produção final e de reescrita terem coincidido com o período de trabalhos avaliativos e provas de outras disciplinas, influenciou no modo como se deu a execução do projeto. Ainda que tivesse que se dedicar a essas atividades, era visível o empenho deles na escrita da Carta. Essa disposição emocionava-me, pois sabia que o que mais desejavam ao escrever era tão importante e ao mesmo tempo simples, um direito de todos, ter uma estrada digna para chegar até a educação.

Desde que descobriram o poder da escrita de mudar realidades em prol de uma causa comum, a relação dos alunos com o texto, sem dúvida, mudou. Isso ficou claro quando produziram uma Carta de Solicitação destinada ao Diretor do Campus, requerendo soluções para problemas encontrados no Instituto e receberam respostas das demandas. O discurso modificou-se, diziam agora, “agora que sabemos que podemos, vamos até o fim!”, “vamos poder defender o direito da nossa gente!”. Haviam percebido que poderiam ser ouvidos e atendidos, utilizando a escrita contra a violação de direitos, pois como eles mesmos disseram “estamos poderosos”.

Mudança! Era isso que eu como professora esperava, mudança no modo de olhar e agir no mundo! E desde o ano passado, ao participarem da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, na categoria Artigo de Opinião, eles têm tomado um posicionamento diferente, mais contundente, frente aos problemas do município. É como se em 2016 eles tivessem aprendido a ver o mundo com outros olhos e, agora, com o projeto, estavam no momento de agir, de usar de seus conhecimentos para transformar o local onde vivem, propondo uma solução viável, através de argumentos bem fundamentados. Com a carta, utilizaram a criticidade e a ousadia próprias de um jovem, para intervir positivamente na realidade que os cercava.

Ao solicitarem em suas cartas que os direitos fossem assegurados, entenderam a força que a argumentação, feita em nome de todos os seus colegas e da comunidade, teve diante da sociedade, visto que receberam uma resposta positiva dos governantes do município quanto à concretagem da rua. Cada um deles, por meio de textos críticos e autorais, havia motivado a solução de uma demanda social. Esse exercício da cidadania, mesmo em tempos em que o investimento em educação decresce dia após dia, revigorou-me. Juntos, puderam perceber que, por meio do “trabalho de formiguinha”, construíram textos robustos em cidadania, com superpoderes para nos defender dos entraves da falta de infraestrutura, retirando as pedras do caminho, deixando livre a estrada que leva à educação.

Escrevendo crônicas: o despertar da partilha sob novos olhares

Ana Virgínia Domingos de Oliveira

Escola Estadual Dr. José Alves da Silveira

Quixeramobim / CE

Escrevendo crônicas: o despertar da partilha sob novos olhares

Ana Virgínia Domingos de Oliveira

Escola Estadual Dr. José Alves da Silveira | Quixeramobim / CE

Fui estudante da escola pública. Muitos professores passaram pela minha história e deixaram suas marcas. Eram como peças decisivas que se encaixavam em mim completando o mosaico que eu me tornava. Em 2007, adentrando o universo da docência, já carregava a certeza do que queria: fazer a diferença na vida de alguém. Desde então, venho me dedicando ao trabalho com a Língua Portuguesa e com as possibilidades que as palavras podem criar. Agora, em 2017, mais um ano chegava e com ele, nova oportunidade de ser essa peça importante na vida de meus alunos.

Eles estavam em seu último ano da escola, o ENEM batia à porta e já não havia tanto espaço para outros gêneros além do texto dissertativo-argumentativo. Mesmo assim, atrevi-me a encaixar o trabalho com crônicas nas primeiras semanas de aula. Era preciso olhar diferente; fazer com que deixassem brotar a sensibilidade necessária para sentir o cotidiano de uma escola profissionalizante tão nossa, bem como o dia a dia de nosso Quixeramobim.

Comecei apresentando-lhes “Recado pro bolsinho da camisa”, de Lourenço Diaféria, que nos permitiu diversas possibilidades de reflexão. Questionados sobre tema, tom e intenção do texto, os alunos expunham suas percepções e entravam a passos tímidos naquele universo chamado crônica. Animada com a possibilidade da primeira produção, pedi que se inspirassem em situações cotidianas e tentassem produzir seus primeiros textos.  Em meio a outras leituras, as produções começavam a ganhar forma, exceto em uma turma, a do curso de Nutrição, que pouco conseguia produzir. Um sentimento de frustração começava a tomar conta de mim, mas sabia que não poderia desistir deles. Nesse ínterim, por ter sido professora semifinalista da OLP em 2016, chegou a mim um convite do Programa Escrevendo o Futuro, para produzir uma sequência didática com gênero e turma a serem definidos. Não tive dúvidas, aceitei. E ali estava eu pensando nas dificuldades e resistências daquele 3º Ano D. Aquela seria a turma escolhida, e o gênero, a crônica.

Reforçando os estudos, percebi o quanto as minhas curtas propostas de trabalho precisavam ser aperfeiçoadas e como valia a pena criar novas estratégias de ensino. Em uma roda de conversa, decidimos voltar a explorar o gênero com outros exemplos e suportes. Convidei-os a retomarem seus escritos, lançando um outro olhar para aquelas folhas de papel cheias de expectativas. A produção dos textos parecia seguir passos cautelosos, curtos, um de cada vez. Aquele seria o ritmo. Mas estava esperançosa, sabia que aos poucos poderíamos evoluir. Organizei um momento de leitura compartilhada e esse foi, sem dúvidas, um instante mágico. Ao lerem seus textos, os alunos conquistavam a atenção dos colegas e os surpreendiam: “Você mesmo que fez?”, inquiriam alguns. Começavam a se sentir autores e, na etapa de revisão, percebiam que suas produções poderiam ficar ainda melhores.

Utilizando a crônica “Notícia de Jornal”, de Fernando Sabino, instiguei os alunos a outras possibilidades com a produção de crônicas a partir de notícias. A barragem seca e o descaso em certos bairros de nossa cidade foram alguns assuntos escolhidos, revelando inquietações e anseios por melhores condições de vida.  Se havia em muitos alunos a dificuldade de produzir, em outros surgia a vontade de ajudar, como um verdadeiro despertar de consciência. Percebi que aquela partilha de conhecimentos seria essencial para o envolvimento de toda a turma e decidi formar grupos com voluntários para auxiliarem os colegas nesse processo, revestindo de cor as aulas de redação, que se tornavam mais dinâmicas e solidárias.

Indo além das ações propostas, levei para a sala o livro de crônicas “A Menina da Chuva”, de Bruno Paulino, escritor de nossa cidade. Em leitura compartilhada, os alunos teciam observações acerca dos textos e revelavam ainda mais suas capacidades. Assim, tomada pela ideia de convidar o próprio cronista para uma roda de conversa e leitura com a turma, lá estávamos nós, na biblioteca da escola, em círculo, ouvindo a prosa descontraída do jovem autor. Os alunos também compartilharam algumas de suas produções, arrancando-lhe palavras de incentivo e dicas valiosas, o que fez crescer na turma um forte desejo de realizar a reescrita. Naquele dia, minha satisfação foi imensa e chegou ao ápice quando, para nossa surpresa, o aluno visto como o mais introspectivo da sala abriu seu caderno e começou a ler em voz alta o seu primeiro texto, colocando em liberdade palavras aprisionadas nas bolinhas de papel que deixava cair da mesa raras vezes. Aquela pequena dose de felicidade acabava de constituir-se em mais uma vitória.

Parecia que agora os textos não queriam circular somente na sala de aula. Passei a encontrá-los em minha caixa de mensagem, em conversas corriqueiras na subida da rampa e até mesmo em súbitos encontros pelos corredores da escola, em forma de papel dobrado com letra caprichada. Tudo fazia sentido naquele momento! A vontade que eles tinham em aprender misturava-se ao meu propósito de lecionar. Um filme passava em minha cabeça. Mal sabiam eles que eu havia aprendido muito mais do que ousava ensinar. Agora caminhávamos melhor rumo às atividades finais de nossa sequência. A última proposta envolvia a reflexão sobre o tema mudanças e eu sabia o quanto essa escrita seria especial para eles. Mudanças físicas, psicológicas, sociais e sentimentais começavam a ilustrar aquela última crônica, que se construía entre um pensamento e outro. Porém eu sabia que a maior delas era aquela que se edificava diante dos meus olhos.

Por fim, um belíssimo sarau coroava o final de nossa sequência. Senti um orgulho imenso ao olhar para aqueles jovens, com o microfone na mão e a ansiedade no peito. Sob olhares curiosos e atentos presentes no auditório, liam seus textos e encorajavam outras pessoas para a produção. Ainda nesse evento, divulgamos nossa página virtual criada em parceria com o projeto Conexões Literárias, desenvolvido em nossa escola. Com o tema “Crônica e Cotidiano – um olhar sobre o eu e o mundo”, o projeto, que também surge em forma de livro ao final do ano, passava a divulgar as crônicas e abria portas para que outros alunos também pudessem escrever outras. A semente havia sido plantada. Aqueles alunos sentiam-se autores e não podiam mais parar.

Hoje, ao olhar para trás, vejo duas histórias completamente diferentes. A turma, antes sem muita motivação, agora permitia-se transformar pelo poder das palavras; aquela professora, de sonhos tão limitados, passava a conhecer o poder da determinação, superação e ousadia. Cotidianamente, continuam a descobrir a preciosidade do olhar para si, para o outro e para o mundo. Haviam encontrado um tesouro. E no arremate desse ciclo cheio de descobertas, solidariedade e partilha, nós compreendíamos que, acima de tudo, a escrita nos fazia mais humanos.

Sonho, viagem, magia e dramaturgia

Marta Regina Martins

Escola Estadual Dr. Wenceslau Braz

Monte Santo de Minas / MG

Sonho, viagem, magia e dramaturgia

Marta Regina Martins

Escola Estadual Dr. Wenceslau Braz | Monte Santo de Minas / MG

Era uma vez uma menina inquieta que na escola participava de tudo, mas de tudo mesmo! Leitura? Lá estava ela! Teatro? Lá estava ela! Foi menina pobre na vida e na arte: foi bruxa, fada, escrava, foi Branca de Neve.

A menina inquieta virou professora. Fez da escola suas asas e embarcou numa viagem mágica sem volta. Na roça, viveu aventuras inimagináveis, carregando na bagagem livros, alunos e sonhos. Já na cidade, prosseguiu sua viagem, ampliando seus estudos, carregando mais livros, alunos e mais sonhos. Sonhou alfabetizar, livrar da treva da ignorância aquelas mentes brilhantes ainda na infância! Mesmo não bastando um pirlimpimpim, assim o fez. Sonhou despertar o prazer e a delícia da leitura em almas sedentas de conhecer o mundo. Sonhou levar centenas, milhares, ao mundo mágico da dramaturgia e, embora um abracadabra não fosse suficiente, concretizou mais um sonho.

Criou o Grupo de Teatro Pé Sem Sapato ao lado de uma parceira de competência incomparável. Ensaios, preparação de figurino, cenário: peças infanto-juvenis assistidas por toda comunidade escolar e convidados do nosso Monte Santo. Era sempre assim: muito trabalho e alakazam! Lá estavam as peças, em cartaz, no humilde salão da E.E. Dr. Wenceslau Braz.

Muito prazer! Essa menina-professora-inquieta sou eu. Assim, ao receber esse desafio da Olimpíada, despretensiosamente, decidi trabalhar com texto teatral.

O primeiro passo foi investigar se a turma embarcaria comigo em mais uma viagem ao mundo mágico do teatro. Uma simples conversa ao pé do ouvido, como-quem-não-quer-nada, me mostrou que estava no caminho certo. Passei à seleção de trechos de peças conhecidas, em especial aquelas com pitadas de humor, para elevar ainda mais o astral daquela turma, curiosamente, alegre. Os grupos receberam um trecho engraçado para dramatizar. Uma preparação-relâmpago com muitas gargalhadas.

Rir é sempre prazeroso, mas era preciso falar sério também. A turma precisava construir alguns conceitos importantes e trabalhamos duro nisso por um bom tempo: rubricas, introdução da fala da personagem, atos, cena, cenário, figurino, linguagem adequada, correção ortográfica. Escrita à vista! Primeiramente, devíamos dar continuidade a um dos trechos encenados. A maioria da turma pegou o jeito da coisa. Que delícia! Porém, era preciso revisar os textos, orientar as correções após a aula:

Aluno + Caderno com texto + Leitura + Dona Marta orientando = Texto reescrito.

Quase matemático! Doce ilusão, pois dificuldades de escrita e ideias não são exatas, são subjetivas, e haja paciência, disposição e paixão pelo mundo da palavra para concluir essa etapa, sem deixar peças da mala para trás.

A turma pediu “Mais humor, por favor!”. Eles realmente queriam rir mais um pouco. Busquei em Gil Vicente e Ariano Suassuna os risos esperados. Dessa vez, os alunos tiveram um tempo um pouco maior para a preparação. Vieram no contraturno e ajudei-os com um pequeno ensaio. Apresentaram para a própria turma e para a turma vizinha. Foi muito prazeroso ouvir Chicó, João Grilo, o Fidalgo, o Anjo, e perceber que para se produzir humor de qualidade é necessário muito talento.

Nossa viagem prosseguiu e era preciso verificar se os conceitos construídos foram consolidados. Assim, resolvi registrar aspectos considerados relevantes. O resultado foi motivador, mas alguns alunos necessitaram de outras intervenções, outras leituras até no próprio livro didático foram importantes naquele momento. O professor sempre tem cartas na manga e faz uso delas quando o fazer pedagógico exige.

Se teoricamente os conceitos foram entendidos, vamos praticá-los. Era preciso inserir outras peças na bagagem e seguir em frente. Duas cenas foram apresentadas para que escolhessem aquela que mais atraísse o interesse dos autores. O resultado foi surpreendente. Bons textos teatrais foram escritos. Percebi real habilidade no fazer do texto teatral. Ponto pra nós, pois atingimos mais um objetivo. A mágica do uso da palavra para ser dramatizada estava ocorrendo na turma. E agora?

Agora era preciso que o aluno criasse seu próprio texto, partindo de suas considerações e vivências pessoais. Sugeri a parceria na escrita, na decisão do tema, na escolha do título. Coincidência ou não, 2017 é um ano marcado por muitas tensões político-econômicas em nosso país. Educadores em greve, impeachment, reformas. Elaboramos comunicados esclarecendo à comunidade escolar as razões que nos levaram às ruas de nossa pacata cidade mineira, lutar por nossos direitos. Entretanto, não é possível tirar de uma cartola mágica a solução para a calamidade pública que reina no Brasil. Falei com a turma em determinada aula “Se não lutar pelo futuro que quer, terá que aceitar o futuro que vier.” Creio que a mensagem foi assimilada.

Após a greve, os alunos trouxeram de seus diários de bordo pequenas preciosidades. Entretanto, era preciso lapidar a pedra ainda bruta. Assim foi feito. Dois grupos apresentaram como tema de trabalho a crise, a corrupção em nosso país, as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros de maneira geral. Qual não foi minha surpresa quando um deles decidiu satirizar e encenar a situação. E o texto surgiu tempos depois, ainda sem título e com alguns desvios de trajeto. Em conversa, os autores acertaram título, percurso e combinaram ensaios. Chegou o grande dia! Alguns estreavam na “carreira teatral”, outros já haviam experimentado o frio na barriga da primeira viagem. Não foi o luxo e a ostentação de um passeio à Europa, mas o brilho daqueles olhos certamente não perdiam em nada para as luzes de Paris. Não havia palco, mas aquele cenário humilde era a arte imitando a vida dos autores- atores na sala de aula. Satisfeita? Ainda não! Ah, essa inquietude que me acompanha vida afora!

Era preciso refazer as malas, encontrar as palavras mágicas certas e, talvez, até reavaliar a poção. Isto feito, pé na estrada! Essa vida de mochileira errante, tentando aprender a ensinar, nunca foi fácil. Era mais uma aventura e um novo aprendizado.

Opa! Outro obstáculo no meio do caminho. O transporte escolar simplesmente parou. Férias antecipadas em duas semanas e o trabalho ficou à espera do próximo veículo que pudesse transportá-lo à reta final.

Retomamos o caminho. Textos repensados, rediscutidos, reescritos e a turma dando mergulhos maiores no mundo da dramaturgia. Afinal, dar vida, sentimento, ação e voz à personagem é pura magia! Chegamos a um porto quase seguro. Haverá sempre mais a fazer!

Se “Navegar é preciso, viver não é preciso”*, creio que minha bússola aponta para “outros mares nunca dantes navegados”. Talvez daqui a três anos, minha viagem tome outro rumo. Talvez eu desacelere as turbinas, mas desligar os motores e retornar ao lugar original da viagem mágica pelo mundo da palavra, isso é inconcebível. As marcas são profundas demais no corpo, na alma e no coração.

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*Frase do general romano Pompeu que foi popularizada por Fernando Pessoa.

Vozes que encantam, comemoram e representam

Carolina Lobrigato

EMEF Altino Arantes

São Paulo / SP

Vozes que encantam, comemoram e representam

Carolina Lobrigato

EMEF Altino Arantes | São Paulo / SP

Para a EMEF Altino Arantes, 2017 seria singular: ano de comemoração de seis décadas de existência! E quando surgiu a proposta de celebração desta data, considerei que a Mostra Cultural mereceria mais do que papel crepom, mais do que textos colados na parede ou expostos num blog. Não que tais estratégias não fossem eficientes e interessantes, mas eu pretendia aliar o protagonismo dos alunos com o aprimoramento da capacidade de comunicação, de persuasão e exploração da linguagem oral.

Nesse contexto, ao invés de produção de poemas, HQs, crônicas ou relatos, elaborei uma sequência didática, para ser desenvolvida em aproximadamente 20 aulas, sobre o gênero textual “Spot Radiofônico”, a fim de que os alunos produzissem e gravassem spots a serem executados na Rádio de nossa escola – Altinomix, tanto na Mostra Cultural, em setembro/2017 quanto nos intervalos e horário de almoço. Para que isso fosse possível, propus uma parceria com o professor de Informática Educativa, com o qual compartilho uma aula semanal com os 7°s anos. Agregando-se à nossa parceria, a professora de arte comprometeu-se a orientar os alunos em relação aos jingles que poderiam ser acrescidos aos spots. Entretanto, foi aí que nos deparamos com o primeiro percalço, pois a professora recebeu a notícia que a sua aposentadoria havia sido concedida… e os sétimos anos ficariam sem aulas dessa disciplina no decorrer das atividades de produção.

Sequência didática elaborada. Agora, restava apresentar a proposta e envolver os meninos e meninas de 12 e 13 anos, que passaram quase a metade de suas vidas naquele prédio tão antigo. Era hora de juntos soprarmos as 60 velinhas de nossa escola.

“Vale nota? Pode ser em dupla?” Alguns questionamentos são inevitáveis! E mesmo que a nota seja a minha principal moeda de troca, mal sabem eles que o melhor da viagem é a trajetória, então, o caminho percorrido até a nota seria muito mais valioso.

Iniciamos um resgate de memórias: “Meus pais se conheceram aqui na escola!”. “Foi aqui que eu dei o meu primeiro beijo!”, “Todos os meus irmãos estudaram aqui”. A escola estava ligada intrinsecamente à vida deles, o cenário de tantos momentos protagonizados por cada um.  Ufa… a temática abordada fora aceita com sucesso!

Agora era o momento de contextualizar o gênero textual – spot radiofônico. “Que nome mais estranho!”, “Spot? Acho que é uma lâmpada que tem na casa da minha tia”. Em seguida, mencionei o veículo de circulação – a rádio. “Quem aqui ouve rádio? Qual rádio vocês escutam?”, aqueles olhinhos me fitavam com surpresa “Ninguém ouve rádio, prô! A gente baixa músicas!”, ou ainda “Minha avó escuta o padre Marcelo!”. Sistematizei esse levantamento, solicitando que os alunos respondessem um formulário elaborado pelo professor de informática sobre os hábitos de ouvirem rádio (os motivos, a frequência, os ciclos horários, a intensidade, as plataformas).

Como tarefa de casa, pedi que sintonizassem numa rádio e, nos intervalos dos programas, ficassem atentos aos “comerciais e propagandas” e trouxessem algumas anotações – como o produto anunciado e o slogan. Um fracasso: um ou dois alunos obtiveram êxito na lição. As desculpas injustificáveis brotavam incessantemente.

Na sala de informática, descobrimos um site com spots (inclusive de escolas). Os alunos tinham como missão ouvir os spots, descobrir qual era a sua intenção, observar a clareza da fala, o tom de voz. E por fim, fazer sua transcrição.

As produções iniciais foram gravadas com meu próprio celular em sala de aula, ainda trazendo muitos resquícios de timidez. Inclusive, a turma manifestava certa resistência com a atividade, que só foi quebrada a partir da primeira gravação: ao ouvirem a voz do primeiro colega que se aventurou, todos se renderam e quiseram gravar o  áudio.

Basicamente, produziram três frases (começo/meio/fim). Iniciando com uma interlocução com um ouvinte, depois uma proposta ou chamada de ação e, por fim, um slogan. Transcrevo aqui a primeira produção do aluno Bryan: [Você sabia que a EMEF Altino Arantes está completando 60 anos?/Você faz parte dessa história!/Então, venha comemorar com a gente!].

Explorando o Youtube, um dos alunos descobriu um canal de um produtor de rádio, Gilmar Lima, que dava várias dicas de produção e gravação de spots, atentamente assistidas por eles, que vivem um momento de encantamento com os youtubers.

Paralelamente, os alunos fizeram pesquisas acerca do patrono da escola e colheram relatos de ex-alunos e funcionários da escola para que servissem como inspiração para a temática das produções.

A produção coletiva tratou de memórias de tempos de escola, o que acabou modelizando as próximas produções, tornando-se uma armadilha, já que engessava o processo criativo: muitos só queriam escrever spots sobre isso. Era preciso sacudi-los, empoderá-los, mostrando-lhes caminhos e apontando outras direções. Criatividade era a chave para o sucesso!

A linguagem publicitária foi explorada: elementos de persuasão, verbos no modo imperativo, a capacidade de inferir sentido de humor ou crítica. Uma das dificuldades com que me deparei era a falta de material de apoio; pouco pude contar com o livro didático que não trazia spots para serem analisados. Comecei, então, a utilizar as produções dos próprios alunos para essa finalidade. Fazia a transcrição dos spots na lousa e elaborava questões sobre eles, fazendo com que os alunos refletissem sobre as escolhas linguísticas de seus amigos-autores.

O processo criativo do spot surgia em momentos do cotidiano. Caneta e papel na mão, vamos anotar que essa é boa! Spots com a vozes de feirantes vendendo uma educação de qualidade, ou então a voz da locutora do metrô dizendo “Próxima estação… Estação Altino Arantes. Embarque com destino ao seu futuro”.

Durante as gravações, focamos na diferença entre a linguagem oral (coloquial e formal) e a escrita. Percebiam que ao arriscarem uma gravação sem o apoio do texto escrito, não tinham sucesso, por terem pulado a fase da escrita. Tratamos sobre entonação e tom de voz.  Algumas produções escritas eram muito boas, mas quando iam pra gravação, a performance deixava a desejar, ora por dificuldade na leitura oral ou pela falta de compreensão da mensagem que estavam transmitindo. Em contrapartida, outros se destacavam logo de cara nessa atividade de gravação. Na aula de informática, o professor apresentou-lhes o programa Audacity e os orientou  sobre a importação de efeitos sonoros e fundo musical.

Após o recesso de julho, quando retornamos à escola, um inconveniente veio atravancar o nosso caminho: alguns cabos da Rádio foram danificados! Ainda hoje estamos pensando em outras alternativas de exposição dos spots, além de  corrermos contra o tempo para que até a Mostra Cultural tudo esteja resolvido.

Ao final das atividades, pudemos concluir que a rádio é um meio que nos permite soltar a imaginação.  A imaginação, por sua vez, nos permite viajar muito mais do que a visão. E serão aquelas vozes juvenis que promoverão os 60 anos do Altino Arantes e encantarão toda a comunidade escolar!

Valorizando os saberes torotameiros

Rosa Maria Martins Pereira

EMEF Cristóvão Pereira de Abreu

Rio Grande / RS

Valorizando os saberes torotameiros

Rosa Maria Martins Pereira

EMEF Cristóvão Pereira de Abreu | Rio Grande / RS

Trabalho em uma ilha distante, a pouco mais de sessenta quilômetros da sede do município de Rio Grande, RS. O trajeto é longo, pois parto de um bairro chamado Senandes e, quando me encontro no distrito de Povo Novo para tomar o ônibus escolar que me conduz a Ilha da Torotama, encontro o grupo de professores do campo que vem de Pelotas, cidade vizinha, Quinta, outro distrito de nossa cidade e do Povo Novo. No caminho, sobem no ônibus outros professores moradores da Ilha da Torotama, bem como os estudantes.

Há anos éramos chamados de professores da zona rural, um rótulo carregado de sentido pejorativo porque a maioria não possuía diploma sequer do curso Magistério. Atualmente somos conhecidos como professores do campo e temos curso superior na área em que lecionamos. A maioria é especialista e há colegas com mestrado e doutorado, o que muito nos orgulha.

Priorizar a escrita sobre o lugar onde vivemos é valorizar estas comunidades distantes. Os textos produzidos por estes sujeitos-estudantes são carregados de significado. Fazem parte de sua história e através deles ressignificam-na. À medida que escrevem sobre os saberes e vivências dos moradores de sua comunidade, passam a reconhecer a importância da escrita e destes atores, sabendo que serão lidos e ouvidos além dos muros da escola.

Lembrei uma citação que li de Bakhtin “O texto é a realidade imediata.”, a qual dá chance a todos de contar um pouco de suas vivências, saberes, hábitos e de suas histórias. Sinto que com este relato posso dar voz e visibilidade às práticas de escrita que desenvolvo com minhas turmas da Escola Cristóvão Pereira de Abreu.

Em março de 2017, propus aos colegas da escola  para trabalharmos com um projeto de aprendizagem intitulado “Valorizando os Saberes Torotameiros”, no qual poderíamos fortalecer a identidade e o sentimento de pertencimento dos alunos. Costumo falar às minhas turmas que aquilo que não se registra o vento leva. Desta forma demos início ao projeto. Primeiramente, conversamos sobre poemas, memórias, contos, crônicas, lendas, etc. Escolheram crônica. Por que a crônica? Durante nossa roda de conversa perguntei o que sabiam do gênero e prestei atenção no que diziam. Já apresentavam ideias do narrar, de temas e personagens. Gostava do que via e ouvia. Expliquei sobre os autores, a linguagem e os diversos tons da crônica. Acredito que pensaram ser um gênero menos complicado e mais atual. Será? Começamos a trabalhar o gênero.

Na aula seguinte levei três crônicas do Caderno das Olimpíadas. Ouviram as crônicas no CD fornecido pelo programa Escrevendo o Futuro, e atribuíram outros títulos aos textos. Comentamos crônica por crônica e me surpreendi com suas análises e interpretações.

Na A última crônica, de Fernando Sabino, criticaram o texto chamando-o de racista. Diziam “Onde já se viu, professora, escrever e publicar “casal de pretos”, “a negrinha”! É muito racista.” No texto Do rock, de Carlos Heitor Cony, os alunos comentaram que o narrador-personagem devia pertencer a um grupo social privilegiado já que dorme pela manhã ao invés de trabalhar; reclama da empregada; paga as compras de CDs que sua filha comprou; e usa um vocabulário recheado de termos e expressões estrangeiras, até com um certo esnobismo em suas palavras. Disse um aluno “Esse cara se acha, sora!”.

Argumentei com as meninas sobre a época em que foram escritos e o lirismo destes textos. Criticaram muito os maus tratos e abusos que os animais sofrem quando comentaram Um caso de burro, de Machado de Assis, e perceberam claramente as ironias e metáforas que o autor utilizou em seu texto.

Na etapa Saída de Campo, com cadernos, canetas e celulares na mão, partimos para estranhar a Ilha da Torotama. Precisava que olhassem os moradores e lugares sob uma nova ótica, sob um novo prisma. Conversamos sobre o assunto como de costume e lá fomos registrar vivências, saberes e atividades cotidianas. Estudantes alegres, aprendendo fora das paredes e muros da escola. Muitos cochichos, risinhos furtivos e uma comunidade para observar e muito para contar. Conversamos com moradoras, pescadores, pais e responsáveis durante nossa saída.

Percebemos uma cena no fundo de um pátio, bastante inusitada. Havia algumas mulheres sentadas em banquinhos baixos, bem próximos ao chão. Sobre um fogo, latas onde ferviam siri. Em torno das mulheres alguns cães e uma porca preta e seus porquinhos, um pouco mais distante, sob uma árvore, um pescador remendando sua rede, utilizando agulhas e linhas próprias à pesca. De imediato quis fotografar, mas fui avisada por uma aluna que não devia fazer tal imprudência. Aquelas pessoas não aprovariam minha foto. Gravei a cena na memória. Parecia perfeita para uma crônica.

Na sala, retomamos os registros feitos durante a saída de campo e conversamos sobre a cena. Fiz muitas perguntas para entender melhor aquilo que tinha observado e considerado tão peculiar, tão singelo e, ao mesmo tempo, tão torotameiro.

As alunas, inicialmente, achavam que eu estava vendo boniteza onde não havia. Solicitei que me explicassem melhor sobre a atividade de limpar e descascar siri. Elas contaram que suas mães também limpavam siri. Sabiam bastante sobre o assunto. Fizeram a seguinte proposta “Podemos escrever todas juntas? Vamos todas copiar o texto no caderno. Pode ser?”.

Aceitei a proposta e na oficina seguinte fizeram perguntas e os parágrafos se formavam em seus cadernos. As oficinas seguiam o ritmo almejado. Trabalhei com outras crônicas para que percebessem melhor as características do gênero. Analisaram uma crônica finalista de 2016 e pedi, finalmente, que escrevessem as crônicas individuais.

Percebi uma relutância por parte dos alunos para escrever individualmente. Propus que convidasses as sirizeiras para uma roda de conversa.

Recebo as mulheres em sala de aula e percebo, tanto nas perguntas como nas respostas, os laços afetivos, o reconhecimento do trabalho desempenhado por aquelas que lá se encontravam: mães, avós, tias e vizinhas. As questões levantadas na escrita do texto coletivo vão tomando forma, avolumando-se, darão com certeza robustez aos textos individuais. Estão repletos de sentimentos, dificuldades, desejos, conflitos, soluções e uma grande dose de bom humor e esperança.

Está na hora da escrita individual. Leio todas e através da prática do bilhete orientador, vou auxiliando minhas alunas. Vejo que estão construindo seus saberes, seu conhecimento, escrevendo sobre o cotidiano do lugar onde vivem e, a partir das crônicas, assumem um protagonismo ímpar.

Neste momento compreendo que passam a identificar-se com as mulheres que limpam siri. Valorizam os laços sociais, culturais e afetivos. Reconhecem a atividade destas mulheres, suas práticas e vivências e acabam descobrindo-se como sujeitos pela palavra escrita.

Da leitura à Escrita - Trilhas Percorridas

Quitéria Éden Batista Leite

Escola de Referência em Ensino Médio José de Almeida Maciel

Sanharó / PE

Da leitura à Escrita - Trilhas Percorridas

Quitéria Éden Batista Leite

Escola de Referência em Ensino Médio José de Almeida Maciel | Sanharó / PE

Sonhar, viajar, conhecer outras vidas e outros mundos… Viver grandes aventuras. Tudo isso é possível por meio da leitura.

Contudo, despertar e envolver o estudante no universo literário tem sido um dos grandes desafios dos professores de português, principalmente no Ensino Médio, pois a ausência do hábito de leitura prejudica o trabalho voltado à literatura.

É dever da escola despertar e intensificar o hábito da leitura, apresentar autores nacionais, ampliar seus repertórios literários, bem como repensar o uso da língua em espaços de leitura e escrita não-literários, abrindo espaço para o circuito paralelo, ou seja, obras que muitas vezes são excluídas da escola, mas que os jovens consomem e que circulam entre eles, justamente, por tratarem dos seus universos.

Preocupo-me com os níveis de leitura dos estudantes, especialmente por serem do Ensino Médio. Como alguns até leem, mas não conhecem autores nacionais e nem os clássicos da nossa literatura, direciono o trabalho para a leitura dessas obras, pois além de serem fundamentais para sua formação sociocultural, é sobre elas que irão responder no ENEM e nos vestibulares das faculdades particulares.

Quando recebi o convite para participar da seleção para o Seminário Nacional Escrevendo o Futuro, pensei no gênero crônica; porém, concluí que ficaria muito próximo ao trabalho desenvolvido para a Olimpíada de Língua Portuguesa 2016, porque tudo que foi vivenciado ainda está muito presente na minha prática. Então, li novamente o convite, e a frase “aventure-se por outros gêneros” me levou à reflexão. Consultei a Proposta Curricular do Estado de PE e vi que a resenha crítica estava programada para o bimestre, oportunizando a vivência da mesma no projeto.

No entanto, muitas indagações surgiram: por onde iniciar? Quais objetos de estudo seriam abordados? Como apresentar a ideia do projeto aos estudantes? Qual seria  seu fio condutor?

Ao passo que planejava organizar meu roteiro, iniciava o curso “Caminhos da Escrita”, do Portal Escrevendo o Futuro. A primeira atividade foi a proposta de escrita de um relato a partir do tema: “ Eu, a Leitura e a Escrita.” Amei escrever o texto, justamente por fazer um resgate das minhas lembranças e proporcionar um reencontro comigo mesma.

Ao concluir meu relato, descobri, enfim, o fio condutor do projeto, uma forma de despertar neles o desejo de escrever: li meu relato para os estudantes e propus que também escrevessem. Ao fazer isso, percebi o quanto ficaram empolgados para escrever os seus.

No dia da apresentação oral em sala, ouvi lindos relatos, conheci não só seus encontros com a leitura, como também um pouco de suas histórias de vida, começando a entender certos comportamentos.

Assim como Drummond, também encontramos algumas pedras no caminho, porém juntos aprendemos a contorná-las, em busca de diferentes reinos, viagens e sonhos. Para tanto, visitamos a biblioteca escolar “Rui Barbosa”, onde a bibliotecária Ana Paula realizou uma palestra, apresentou-nos autores e obras, ao mesmo tempo que conversava com os alunos, a fim de descobrir seus perfis em relação à leitura.

Essa visita foi fundamental para que eu percebesse que alguns já liam, mas outros ainda não. Então, orientei que começassem pelas obras condensadas, pelos clássicos no formato de quadrinhos e que poderiam trocar de livros até se identificarem. Assim, as leituras prosseguiram nos horários de intervalos, de estudo dirigido e em suas casas.

Combinei, na sequência, a primeira roda de leitura, em que apresentariam seus livros, por meio de resumos orais e opiniões sobre as obras lidas, o que contribuiu para aguçar a curiosidade dos colegas sobre as diferentes obras.

Enquanto liam, recolhi as primeiras versões escritas dos relatos, analisei suas dificuldades em relação à escrita, percebi a dificuldade em usar conectivos e acentuação, fiz retomadas e propus orientações individuais aos que ainda apresentavam esses desvios, devolvendo os textos (incluindo resumos) para a reescrita. Orientei-os para a digitação e formatação, de acordo com as normas da ABNT. Fomos percorrendo nosso caminho até que seus textos estivessem prontos para a exposição em murais, expandindo-os para fora da sala de aula.

Fizemos novas visitas à biblioteca para que escolhessem outras obras, dessa vez para a resenha, produto final a ser escrito. Em seguida, sondei o que conheciam de resenha;  concluí que precisavam de orientações específicas sobre o gênero e levei à sala material para análise das características. Analisamos a resenha do livro “Não se Apega Não”, de Isabela Freitas, livro mais citado no início do ano, quando propus dinâmicas que sondavam o que eles tinham de bagagem em relação à leitura.

Diferente de Peri e Cecília, em “O Guarani”, que partiram rumo a um destino desconhecido, sabíamos o nosso, e quando percebíamos que alguém tinha se perdido em algum atalho, refazíamos nosso percurso, tantas vezes quantas foram necessárias para que ninguém ficasse para trás, contando sempre com a ajuda dos professores colaboradores.

Os estudantes começaram a demonstrar mais interesse, não só nas aulas de português, como também nas demais disciplinas; suas vozes ganharam vida, tornando-se protagonistas de suas próprias histórias. Hoje, seus textos apresentam menos desvios de escrita, estão relendo, refletindo e reescrevendo. Nosso projeto começa a fazer sentido!

Desde o primeiro momento em que apresentei a ideia do projeto para a turma do primeiro ano A, convidei-os a serem propagadores para as outras turmas, pois seria muito difícil conseguir realizar um trabalho de qualidade nas cinco turmas, ao mesmo tempo.

Assim, enquanto liam, iniciei as atividades nas demais turmas e juntos também iniciamos nossa caminhada. Por já conhecer o caminho, pensei que seria mais fácil, porém encontrei algumas resistências, nas outras salas, em relação à leitura e percebi que eles precisavam de mais atenção, de mais incentivo. Revi meu plano inicial, focando principalmente nas rodas de leitura.

Finalmente, os textos do primeiro A estavam concluídos e a fim de estimular os resistentes à leitura e escrita, decidimos apresentá-los a todos da escola. Com o apoio da gestão, professores e estudantes, organizamos a culminância do projeto, com a exposição dos relatos e resenhas, acompanhados de fotos, vídeos, recitações e dramatizações de algumas obras lidas durante o projeto.

Fomos de dramatizações de “Cinco minutos”, de José de Alencar, e “O Bicho”, de Manuel Bandeira, à crônica “Cobrança”, de Moacyr Scliar; do cordel “Descoberta da Literatura”, de João Cabral de Melo Neto (texto que li, analisei no curso “Caminhos da Escrita” e levei para a sala de aula), à “Imagina”, de Fábio Brazza; dos relatos emocionados dos estudantes da turma A, ao vídeo com depoimentos sobre a importância da leitura. Assim, experimentamos e comprovamos que, como afirma Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”.

E quando me perguntam se já percorremos todas as trilhas de nossa jornada, respondo que estamos apenas começando. Estamos construindo nosso final feliz!

Motivo, tudo de que preciso

José Jilsemar da Silva

Escola Estadual Desembargador Licurgo Nunes

Marcelino Vieira / RN

Motivo, tudo de que preciso

José Jilsemar da Silva

Escola Estadual Desembargador Licurgo Nunes | Marcelino Vieira / RN

Sou professor! Sinto-me satisfeito e muito feliz na profissão que abracei. Foram as circunstâncias que me trouxeram a esse porto e, por isso, sou muito grato a elas. Quis ser administrador. Não deu. Descobri-me então na profissão ideal. Tenho consciência de que muitas coisas ainda podem e vão acontecer, pois acredito, sempre, que estou no meio do caminho. Essa certeza tem me levado ao encontro e desencontro de algumas verdades: o professor não é um sujeito indivíduo pronto e acabado, pois é constituído a partir de outros sujeitos.

Minha prática pedagógica não está e nunca esteve dissociada das práticas daqueles que foram meus professores. Mesmo aqueles mais antigos têm uma relevante contribuição nesse processo do ensinar e do aprender. Tentava buscar respostas e não conseguia esclarecer porque minha primeira professora, Dona Tica de Joel, tinha uma participação tão próxima com o meu fazer pedagógico. Não que sejamos iguais, até porque as circunstâncias são outras, visto que a sociedade evoluiu e com ela evoluímos também.

Hoje compreendo mais nitidamente como aquele ensino de língua materna era necessário, naquele contexto sociocultural, me influenciando e influenciando a minha prática pedagógica. Como diz Bakhtin, se, por um lado, a linguagem é o elemento que estabelece a relação entre os seres humanos e propicia experiências de intersecção ou interação entre interlocutores, por outro o indivíduo não é a origem do seu dizer. Assim sendo, somos sujeitos povoados por discursos alheios e por relações dialógicas entre esses discursos. Podemos afirmar, por meio dessa concepção dialógica da linguagem, que o sujeito se constitui na sua relação com os outros, o que comprova a minha intrínseca relação com o fazer pedagógico da minha primeira mestra.

Todas essas influências me trouxeram ao meu prazeroso mundo escolar, a Escola Estadual Desembargador Licurgo Nunes, no Município de Marcelino Vieira/RN, para vivenciar os desafios presentes na rede pública de ensino. Convém dizer que a nossa escola não ocupa as primeiras posições nas avaliações externas. Ocupa apenas a 94ª posição na avaliação do Sistema Integrado de Monitoramento e Avaliação Institucional da Secretaria de Educação do RN (SIMAIS), dentre 281 escolas avaliadas no Estado. Num universo de 500 pontos, estamos com 216,3 na proficiência em Língua Portuguesa e um pouco mais atrás em Matemática. Entretanto, isso não é o mais importante para a nossa equipe porque não nos deixamos abater; esses dados nos remetem à seguinte reflexão: como poderemos mudar essa realidade? Temos convicção de que formamos cidadãos e que esses resultados devem ser validados após observação de vários fatores, desde a falta de leitura dos quesitos avaliados (confirmados pela maioria dos alunos) à falta de conhecimento dos assuntos.

Com base nos resultados positivos do Projeto “Epa! Cadê a Opinião?”, a escola já visualiza possibilidades para melhorar parte desse índice, principalmente na proficiência em Língua Portuguesa. Vamos expandir as demais turmas, com gêneros específicos, como forma de intensificar a formação cidadã do aluno e o resultado das avaliações externas. Há um desafio à vista: convencer os demais professores de Língua Portuguesa para adesão a esse projeto, tão importante para modificar a realidade sinalizada pelos índices.

No contexto de vulnerabilidade em que a nossa escola está inserida, o referido projeto “caiu como uma luva” para discutirmos temas como crise financeira do município, descriminalização do uso de drogas, o casamento entre as pessoas do mesmo sexo, a redução da maioridade penal, assédio sexual, a legalização do aborto, além da segurança pública. O último, de forma ainda mais concreta, pois nesse período ocorreu o assassinato de um idoso, por jovens, que, sem perspectiva de futuro, mataram para roubar. Somando-se a isso, no mesmo período, ocorreu o assassinato de um jovem gay, com ritual de crueldade, na vizinha cidade de Alexandria. Assim, no desenvolvimento das etapas, fui costurando as temáticas para que os acontecimentos da escola, do município, da região e do mundo estivessem presentes nos debates.

Lembro-me, ainda no início do processo, após a equipe gestora passar na sala e falar, com orgulho, que a escola estava numa seletiva junto à Olimpíada de Língua Portuguesa, e ao chegar para eles, de forma tímida, buscando adesão para desenvolvermos o projeto, escutei de um aluno: “Professor, vamos botar pra quebrar!” Aquilo me deu um ânimo tão grande que saí daquele encontro pensando: “Nosso projeto já é sucesso!” O meu intuito era contagiar os alunos, mas na verdade eles é que me contagiaram. E como me contagiaram! Fui demonstrando gradativamente aos alunos que “todo discurso é ideológico” e que tudo o que escrevemos mostra um pouco de nós mesmos. Assim fomos quebrando as barreiras existentes no pensar e no agir dos nossos educandos. Aos poucos, estes foram se mostrando sujeitos ativos e participativos de sua própria história. Nos diálogos, nos debates, na escrita, tudo foi se ajustando ao novo pensamento ideológico construído por aqueles mais novos articulistas.

As pedras no caminho foram muitas. Contudo, ao invés de removê-las, resolvemos lapidá-las, transformando-as em conhecimentos. Algumas pedras começaram a aparecer quando os alunos eram postos a pesquisar. Neste mundo multifacetado em que vivemos, fica quase impossível realizar um projeto como esse, pois não há computadores e internet para realizar essas ações. Porém, como “quase impossível” não é finalizado, buscamos uma alternativa para solucionar o problema: criamos um grupo no WhatsApp e todos os links de pesquisa das temáticas eram enviados para o grupo. Os alunos abriam, liam, baixavam em casa e assim ficava mais fácil trabalhar na sala de aula.

Quando pairou a dúvida sobre a formulação da questão polêmica, promovemos uma audiência pública na Câmara Municipal para visualizá-la, concretamente, e poder reportá-la num texto. Assim fizemos, também, nas dificuldades quanto às vozes que povoam o artigo de opinião: promovemos uma mesa redonda com autoridades em Segurança Pública e conseguimos atingir os nossos objetivos.

Neste universo de opiniões, percebemos um envolvimento maior dos alunos, uma vez que não haveria a escolha de um texto para representação da turma. Além disso, todas as produções tiveram a mesma importância e foram apresentados, na coletânea, por ordem alfabética do nome do articulista e não por sua classificação.

Como diz a canção “Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu. É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu”, e isso significa que, com os textos produzidos acerca de diversos assuntos, os estudantes construíram novos saberes e tomaram para si a função de corretor do texto do colega, fazendo observações pontuais e coerentes, o que comprova as etapas percorridas. Isso tudo é a certeza desse fortalecimento. É a garantia de que as utopias, na educação, se tornam sonhos possíveis. Para os alunos, a autoestima se eleva. Para a escola, maior visibilidade. Para mim, renovação de força para continuar transformando utopias em possibilidades. Portanto, o mais importante não é o modo como realizo o meu trabalho, mas o motivo. E isso é tudo de que preciso para a conquista dos resultados.

Literatura de cordel: um caminho para o ensino da escrita

José Gilson Lopes Franco

Escola de Tempo Integral Dom Antônio de Almeida Lustosa

Fortaleza / CE

Literatura de cordel: um caminho para o ensino da escrita

José Gilson Lopes Franco

Escola de Tempo Integral Dom Antônio de Almeida Lustosa | Fortaleza / CE

Quando em abril deste ano recebi o desafio de montar uma proposta para trabalhar o ensino da escrita em sala de aula, fui contagiado por essas emoções que nos chegam repentinamente. Mas a euforia inicial foi, aos poucos, dando lugar a um sentimento de insegurança. Cheguei a achar que não faria um bom trabalho, pois realizar uma sequência didática consultando materiais previamente preparados é uma coisa; elaborar uma SD especificamente para ensinar um gênero textual, trabalhando questões relacionadas à escrita dos estudantes, é inteiramente outra.

Considerar os princípios de uma SD; pensar o passo a passo; selecionar os autores e textos de referência; refletir sobre o estudo das características desse gênero; planejar as estratégias de escrita para a produção de texto e, principalmente, os encaminhamentos para a reescrita, é um ato marcado pela singularidade.

Um sentimento de ansiedade começou a mover-me. Mas não perdi tempo. Voltei à fonte dos teóricos, relendo Bakhtin e os trabalhos de Dolz e Schneuwly. Consultei os cadernos da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, companheiros de longos anos de jornada. Reli com atenção o material constante na “Maleta do formador”, de 2004 e, no tópico “Caminho das pedras”, encontrei um modelo pragmático com esquemas facilitadores sobre como elaborar uma SD.

O passo seguinte foi a escolha do gênero textual – literatura de cordel. Considerei as particularidades que o cordel traz: o valor dele na cultura local; as temáticas que aborda; o sentimento de pertença; a questão da oralidade; o desafio de dizer o texto em voz alta; além do fato de ser regional, nascido e propalado nos rincões mais perdidos do sertão nordestino.

Inicialmente planejei 14 oficinas, mas tive que reescrever a proposta, considerando o tempo de que dispunha, elegendo prioridades e especificidades, deixando-a mais “enxuta” e objetiva. A elaboração de atividades requer bastante objetividade, e a organização criteriosa do tempo de cada oficina é fundamental.

A primeira oficina foi a que gerou maior expectativa, pois tratava do engajamento das turmas. Com o plano de aula na mão, apresentei aos estudantes a proposta e eles se mostraram bastante animados. Falei sobre gêneros textuais, realcei a importância da literatura de cordel e apresentei a eles os objetivos que pretendíamos alcançar com o estudo; celebramos os acordos iniciais e realizamos um plano de trabalho com 12 oficinas.

Estudaram as origens do cordel, e depois abriram o “Baú de cordéis”, preparado previamente para aquela oficina, com livros de autores como Leandro Gomes de Barros, João Melchíades Ferreira e Patativa do Assaré. Sentados ao chão, analisaram títulos e capas , fazendo comparações, identificando semelhanças e diferenças. Anteciparam temáticas a partir das ilustrações e descobriram a importância da criatividade para os títulos dos cordéis. Essas descobertas foram compartilhadas em duplas, e depois socializadas em um grande círculo que se formou na sala.

Entraram em contato com uma grande variedade de temas, conheceram algumas características do gênero, como a organização das estrofes e das sextilhas, principal modalidade entre os cordelistas. Ao final dessa oficina, os estudantes montaram um painel de acompanhamento da SD, onde também seriam expostas as produções individuais.

No segundo encontro, os estudantes leram vários cordéis e compreenderam a situação de produção do gênero. Conheceram as obras de alguns poetas da terra, cujos poemas propagavam a cultura local, fazendo referências ao Nordeste, exaltando orgulhosamente amor à terra e às particularidades do falar. Além disso, realizaram a releitura de clássicos da literatura na linguagem do cordel.

Nas oficinas seguintes, os alunos produziriam sextilhas. E logo surgiu o primeiro dilema, o qual me reclamou intervenção imediata: muitos alunos não conseguiam compor uma sextilha sequer. Detinham minimamente as informações pertinentes ao gênero, no entanto, faltavam-lhes ideias sobre o que escrever. Fui enumerando algumas possibilidades de temas e propus a eles a escrita de um texto coletivo: “Pessoal, vamos fazer juntos?”

Aceitaram de imediato. Com os temas sugeridos por eles: futebol, amor, amizade, escrevemos várias sextilhas no quadro. A escrita colaborativa trouxe ideias e deu fôlego ao processo. Estabeleceu-se uma verdadeira batalha para encontrar as melhores rimas e, na simplicidade das folhas quase encardidas, fizeram surgir os primeiros versos. Foi uma das melhores oficinas, pois contou com o envolvimento do grupo.

Com a leitura das produções iniciais, vieram as primeiras constatações: ausência de título ou título sem relação com o tema abordado; problemas de desenvolvimento da temática, ausência de elementos próprios da composição (estrutura) do cordel; problemas de ordem gramatical, entre outros. Percebi que os estudantes tinham muito a dizer e que não lhes faltavam assuntos sobre os quais escrever; mas a dificuldade estava em elaborar o pensamento, dizê-lo de maneira organizada, concretizando-o em palavras.

Continuamos com as atividades de leitura e de produção do gênero. Fiz as orientações para que realizassem as intervenções em suas produções individuais e, para tanto, utilizei-me do bilhete orientador como instrumento de interação no processo de aprimoramento dos textos.

A reescrita foi um desafio homérico. Os estudantes mostraram-se pouco dispostos e receptivos: recebiam textos e bilhetes, com comentários e observações, mas não devolviam as produções em tempo hábil, o que trouxe certo atraso. Foi a etapa mais demorada, pois às vezes perdiam os textos; outras vezes, esqueciam as produções em casa; ou mesmo se recusavam a refazê-las. Mas, compreendi a natureza quase “braçal” da reescrita e, aos poucos, fui conseguindo convencê-los.

As oficinas continuaram, as intervenções foram realizadas, os estudantes perceberam a beleza da literatura de cordel renderam-se à reescrita que, aos poucos, foi se mostrando efetiva e aprenderam a dominar características do gênero através dos procedimentos de escrita que realizaram. Os textos revisados foram publicados em pequenos livretos de cordel, lidos pelos professores e expostos no pátio da escola para leitura de toda a comunidade escolar.

A sequência didática realizada possibilitou que os estudantes desenvolvessem o gosto pela leitura, apresentando uma clara evolução na sua capacidade leitora, permitindo também avanços significativos nos procedimentos da escrita textual. Além disso, vários estudantes perderam a timidez, melhorando a expressão oral através das rodas de conversas e da recitação de cordéis, a partir de enunciados reais; dialógicos, nos dizeres de Bakhtin. E, por fim, os estudantes fundaram um grupo de cordelistas, cujo objetivo é apresentar-se nas escolas da rede municipal de ensino da cidade de Fortaleza.

Escrevo-te estas bem traçadas linhas

Elizete Vilela de Faria

Escola Municipal Otávio Olímpio de Oliveira

Divinópolis / MG

Escrevo-te estas bem traçadas linhas

Elizete Vilela de Faria

Escola Municipal Otávio Olímpio de Oliveira | Divinópolis / MG

“Professora, por que está acontecendo tantos assaltos no bairro?”; “É justo eu ter que arrumar a casa e a cozinha enquanto meu irmão não faz nada?”; “Nossa! Estragaram o bebedouro de novo!”; “É certo minha mãe controlar meu celular?”; “Queria ter cabelo bom”.

Esses são alguns exemplos de assuntos que surgiam em sala e acabavam rendendo algumas discussões. Isso me fez perceber que minha turma de oitavo ano estava com uma necessidade de falar sobre temas que faziam parte do cotidiano deles e que, de alguma forma, os incomodavam.  Diante disso pensei em oportunizar um momento para conversarmos sobre isso. Como já havíamos trabalhado textos instrucionais e eles conheciam a estrutura do gênero “regras do jogo”, propus-lhes que criassem jogos de trilha com algumas dessas temáticas e neles indicassem os problemas e apresentassem soluções. De acordo com os temas mais recorrentes tivemos: trilha da cidadania, trilha do respeito e preconceito, trilha do caminho para a escola, trilha do bairro, trilha da violência e trilha da adolescência. No dia da apresentação, cada grupo falou um pouco sobre o seu tema. Em seguida, os alunos jogaram as trilhas.

Num segundo momento, sondei sobre qual dos temas gostariam de discutir um pouco mais e escolheram falar sobre respeito e preconceito.  Perguntei-lhes então o que poderíamos fazer para que as discussões que faríamos na sala de aula ultrapassem os muros da escola e alcançassem outras pessoas, ou seja, o que poderíamos fazer para que nossas vozes fossem ouvidas.  Pensamos em produzir um texto que fosse distribuído à comunidade e sugeri-lhes que desenvolvêssemos um projeto que tivesse a carta aberta como gênero principal, visto que a função comunicativa deste texto atenderia os nossos propósitos. Assim surgiu o projeto Escrevo-te estas bem traçadas linhas – unindo nossas vozes contra o preconceito. Antes de pensar no passo a passo da proposta e de elaborar a sequência didática para o trabalho com o gênero, pedi que os alunos registrassem suas expectativas em relação ao projeto. Eles ajudaram-me a planejar o caminho que seguiríamos.

O projeto foi desenvolvido em 16 oficinas que contemplaram: a superação do preconceito, o estudo da língua, o estudo dos elementos estruturais do gênero e o processo de escrita e reescrita dos textos. Na primeira oficina pedi-lhes que escrevessem uma carta aberta a fim de fazer um diagnóstico do conhecimento prévio que possuíam sobre o gênero. Houve muitas perguntas como: “É igual uma carta normal?”, “Precisa ter remetente?”, “Onde eu coloco o nome do destinatário”?.  Essas dúvidas permitiram-me perceber que, embora não conhecessem o gênero carta aberta, tinham conhecimento dos gêneros epistolares.

Avaliei as produções e fiz um mapeamento do resultado. A partir daí levantei as principais dificuldades da turma em relação à língua portuguesa e aos elementos estruturais do gênero. Identifiquei, por exemplo, a necessidade de trabalhar a paragrafação e a divisão dos períodos, visto que a maioria das produções apresentavam períodos extensos que induziam a erros de concordância e comprometiam a coesão.

As quatro oficinas seguintes foram dedicadas ao estudo da estrutura do gênero. Iniciei-lhes apresentando-lhes a carta que os artistas brasileiros escreveram em favor da preservação da floresta Amazônica e, a partir dela, utilizando o recurso do Datashow, fomos identificando os elementos que compõem o gênero. Depois, em grupo, lemos e comparamos diferentes exemplos de cartas, identificando tema, interlocutores e intenção comunicativa. Os alunos não tiveram dificuldades para identificar esses elementos, indo até além da análise que propus. Eles perceberam, por exemplo, que em alguns casos, para construir o sentido da carta aberta, o leitor precisa ter conhecimento prévio do assunto que está sendo tratado. Perceberam ainda que a carta aberta pode servir como fonte histórica, visto que costuma abordar temas relacionados a determinados momentos pelos quais o país ou uma comunidade está passando, como foi o caso da carta aberta de Clarice Lispector, analisada com os alunos em uma dessas oficinas iniciais. Em outro momento, analisamos três tipos de cartas – pessoal, do leitor e comercial -, a fim de apontar as diferenças e semelhanças entre elas e a carta aberta. Os alunos identificaram facilmente as semelhanças, mas tiveram um pouco de dificuldade em apontar a função comunicativa de cada um dos textos.

As quatro oficinas seguintes objetivaram sanar as dificuldades detectadas na análise do diagnóstico inicial.  Com a autorização prévia da aluna-autora, levei para a sala textos cujos parágrafos não se encontravam devidamente distribuídos. Solicitei-lhes que fizessem a reescrita atentando para a paragrafação e identificando outros desvios cometidos pela autora.  Além da objetividade ao fazer essa tarefa, foi possível perceber que a turma mostrou-se muito respeitosa e, em momento algum, de acordo com as palavras da própria autora, emitiram julgamento sobre o texto. Depois que fizeram a reescrita individual, fizemos a correção coletiva no quadro e fomos comentando os desvios cometidos. Em seguida, dei voz à aluna para expressar o que ela sentiu ao ver seu texto sendo reescrito e ela disse que “foi muito legal, o texto ficou melhor e até eu enxerguei coisas que não tinha visto”. Nestas oficinas também trabalhei delimitação e argumentação, tendo como base trechos de cartas produzidas pelos próprios alunos na atividade diagnóstica.

A terceira parte do projeto, da nona à décima segunda oficina, foi dedicada à alimentação temática. Além de pesquisas extraclasses e confecção de cartazes abordando os diferentes tipos de preconceito, lemos e interpretamos vários textos em sala – reportagens, notícias, charges, anedotas, textos publicitários, etc. Assistimos a alguns vídeos e filmes e os discutimos. Houve também uma roda de conversa com a participação de três representantes de grupos de militância contra o preconceito. Os alunos tiveram também oportunidade de relatar situações em que eles ou algum conhecido tinha sido vítima de preconceito.  Neste momento ficou evidente o quanto atitudes preconceituosas podem machucar as pessoas. Um dos alunos relatou que já apanhara do padrasto e de outros jovens simplesmente pelo fato de ser homossexual. Uma das alunas comentou que, ao ouvir os relatos, percebeu que a atitude preconceituosa dela poderia alimentar o preconceito de outras pessoas e disse que não queria contribuir para aumentar o sofrimento de pessoas que são discriminadas simplesmente por serem ou pensarem diferentes dos demais.

As quatro últimas oficinas foram dedicadas à escrita e reescrita dos textos. Iniciamos com uma produção coletiva em que os alunos foram apresentando as ideias e eu as registrei no quadro. Tomei o cuidado de não me limitar a ser simplesmente um escriba e fiz as intervenções necessárias a fim de ajudá-los a consolidar os conhecimentos adquiridos até então. Antes de iniciar o texto, fizemos “um esqueleto” delimitando o tema – preconceito de gênero -, a tese e anotando alguns argumentos que poderiam ser utilizados. Em seguida fomos para o processo de produção que contou com a colaboração de todos.  Embora no início todos quisessem falar ao mesmo tempo, e alguns quisessem que suas ideias prevalecessem sobre a dos colegas, foi possível conduzir a atividade de maneira que chegassem a um consenso, para que a voz de todos aparecesse no texto. Para isso, fizemos a seleção de ideias semelhantes e acrescentamos aquelas que eram complementares.

Tivemos a sugestão de quatro títulos diferentes e a turma elegeu um. Em outro momento os alunos fizeram a escrita individual e trocaram os textos entre si para que um escrevesse um bilhete orientador para o outro. Nesta atividade, os alunos demonstraram ter compreendido o objetivo do bilhete orientador e apresentaram sugestões que realmente contribuíram para melhora dos textos.

Ao comentarem sobre a escrita dos bilhetes, os alunos disseram que apontar as coisas que precisam ser melhoradas é mais difícil do que elogiar. Entenderam bem o objetivo da proposta da atividade e os bilhetes foram bem recebidos pelos colegas. Fizeram então a primeira reescrita do texto e os entregaram para a minha apreciação. Devolvi as produções com um bilhete orientador feito por mim. A partir disso partiram para a reescrita final. Para finalizar escolhemos, dentre os textos produzidos, uma carta aberta que foi reproduzida e distribuída à comunidade em um evento escolar.

Avaliando nossa trajetória, percebo que nosso caminho foi marcado por diferentes paisagens. Em alguns momentos tivemos que parar para abastecer a mochila, retirar algumas folhinhas secas e até mesmo redefinir rotas. Mas nosso objetivo foi alcançado. Por meio de bem traçadas linhas, os alunos conseguiram levantar suas vozes sobre o preconceito. Vozes essas que puderam ser ouvidas dentro e fora da escola. Mas, sobretudo, dentro de cada um de nós.

Crônica: essa paixão que desvela o cotidiano

Maira Andréa Leite da Silva

EMEF Harmonia

Santa Cruz do Sul / RS

Crônica: essa paixão que desvela o cotidiano

Maira Andréa Leite da Silva

EMEF Harmonia | Santa Cruz do Sul / RS

Para quem vive aqui no Sul, fica mais fácil entender a linguagem de cada estação.

O meu verão começou com o rebuliço do início do ano letivo. Alunos novos, apresentações, sorrisos, um calor que visivelmente emanava de cada um pelo contentamento do reencontro. Enquanto lá fora o sol brilhava intensamente, dentro da sala de aula eu teria pela frente o desafio de transmitir a 28 alunos do 9º ano a paixão pela leitura e escrita de crônicas. A perspectiva de trabalhar a crônica me encantava, pois sentia haver no gênero maior possibilidade de identificação com o cotidiano dos alunos. Eu sabia que os livros não faziam parte da rotina da maioria deles e que a leitura passava longe de ser o exercício preferido da classe, então decidi conhecê-los melhor e deixar que o verão fosse embora para iniciar a conquista.

Eis que no final de março, quando o calor já se despedia, acolhi o convite da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro para me aventurar em um projeto através de um gênero textual. Não resisti, me deixei seduzir: o gênero crônica, obviamente, foi o escolhido. Junto com o outono veio então a perspectiva de renovação: elaborar uma sequência didática que fizesse com que o aluno, antes de mais nada, se identificasse com o gênero. E como as árvores no outono se despem de sua folhas, também me despi de antigas práticas. Reli as oficinas do caderno A ocasião faz o escritor e as adaptei. Incluí nelas novas crônicas, atividades e perspectivas. Era preciso inovar para encantar os meus alunos.

No início de abril, quando o vento já anunciava a chegada do frio, senti o ambiente propício para o início da minha conquista. Comecei a atraí-los com a revelação da minha paixão pelo gênero crônica. Com perguntas tentei diagnosticar seus conhecimentos que se revelaram bastante superficiais. Para tentar ajudá-los no reconhecimento, distribuí uma folha xerocada com a definição e características do gênero. Na sequência exibi o vídeo Palavra Puxa Palavra – Crônica e lemos os textos da coleção da Olimpíada. Depois de uma boa conversa, o texto A Última Crônica, de Fernando Sabino, foi eleita a crônica favorita. Analisamos tema, personagens, cenários e emoções. E o olhar atento do escritor para o cotidiano que pulsa.

A julgar pela concentração, pensei que os ventos estivessem soprando a meu favor. Na aula seguinte, pedi então que realizassem a primeira produção: uma crônica sobre emoções vividas na escola. Minha intenção era que se sentissem motivados e cheios de assunto. Uma chuva de dúvidas acabou com a calmaria: “Como é que eu começo?”; “É pra contar uma história?”; “Eu não sei fazer crônica!”. Sabia que a resistência à escrita era uma barreira que teríamos que transpor. Acalmei-os, respondendo as indagações. Eu também escreveria um texto. Alguns me olharam meio incrédulos, mas foram se acalmando. Sinal que a tempestade estaria passando.

Na aula seguinte uma aluna veio me mostrar seu texto e, para meu espanto, ela havia escrito sete páginas. Depois da correção, percebi que, assim como ela, muitos ainda estavam apegados aos textos puramente narrativos. Faltava-lhes apurar o olhar e encontrar o tom da crônica. Também a pontuação e a paragrafação, muitas vezes inexistentes, eram desafios a serem considerados.

Levei então para sala de aula a crônica Lixo, de Luís Fernando Veríssimo. No quadro, fui chamando a atenção sobre o uso da pontuação, a estrutura dos parágrafos e a intencionalidade na criação do discurso: recursos do cronista. Após essa atividade coletiva, conversei individualmente com cada aluno, antes da reescrita. Procurei valorizar o primeiro escrito, elogiei os pontos fortes e ajudei-os a aprimorar o olhar sobre situações descritas que podiam ser particularizadas. Nova dúvida: como garantir que tivessem autonomia nas próximas produções? Era preciso reconhecer a linguagem da crônica. Dedicamos momentos de estudo sobre as figuras de linguagem como recurso para a escrita. Aliar teoria e leitura foi a estratégia que usei para que se aproximassem cada vez mais do gênero.

A segunda produção da turma foi inspirada na oficina Olhos atentos no dia a dia. Aproveitei a saída de campo para uma exposição agropecuária local, e pedi que os alunos fotografassem com os celulares cenas que pudessem render uma crônica. A atividade agradou no início, porém houve grande dificuldade em trazer a vida retratada nas fotos para as palavras da crônica. Durante a roda de leitura, um aluno que pouco se conhecia como escritor produziu uma crônica humorística e foi bastante elogiado pelos colegas. No entanto, outros confessaram que não gostaram de seus textos. Nesse momento conversamos sobre os tons da narrativa numa crônica e um exercício acabou dando origem a uma terceira produção na qual o aluno escolhia o tom desejado.

Quando findava o primeiro trimestre do ano letivo, minha paixão pelas crônicas me fez transgredir os limites planejados e ir além do permitido, estendendo e ampliando minha sequência didática por mais um mês. Pedagogicamente percebi que a prática semanal da escrita ia se mostrando bastante eficaz para que a qualidade dos textos melhorasse. Foram mais duas produções em sequência, inspiradas por fotos de dentro e de fora da escola. A ideia era aprimorar a porção cronista de cada um. Depois de cada produção, o texto passava pela minha correção, centrada no que o aluno poderia retomar numa próxima escrita. Depois, nas rodas de leitura, a turma comentava suas percepções leitoras quanto à adequação ao gênero, avaliando também os textos dos colegas.

Mas veio o inverno. Com frio e chuva, as faltas eram frequentes. Paralisações e eventos escolares fizeram-me adiar o reencontro com as crônicas. Havíamos estudado as figuras de linguagem, mas não as percebia incorporadas aos textos. Tempo de recolher. Nessa fase pensei em desistir, parecia não conseguir recuperar o tempo perdido e terminar meu projeto.

Quando tudo parecia perdido, o sol volta a brilhar: a ideia de trabalhar as figuras de linguagem nas músicas chega como o gás que faltava. Era preciso fortalecer a linguagem literária da crônica. Letras de músicas variadas ajudaram nesse momento. Na aula, o texto Como Nasceu Aquela Conversa, de Luís Henrique Gurgel, baseado na música de Noel Rosa Conversa de Botequim, foi esclarecedor para que os alunos entendessem a proposta. Arrisco a dizer que Da Canção à Crônica foi minha melhor aula e as crônicas produzidas pelos alunos, as mais criativas. Entusiasmada, escrevi um bilhete orientador para cada aluno, incentivando-os à reescrita e a verificar o que poderia ser melhorado. O resultado fez jus a minha expectativa, pois a linguagem conotativa apareceu com maior frequência nos textos.

A Pátria de Chuteiras, de Nelson Rodrigues, alimentou a nossa conversa sobre o que seria a temática da última crônica. Com a publicação de uma coletânea de crônicas, vi sorrisos iluminando o saguão da escola. Nova estação? Dos vinte oito alunos que iniciaram o projeto, vinte e cinco concluíram o trabalho e tiveram duas ou mais crônicas publicadas. O resultado, a meu ver, aponta que o objetivo foi alcançado. Mas devo dizer que nem todas as dificuldades foram superadas, a produção textual e a reescrita devem continuar como processo permanente. Ciclos de estudos e melhorias. Comprovadamente as transformações dentro da sala de aula são como as da natureza, acontecem a seu tempo, quando você menos espera a árvore seca e floresce, anunciando a chegada de outra primavera.

Quem poderá nos defender? A escrita cidadã

Michele Mendes Rocha de Oliveira

Instituto Federal do Amazonas - Campus Tabatinga

Tabatinga / AM

Quem poderá nos defender? A escrita cidadã

Michele Mendes Rocha de Oliveira

Instituto Federal do Amazonas - Campus Tabatinga | Tabatinga / AM

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Tinha pedras do tipo poeira, buracos, acidentes e falta de iluminação no meio do caminho que levava ao Instituto. Tinha um grande empecilho na estrada até o conhecimento: a falta de asfaltamento adequado da Rua Santos Dumont, em que fica localizado nosso campus do Instituto Federal do Amazonas, em Tabatinga. Esse velho problema da intrafegabilidade da via, devido à péssima pavimentação realizada em 2014, acabava prejudicando a permanência escolar dos nossos alunos e afetando toda a comunidade do bairro. No início do ano letivo, isso se agravava, porque, nessa época, estávamos no inverno amazônico, período de intensas chuvas. A lama escorregadia que se formava e os muitos buracos faziam com que alunos, pais, servidores do Campus e moradores dos arredores estivessem à mercê de possíveis acidentes, que podiam ser agravados pelo grande fluxo da via. O ônibus do IFAM que transporta os alunos, inclusive, já havia ficado atolado na lama, obstruindo a porta e dificultando a saída dos alunos do veículo.

Como minhas aulas estavam concentradas no início da manhã ou no fim da tarde, eram os momentos em que pululavam os comentários dos alunos sobre a dificuldade de acesso ao Campus. Muitos deles questionavam o motivo pelo qual os governantes ignoravam as necessidades do povo. Mesmo sem saber como, os estudantes queriam agir em favor da comunidade, pois desejavam fortemente, de alguma maneira, defender seus direitos, solucionar esse problema que vivenciávamos todos os dias. Foi a partir dessa necessidade dos alunos de buscar soluções para essa demanda da comunidade que surgiu o projeto “A argumentação que leva à estrada da cidadania”, o qual que tinha como objetivo a escrita de uma Carta de Solicitação ao prefeito do município para o asfaltamento da Rua Santos Dumont.

Para dar corpo à ideia de escrever a Carta, planejei quatro etapas, que continham várias oficinas: 1 – Motivando os alunos; 2 – Conhecendo o Gênero- Carta Oficial de Solicitação; 3 – Produção da Carta Oficial de Solicitação; 4 – Socialização. Dentro dessas oficinas, uma das atividades mais interessantes foi o Ciclo de Palestras, que contou com a participação dos professores de História, Biologia, Geografia, Química e Sociologia. Nas palestras, os alunos puderam ter uma visão mais ampla e crítica do problema, atentando para os impactos sociais da falta de trafegabilidade da via, aprendendo sobre as características do solo e do clima da Amazônia e o tipo pavimentação que deve ser utilizada em Tabatinga, o concreto. Com isso, produziram argumentos para defender a necessidade de pavimentação adequada e apresentaram a solução mais viável para o problema, o concretamento da Santos Dumont.

Na atividade sobre os elementos articuladores e os tipos de argumentos e na oficina de reescrita, utilizei como base o material Caderno do professor – Artigo de Opinião. Segundo a necessidade que fui percebendo nos alunos durante essa atividade, acrescentamos mais um uso de elemento articulador, o de “conformidade”, já que precisavam dele para a construção de argumentos do tipo “Argumento de Autoridade” e/ou “Exemplificação”, entre outros. Como cada turma ficou responsável por entrevistar um dos grupos afetados pela situação da rua – pais, alunos, servidores e moradores – e eles utilizaram a falas coletadas em seus textos, a utilização da conformidade foi imprescindível.

Baseando-me novamente na necessidade que surgia, trabalhei o uso de pronomes de tratamento e do verbo “vir”, já que os alunos demonstraram dificuldade em sua conjugação. Preparei, no meio do percurso, sem planejamento prévio, um adendo ao que já estávamos trabalhando, a fim de dar conta dessa demanda. Ver os elementos gramaticais sendo abordados na aula pela necessidade e não pela mera imposição, transformou meu agir docente. Ademais, observar que, para além disso, os alunos estavam usando os conteúdos trabalhados em língua portuguesa com um real sentido, visto que a linguagem exercia seu papel social, foi lindo!

Apesar da adesão, do empenho e da aprendizagem dos alunos e dos ganhos em minha jornada docente, encontramos inúmeros entraves na realização do projeto como, por exemplo, a dificuldade em encontrar corpus e bibliografia, por termos pouco acesso a livros e jornais na região, a internet de péssima qualidade e a recorrente falta de luz no município, o qual é abastecido por um grande gerador movido a combustível. Além disso, surgiram obstáculos, devido ao fato de que no Campus o 3º ano conta com apenas 2 tempos de aula, em que devem ser abordados todos os conteúdos de Língua Portuguesa, Literatura e Produção Textual. Por isso, algumas atividades que denotavam mais tempo tiveram de ser revistas.

No momento da reescrita, ainda que tivesse planejado usar bilhete orientador, utilizei em apenas uma das versões, devido ao grande número de estudantes. Resolvi, então, adotar outro método, que poderia ser chamado de “conversa orientadora”. Assim, oralmente e individualmente, orientava-os , apontando os pontos positivos e negativos, sugerindo mudanças em sua escrita.

O fato de as atividades de produção final e de reescrita terem coincidido com o período de trabalhos avaliativos e provas de outras disciplinas, influenciou no modo como se deu a execução do projeto. Ainda que tivesse que se dedicar a essas atividades, era visível o empenho deles na escrita da Carta. Essa disposição emocionava-me, pois sabia que o que mais desejavam ao escrever era tão importante e ao mesmo tempo simples, um direito de todos, ter uma estrada digna para chegar até a educação.

Desde que descobriram o poder da escrita de mudar realidades em prol de uma causa comum, a relação dos alunos com o texto, sem dúvida, mudou. Isso ficou claro quando produziram uma Carta de Solicitação destinada ao Diretor do Campus, requerendo soluções para problemas encontrados no Instituto e receberam respostas das demandas. O discurso modificou-se, diziam agora, “agora que sabemos que podemos, vamos até o fim!”, “vamos poder defender o direito da nossa gente!”. Haviam percebido que poderiam ser ouvidos e atendidos, utilizando a escrita contra a violação de direitos, pois como eles mesmos disseram “estamos poderosos”.

Mudança! Era isso que eu como professora esperava, mudança no modo de olhar e agir no mundo! E desde o ano passado, ao participarem da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, na categoria Artigo de Opinião, eles têm tomado um posicionamento diferente, mais contundente, frente aos problemas do município. É como se em 2016 eles tivessem aprendido a ver o mundo com outros olhos e, agora, com o projeto, estavam no momento de agir, de usar de seus conhecimentos para transformar o local onde vivem, propondo uma solução viável, através de argumentos bem fundamentados. Com a carta, utilizaram a criticidade e a ousadia próprias de um jovem, para intervir positivamente na realidade que os cercava.

Ao solicitarem em suas cartas que os direitos fossem assegurados, entenderam a força que a argumentação, feita em nome de todos os seus colegas e da comunidade, teve diante da sociedade, visto que receberam uma resposta positiva dos governantes do município quanto à concretagem da rua. Cada um deles, por meio de textos críticos e autorais, havia motivado a solução de uma demanda social. Esse exercício da cidadania, mesmo em tempos em que o investimento em educação decresce dia após dia, revigorou-me. Juntos, puderam perceber que, por meio do “trabalho de formiguinha”, construíram textos robustos em cidadania, com superpoderes para nos defender dos entraves da falta de infraestrutura, retirando as pedras do caminho, deixando livre a estrada que leva à educação.

Escrevendo crônicas: o despertar da partilha sob novos olhares

Ana Virgínia Domingos de Oliveira

Escola Estadual Dr. José Alves da Silveira

Quixeramobim / CE

Escrevendo crônicas: o despertar da partilha sob novos olhares

Ana Virgínia Domingos de Oliveira

Escola Estadual Dr. José Alves da Silveira | Quixeramobim / CE

Fui estudante da escola pública. Muitos professores passaram pela minha história e deixaram suas marcas. Eram como peças decisivas que se encaixavam em mim completando o mosaico que eu me tornava. Em 2007, adentrando o universo da docência, já carregava a certeza do que queria: fazer a diferença na vida de alguém. Desde então, venho me dedicando ao trabalho com a Língua Portuguesa e com as possibilidades que as palavras podem criar. Agora, em 2017, mais um ano chegava e com ele, nova oportunidade de ser essa peça importante na vida de meus alunos.

Eles estavam em seu último ano da escola, o ENEM batia à porta e já não havia tanto espaço para outros gêneros além do texto dissertativo-argumentativo. Mesmo assim, atrevi-me a encaixar o trabalho com crônicas nas primeiras semanas de aula. Era preciso olhar diferente; fazer com que deixassem brotar a sensibilidade necessária para sentir o cotidiano de uma escola profissionalizante tão nossa, bem como o dia a dia de nosso Quixeramobim.

Comecei apresentando-lhes “Recado pro bolsinho da camisa”, de Lourenço Diaféria, que nos permitiu diversas possibilidades de reflexão. Questionados sobre tema, tom e intenção do texto, os alunos expunham suas percepções e entravam a passos tímidos naquele universo chamado crônica. Animada com a possibilidade da primeira produção, pedi que se inspirassem em situações cotidianas e tentassem produzir seus primeiros textos.  Em meio a outras leituras, as produções começavam a ganhar forma, exceto em uma turma, a do curso de Nutrição, que pouco conseguia produzir. Um sentimento de frustração começava a tomar conta de mim, mas sabia que não poderia desistir deles. Nesse ínterim, por ter sido professora semifinalista da OLP em 2016, chegou a mim um convite do Programa Escrevendo o Futuro, para produzir uma sequência didática com gênero e turma a serem definidos. Não tive dúvidas, aceitei. E ali estava eu pensando nas dificuldades e resistências daquele 3º Ano D. Aquela seria a turma escolhida, e o gênero, a crônica.

Reforçando os estudos, percebi o quanto as minhas curtas propostas de trabalho precisavam ser aperfeiçoadas e como valia a pena criar novas estratégias de ensino. Em uma roda de conversa, decidimos voltar a explorar o gênero com outros exemplos e suportes. Convidei-os a retomarem seus escritos, lançando um outro olhar para aquelas folhas de papel cheias de expectativas. A produção dos textos parecia seguir passos cautelosos, curtos, um de cada vez. Aquele seria o ritmo. Mas estava esperançosa, sabia que aos poucos poderíamos evoluir. Organizei um momento de leitura compartilhada e esse foi, sem dúvidas, um instante mágico. Ao lerem seus textos, os alunos conquistavam a atenção dos colegas e os surpreendiam: “Você mesmo que fez?”, inquiriam alguns. Começavam a se sentir autores e, na etapa de revisão, percebiam que suas produções poderiam ficar ainda melhores.

Utilizando a crônica “Notícia de Jornal”, de Fernando Sabino, instiguei os alunos a outras possibilidades com a produção de crônicas a partir de notícias. A barragem seca e o descaso em certos bairros de nossa cidade foram alguns assuntos escolhidos, revelando inquietações e anseios por melhores condições de vida.  Se havia em muitos alunos a dificuldade de produzir, em outros surgia a vontade de ajudar, como um verdadeiro despertar de consciência. Percebi que aquela partilha de conhecimentos seria essencial para o envolvimento de toda a turma e decidi formar grupos com voluntários para auxiliarem os colegas nesse processo, revestindo de cor as aulas de redação, que se tornavam mais dinâmicas e solidárias.

Indo além das ações propostas, levei para a sala o livro de crônicas “A Menina da Chuva”, de Bruno Paulino, escritor de nossa cidade. Em leitura compartilhada, os alunos teciam observações acerca dos textos e revelavam ainda mais suas capacidades. Assim, tomada pela ideia de convidar o próprio cronista para uma roda de conversa e leitura com a turma, lá estávamos nós, na biblioteca da escola, em círculo, ouvindo a prosa descontraída do jovem autor. Os alunos também compartilharam algumas de suas produções, arrancando-lhe palavras de incentivo e dicas valiosas, o que fez crescer na turma um forte desejo de realizar a reescrita. Naquele dia, minha satisfação foi imensa e chegou ao ápice quando, para nossa surpresa, o aluno visto como o mais introspectivo da sala abriu seu caderno e começou a ler em voz alta o seu primeiro texto, colocando em liberdade palavras aprisionadas nas bolinhas de papel que deixava cair da mesa raras vezes. Aquela pequena dose de felicidade acabava de constituir-se em mais uma vitória.

Parecia que agora os textos não queriam circular somente na sala de aula. Passei a encontrá-los em minha caixa de mensagem, em conversas corriqueiras na subida da rampa e até mesmo em súbitos encontros pelos corredores da escola, em forma de papel dobrado com letra caprichada. Tudo fazia sentido naquele momento! A vontade que eles tinham em aprender misturava-se ao meu propósito de lecionar. Um filme passava em minha cabeça. Mal sabiam eles que eu havia aprendido muito mais do que ousava ensinar. Agora caminhávamos melhor rumo às atividades finais de nossa sequência. A última proposta envolvia a reflexão sobre o tema mudanças e eu sabia o quanto essa escrita seria especial para eles. Mudanças físicas, psicológicas, sociais e sentimentais começavam a ilustrar aquela última crônica, que se construía entre um pensamento e outro. Porém eu sabia que a maior delas era aquela que se edificava diante dos meus olhos.

Por fim, um belíssimo sarau coroava o final de nossa sequência. Senti um orgulho imenso ao olhar para aqueles jovens, com o microfone na mão e a ansiedade no peito. Sob olhares curiosos e atentos presentes no auditório, liam seus textos e encorajavam outras pessoas para a produção. Ainda nesse evento, divulgamos nossa página virtual criada em parceria com o projeto Conexões Literárias, desenvolvido em nossa escola. Com o tema “Crônica e Cotidiano – um olhar sobre o eu e o mundo”, o projeto, que também surge em forma de livro ao final do ano, passava a divulgar as crônicas e abria portas para que outros alunos também pudessem escrever outras. A semente havia sido plantada. Aqueles alunos sentiam-se autores e não podiam mais parar.

Hoje, ao olhar para trás, vejo duas histórias completamente diferentes. A turma, antes sem muita motivação, agora permitia-se transformar pelo poder das palavras; aquela professora, de sonhos tão limitados, passava a conhecer o poder da determinação, superação e ousadia. Cotidianamente, continuam a descobrir a preciosidade do olhar para si, para o outro e para o mundo. Haviam encontrado um tesouro. E no arremate desse ciclo cheio de descobertas, solidariedade e partilha, nós compreendíamos que, acima de tudo, a escrita nos fazia mais humanos.

Sonho, viagem, magia e dramaturgia

Marta Regina Martins

Escola Estadual Dr. Wenceslau Braz

Monte Santo de Minas / MG

Sonho, viagem, magia e dramaturgia

Marta Regina Martins

Escola Estadual Dr. Wenceslau Braz | Monte Santo de Minas / MG

Era uma vez uma menina inquieta que na escola participava de tudo, mas de tudo mesmo! Leitura? Lá estava ela! Teatro? Lá estava ela! Foi menina pobre na vida e na arte: foi bruxa, fada, escrava, foi Branca de Neve.

A menina inquieta virou professora. Fez da escola suas asas e embarcou numa viagem mágica sem volta. Na roça, viveu aventuras inimagináveis, carregando na bagagem livros, alunos e sonhos. Já na cidade, prosseguiu sua viagem, ampliando seus estudos, carregando mais livros, alunos e mais sonhos. Sonhou alfabetizar, livrar da treva da ignorância aquelas mentes brilhantes ainda na infância! Mesmo não bastando um pirlimpimpim, assim o fez. Sonhou despertar o prazer e a delícia da leitura em almas sedentas de conhecer o mundo. Sonhou levar centenas, milhares, ao mundo mágico da dramaturgia e, embora um abracadabra não fosse suficiente, concretizou mais um sonho.

Criou o Grupo de Teatro Pé Sem Sapato ao lado de uma parceira de competência incomparável. Ensaios, preparação de figurino, cenário: peças infanto-juvenis assistidas por toda comunidade escolar e convidados do nosso Monte Santo. Era sempre assim: muito trabalho e alakazam! Lá estavam as peças, em cartaz, no humilde salão da E.E. Dr. Wenceslau Braz.

Muito prazer! Essa menina-professora-inquieta sou eu. Assim, ao receber esse desafio da Olimpíada, despretensiosamente, decidi trabalhar com texto teatral.

O primeiro passo foi investigar se a turma embarcaria comigo em mais uma viagem ao mundo mágico do teatro. Uma simples conversa ao pé do ouvido, como-quem-não-quer-nada, me mostrou que estava no caminho certo. Passei à seleção de trechos de peças conhecidas, em especial aquelas com pitadas de humor, para elevar ainda mais o astral daquela turma, curiosamente, alegre. Os grupos receberam um trecho engraçado para dramatizar. Uma preparação-relâmpago com muitas gargalhadas.

Rir é sempre prazeroso, mas era preciso falar sério também. A turma precisava construir alguns conceitos importantes e trabalhamos duro nisso por um bom tempo: rubricas, introdução da fala da personagem, atos, cena, cenário, figurino, linguagem adequada, correção ortográfica. Escrita à vista! Primeiramente, devíamos dar continuidade a um dos trechos encenados. A maioria da turma pegou o jeito da coisa. Que delícia! Porém, era preciso revisar os textos, orientar as correções após a aula:

Aluno + Caderno com texto + Leitura + Dona Marta orientando = Texto reescrito.

Quase matemático! Doce ilusão, pois dificuldades de escrita e ideias não são exatas, são subjetivas, e haja paciência, disposição e paixão pelo mundo da palavra para concluir essa etapa, sem deixar peças da mala para trás.

A turma pediu “Mais humor, por favor!”. Eles realmente queriam rir mais um pouco. Busquei em Gil Vicente e Ariano Suassuna os risos esperados. Dessa vez, os alunos tiveram um tempo um pouco maior para a preparação. Vieram no contraturno e ajudei-os com um pequeno ensaio. Apresentaram para a própria turma e para a turma vizinha. Foi muito prazeroso ouvir Chicó, João Grilo, o Fidalgo, o Anjo, e perceber que para se produzir humor de qualidade é necessário muito talento.

Nossa viagem prosseguiu e era preciso verificar se os conceitos construídos foram consolidados. Assim, resolvi registrar aspectos considerados relevantes. O resultado foi motivador, mas alguns alunos necessitaram de outras intervenções, outras leituras até no próprio livro didático foram importantes naquele momento. O professor sempre tem cartas na manga e faz uso delas quando o fazer pedagógico exige.

Se teoricamente os conceitos foram entendidos, vamos praticá-los. Era preciso inserir outras peças na bagagem e seguir em frente. Duas cenas foram apresentadas para que escolhessem aquela que mais atraísse o interesse dos autores. O resultado foi surpreendente. Bons textos teatrais foram escritos. Percebi real habilidade no fazer do texto teatral. Ponto pra nós, pois atingimos mais um objetivo. A mágica do uso da palavra para ser dramatizada estava ocorrendo na turma. E agora?

Agora era preciso que o aluno criasse seu próprio texto, partindo de suas considerações e vivências pessoais. Sugeri a parceria na escrita, na decisão do tema, na escolha do título. Coincidência ou não, 2017 é um ano marcado por muitas tensões político-econômicas em nosso país. Educadores em greve, impeachment, reformas. Elaboramos comunicados esclarecendo à comunidade escolar as razões que nos levaram às ruas de nossa pacata cidade mineira, lutar por nossos direitos. Entretanto, não é possível tirar de uma cartola mágica a solução para a calamidade pública que reina no Brasil. Falei com a turma em determinada aula “Se não lutar pelo futuro que quer, terá que aceitar o futuro que vier.” Creio que a mensagem foi assimilada.

Após a greve, os alunos trouxeram de seus diários de bordo pequenas preciosidades. Entretanto, era preciso lapidar a pedra ainda bruta. Assim foi feito. Dois grupos apresentaram como tema de trabalho a crise, a corrupção em nosso país, as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros de maneira geral. Qual não foi minha surpresa quando um deles decidiu satirizar e encenar a situação. E o texto surgiu tempos depois, ainda sem título e com alguns desvios de trajeto. Em conversa, os autores acertaram título, percurso e combinaram ensaios. Chegou o grande dia! Alguns estreavam na “carreira teatral”, outros já haviam experimentado o frio na barriga da primeira viagem. Não foi o luxo e a ostentação de um passeio à Europa, mas o brilho daqueles olhos certamente não perdiam em nada para as luzes de Paris. Não havia palco, mas aquele cenário humilde era a arte imitando a vida dos autores- atores na sala de aula. Satisfeita? Ainda não! Ah, essa inquietude que me acompanha vida afora!

Era preciso refazer as malas, encontrar as palavras mágicas certas e, talvez, até reavaliar a poção. Isto feito, pé na estrada! Essa vida de mochileira errante, tentando aprender a ensinar, nunca foi fácil. Era mais uma aventura e um novo aprendizado.

Opa! Outro obstáculo no meio do caminho. O transporte escolar simplesmente parou. Férias antecipadas em duas semanas e o trabalho ficou à espera do próximo veículo que pudesse transportá-lo à reta final.

Retomamos o caminho. Textos repensados, rediscutidos, reescritos e a turma dando mergulhos maiores no mundo da dramaturgia. Afinal, dar vida, sentimento, ação e voz à personagem é pura magia! Chegamos a um porto quase seguro. Haverá sempre mais a fazer!

Se “Navegar é preciso, viver não é preciso”*, creio que minha bússola aponta para “outros mares nunca dantes navegados”. Talvez daqui a três anos, minha viagem tome outro rumo. Talvez eu desacelere as turbinas, mas desligar os motores e retornar ao lugar original da viagem mágica pelo mundo da palavra, isso é inconcebível. As marcas são profundas demais no corpo, na alma e no coração.

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*Frase do general romano Pompeu que foi popularizada por Fernando Pessoa.

Vozes que encantam, comemoram e representam

Carolina Lobrigato

EMEF Altino Arantes

São Paulo / SP

Vozes que encantam, comemoram e representam

Carolina Lobrigato

EMEF Altino Arantes | São Paulo / SP

Para a EMEF Altino Arantes, 2017 seria singular: ano de comemoração de seis décadas de existência! E quando surgiu a proposta de celebração desta data, considerei que a Mostra Cultural mereceria mais do que papel crepom, mais do que textos colados na parede ou expostos num blog. Não que tais estratégias não fossem eficientes e interessantes, mas eu pretendia aliar o protagonismo dos alunos com o aprimoramento da capacidade de comunicação, de persuasão e exploração da linguagem oral.

Nesse contexto, ao invés de produção de poemas, HQs, crônicas ou relatos, elaborei uma sequência didática, para ser desenvolvida em aproximadamente 20 aulas, sobre o gênero textual “Spot Radiofônico”, a fim de que os alunos produzissem e gravassem spots a serem executados na Rádio de nossa escola – Altinomix, tanto na Mostra Cultural, em setembro/2017 quanto nos intervalos e horário de almoço. Para que isso fosse possível, propus uma parceria com o professor de Informática Educativa, com o qual compartilho uma aula semanal com os 7°s anos. Agregando-se à nossa parceria, a professora de arte comprometeu-se a orientar os alunos em relação aos jingles que poderiam ser acrescidos aos spots. Entretanto, foi aí que nos deparamos com o primeiro percalço, pois a professora recebeu a notícia que a sua aposentadoria havia sido concedida… e os sétimos anos ficariam sem aulas dessa disciplina no decorrer das atividades de produção.

Sequência didática elaborada. Agora, restava apresentar a proposta e envolver os meninos e meninas de 12 e 13 anos, que passaram quase a metade de suas vidas naquele prédio tão antigo. Era hora de juntos soprarmos as 60 velinhas de nossa escola.

“Vale nota? Pode ser em dupla?” Alguns questionamentos são inevitáveis! E mesmo que a nota seja a minha principal moeda de troca, mal sabem eles que o melhor da viagem é a trajetória, então, o caminho percorrido até a nota seria muito mais valioso.

Iniciamos um resgate de memórias: “Meus pais se conheceram aqui na escola!”. “Foi aqui que eu dei o meu primeiro beijo!”, “Todos os meus irmãos estudaram aqui”. A escola estava ligada intrinsecamente à vida deles, o cenário de tantos momentos protagonizados por cada um.  Ufa… a temática abordada fora aceita com sucesso!

Agora era o momento de contextualizar o gênero textual – spot radiofônico. “Que nome mais estranho!”, “Spot? Acho que é uma lâmpada que tem na casa da minha tia”. Em seguida, mencionei o veículo de circulação – a rádio. “Quem aqui ouve rádio? Qual rádio vocês escutam?”, aqueles olhinhos me fitavam com surpresa “Ninguém ouve rádio, prô! A gente baixa músicas!”, ou ainda “Minha avó escuta o padre Marcelo!”. Sistematizei esse levantamento, solicitando que os alunos respondessem um formulário elaborado pelo professor de informática sobre os hábitos de ouvirem rádio (os motivos, a frequência, os ciclos horários, a intensidade, as plataformas).

Como tarefa de casa, pedi que sintonizassem numa rádio e, nos intervalos dos programas, ficassem atentos aos “comerciais e propagandas” e trouxessem algumas anotações – como o produto anunciado e o slogan. Um fracasso: um ou dois alunos obtiveram êxito na lição. As desculpas injustificáveis brotavam incessantemente.

Na sala de informática, descobrimos um site com spots (inclusive de escolas). Os alunos tinham como missão ouvir os spots, descobrir qual era a sua intenção, observar a clareza da fala, o tom de voz. E por fim, fazer sua transcrição.

As produções iniciais foram gravadas com meu próprio celular em sala de aula, ainda trazendo muitos resquícios de timidez. Inclusive, a turma manifestava certa resistência com a atividade, que só foi quebrada a partir da primeira gravação: ao ouvirem a voz do primeiro colega que se aventurou, todos se renderam e quiseram gravar o  áudio.

Basicamente, produziram três frases (começo/meio/fim). Iniciando com uma interlocução com um ouvinte, depois uma proposta ou chamada de ação e, por fim, um slogan. Transcrevo aqui a primeira produção do aluno Bryan: [Você sabia que a EMEF Altino Arantes está completando 60 anos?/Você faz parte dessa história!/Então, venha comemorar com a gente!].

Explorando o Youtube, um dos alunos descobriu um canal de um produtor de rádio, Gilmar Lima, que dava várias dicas de produção e gravação de spots, atentamente assistidas por eles, que vivem um momento de encantamento com os youtubers.

Paralelamente, os alunos fizeram pesquisas acerca do patrono da escola e colheram relatos de ex-alunos e funcionários da escola para que servissem como inspiração para a temática das produções.

A produção coletiva tratou de memórias de tempos de escola, o que acabou modelizando as próximas produções, tornando-se uma armadilha, já que engessava o processo criativo: muitos só queriam escrever spots sobre isso. Era preciso sacudi-los, empoderá-los, mostrando-lhes caminhos e apontando outras direções. Criatividade era a chave para o sucesso!

A linguagem publicitária foi explorada: elementos de persuasão, verbos no modo imperativo, a capacidade de inferir sentido de humor ou crítica. Uma das dificuldades com que me deparei era a falta de material de apoio; pouco pude contar com o livro didático que não trazia spots para serem analisados. Comecei, então, a utilizar as produções dos próprios alunos para essa finalidade. Fazia a transcrição dos spots na lousa e elaborava questões sobre eles, fazendo com que os alunos refletissem sobre as escolhas linguísticas de seus amigos-autores.

O processo criativo do spot surgia em momentos do cotidiano. Caneta e papel na mão, vamos anotar que essa é boa! Spots com a vozes de feirantes vendendo uma educação de qualidade, ou então a voz da locutora do metrô dizendo “Próxima estação… Estação Altino Arantes. Embarque com destino ao seu futuro”.

Durante as gravações, focamos na diferença entre a linguagem oral (coloquial e formal) e a escrita. Percebiam que ao arriscarem uma gravação sem o apoio do texto escrito, não tinham sucesso, por terem pulado a fase da escrita. Tratamos sobre entonação e tom de voz.  Algumas produções escritas eram muito boas, mas quando iam pra gravação, a performance deixava a desejar, ora por dificuldade na leitura oral ou pela falta de compreensão da mensagem que estavam transmitindo. Em contrapartida, outros se destacavam logo de cara nessa atividade de gravação. Na aula de informática, o professor apresentou-lhes o programa Audacity e os orientou  sobre a importação de efeitos sonoros e fundo musical.

Após o recesso de julho, quando retornamos à escola, um inconveniente veio atravancar o nosso caminho: alguns cabos da Rádio foram danificados! Ainda hoje estamos pensando em outras alternativas de exposição dos spots, além de  corrermos contra o tempo para que até a Mostra Cultural tudo esteja resolvido.

Ao final das atividades, pudemos concluir que a rádio é um meio que nos permite soltar a imaginação.  A imaginação, por sua vez, nos permite viajar muito mais do que a visão. E serão aquelas vozes juvenis que promoverão os 60 anos do Altino Arantes e encantarão toda a comunidade escolar!

Valorizando os saberes torotameiros

Rosa Maria Martins Pereira

EMEF Cristóvão Pereira de Abreu

Rio Grande / RS

Valorizando os saberes torotameiros

Rosa Maria Martins Pereira

EMEF Cristóvão Pereira de Abreu | Rio Grande / RS

Trabalho em uma ilha distante, a pouco mais de sessenta quilômetros da sede do município de Rio Grande, RS. O trajeto é longo, pois parto de um bairro chamado Senandes e, quando me encontro no distrito de Povo Novo para tomar o ônibus escolar que me conduz a Ilha da Torotama, encontro o grupo de professores do campo que vem de Pelotas, cidade vizinha, Quinta, outro distrito de nossa cidade e do Povo Novo. No caminho, sobem no ônibus outros professores moradores da Ilha da Torotama, bem como os estudantes.

Há anos éramos chamados de professores da zona rural, um rótulo carregado de sentido pejorativo porque a maioria não possuía diploma sequer do curso Magistério. Atualmente somos conhecidos como professores do campo e temos curso superior na área em que lecionamos. A maioria é especialista e há colegas com mestrado e doutorado, o que muito nos orgulha.

Priorizar a escrita sobre o lugar onde vivemos é valorizar estas comunidades distantes. Os textos produzidos por estes sujeitos-estudantes são carregados de significado. Fazem parte de sua história e através deles ressignificam-na. À medida que escrevem sobre os saberes e vivências dos moradores de sua comunidade, passam a reconhecer a importância da escrita e destes atores, sabendo que serão lidos e ouvidos além dos muros da escola.

Lembrei uma citação que li de Bakhtin “O texto é a realidade imediata.”, a qual dá chance a todos de contar um pouco de suas vivências, saberes, hábitos e de suas histórias. Sinto que com este relato posso dar voz e visibilidade às práticas de escrita que desenvolvo com minhas turmas da Escola Cristóvão Pereira de Abreu.

Em março de 2017, propus aos colegas da escola  para trabalharmos com um projeto de aprendizagem intitulado “Valorizando os Saberes Torotameiros”, no qual poderíamos fortalecer a identidade e o sentimento de pertencimento dos alunos. Costumo falar às minhas turmas que aquilo que não se registra o vento leva. Desta forma demos início ao projeto. Primeiramente, conversamos sobre poemas, memórias, contos, crônicas, lendas, etc. Escolheram crônica. Por que a crônica? Durante nossa roda de conversa perguntei o que sabiam do gênero e prestei atenção no que diziam. Já apresentavam ideias do narrar, de temas e personagens. Gostava do que via e ouvia. Expliquei sobre os autores, a linguagem e os diversos tons da crônica. Acredito que pensaram ser um gênero menos complicado e mais atual. Será? Começamos a trabalhar o gênero.

Na aula seguinte levei três crônicas do Caderno das Olimpíadas. Ouviram as crônicas no CD fornecido pelo programa Escrevendo o Futuro, e atribuíram outros títulos aos textos. Comentamos crônica por crônica e me surpreendi com suas análises e interpretações.

Na A última crônica, de Fernando Sabino, criticaram o texto chamando-o de racista. Diziam “Onde já se viu, professora, escrever e publicar “casal de pretos”, “a negrinha”! É muito racista.” No texto Do rock, de Carlos Heitor Cony, os alunos comentaram que o narrador-personagem devia pertencer a um grupo social privilegiado já que dorme pela manhã ao invés de trabalhar; reclama da empregada; paga as compras de CDs que sua filha comprou; e usa um vocabulário recheado de termos e expressões estrangeiras, até com um certo esnobismo em suas palavras. Disse um aluno “Esse cara se acha, sora!”.

Argumentei com as meninas sobre a época em que foram escritos e o lirismo destes textos. Criticaram muito os maus tratos e abusos que os animais sofrem quando comentaram Um caso de burro, de Machado de Assis, e perceberam claramente as ironias e metáforas que o autor utilizou em seu texto.

Na etapa Saída de Campo, com cadernos, canetas e celulares na mão, partimos para estranhar a Ilha da Torotama. Precisava que olhassem os moradores e lugares sob uma nova ótica, sob um novo prisma. Conversamos sobre o assunto como de costume e lá fomos registrar vivências, saberes e atividades cotidianas. Estudantes alegres, aprendendo fora das paredes e muros da escola. Muitos cochichos, risinhos furtivos e uma comunidade para observar e muito para contar. Conversamos com moradoras, pescadores, pais e responsáveis durante nossa saída.

Percebemos uma cena no fundo de um pátio, bastante inusitada. Havia algumas mulheres sentadas em banquinhos baixos, bem próximos ao chão. Sobre um fogo, latas onde ferviam siri. Em torno das mulheres alguns cães e uma porca preta e seus porquinhos, um pouco mais distante, sob uma árvore, um pescador remendando sua rede, utilizando agulhas e linhas próprias à pesca. De imediato quis fotografar, mas fui avisada por uma aluna que não devia fazer tal imprudência. Aquelas pessoas não aprovariam minha foto. Gravei a cena na memória. Parecia perfeita para uma crônica.

Na sala, retomamos os registros feitos durante a saída de campo e conversamos sobre a cena. Fiz muitas perguntas para entender melhor aquilo que tinha observado e considerado tão peculiar, tão singelo e, ao mesmo tempo, tão torotameiro.

As alunas, inicialmente, achavam que eu estava vendo boniteza onde não havia. Solicitei que me explicassem melhor sobre a atividade de limpar e descascar siri. Elas contaram que suas mães também limpavam siri. Sabiam bastante sobre o assunto. Fizeram a seguinte proposta “Podemos escrever todas juntas? Vamos todas copiar o texto no caderno. Pode ser?”.

Aceitei a proposta e na oficina seguinte fizeram perguntas e os parágrafos se formavam em seus cadernos. As oficinas seguiam o ritmo almejado. Trabalhei com outras crônicas para que percebessem melhor as características do gênero. Analisaram uma crônica finalista de 2016 e pedi, finalmente, que escrevessem as crônicas individuais.

Percebi uma relutância por parte dos alunos para escrever individualmente. Propus que convidasses as sirizeiras para uma roda de conversa.

Recebo as mulheres em sala de aula e percebo, tanto nas perguntas como nas respostas, os laços afetivos, o reconhecimento do trabalho desempenhado por aquelas que lá se encontravam: mães, avós, tias e vizinhas. As questões levantadas na escrita do texto coletivo vão tomando forma, avolumando-se, darão com certeza robustez aos textos individuais. Estão repletos de sentimentos, dificuldades, desejos, conflitos, soluções e uma grande dose de bom humor e esperança.

Está na hora da escrita individual. Leio todas e através da prática do bilhete orientador, vou auxiliando minhas alunas. Vejo que estão construindo seus saberes, seu conhecimento, escrevendo sobre o cotidiano do lugar onde vivem e, a partir das crônicas, assumem um protagonismo ímpar.

Neste momento compreendo que passam a identificar-se com as mulheres que limpam siri. Valorizam os laços sociais, culturais e afetivos. Reconhecem a atividade destas mulheres, suas práticas e vivências e acabam descobrindo-se como sujeitos pela palavra escrita.

Da leitura à Escrita - Trilhas Percorridas

Quitéria Éden Batista Leite

Escola de Referência em Ensino Médio José de Almeida Maciel

Sanharó / PE

Da leitura à Escrita - Trilhas Percorridas

Quitéria Éden Batista Leite

Escola de Referência em Ensino Médio José de Almeida Maciel | Sanharó / PE

Sonhar, viajar, conhecer outras vidas e outros mundos… Viver grandes aventuras. Tudo isso é possível por meio da leitura.

Contudo, despertar e envolver o estudante no universo literário tem sido um dos grandes desafios dos professores de português, principalmente no Ensino Médio, pois a ausência do hábito de leitura prejudica o trabalho voltado à literatura.

É dever da escola despertar e intensificar o hábito da leitura, apresentar autores nacionais, ampliar seus repertórios literários, bem como repensar o uso da língua em espaços de leitura e escrita não-literários, abrindo espaço para o circuito paralelo, ou seja, obras que muitas vezes são excluídas da escola, mas que os jovens consomem e que circulam entre eles, justamente, por tratarem dos seus universos.

Preocupo-me com os níveis de leitura dos estudantes, especialmente por serem do Ensino Médio. Como alguns até leem, mas não conhecem autores nacionais e nem os clássicos da nossa literatura, direciono o trabalho para a leitura dessas obras, pois além de serem fundamentais para sua formação sociocultural, é sobre elas que irão responder no ENEM e nos vestibulares das faculdades particulares.

Quando recebi o convite para participar da seleção para o Seminário Nacional Escrevendo o Futuro, pensei no gênero crônica; porém, concluí que ficaria muito próximo ao trabalho desenvolvido para a Olimpíada de Língua Portuguesa 2016, porque tudo que foi vivenciado ainda está muito presente na minha prática. Então, li novamente o convite, e a frase “aventure-se por outros gêneros” me levou à reflexão. Consultei a Proposta Curricular do Estado de PE e vi que a resenha crítica estava programada para o bimestre, oportunizando a vivência da mesma no projeto.

No entanto, muitas indagações surgiram: por onde iniciar? Quais objetos de estudo seriam abordados? Como apresentar a ideia do projeto aos estudantes? Qual seria  seu fio condutor?

Ao passo que planejava organizar meu roteiro, iniciava o curso “Caminhos da Escrita”, do Portal Escrevendo o Futuro. A primeira atividade foi a proposta de escrita de um relato a partir do tema: “ Eu, a Leitura e a Escrita.” Amei escrever o texto, justamente por fazer um resgate das minhas lembranças e proporcionar um reencontro comigo mesma.

Ao concluir meu relato, descobri, enfim, o fio condutor do projeto, uma forma de despertar neles o desejo de escrever: li meu relato para os estudantes e propus que também escrevessem. Ao fazer isso, percebi o quanto ficaram empolgados para escrever os seus.

No dia da apresentação oral em sala, ouvi lindos relatos, conheci não só seus encontros com a leitura, como também um pouco de suas histórias de vida, começando a entender certos comportamentos.

Assim como Drummond, também encontramos algumas pedras no caminho, porém juntos aprendemos a contorná-las, em busca de diferentes reinos, viagens e sonhos. Para tanto, visitamos a biblioteca escolar “Rui Barbosa”, onde a bibliotecária Ana Paula realizou uma palestra, apresentou-nos autores e obras, ao mesmo tempo que conversava com os alunos, a fim de descobrir seus perfis em relação à leitura.

Essa visita foi fundamental para que eu percebesse que alguns já liam, mas outros ainda não. Então, orientei que começassem pelas obras condensadas, pelos clássicos no formato de quadrinhos e que poderiam trocar de livros até se identificarem. Assim, as leituras prosseguiram nos horários de intervalos, de estudo dirigido e em suas casas.

Combinei, na sequência, a primeira roda de leitura, em que apresentariam seus livros, por meio de resumos orais e opiniões sobre as obras lidas, o que contribuiu para aguçar a curiosidade dos colegas sobre as diferentes obras.

Enquanto liam, recolhi as primeiras versões escritas dos relatos, analisei suas dificuldades em relação à escrita, percebi a dificuldade em usar conectivos e acentuação, fiz retomadas e propus orientações individuais aos que ainda apresentavam esses desvios, devolvendo os textos (incluindo resumos) para a reescrita. Orientei-os para a digitação e formatação, de acordo com as normas da ABNT. Fomos percorrendo nosso caminho até que seus textos estivessem prontos para a exposição em murais, expandindo-os para fora da sala de aula.

Fizemos novas visitas à biblioteca para que escolhessem outras obras, dessa vez para a resenha, produto final a ser escrito. Em seguida, sondei o que conheciam de resenha;  concluí que precisavam de orientações específicas sobre o gênero e levei à sala material para análise das características. Analisamos a resenha do livro “Não se Apega Não”, de Isabela Freitas, livro mais citado no início do ano, quando propus dinâmicas que sondavam o que eles tinham de bagagem em relação à leitura.

Diferente de Peri e Cecília, em “O Guarani”, que partiram rumo a um destino desconhecido, sabíamos o nosso, e quando percebíamos que alguém tinha se perdido em algum atalho, refazíamos nosso percurso, tantas vezes quantas foram necessárias para que ninguém ficasse para trás, contando sempre com a ajuda dos professores colaboradores.

Os estudantes começaram a demonstrar mais interesse, não só nas aulas de português, como também nas demais disciplinas; suas vozes ganharam vida, tornando-se protagonistas de suas próprias histórias. Hoje, seus textos apresentam menos desvios de escrita, estão relendo, refletindo e reescrevendo. Nosso projeto começa a fazer sentido!

Desde o primeiro momento em que apresentei a ideia do projeto para a turma do primeiro ano A, convidei-os a serem propagadores para as outras turmas, pois seria muito difícil conseguir realizar um trabalho de qualidade nas cinco turmas, ao mesmo tempo.

Assim, enquanto liam, iniciei as atividades nas demais turmas e juntos também iniciamos nossa caminhada. Por já conhecer o caminho, pensei que seria mais fácil, porém encontrei algumas resistências, nas outras salas, em relação à leitura e percebi que eles precisavam de mais atenção, de mais incentivo. Revi meu plano inicial, focando principalmente nas rodas de leitura.

Finalmente, os textos do primeiro A estavam concluídos e a fim de estimular os resistentes à leitura e escrita, decidimos apresentá-los a todos da escola. Com o apoio da gestão, professores e estudantes, organizamos a culminância do projeto, com a exposição dos relatos e resenhas, acompanhados de fotos, vídeos, recitações e dramatizações de algumas obras lidas durante o projeto.

Fomos de dramatizações de “Cinco minutos”, de José de Alencar, e “O Bicho”, de Manuel Bandeira, à crônica “Cobrança”, de Moacyr Scliar; do cordel “Descoberta da Literatura”, de João Cabral de Melo Neto (texto que li, analisei no curso “Caminhos da Escrita” e levei para a sala de aula), à “Imagina”, de Fábio Brazza; dos relatos emocionados dos estudantes da turma A, ao vídeo com depoimentos sobre a importância da leitura. Assim, experimentamos e comprovamos que, como afirma Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”.

E quando me perguntam se já percorremos todas as trilhas de nossa jornada, respondo que estamos apenas começando. Estamos construindo nosso final feliz!

Motivo, tudo de que preciso

José Jilsemar da Silva

Escola Estadual Desembargador Licurgo Nunes

Marcelino Vieira / RN

Motivo, tudo de que preciso

José Jilsemar da Silva

Escola Estadual Desembargador Licurgo Nunes | Marcelino Vieira / RN

Sou professor! Sinto-me satisfeito e muito feliz na profissão que abracei. Foram as circunstâncias que me trouxeram a esse porto e, por isso, sou muito grato a elas. Quis ser administrador. Não deu. Descobri-me então na profissão ideal. Tenho consciência de que muitas coisas ainda podem e vão acontecer, pois acredito, sempre, que estou no meio do caminho. Essa certeza tem me levado ao encontro e desencontro de algumas verdades: o professor não é um sujeito indivíduo pronto e acabado, pois é constituído a partir de outros sujeitos.

Minha prática pedagógica não está e nunca esteve dissociada das práticas daqueles que foram meus professores. Mesmo aqueles mais antigos têm uma relevante contribuição nesse processo do ensinar e do aprender. Tentava buscar respostas e não conseguia esclarecer porque minha primeira professora, Dona Tica de Joel, tinha uma participação tão próxima com o meu fazer pedagógico. Não que sejamos iguais, até porque as circunstâncias são outras, visto que a sociedade evoluiu e com ela evoluímos também.

Hoje compreendo mais nitidamente como aquele ensino de língua materna era necessário, naquele contexto sociocultural, me influenciando e influenciando a minha prática pedagógica. Como diz Bakhtin, se, por um lado, a linguagem é o elemento que estabelece a relação entre os seres humanos e propicia experiências de intersecção ou interação entre interlocutores, por outro o indivíduo não é a origem do seu dizer. Assim sendo, somos sujeitos povoados por discursos alheios e por relações dialógicas entre esses discursos. Podemos afirmar, por meio dessa concepção dialógica da linguagem, que o sujeito se constitui na sua relação com os outros, o que comprova a minha intrínseca relação com o fazer pedagógico da minha primeira mestra.

Todas essas influências me trouxeram ao meu prazeroso mundo escolar, a Escola Estadual Desembargador Licurgo Nunes, no Município de Marcelino Vieira/RN, para vivenciar os desafios presentes na rede pública de ensino. Convém dizer que a nossa escola não ocupa as primeiras posições nas avaliações externas. Ocupa apenas a 94ª posição na avaliação do Sistema Integrado de Monitoramento e Avaliação Institucional da Secretaria de Educação do RN (SIMAIS), dentre 281 escolas avaliadas no Estado. Num universo de 500 pontos, estamos com 216,3 na proficiência em Língua Portuguesa e um pouco mais atrás em Matemática. Entretanto, isso não é o mais importante para a nossa equipe porque não nos deixamos abater; esses dados nos remetem à seguinte reflexão: como poderemos mudar essa realidade? Temos convicção de que formamos cidadãos e que esses resultados devem ser validados após observação de vários fatores, desde a falta de leitura dos quesitos avaliados (confirmados pela maioria dos alunos) à falta de conhecimento dos assuntos.

Com base nos resultados positivos do Projeto “Epa! Cadê a Opinião?”, a escola já visualiza possibilidades para melhorar parte desse índice, principalmente na proficiência em Língua Portuguesa. Vamos expandir as demais turmas, com gêneros específicos, como forma de intensificar a formação cidadã do aluno e o resultado das avaliações externas. Há um desafio à vista: convencer os demais professores de Língua Portuguesa para adesão a esse projeto, tão importante para modificar a realidade sinalizada pelos índices.

No contexto de vulnerabilidade em que a nossa escola está inserida, o referido projeto “caiu como uma luva” para discutirmos temas como crise financeira do município, descriminalização do uso de drogas, o casamento entre as pessoas do mesmo sexo, a redução da maioridade penal, assédio sexual, a legalização do aborto, além da segurança pública. O último, de forma ainda mais concreta, pois nesse período ocorreu o assassinato de um idoso, por jovens, que, sem perspectiva de futuro, mataram para roubar. Somando-se a isso, no mesmo período, ocorreu o assassinato de um jovem gay, com ritual de crueldade, na vizinha cidade de Alexandria. Assim, no desenvolvimento das etapas, fui costurando as temáticas para que os acontecimentos da escola, do município, da região e do mundo estivessem presentes nos debates.

Lembro-me, ainda no início do processo, após a equipe gestora passar na sala e falar, com orgulho, que a escola estava numa seletiva junto à Olimpíada de Língua Portuguesa, e ao chegar para eles, de forma tímida, buscando adesão para desenvolvermos o projeto, escutei de um aluno: “Professor, vamos botar pra quebrar!” Aquilo me deu um ânimo tão grande que saí daquele encontro pensando: “Nosso projeto já é sucesso!” O meu intuito era contagiar os alunos, mas na verdade eles é que me contagiaram. E como me contagiaram! Fui demonstrando gradativamente aos alunos que “todo discurso é ideológico” e que tudo o que escrevemos mostra um pouco de nós mesmos. Assim fomos quebrando as barreiras existentes no pensar e no agir dos nossos educandos. Aos poucos, estes foram se mostrando sujeitos ativos e participativos de sua própria história. Nos diálogos, nos debates, na escrita, tudo foi se ajustando ao novo pensamento ideológico construído por aqueles mais novos articulistas.

As pedras no caminho foram muitas. Contudo, ao invés de removê-las, resolvemos lapidá-las, transformando-as em conhecimentos. Algumas pedras começaram a aparecer quando os alunos eram postos a pesquisar. Neste mundo multifacetado em que vivemos, fica quase impossível realizar um projeto como esse, pois não há computadores e internet para realizar essas ações. Porém, como “quase impossível” não é finalizado, buscamos uma alternativa para solucionar o problema: criamos um grupo no WhatsApp e todos os links de pesquisa das temáticas eram enviados para o grupo. Os alunos abriam, liam, baixavam em casa e assim ficava mais fácil trabalhar na sala de aula.

Quando pairou a dúvida sobre a formulação da questão polêmica, promovemos uma audiência pública na Câmara Municipal para visualizá-la, concretamente, e poder reportá-la num texto. Assim fizemos, também, nas dificuldades quanto às vozes que povoam o artigo de opinião: promovemos uma mesa redonda com autoridades em Segurança Pública e conseguimos atingir os nossos objetivos.

Neste universo de opiniões, percebemos um envolvimento maior dos alunos, uma vez que não haveria a escolha de um texto para representação da turma. Além disso, todas as produções tiveram a mesma importância e foram apresentados, na coletânea, por ordem alfabética do nome do articulista e não por sua classificação.

Como diz a canção “Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu. É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu”, e isso significa que, com os textos produzidos acerca de diversos assuntos, os estudantes construíram novos saberes e tomaram para si a função de corretor do texto do colega, fazendo observações pontuais e coerentes, o que comprova as etapas percorridas. Isso tudo é a certeza desse fortalecimento. É a garantia de que as utopias, na educação, se tornam sonhos possíveis. Para os alunos, a autoestima se eleva. Para a escola, maior visibilidade. Para mim, renovação de força para continuar transformando utopias em possibilidades. Portanto, o mais importante não é o modo como realizo o meu trabalho, mas o motivo. E isso é tudo de que preciso para a conquista dos resultados.