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Mosaico de sensações ou como manter o lugar onde vivo em mim

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21 Agosto 2015

A cidade tem nome poético com origem numa história mais parecida com a fábula. Ela fica no interior do Nordeste brasileiro, numa região em que ouvir e contar causos ou falar versos fazem parte do cotidiano das pessoas. Foi valorizando e se inspirando nesse universo que uma professora estimulou seus alunos a perceberem o que havia de peculiar no lugar em que vivem e, assim, lendo e incorporando esse mundo em redor, criarem crônicas e até pequenos vídeos em que poemas se transformam em animações.

Luiz Henrique Gurgel

 

Uma das explicações para o nome incomum da cidade de Afogados da Ingazeira, no sertão de Pernambuco, lembra aquelas fábulas que narram como o lugar se originou, uma espécie de mito fundador. Depois de uma grande cheia ou de um aluvião que passou pelo rio Pajeú, que corta a região, jaziam nos galhos de uma grande ingazeira, arrastados pela força das águas, os corpos de um homem e de uma mulher. Uns diziam que estavam abraçados, como a se protegerem; outros, que estavam de mãos dadas para não se soltarem mais e nem se perderem pela eternidade. Assim teria acontecido, conta certa tradição.

Amantes? Namorados? Marido e esposa? Quem eram? Quais seus nomes? De onde vinham, para onde iam? O fato trágico e a identidade do casal perderam-se no tempo, reforçando o mistério. Ficou a lenda. E quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda.

A região do Vale do Pajeú carrega por si só outras tantas narrativas perpetuadas oralmente, geração a geração, muitas transformadas em versos com métrica e rimas rigorosas apresentadas de cor por cantadores e declamadores. O batismo da cidade com um nome tão poético fica justificado, ainda mais quando se pode conhecer o lugar e sua gente. A história e o nome – “Afogados da Ingazeira” – parecem marcar os que vivem por lá, a ponto de impressionar visitantes pela sensação que todos ali, de uma forma ou de outra, fazem versos, contam histórias rimadas, ritmadas, poéticas, mesclando o fantástico e o misterioso com o prosaico e o cotidiano da vida comum, do mundo do trabalho, do mundo sertanejo. Como se a linguagem do cordel tivesse sido naturalizada e, desde o berço, os filhos fossem embalados por cantigas de ninar narrando casos e causos do sertão. Do dentista ao piloto do moto-táxi; da guarda de trânsito ao açogueiro; do farmacêutico ao vereador; da professora ao padre, dificilmente não encontramos alguém que não seja capaz de contar uma boa história, em versos ou não. 

Desde sempre tema do Programa Escrevendo o Futuro, o sugestivo “lugar onde vivo” funciona como o mote para provocar e estimular estudantes a criarem textos a partir do que observam ao seu redor, vendo e sentindo as situações, os cheiros, as paisagens, os sons, as memórias, as cores e as gentes que compartilham o mesmo mundo que eles.  
E o que isso tudo tem a ver com as peculiaridades das histórias de Afogados da Ingazeira?

Em 2014, um estudante e uma professora da cidade chegaram à final da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. Ambos - o aluno Francisco Alves Quirino e a professora Patrícia Amaral – tinham a experiência de viver esse dia-a-dia em Afogados. Patrícia achou no trabalho com crônicas a possibilidade de juntar aquelas características consideradas típicas dos que vivem no Vale do Pajeú: a de contar histórias, narradas poeticamente, mas sem que fosse preciso escrevê-las em versos. A crônica, para ela, podia ter a leveza, ser divertida e tratar de “fatos corriqueiros com tom humorístico, lírico, crítico, reflexivo” como os poemas narrativos cantados e contados na cidade. Era preciso aguçar nos alunos a capacidade de escuta, o olhar atento à realidade e a atenção aos detalhes na hora de tramar com as palavras.

Ela apresentou a proposta à sua turma, que aceitou o desafio de escrever. Apesar das influências midiáticas, que insistem querer fazer com que todos sejam iguais em modos, maneiras e costumes, foram as coisas que estão ali pertinho, ao alcance de olhos, ouvidos e narizes nas ruas da cidade ou na aridez do sertão, e não na telinha da TV ou nas páginas da Internet, que passaram a ser o centro das atenções e das observações. Patrícia conseguiu seduzir seus meninos e meninas para que embarcassem nas coisas, fatos e histórias da região.  E se em 2014 todo esse trabalho rendeu boas crônicas, agora em 2015 ela fez mais e unindo tradição local com recursos tecnológicos contemporâneos – por vezes à mão num simples aparelho de celular -, fez seus alunos darem movimento, som e cor a poemas de autores locais, transformados em animações de curta-metragem.

Mas lá em 2014, a crônica de Francisco foi a escolhida pela própria escola, depois pela cidade e pelo Estado de Pernambuco, para representá-los no concurso nacional. Justo o Francisco que mora na cidade vizinha de Iguaracy e que acordava muito cedo para ir, todo dia, até Afogados estudar. No caminho ele era obrigado a passar por uma feira de rua, a mais famosa de Afogados, daquelas típicas do interior nordestino que apresentam um maravilhoso mosaico de sensações com suas cores, vozes, balidos, guinchos, cheiros e situações. O olhar de Francisco por aquele caminho cotidiano foi se aguçando como desejava a professora Patrícia. E o que era banal e rotineiro passou a ser visto com outros olhos. O rapaz ainda sabia de cor o poema “Fim de feira”, de um dos mais famosos poetas da região, Dedé Monteiro. Também encontrava, vez ou outra, os poetas repentistas ou violeiros cantadores, como também são chamados. Francisco lembrou-se especialmente de um, João Paraibano, famoso em Afogados da Ingazeira.

Toda essa junção de coisas – a força da poética popular na região, o estímulo da professora, a curiosidade do estudante – acenderam a faísca e a feira do lugar em que Francisco vive provocou nele a vontade de escrever, do escrever para “cronicar”, para registrar, para poetar, para confabular, para imaginar. Assim nasceu o texto “Feira: cheiros, temperos e versos”, que o levou à final da Olimpíada.

Se as palavras convidam para um desafio na busca da construção de sentidos, como gosta de lembrar a professora Patrícia, citando Carlos Drummond de Andrade, essa peleja foi aceita por Francisco e seus colegas, garantindo a perenidade do aluvião de histórias e narrativas a inundar Afogados da Ingazeira. A cidade continuará, assim, a fazer jus ao nome poético e fabuloso.


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