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A humanidade da gente cresce

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Um encontro de estudantes semifinalistas da Olimpíada 2014 com Maria das Dores de Oliveira,
a Maria Pankararu, primeira indígena brasileira a se doutorar numa universidade.

 

Luiz Henrique Gurgel

 

Quando imaginamos nossos índios – que são tantos e diversos – pensamos neles quase sempre do mesmo jeito. Andam nus, em contato o mais íntimo e respeitoso com o mundo ao redor, a natureza e seus seres. Claro que esses índios existem e estão espalhados pelo Brasil, gente admirável que inventou maneira própria de ser e de viver, que sabem o que querem e que continuam a conduzir a vida sem que se sintam como a parte mais importante e dominadora do universo, mas sim como parte integrante, do mesmo modo que todos os outros viventes, plantas ou animais.

Mas eis que, de repente, em Maceió, durante a oficina de semifinalistas de Memórias Literárias da Olimpíada 2014, realizada na primeira semana de novembro, nos aparece uma bonita cunhã para quebrar essa imagem de cristal de vidro, repetida tantas e tantas vezes em TVs, filmes, revistas e na publicidade. Ela vinha para ser entrevistada pelos estudantes, que escreveriam um novo texto baseado em seu relato. Não que aquela imagem de índios in natura, comum entre nós, estivesse completamente equivocada. O problema é que ela apresenta uma, entre as tantas realidades dos índios brasileiros, e quer nos fazer crer que todos sejam assim, que todos vivam dessa maneira, que índio é tudo igual. E índio que não viver desse jeito, não é índio.

Não, os índios não são todos iguais, têm histórias e realidades diferentes, formas distintas de estar e de explicar o mundo, de se conduzir pela vida. Essa cunhã, por exemplo, anda de carro, vai à universidade, usa a internet, mora em apartamento. E, mesmo assim, continua a ser uma cunhã que saiu de sua aldeia em Pernambuco para ganhar mundo e que vez ou outra volta ao seu rincão para festejar, celebrar conquistas, rever parentes e se abastecer de algo tão vital para a sobrevivência quanto o sangue que corre nas veias: sua própria história, suas raízes, sua essência.

A cunhã dessa história se chama Maria das Dores de Oliveira, a Maria Pankararu, nome de seu povo, de sua etnia. Ela é doutora em linguística pela Universidade Federal de Alagoas. A primeira indígena a conseguir esse título numa universidade brasileira.

Quando a doutora Pankararu veio contar sua história para estudantes de todo o Brasil, ela não trazia apenas o conhecimento adquirido em anos e anos de vivência na universidade, mas trazia um “eu” anterior a esse momento importante de sua vida em que realizou pesquisas, frequentou simpósios, realizou discussões acadêmicas. Ela trazia um momento fundamental da vida de qualquer pessoa, momento em que ela se cristalizou como ser humano. Como ser humano pankararu, como ser humano índio, como ser humano brasileiro.

 

Não é preciso dizer que aqueles estudantes tiveram um momento único em suas vidas. A conversa se prolongou para além do tempo previsto, as perguntas foram se multiplicando à medida que aquela velha imagem se desfazia, ao mesmo tempo que outra se descortinava ali, diante de todos, à vista de uma mulher índia, “autêntica”, mas bem diferente do que dizem, por aí, ser índio.

A humanidade da gente cresce quando ouvimos e nos embebedamos do outro. O outro nos estimula a olharmo-nos no espelho, a nos percebermos, ajuda a saber quem somos e para onde queremos ir. E não foi exatamente isso que professores e estudantes de todo o país fizeram nesta categoria da Olimpíada?

Por isso tudo, muito obrigado, Maria Pankararu, depois desse encontro todos voltamos para casa maiores, como gente grande que se transforma ao toque quase mágico que só um ser humano pode dar a outro.

 

*Este texto é uma versão do que foi apresentado na cerimônia de premiação da Oficina Regional de Memórias literárias, da 4ª. Edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, que aconteceu em Maceió no dia 5/11/2014.


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