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Autora: Marina Almeida
27 Julho 2022

Numa pequena sala em São Paulo (SP), milhares de fichas de inscrição chegavam todos os dias das mais diversas regiões do Brasil. Por trás daqueles nomes, estavam professores(as) e estudantes que participaram do primeiro concurso realizado pelo Programa Escrevendo o Futuro, em 2002. Nos meses seguintes, aquele espaço também receberia poemas, artigos de opinião e reportagens turísticas sobre o lugar de onde vinham os(as) autores(as). Em 2022, o Programa completa 20 anos e, nesta série de reportagens, vamos relembrar algumas das muitas histórias que ele tem ajudado a escrever.

O Programa Escrevendo o Futuro já nasceu grande: em 2002, o Prêmio Escrevendo o Futuro, como era chamado à época, contou com a participação de mais de 7 mil professores e 368 mil estudantes. No concurso seguinte, em 2004, o número de estudantes chegou a 1,5 milhão, enquanto os(as) professores (as) passaram de 25 mil – e a participação continuou aumentando nos anos seguintes. “Era trabalhoso organizar esse fluxo de fichas e textos”, lembra Maria Aparecida Laginestra, da equipe técnica do Programa. Aos poucos, esses processos passaram a ser digitalizados, sempre com apoio. “Buscávamos orientar com o máximo de detalhes sobre como se inscrever e enviar os materiais. Também criamos um serviço de  atendimento do 0800 para apoiar os(as) professores(as).”

O Programa cresceu, passou por mudanças, se adaptou às tecnologias e aos novos tempos, mas desde o início mantém sua essência: fomentar a formação docente, o trabalho com gêneros e sequências didáticas e incentivar a produção textual de estudantes. “Em 2001, foram divulgados os resultados do primeiro Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que mostravam o Brasil muito abaixo da média dos países participantes no quesito leitura. Ao ver esses dados, a Fundação Itaú, atualmente Itaú Social, decidiu desenvolver um concurso de textos que incentivasse a leitura e escrita de estudantes das escolas públicas. Para concretizar o projeto, procuraram o Cenpec para a coordenação técnica”, conta Maria Aparecida.

Sob a coordenação de Sônia Madi, especialista em currículo e didática do português, a proposta foi ampliada, incluindo o trabalho com gêneros textuais a partir de sequências didáticas e a formação de professores(as) nos anos em que o concurso não era realizado. “Criamos um projeto que conversava com as políticas públicas para a educação brasileira. Em 1997, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) trouxeram a proposta de ensinar gêneros de textos por meio de sequências didáticas, mas as escolas ainda tinham dificuldade para implantar esse modelo”, recorda Sônia. A proposta parte do princípio de que a produção escrita deve ser uma prática social, integrando as diferentes áreas do ensino de Língua Portuguesa – orientação que se mantém na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Além da organização de todo o concurso, a equipe produziu uma série de materiais para apoiar o trabalho do(a) professor(a) com os gêneros e sequências didáticas, num formato semelhante aos atuais Cadernos Docentes. Eram os Kits Itaú de Criação de Textos, que foram enviados pelo correio para todos os professores participantes. “Queríamos romper com a ideia de que redação é feita a partir de uma folha em branco. Acreditamos que todos podem escrever bem se o tema e o processo de escrita for desenvolvido pelo(a) professor(a). Sempre tivemos muita clareza de que não procurávamos descobrir talentos escondidos, mas mostrar o que um bom trabalho docente pode fazer”, explica Sônia.

 

Primeiras edições do concurso

Nos primeiros anos, o concurso era voltado para estudantes dos 4º e 5º anos do Ensino Fundamental em três gêneros textuais: Poema, Artigo de opinião e Reportagem turística. “‘O lugar onde vivo’ é o tema do concurso desde a primeira edição e foi uma proposta da Fundação Itaú atual Itaú Social”, lembra Maria Aparecida. “Ele é interessante porque permite que a escrita extrapole os muros da escola. O(A) professor(a) pode trabalhar com os poetas locais e a cultura regional que são, muitas vezes, invisibilizadas ou discutir as questões polêmicas do lugar com estudantes. Também valoriza o olhar crítico e o espaço de pertencimento”, acredita. 

Sônia destaca que o tema influenciou na escolha dos gêneros textuais. Mas, no concurso de 2004, a Reportagem foi substituída por Memórias literárias. “Muitos textos acabaram ficando bastante semelhantes e entendemos que essa era uma dificuldade relacionada a esse gênero”, conta. “Reportagem envolve uma construção a muitas vozes, que talvez funcione melhor num trabalho em grupo”, avalia Maria Aparecida.

Assim como acontece hoje, os(as) finalistas da primeira edição do concurso participaram de um evento com atividades culturais e educacionais: “estávamos mais nervosos que as crianças neste primeiro encontro”, aponta Sônia. Os(As) professores(as) envolvidos se sentiram muito valorizados e, para os(as) estudantes, participar dos eventos era a abertura de uma janela para um novo mundo. “A maioria nunca tinha saído de sua cidade, ficado num hotel ou viajado de avião”, diz Sônia. As pequenas descobertas também causaram grande impressão: “havia alunos(as) que nunca tinham visto seu reflexo num espelho antes. Muitos viram pela primeira vez uma cidade do alto de um edifício... Esses elementos da cultura urbana trouxeram surpresa para muitas crianças.” Sônia ainda lembra de uma família inteira que chegou de van para se hospedar junto com a criança finalista no hotel. “A reserva era apenas para mãe e filha, mas eles trouxeram colchões e se amontoaram todos no quarto. Ainda trouxeram um carneiro para fazer churrasco no gramado.” 

O ganhador da primeira edição foi o aluno Ronilson da Silva Procópio, de Benjamin Constant (AM), que escreveu um Artigo de opinião sobre as dificuldades que os ribeirinhos enfrentam no período de cheia dos rios. Aos 16 anos, Ronilson, que havia iniciado seus estudos apenas aos 12 anos, lembra da emoção que foi ver seu texto ser lido pela escritora Lygia Fagundes Telles na cerimônia final. O evento ainda contou com a participação, em vídeo, do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Entre os legados desta primeira edição do concurso, Ronilson cita seu acesso ao ensino superior. Já a sua professora Maria da Conceição Oliveira Rodrigues conta que a escola ainda possui o acervo de livros que recebeu na época, como parte da premiação. 

“Com a chegada do inverno, o majestoso rio Amazonas e seus afluentes transbordam. Então começa todo o sofrimento dos ribeirinhos benjaminenses do Amazonas, pois suas terras ficam todas inundadas, perdendo suas casas, seus bens, suas plantações e, quando eles têm aonde ir, abandonam suas palafitas, mas não podem ou às vezes não querem deixar suas moradias [...].

Trecho do texto de Ronilson da Silva Procópio, vencedor da edição 2002

 

Pesquisa e formação

Desde as primeiras edições do concurso já havia um movimento de avaliar as produções de estudantes e o material produzido para os(as) professores(as), recorrendo também ao apoio de especialistas. “Sempre contamos com a assessoria da universidade. Para o Kit de Poema, por exemplo, chamamos a professora Marisa Lajolo para participar. Em Santa Catarina, pesquisadores que estudavam Artigo de opinião nos ajudaram a entender que o texto era bom quando trazia o bate-boca da cidade, essa escuta apurada sobre o que pensam os moradores”, ressalta Sônia. A partir da análise dos textos dos(as) estudantes e dessas conversas com especialistas, o material foi sendo aperfeiçoado a cada edição.

Após o primeiro concurso, o ano seguinte foi dedicado à formação dos(as) professores(as), como acontece até hoje. “Olhando para os textos dos(as) alunos(as) e para os princípios da sequência didática, organizávamos as formações. Esse era um formato de outros concursos que já aconteciam no Cenpec”, diz Sônia.

Para dar um retorno individualizado aos(às) docentes participantes, a equipe convidou as professoras Beth Marcuschi, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Maria da Graça Costa Val, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para um projeto grandioso: avaliar as produções dos(as) estudantes de seus estados e redigir uma carta orientadora personalizada para seus(suas) professores(as). Além de comentários sobre os textos, as cartas traziam sugestões de como trabalhar, em sala de aula, as deficiências encontradas nas produções. “Achamos que isso causaria o maior furor, mas as professoras não ficaram muito felizes de receberem em casa essas cartas. Elas faziam o melhor que podiam ao participar do concurso e não estavam preparadas para um retorno de avaliação do que tinham feito”, reflete Sônia. Ao perceber que seriam necessárias novas estratégias de trabalho, o Programa passou a investir em avaliações coletivas dos textos produzidos e cursos, entre outros formatos, como veremos nas próximas reportagens desta série.


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