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08 Dezembro 2020

Durante a formação on-line de professores realizada pela Rede de Ancoragem do Piauí, uma das atividades consistiu na leitura de um poema finalista da 6ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, escrito pela estudante piauiense Débora Raquel de Sousa Reis.  A seguir, estão disponíveis o poema na íntegra e a análise da produção, elaborada pelos docentes José Wanderson Lima Torres e  Douglas de Sousa.

De galho em galho, em um porto sem mar

Na cidade de Teresina,

Te apresento meu lugar.

No topo dos altos morros,

Perto do céu alcançar,

Abaixo dos raios de sol:

Um bairro irá encontrar.

 

"Porto do Centro" é o seu nome.

Não tem lago, rio ou mar.

Cais, só se for de córregos,

Que choram no meu lugar.

Sob eles falsas pontes

Pra você atravessar.

 

Entre as ruas estreitas,

E os becos sem saída,

Encontramos árvores

Que dão cor e vida

Ao meu chão batido

À minha gente sofrida.

 

Mas de galho em galho,

Tento curtir a minha infância,

Prefiro subir nas árvores

Do que me perder na ignorância

De cair no mau caminho,

Esquecer minha importância.

 

Do alto do cajueiro,

Vejo em cada esquina

Passos para a igreja.

Cada um com a sua sina,

Que eu fico a observar

Com meus olhos de menina.

 

Do alto do pé de tamarindo,

Vejo o entre e sai do mercado.

A venda sempre cheia,

As mães com seu trocado.

O choro pelo pirulito,

Os dizeres engraçados.

Da bonita goiabeira,

Vejo a casa da tia Cássia.

Lá tem um salão de beleza

Onde ela faz a sua mágica:

O vaivém da tesoura,

Linda é a sua prática.

 

Finalmente, subo na mangueira.

Minha árvore preferida!

Fico perto das nuvens,

Dos pássaros e suas cantigas.

Converso até com Deus,

Não preciso ser contida.

 

Quando o sol vai se pondo

Pro chão tenho que voltar.

E vejo o que de cima evito:

O enorme escarcéu do bar.

“Homens! Vamos acordar?”

Viver é melhor que se embebedar.

 

Do caminho até em casa,

As cadeiras já na calçada,

Como é grande o blá blá blá!

A fofoca foi lançada:

"Você soube da Maria?"

E começam as risadas.

 

A noite já transbordou

Quando cruzo o meu portão.

A rotina é sempre a mesma,

Mas satisfaz meu coração

Minha mãe já está em casa,

Cansada do seu rojão.

 

Mais um amanhecer chega

Nesse bairro peculiar.

Sou feliz na simplicidade,

Com o dia a dia do meu lugar.

Deixa-me ir de galho em galho

Apreciar meu porto sem mar.

 


Aluna: Débora Raquel de Sousa Reis / Professora: Cristiane Raquel Silvia Burlamaque Evangelista

Escola Municipal Lindamir Lima - Teresina/PI


 

Todo poema bem realizado é, como queria Fernando Pessoa, música e pensamento. Música na medida em que trabalha a linguagem de modo que o dizer venha acompanhado de um ritmo; o poema não o deixará de ser se for plasmado em prosa, mas jamais pode abdicar de um ritmo musical, que é produzido por recursos como a rima, a métrica e a alternância de sílabas fortes e fracas (ou tônicas e átonas, no nosso sistema poético).

O poema também deve ser pensamento, porque poesia é também um modo de ver o mundo. Como queria Octavio Paz, poesia é revelação, isto é, ela nos mostra uma nova maneira de ver o cotidiano e o comum, produz uma renovação de nossa percepção obnubilada pela força do hábito, recorta um ângulo da realidade que nunca havíamos notado. O bom poema, assim, nos entretém com seu ritmo musical e nos ensina a apreender a realidade por novas perspectivas.

Se observarmos o poema “De galho em galho, em um porto sem mar”, da jovem Débora Raquel, perceberemos que nele se evidenciam as duas qualidades, acima citadas, que constituem o cerne do dizer poético: ser música e ser pensamento. Quanto aos elementos constituintes da musicalidade do poema, a jovem autora revisita a poesia popular nordestina por excelência, o cordel. As estrofes regulares de seis versos, em sua quase totalidade de sete sílabas poéticas (a que chamamos redondilhos maiores), dão ao texto um ritmo fluido e vivaz, que impulsiona a narrativa, entre bem-humorada e crítica, de um dia na vida do eu lírico, a observar seu bairro e sua gente.

Quanto à dimensão do pensar, o poema se constrói sob duas tensões. A primeira delas se assenta na oposição entre os elementos artificiais e os naturais, representados pelas árvores. Imersa num muito de coisas e gente, a autora precisa do elemento natural para encontrar-se consigo mesma, para não se perder no burburinho da massa:

“Mas de galho em galho

Tento curtir a minha infância.

Prefiro subir nas árvores

Do que me perder na ignorância

De cair no mau caminho,

Esquecer minha importância.”

A tradição romântica, muito influente no imaginário poético brasileiro, toma o poeta como um ser especial, inspirado, cuja capacidade de percepção do mundo ultrapassa em muito o das pessoas comuns. Castro Alves, por exemplo, metaforizava a figura do poeta na imagem do condor, com sua alta capacidade de voo e sua visão aguçada. Aqui, nosso eu lírico também se sente um ser à parte; precisa se distanciar para ver melhor – e para isso, procura a natureza, representada pelas árvores. De galho em galho, de árvore em árvore, vai o eu lírico nos revelando as dores e as delícias do cotidiano de seu bairro e sua gente. Cada nova árvore propicia uma nova visão da sua realidade, de modo que vamos construindo a imagem ampla daquele universo.

A segunda tensão que perpassa o poema se consubstancia na oposição entre baixo e alto. Tal tensão, no poema, ganha uma dimensão intelectual e espiritual. Intelectual porque as alturas permitem ao eu lírico ver aquele grupo social de um modo distanciado e crítico. Espiritual porque o faz se aproximar da natureza e, por fim, de Deus, como revela a seguinte estrofe:

“Finalmente subo na mangueira.

Minha árvore preferida!

Fico perto das nuvens,

Dos pássaros e suas cantigas.

Converso até com Deus,

Não preciso ser contida.”

A última árvore, não por acaso a preferida, alça o eu lírico ao encontro íntimo com a divindade. A subida é física e espiritual. Não por acaso, é no momento em que o eu lírico desce da mangueira que encontra o pior daquele lugar: os homens beberrões e as mulheres fofoqueiras. A descida é física e moral: sai-se de um horizonte de perfeição para um espaço corrompido pela conduta dos seres humanos.

O que impressiona, porém, é que o poema não se encerra na mensagem pessimista que opõe a sociedade ruim e a natureza boa, o alto perfeito e o baixo corrompido. O eu lírico enxerga no espaço humano as dores e as delícias, o bom e o ruim. A descida das árvores, portanto, não é vista como algo penoso, pois, como afirma, “Sou feliz na simplicidade”. O poema, ritmado na batida simples e fluida do cordel, nos ensina que subir ao alto não implica negar, de forma pessimista, o cotidiano miúdo de homens e mulheres simples, que tocam a vida adiante nas igrejas, nos mercados e nos trabalhos diários. A poeta se afasta do povo para, na distância, ver melhor a vida e se conectar com a natureza e com Deus, mas não se perde com isso o contato com a vida corriqueira.

 


José Wanderson Lima Torres - Professor Doutor da Universidade Estadual do Piauí (UESPI)

Douglas de Sousa - Professor Doutor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA)


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