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Cinco Marias, uma Rosa e as Sirizeiras de Torotama

Cinco Marias, uma Rosa e as Sirizeiras de Torotama

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Autora: Rosa Maria Martins Pereira / Edição: Camila Prado

 

Quando a professora Rosa Maria Martins Pereira convidou a sua pequena turma de cinco alunas do 9º ano da EMEF Cristóvão Pereira de Abreu a “estranhar” a Ilha da Torotama (RS) e sair para fora da escola, estava convidando-as, antes de mais nada, a olhar para dentro. Ao ressignificarem o lugar onde vivem e escrever sobre ele, as alunas puderam se reconhecer como sujeitos com voz e vez dentro daquela realidade. “A pessoa quando escreve, faz uma espécie de catarse”, reflete Rosa, que incluiu no projeto “Valorizando Saberes Torotameiros” uma discussão sobre a valorização do gênero feminino e sobre a importância do trabalho das sirizeiras para aquela comunidade.

 

“Para se chegar à Ilha da Torotama, são 40 minutos de estrada de chão de terra batida. No caminho, o ônibus vai pegando outros professores e também os alunos. É uma ilha praticamente de pescadores. Muitas casas são de madeira, outras de lata, algumas de alvenaria. Não há lojas, cinemas, bibliotecas. Apenas vendas que os moradores frequentam para comprar alimentos, jogar sinuca e cartas. Na frente da escola tem o campo de futebol do Avante, um dos dois times da ilha. Aqui, há muita rivalidade nos esportes e também no Carnaval.

A escola é pequena. Temos 121 alunos, da Educação Infantil até o 9º ano. Para fazer o Ensino Médio, é preciso sair da Torotama. Dou aula lá três vezes por semana e dois sábados por mês. Escolhi desenvolver a sequência didática da Olimpíada com minha turma de 9º ano, composta por cinco meninas, a quem eu chamo de cinco Marias. Achei interessante trabalhar com elas a questão de gênero, pois a escola está inserida numa comunidade em que sempre se fala muito do pescador, do trabalho deles, das safras de camarão que não têm sido boas porque chove demais, salga a lagoa, tem o período do defeso... Enfim, a família ainda é comandada pelo marido, mas, com a dificuldade na pesca, mais do que nunca as mulheres estão ajudando na renda familiar.

Convidei-as então para uma saída de campo, para estranhar a ilha e fazer um exercício de olhar como turistas para aquele cenário de todos os dias da vida. Elas pouco saem de lá, as passagens de ônibus são muito caras até o município de Rio Grande. Pedi que reparassem nos detalhes, nas atividades, nas pessoas. Elas acham tudo feio e sem graça. Mas, naquele dia, disseram que a praia estava muito bonita. Tinha gaivotas. Repararam na quantidade de barcos parados, estava proibido pescar. Andamos mais um pouco e ali nos deparamos com os fundos de uma casa onde as sirizeiras estavam trabalhando. Fui advertida a não fotografar, pois elas poderiam não gostar. Então propus que contemplássemos aquela cena com discrição, como se fôssemos pintoras. Retornamos para a sala de aula, cada uma dizia o que observou. Viram que as mulheres estavam em roda; conversavam muito enquanto descascavam siri; havia um griteiro de crianças em volta; junto com as latas que estavam fervendo água para descascar, estavam bem próximos os cachorros e uma porca preta com seus leitões. Ali ao lado, tinha uma árvore com um homem embaixo. Remendava solitário uma rede de pescar camarão. Aquela cena toda era muito peculiar, refletia uma atividade corriqueira.

 

A crônica e o gênero feminino

Convidamos as sirizeiras para uma roda de conversa. A maioria falou que os homens não ajudam na parte de descascar siri, eles consideram uma atividade menor já que capturar o camarão e vender dá muito mais lucro. Mas fomos vendo a grandiosidade da mulher torotameira em fazer essa atividade penosa para ajudar no sustento da família nessa época de dificuldades. Comecei a mostrar para as cinco Marias que aquele trabalho estava empoderando as mulheres, e fazendo com que aos poucos os homens vissem que elas tinham o que dizer e como ajudar.

Neste ano, conversamos sobre diversos gêneros textuais, poemas, memórias, contos, crônicas, lendas etc. Na hora de escolher em qual nos aprofundaríamos, a turma achou que a crônica era o gênero que mais se prestava a contar a história das sirizeiras e suas peculiaridades. Esse trabalho inseriu-se no projeto ‘Valorizando saberes torotameiros’, uma proposta interdisciplinar, mais ampla, que sugeri à escola. Alguns professores aderiram à ideia. Enfocaram o aspecto ambiental em ciências; na geografia, estudaram o espaço, o que seria bonito como ponto turístico. O 7º e o 8º anos também produziram crônicas. Falaram sobre as benzedeiras, as parteiras, a religiosidade, as rivalidades, os remédios que eles fazem porque lá não tem farmácia. Acabaram por valorizar a sabedoria das pessoas mais antigas.

Sempre digo aos meus alunos que aquilo que não se registra, o vento leva. Acho que acreditaram mesmo nisso porque escreveram muito! E leram muito também. De crônicas do caderno da Olimpíada e semifinalistas do Programa a autores gaúchos, como Moacyr Scliar e Martha Medeiros. Ao final do projeto, fizemos um sarau poético e expusemos as crônicas numa espécie de varal. Os textos foram publicados na revista digital lançada pela prefeitura de Rio Grande para celebrar os 280 anos do município. O trabalho com as sirizeiras também ganhou mundo e rendeu até uma reportagem na Globo do Rio Grande do Sul. Acredito que a gente só consegue mexer de verdade com o aluno quando a gente faz o que gosta e gosta do que faz. Eu me realizo através do trabalho que eles fazem. Eles aprendem. Mas eu, certamente muito mais.”

 


Assista ao vídeo da mesa que a professora Rosa integrou durante o Seminário Nacional Escrevendo o Futuro:

 


Em breve, o Portal Escrevendo o Futuro vai disponibilizar os relatos de prática dos professores participantes do Seminário. Acompanhe.


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