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Da biblioteca para o mundo

Da biblioteca para o mundo

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Autora: Quitéria Éden Batista Leite / Edição: Camila Prado
13 Dezembro 2017

 

Pode-se dizer que a professora Quitéria Éden, ou Éden, como é conhecida, sentiu-se literalmente no paraíso quando teve a prova concreta de que seu desejo se tornara realidade: “houve um momento em que não havia mais livros para retirar na biblioteca!”. Não só os alunos do 1º A, que participaram do projeto, mas as demais turmas da Escola de Referência em Ensino Médio José de Almeida Maciel, em Pesqueira (PE), foram contagiados pelo encantamento com a leitura. Para a professora, que optou por um gênero inusitado na Olimpíada – a resenha literária – seu projeto “Da leitura à escrita – Trilhas a serem percorridas” começou com uma provocação logo no convite do Programa: “Aventure-se!”. Ela assim o fez.

 

“Sempre digo que quem não lê, tem que acreditar em tudo o que dizem. Por isso, a preocupação com o que meus alunos pensam, com o que leem me acompanha nos 31 anos em sala de aula. Quando comecei a trabalhar com o 1º A, no início do ano, sabia que quase metade dos 43 alunos tinha algum gosto pela leitura, em graus diferentes. Sabia que liam os best-sellers da vida. Mas não poderia imaginar que entre os que liam, apenas dois conheciam um autor nacional. Pensei ‘como é que esse menino sai do 9º ano sem nunca ter ouvido falar dos nossos escritores?!’. Então, meu principal objetivo eram os clássicos, mas depois chegamos a autores jovens, contemporâneos, até aqui da região mesmo, porque Pesqueira é um berço de escritores.

A nossa escola é referência em ensino médio e está entre as 20 melhores do estado de Pernambuco, muito procurada aqui na região pelo número de aprovação nos vestibulares e pelos resultados. Ficamos num bairro tranquilo, atendemos quatro cidades circunvizinhas e algumas aldeias indígenas, do povo Xukuru, que representam 40% dos alunos da escola. A gente trabalha muito com a metodologia de projetos para tornar a rotina mais dinâmica e lúdica porque eles entram às 7h e saem às 17h. São nove aulas por dia.

Quando recebi a proposta da Olimpíada, cheguei a considerar o trabalho com crônica. Mas como eu tinha sido semifinalista com esse gênero, achei que iria repetir a dose. Ponderei: ‘Tenho uma necessidade: quero que leiam. E que conheçam o máximo possível de autores nacionais, melhorem a escrita, reflitam sobre ela e divulguem o que leram’. Daí veio a ideia da resenha literária.

 

Trilhas percorridas

A cada semana, lia uma crônica, uma poesia, sempre um texto diferente. Foram se empolgando. Li para eles o relato sobre minha relação com a leitura e a escrita, um resgate muito interessante que havia acabado de fazer para o curso ‘Caminhos da Escrita’, do Portal Escrevendo o Futuro. Pedi que produzissem seus relatos também. Isso acabou sendo o fio condutor do trabalho. Os textos traziam um pouco da história de vida deles e seus encontros com a leitura. Comecei a entender comportamentos. Tenho alunos de realidades e culturas muito diferentes, vindos de escolas públicas e particulares, de cidades vizinhas, das aldeias. Havia meninos que mal escreviam o cabeçalho da escola.

A parceria da bibliotecária Ana Paula no necessário processo de nivelamento da turma foi importantíssima. Tinha gente que nunca havia lido nada, aí começavam com um gibizinho. Fomos direcionando a leitura, vendo o perfil, quem gostava de romance, de aventura. A gente ia apresentando. Alguns leram clássicos em quadrinhos, outros leram mangás, gibis. Fomos várias vezes à biblioteca! Com o tempo, eles mesmos foram querendo escolher livros, pesquisar autores.

Propusemos rodas de leitura para cada um fazer a ‘propaganda’ do livro. Ao ouvir o resumo do colega, queriam ler também. Chegou um momento em que não tinha mais livros para retirar pois todas as turmas de 1º, 2º e 3º anos estavam lendo mais. Outros professores também fazem projetos de leitura. Até iniciei uma campanha no Facebook, pedindo doação de livros e revistas para amigos. A escola deu as mãos para o projeto acontecer. Houve engajamento e apoio da gestão, de funcionários e professores. Pode parecer que não foi nada, mas foram 18 etapas.

Quanto à escrita, trabalhei questões gerais em sala de aula. Individualmente, eu ia tentando ajudar, fazer aquele menino que não escrevia quase nada ver que ele tinha histórias na cabeça, e que poderia colocá-las no papel mesmo com erros de ortografia. Eles realmente não liam o que escreviam. Parecia que estavam fazendo um bilhete dizendo para a mãe que iam comprar pão. Entregavam qualquer coisa. Eu dizia ‘Leia primeiro, reflita’. A partir das leituras, de reescritas, de orientações individuais e dos bilhetinhos orientadores, que eu aprendi com a Olimpíada, eles começaram a mudar completamente a postura.

Nós temos alunos aqui que nunca saíram da cidade ou do estado, nunca conheceram o mar, vivem numa situação de pobreza. Então eu queria que eles realmente sonhassem, viajassem, conhecessem outros mundos, outras vidas, que vivessem grandes aventuras, que percebessem que eles são os protagonistas das suas próprias histórias. Brinco sempre dizendo que eles podem fazer qualquer coisa na vida, só não podem fazer de qualquer jeito. No mural da biblioteca, colocamos o ‘Li e recomendo’, com a fotinho do livro, a resenha e o nome do aluno que escreveu. Toda vez que vão lá, ficam vendo, apontando as resenhas, empolgados. Agora, na hora do intervalo, na hora do almoço, vejo sempre um livrinho ao lado deles. É mesmo uma coisa linda de se ver.”

 


Assista ao vídeo da mesa que a professora Maira integrou durante o Seminário Nacional Escrevendo o Futuro:

 


Em breve, o Portal Escrevendo o Futuro vai disponibilizar os relatos de prática dos professores participantes do Seminário. Acompanhe.


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