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Carta aberta contra o preconceito – de Divinópolis para o mundo

Carta aberta contra o preconceito – de Divinópolis para o mundo

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Autora: Elizete Vilela de Faria Silva / Edição: Camila Prado
22 Novembro 2017

 

Coautoria é a palavra-chave da proposta que a turma do 8º ano da E. M. Otávio Olímpio de Oliveira, em Divinópolis (MG), desenvolveu, passo a passo, com a professora Elizete. Aqui, ela nos conta sobre as estratégias que criou para os alunos não só se apropriarem do gênero carta aberta como para se sensibilizarem e redigirem argumentos contundentes contra o preconceito. O projeto “Escrevo-te estas bem traçadas linhas – Unindo nossas vozes contra o preconceito” comoveu a classe, causou reboliço na escola e culminou em uma carta aberta que teve a comunidade como destinatária em um evento escolar.

 

“Quando recebi o convite da Olimpíada, eu não cheguei para meus alunos e apresentei-lhes um projeto. Eles chegaram para mim e me apresentaram um problema. E a partir de um ecoar de vozes, nós construímos o projeto. Eu tinha 15 dias para responder qual seria o gênero a trabalhar na Sequência Didática que fui desafiada a criar. Então, antes, perguntei aos alunos sobre que tema eles queriam falar. Como o próprio título do projeto indica, ‘Unindo nossas vozes contra o preconceito’, fiz questão de dar voz a eles em todos os momentos. Fomos conversando. A partir do momento que eles definiram o tema, que seria respeito e preconceito, perguntei: ‘E aí? O que a gente quer fazer com esse tema? Queremos nos informar, ter uma conversa, queremos ampliar esse trabalho para outras pessoas? Qual o objetivo? Qual o público-alvo?’ Disseram que queriam conscientizar as pessoas sobre o tanto que o preconceito é prejudicial e sobre a necessidade de se respeitar as diferenças. A partir daí, a gente fez uma lista de gêneros que atenderiam a esse propósito, a essa função comunicativa. Chegamos à carta aberta, que casou direitinho com o plano curricular do 8º ano, porque nesse ano de escolaridade a gente começa a trabalhar tese e argumentação.

Nesse momento inicial, precisávamos delimitar o tema, que é muito amplo. Para isso, criei uma atividade: o ‘preconceitômetro’. Primeiro, cada aluno recebeu um quiz com várias afirmativas preconceituosas e eles tinham que responder ‘concordo’ ou ‘discordo’. Frases como ‘Baiano é preguiçoso’, ‘Casal gay manifestar carinho em local público é vergonhoso’, e por aí vai. Tinham duas para cada tipo de preconceito. Depois a gente conferiu o resultado juntos e, cada vez que eles assinalaram ‘concordo’, marcavam um ponto negativo. Com o resultado em mãos, tiveram que colorir o nível de preconceito deles num desenho de termômetro, o tal do preconceitômetro, que entreguei a eles. Deixei claro que não tinha como medir o preconceito da gente e que a atividade era só para dar um norte ao nosso trabalho. Em seguida, a gente tabulou tudo, converteu em um gráfico e fez o preconceitômetro da sala. Ficamos mais enraizados nos preconceitos de gênero, racial e de orientação sexual. Todos se viram de certa forma preconceituosos, e isso aí já foi um ‘baque’, pensaram: ‘Opa! Eu também preciso conversar sobre isso e rever os meus conceitos’.

 

A voz e o olhar do outro

Teve um momento do projeto em que os estudantes colheram relatos de pessoas próximas a eles que sofreram preconceito: pai, mãe, avó, amigos. Também compartilhamos situações em que fomos vítima de preconceito. E isso os levou a identificar situações em que eles também praticaram preconceito. Era a voz do outro nos fazendo ouvir a nossa voz. Essa parte da oficina foi um momento riquíssimo. Choramos ao ouvir e sentir, através dos relatos, a dor que o preconceito causa no outro. Durante três meses, esse foi o assunto de nossas conversas. Fizemos uma mesa redonda, com a presença de um professor universitário de filosofia, bem engajado no assunto, e de três representantes que lutam contra o preconceito – um do movimento negro, outro do religioso e outro de questões de gênero. Uma estratégia que me marcou muito foi o momento em que os meninos fizeram bilhetes orientadores sobre o texto dos colegas e depois tiveram que comentar e contra-argumentar. Naquele momento, eu percebi que tinham se apropriado do gênero e entendido a função comunicativa da carta aberta. Ali, vi que todo aquele processo de debate e relato, de escrita e reescrita e que o meu trabalho durante todos aqueles meses como professora de língua portuguesa tinham valido a pena.

É o segundo ano que trabalho com essa turma. Criei uma relação de respeito mútuo e confiança com os alunos. Eles são bem comprometidos e interessados, o que os difere um pouco do perfil geral. A escola em que leciono fica no bairro Tietê, periferia da cidade. Quanto mais distante do centro, em geral, mais problemas sociais. E, muitas vezes, o professor é a única pessoa que está colocando esses meninos para frente, mostrando que a concorrência não vai ser leal em relação aos estudantes de escola particular, mas que, se estudarem, eles têm condições sim de concorrer de igual para igual. Pode ter diferença na questão das oportunidades, mas na capacidade, não. Estar em sala de aula e participar das transformações das crianças para mim é um privilégio. Apesar de 20 anos de magistério, ainda sou uma pessoa muito entusiasmada e acredito na força da educação. Como eu disse para os meninos ‘Olha, um trabalho que a gente desenvolveu aqui em Divinópolis, no interior de Minas Gerais, está sendo conhecido no Brasil inteiro!’ Então, realmente nossas vozes foram ouvidas. Isso me mudou. Aliás, ser professora me muda todos os dias.”

 

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Assista ao vídeo da mesa que a professora Elizete integrou durante o Seminário Nacional Escrevendo o Futuro:

 

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Em breve, o Portal Escrevendo o Futuro vai disponibilizar os relatos de prática dos professores participantes do Seminário. Acompanhe.


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