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Texto teatral – a luz de um gênero fora do script

Texto teatral – a luz de um gênero fora do script

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Autora: Marta Regina Martins / Edição: Camila Prado
01 Novembro 2017

 

A inexistência de um teatro ou qualquer outro espaço público de acesso à cultura em Monte Santo de Minas (MG) não intimidou a professora Marta Regina Martins na escolha pelo texto teatral como gênero a ser trabalhado no projeto “Autores e Atores nascem na sala de aula”. Aqui ela narra as melhores cenas dessa trama cheia de desafios desenvolvida com os alunos das suas duas turmas de 8º ano da Escola Estadual Dr. Wenceslau Braz.

 

“Só uma aluna levantou a mão quando eu perguntei quem já havia ido ao teatro no 8º ano A. Ela tem parentes em São Paulo e certa vez foi para lá ver a peça da Família Addams. Os outros alunos disseram ‘Ah, professora Marta, a única peça que vimos na vida foi aqui na escola’. Eu já havia trabalhado Pedro Bandeira, Shakespeare e Maria Clara Machado, feito adaptações e peças prontas, mas não tinha levado os alunos a escrever suas próprias obras. Adoro as sequências didáticas propostas pela Olimpíada de Língua Portuguesa, mas o desafio dessa vez foi criar a minha SD, com objetivo de desenvolver a leitura e, principalmente, a escrita do texto teatral.

Poderia ter escolhido crônica, poema ou outro gênero que faz parte da Olimpíada, mas como sou muito apaixonada pelo teatro, acho que consigo despertar essa paixão nos outros. Isso faz muita diferença! E como meus alunos têm uma veia cômica, humorística, segui por essa via. Levei Gil Vicente, Ariano Suassuna. Eles se divertiram muito durante o projeto. Quando apresentei o texto ‘Auto da Compadecida’ cada um queria fazer uma graça maior que a do outro. Se a aula fica mais interessante, eles aproveitam e aprendem mais.

Eles tiveram facilidade de perceber a crítica das obras que apresentei, até pela realidade social em que vivem. ‘O texto foi escrito em 1500 e já naquela época tinha o rico se achando melhor que o pobre’, refletiu um aluno sobre o fidalgo que queria entrar na barca da glória, no ‘Auto da Barca do Inferno’. São politizados, apesar da pouca idade. Monte Santo tem cerca de 22 mil habitantes. A maioria dos alunos mora longe da escola, que fica no centro, e outros vivem na zona rural. Aqui ainda é muito agrícola. São alunos dedicados e esforçados – e as famílias, vendo a empolgação deles, os incentivaram bastante durante o projeto.

Fizemos duas fases de escrita individual, e ao longo do processo fui ensinando a construir as rubricas próprias do gênero, que indicam como será a cena, os gestos e movimento dos atores etc. Conversamos sobre cenário, figurino, e na etapa de montagem contei com a parceria extraordinária da professora Márcia, de Educação Física. As crianças se envolveram muito. E eu ia estimulando: ‘Gente, tive retorno da Olimpíada, estamos sendo classificados!’. Iam ao delírio. O ponto máximo foi a visita da tutora Maria Alice Armelin. Essa visita ‘causa’! As crianças contaram tudo o que fizeram nos quatro meses de trabalho. Ela pediu que escrevessem o que sentiram e deixassem uma mensagem para quem quisessem. Um menino me emocionou demais: ‘Muito obrigada, professora Marta, por não desistir de mim’.

Auto dos engajados

Foi tanta inspiração que mesmo a greve de professores no meio do caminho serviu aos estudantes. Durante a paralisação, fizemos um trabalho de conscientização com eles e suas famílias. E vi que nosso discurso os atingiu. Eles produziram seis peças em grupo ao final do projeto, e a que foi encenada fez justamente uma crítica forte à reforma previdenciária. A fala ‘Não é porque moramos aqui, em Monte Santo de Minas, essa cidade pequena, que vamos cruzar os braços’ e os cartazes em punho com os dizeres ‘Nenhum direito a menos’ e ‘Chega de corrupção’ traduzem bem o engajamento da turma.

Inseriram nestas peças a realidade deles e o lugar onde a gente vive, citaram uma das poucas fábricas que tem aqui, que é a de alarmes, a antiga estrada de ferro, a Praça da Matriz, a alta no preço do combustível, a relação com os pais, o namoro via internet... Foram muitos assuntos! Na hora de escrever, criar, se empolgam muito, mas na hora de reescrever, não querem repensar. Ainda mais o aluno de ‘agora’.

Dou aula há 28 anos e há uma diferença muito grande de quando comecei. Eles ouvem música, mandam mensagem, assistem a uma série e falam ao telefone ao mesmo tempo. ‘Mas eu já escrevi, professora Marta.’ Só que essa etapa derradeira de reescrita acabou sendo muito bacana porque consegui notebooks da escola para que eles digitassem em sala de aula. Ficaram superanimados. Claro que valorizo muito o lápis e o papel, mas acredito que hoje a escola tem que usar a tecnologia de forma inteligente, senão eles perdem o interesse.

O que não faltou foi aventura nessa história! Estamos numa reforma interminável na escola. Nossa biblioteca está toda encaixotada. Cada livro que eu precisava, tinha que garimpar em caixas ou levar de casa. Encenamos a peça num cantinho do salão nobre que ainda estava de pé e hoje está no chão. Todas as restrições, inclusive a de acesso à cultura, só me fazem pensar o quanto a mágica do texto teatral enriqueceu a vida deles e a minha.”

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Assista ao vídeo da mesa que a professora Marta integrou durante o Seminário Nacional Escrevendo o Futuro:

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Em breve, o Portal Escrevendo o Futuro vai disponibilizar os relatos de prática dos professores participantes do Seminário. Acompanhe.


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