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Semifinalista da Olimpíada ganha prêmio nacional com texto sobre igualdade de gêneros

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Luiz Henrique Gurgel

Nayara Matos, estudante de ensino médio em Tucuruí (PA),foi uma das vencedoras nacionais do Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero, concurso de textos criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, órgão vinculado à Presidência da República (saiba mais: http://www.igualdadedegenero.cnpq.br/).

Aluna do Curso Técnico de Saneamento Integrado ao Ensino Médio do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará, ela foi orientada por Miranilde Oliveira Neves, a professora Mira, como é conhecida entre seus alunos. Em 2012, a mesma dupla foi semifinalista da Olimpíada na categoria artigo de opinião. Desta vez, a estudante escreveu um pequeno texto de ficção, envolvendo o tema da igualdade de gêneros, com a história de uma jovem estudante indígena que queria estudar medicina (veja o texto abaixo).

 

Tudo começou com as oficinas da Olimpíada

“Eu não imaginava que tudo começaria nas oficinas da Olimpíada”, conta a professora Mira. Nayara estava no 2º ano do ensino médio quando Mira realizou as oficinas de artigo de opinião com sua turma. “Ela chegou tímida e não tinha ideia do que seria um artigo de opinião. Gostava de escrever, mas não tinha muita intimidade com a técnica adequada. Seu primeiro artigo de opinião era quase uma poesia. Foi preciso reescrever várias vezes para lapidar e fazer do seu texto um bom artigo. Assim ela conseguiu chegar à semifinal da Olimpíada”, lembra Mira.

A experiência estimulou Nayara a prosseguir. Incentivada pela professora, em 2013 resolveu participar do concurso de textos sobre igualdade de gêneros. Foi uma das três vencedoras nacionais de sua categoria, a de estudantes do ensino médio.

A história sobre a indígena que queria ser médica começou a surgir durante o estágio que a estudante fez na empresa responsável pela Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Foi lá que aprendeu um pouco mais sobre as realidades de comunidades indígenas daquela região, como é o caso dos parakanãs, etnia da personagem criada pela estudante. Segundo a professora Mira, Nayara já estava com o texto quase pronto, quando resolveu acrescentar novos elementos ao conhecer a história da primeira indígena médica – também paraense - que se formou no Brasil em 2013. “Foi uma história criada, mas repleta de muitas verdades. Tem a visão do índio sobre a vida, a perseverança de uma jovem para poder estudar medicina. A pesquisa que foi feita para a produção do texto e até o nome escolhido para a personagem central, despertam a atenção de qualquer leitor”.

Nayara é a segunda aluna de Mira que se destaca no prêmio Construindo a Igualdade de Gênero. “Eu não esperava que o resultado das oficinas gerasse tantas vitórias e tanta vontade de escrever de nossos alunos”, diz a professora Mira, sem esconder o entusiasmo.

Agora, a expectativa da dupla é a viagem para a premiação que acontecerá em Brasília, no Palácio do Planalto, no mês de maio. Além de receber um computador com impressora e uma bolsa de iniciação científica júnior concedida pelo CNPq, Nayara terá seu texto publicado em livro organizado pelo CNPq, Ministério da Educação e pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, do Governo Federal.

 

Araguaci – Um Coração Indígena da Amazônia em um Jaleco de “Homem Branco”

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará – Campus Tucuruí
Orientadora: Miranilde Oliveira Neves

 

O Sol se levanta todos os dias bem cedo, e como em uma dança, sigo seus movimentos, me pondo de pé também. O som da natureza me chamando é o combustível que me impulsiona para viver. Aqui na aldeia, eu posso ser quem realmente sou: uma jovem indígena, Araguaci – um Pássaro Bonito.

Dentro da nossa aldeia, os Parakanãs, o meu povo, executam várias atividades, porém a que eu mais prezo é a hora de estudar, pois desde pequenos começamos a aprender não só o que a vida tem para ensinar, mas também o que os livros e os professores têm a oferecer. O que não acontece em todas as aldeias, as quais ainda não tiveram seus direitos atendidos, como determina a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional em seu art. 3º, quando ressalta a importância de serem edificadas escolas capazes de atender às necessidades das comunidades indígenas, valorizando o âmbito socio-cultural desses povos.

Certo dia, depois de uma palestra sobre profissões, convenci-me de que iria cursar uma faculdade, na verdade meu objetivo sempre foi fazer algo para ajudar meu povo, só não tinha descoberto como, e agora eu tinha certeza, eu iria ser médica. Imagine você... Uma menina, índia, no meio da Amazônia sonhando em ser médica. Por incrível que pareça, eu acreditava que poderia acontecer, mas bastou eu dar a notícia para minha família, que o sonho logo se tornou um pesadelo.

Meu pai olhou no fundo dos meus olhos, e exclamou: “ – Filha minha não vai seguir os passos de “homem branco”, de homem mal, porque quando um de nós sai da aldeia, o coração é puro, tem boas intenções, mas quando volta já não se pensa no povo, se pensa no dinheiro!” Com os olhos encharcados, eu ouvi cada palavra, sabia que ele tinha razão, mas também sabia que eu era diferente e dentro de mim havia esperança que nem todo “homem branco” era mal.

Depois do episódio, fiquei ainda mais determinada, porém tinha que manter meu objetivo em sigilo. Dia após dia eu lia, calculava, escrevia, analisava e absorvia o máximo de conhecimento que os professores da aldeia repassavam para nós.

Estava chegando a hora, eu iria fazer o vestibular para medicina, mas quando a notícia se espalhou na aldeia, aconteceu algo inesperado: o Cacique convocou uma reunião com minha família e com nossos líderes mais antigos. Eu tremi quando ouvi sobre a tal reunião, pois lá no fundo, sabia que a minha história seria decidida ali, e realmente foi o que aconteceu.

Quando a reunião se deu por encerrada, saí correndo, chorando, sem rumo. Minha mãe ainda tentou amenizar a situação, me explicando sobre nossas tradições, mas naquele momento a palavra que melhor se encaixava era na verdade, “maldições”. O que foi acordado naquela reunião, é que uma índia não poderia ter uma profissão considerada por eles como sendo masculina, foi então que percebi, que não se tratava de ser algo de “homem branco”, se tratava de quem eu era – uma mulher.

Naquele ano, perdi o vestibular. Foi como ver meu sonho passar do outro lado do rio e eu não podia atravessar para encontrá-lo. Os tempos se passaram e mesmo ainda estando triste, não conseguiram me convencer a desistir.

Dias depois Pedro e Ester, meus professores, pediram para conversar com minha família, que felizmente atendeu a esse pedido. Foi uma longa conversa, da qual eu não participei, e por isso cada minuto que se passava me deixava mais apreensiva. Quando terminou, meu pai e meus mestres pediram para falar com o Cacique, e no outro dia isso aconteceu.

Foi uma batalha difícil, porém Ester e Pedro haviam conseguido de forma bem estratégica mostrar que ser médica não era algo apenas de “homens brancos”, ou simplesmente uma atividade masculina. O fato de se considerar que “o princípio masculino é tomado como medida de todas as coisas” Bourdieu (1999, p.23), foi finalmente extirpado naquele dia.

Tudo ficou esclarecido e meus pais perceberam que ser médica não iria ferir nossas tradições, pois foi proposto que eu estudaria medicina e assim que me formasse voltaria para casa, a fim de cuidar dos meus irmãos Parakanãs.

Como eu havia perdido o vestibular daquele ano, teria que aguardar o próximo, e durante esse tempo estudava dia e noite, e sempre que podiam, meus professores me davam aula-extra. Os dias se passaram e logo os meses também, e eu continuava minha jornada sem fraquejar, na minha terra eu sabia o valor de uma vitória, e era isso que eu desejava: vencer os obstáculos e ser um coração indígena em um jaleco branco.

Durante a preparação para o vestibular, recebi a notícia de que o governo tinha aberto cotas para indígenas, essa foi a porta de acesso para o meu sonho. Inscrevi-me, e então fiquei revisando os conteúdos. Faltavam apenas alguns meses, e quanto mais se aproximava, meu coração parecia dançar uma música agitada dentro de mim.

Fiz a prova, e sinceramente, estava difícil. O medo de não passar, me aterrorizou durante a espera do resultado. E se eu não passasse? Teria que me conformar com um sonho perdido? Várias especulações invadiram minha mente, mas ainda existia em mim algo chamado: fé.

Quando o resultado saiu, a professora Ester veio até a aldeia divulgar a lista. Naquele momento eu estava ansiosa, mas ao mesmo tempo com medo. Então ela começou a ler a relação de aprovados, e o primeiro nome era o de uma jovem índia da Amazônia, que sonhava em ser médica. Não me controlei, gritei para a Terra e para os bichos ouvirem: “– Eu passei, passei!”, nesse instante senti um turbilhão de emoções, algo realmente inexplicável.

Depois de uma longa despedida parti rumo à cidade grande, a professora Ester cuidou de tudo para mim, conseguiu moradia, uma bolsa do governo, e até me incluiu em um programa de “Aprendiz” da própria universidade. Além disso, era ela quem lia as cartas que eu escrevia para minha família e me mantinha a par de tudo que ocorria na aldeia, pois me visitava constantemente.

O meu primeiro dia na universidade foi assustador, devido eu nunca ter entrado em contato com tanta gente diferente. Nesse mesmo dia conheci minha turma e parte dos professores. O tempo foi passando e eu estava empolgada com a medicina, entretanto, percebi que alguns alunos me evitavam e outros iam mais além, zombavam de mim, eram poucos os que podiam ser chamados de amigos. Essa situação me deixou abatida, o que refletiu nas minhas notas do primeiro semestre. Tive receio de contar os fatos para a Ester, para que isso não chegasse à aldeia, então achei melhor manter o silêncio.

Meu silêncio teve um preço, pois a cada dia que se passava eu me sentia mais humilhada, contudo, eu sabia que se contasse para minha família, teria que abandonar o curso e voltar para casa, ou poderia até mesmo causar mais um conflito entre “índios” e “brancos”. A história atingiu um nível de gravidade maior quando descobri que alguns professores estavam tramando para me deixarem reprovada, e tudo porque para eles uma índia não era capaz de ser médica, foi aí que senti na pele o preconceito.

Estava na hora de acabar com tudo aquilo, já havia aguentado o sofrimento por muito tempo, agora eu entendia porque no meu lar, “homem branco” era sinônimo de “maldade”. Em contrapartida, uma filha de “homem branco” revelava-se cada vez mais valorosa, a professora Ester, em quem confiei para contar o que vinha ocorrendo. Ela guardou o segredo e não disse nada lá na aldeia, mas não se conformou com a injustiça e denunciou a discriminação que sofri e os culpados tiveram suas punições.

Os anos se passaram e eu já estava concluindo o curso, enfim o tão almejado sonho se tornara real. Costumo dizer que o dia da minha formatura foi o dia mais feliz da minha vida. Lá estava eu, vestida numa beca, com um diploma nas mãos e com minha família e meus antigos professores ao meu lado. Assim que me formei, fui contratada pelo governo para trabalhar na minha própria aldeia e também atender às comunidades vizinhas. Então, voltei para casa e para minha surpresa, fui recebida com festa.

E quem diria que aquela jovem índia parakanã poderia fazer a diferença? Posso dizer que fiz, superei o machismo, a pobreza, e até mesmo a desigualdade étnica. Provei que as palavras de Madre Teresa em relação às mulheres eram verídicas: “Nós mesmos sentimos que o que estamos fazendo é apenas uma gota no oceano. Mas o oceano seria menor se faltasse essa gota”.

Ainda há muito o que conquistar, ainda há numerosos obstáculos a serem superados, sei que devem existir várias “Araguacis” espalhadas pelo Brasil, e tudo que precisam é de oportunidade para mostrarem que: “Pássaro bonito” também sabe voar.


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