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A Flip das margens

A Flip das margens

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Autor: Camila Prado
03 Agosto 2017

Breve panorama da 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, que este ano homenageou o autor Lima Barreto.

Mais negros na Flip deste ano
Foto: Camila Prado

A Flip aumentou! Expandiu o horizonte. Incluiu gente. Ampliou os tons. Multiplicou-se em temas tidos como periféricos. Valorizou o papel transformador da literatura. Comoveu mais. É uma soma e tanto. Embora na matemática tradicional a verba e a quantidade de pessoas tenha de fato encolhido, há que se contabilizar o que significa deslocar tantas beiras para o centro. O alargamento se dá não só ao homenagear o escritor Lima Barreto, que levou décadas para ser reconhecido e ainda merece ganhar mais atenção do público, predominantemente circunscrito a leitores de “Triste fim de Policarpo Quaresma” para a escola ou o vestibular. Não só ao trazer à tona, em consequência do teor da obra desse autor, discussões sobre racismo, diversidade, loucura, estereótipos, cotas, feminismo, mas também ao reunir, pela primeira vez, uma quantidade mais balanceada de autoras (23) e autores (22), e também mais participantes negros: uma estimativa de 30% do total. Tudo sob a batuta da jornalista Josélia Aguiar, a segunda mulher a ocupar a curadoria da Flip em quinze anos.

 

No melhor estilo dos protagonistas anônimos de Lima Barreto, foi considerada musa da Flip Diva Guimarães, 77 anos, negra, professora aposentada, que levantou da plateia e tomou a palavra, dando seu testemunho sobre o preconceito que enfrentou na vida. Como já escreveram por aí, ela virou verbo na Flip – eu divo, tu divas – e seu vídeo ultrapassa 7 milhões de visualizações na internet. Levou todos à comoção, inclusive o ator e escritor Lázaro Ramos que integrava aquela mesa e brilhou Flip afora, marcando suas posições políticas e arrancando aplausos na plateia.

Beatriz Rezende no telão
Foto: Camila Prado

Ao ler trechos da crônica “A política republicana”, de Lima Barreto, que não poderia ser mais atual, o ator foi aclamado: "A República no Brasil é o regime da corrupção. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a "verba secreta", os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência (...) Todos querem 'comer'. 'Comem' os juristas, 'comem' os filósofos, 'comem' os médicos, 'comem' os advogados, 'comem' os poetas, 'comem' os romancistas, 'comem' os engenheiros, 'comem' os jornalistas: o Brasil é uma vasta 'comilança'."

Durante o evento, Lázaro lançou o livro na “Na minha pele”, trazendo memórias biográficas em torno do racismo.


Projeto literário, projeto de nação

À dívida histórica que perdura em meio a tanta turbulência em nosso país, acenaram-se lampejos de otimismo, ao menos (e menos muitas vezes é mais). “Esse momento significa a comprovação da força coletiva. Não estou aqui sozinha. E não podemos deixar de afirmar que não foi concessão. Este lugar é nosso por direito”, proferiu a escritora mineira Conceição Evaristo, prêmio Jabuti por seu livro “Olhos D´água”. Em paralelo, o poeta e professor Edmilson Pereira Almeida afirmou que deve haver “a reinvenção de um imaginário nacional que inclua sujeitos dos subúrbios, não só o Zumbi dos Palmares”.

Ocupa Paraty
Foto: Camila Prado

“Nossos equívocos como nação teriam sido minimizados se tivéssemos ouvido Lima Barreto no início do século passado. Hoje em dia somos todos Limas Barretos nas redes sociais, vide néo-feminismo, anti-racismo, ativismo político, mas, a seu tempo, Lima foi o autor brasileiro que mais forçou os limites do que se podia dizer na sociedade carioca da época”, comentou a jornalista e escritora Luciana Hidalgo. O romance Clara dos Anjos, em que Lima Barreto denuncia os problemas cotidianos do início do século XX, como preconceitos raciais, sociais e de gênero, é possivelmente o primeiro no Brasil que traz uma mulher negra protagonista.

Na série de intervenções poéticas intitulada Fruto Estranho, outra novidade desta edição, em que artistas se apresentaram por 15 minutos antes das mesas, Adelaide Ivánova nos calou com a crueza de sua performance sobre feminicídio.

 

Na pele de todos

Lilia Schwarcz, antropóloga e historiadora que lançou nova biografia do homenageado (Lima Barreto: Triste Visionário), ao falar sobre o primeiro romance do autor, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, afirmou que Lima vivia assombrado por seus personagens, tamanha era sua identificação com eles. Não à toa, uma das mesas foi dedicada ao tema da autoficção, já que Lima Barreto pode ser considerado pioneiro do gênero no Brasil.

“Trata-se do que chamo de narcisismo útil, já que havia um contingente grande de pessoas nas mesmas condições”, frisou Luciana Hidalgo, lembrando que o homenageado foi duramente criticado à sua época por fazer uma literatura menor e não separar bem vida e obra, ao passo que a mesma mescla foi enaltecida nos escritos de autores como Henry Miller e Marcel Proust.

Casa do Papel
Foto: Camila Prado

Lima Barreto estava à frente de seu tempo – o título de uma das mesas, inclusive, foi “Moderno antes dos Modernistas”, em termos estéticos e ideológicos. Seu estilo cortado, oral, direto e limpo, destoante de Machado de Assis, era referência para Mário de Andrade e os demais modernistas. Felipe Botelho Corrêa, estudioso que, entre outras obras, organizou Crônicas da Bruzundanga: a literatura militante de Lima Barreto, afirmou que o autor “tinha um projeto literário: escrever para o maior número de pessoas possível. Enxergava as massas como potência. Escrevia para um novo público alfabetizado, mas que não estava acostumado à convenções literárias”.

Produzia em múltiplos gêneros – romance, crônica, diário, memórias – uma literatura de urgência, em defesa dos negros, das mulheres, dos anarquistas, como contou Beatriz Resende, estudiosa, professora e criadora de diversas obras sobre o autor. Para Lima, “a literatura era mais forma de expressão que de comunicação. Escrevia para libertar-se, vingar-se”, diz Antônio Arnoni Prado, um dos pioneiros no estudo de Lima Barreto na universidade, que refletiu, ainda, que o atual governo certamente “seria enquadrado” pela mordaz pena de Lima Barreto.

 

Uma ode à polifonia

Essa experiência do homenageado com variados estilos inspirou a curadoria a buscar expressões literárias originais, e trouxe para o evento, entre outras novidades, duas jovens autoras de contos que já levaram o prêmio Jabuti: Carol Rodrigues, com sua prosa e pontuação experimentais em Sem vista para o mar; e Natália Borges Polesso que, em Amora, dá vida a personagens pouco usuais na literatura.
Este panorama não dará conta de trazer as vozes de João José Reis, Noemi Jaffe, Luatty Beirão, Diamela Eltit, Djamilia Pereira de Almeida, Ana Miranda, Willian Finnegan, Marlon James, Paul Beatty e tantos outros. A lista é extensa e seria impossível fazer justiça sem transformar esse relato em um verdadeiro tratado. Então, a mínima retratação cabível é recomendar o acesso ao site da Flip e o passeio pelas informações sobre os autores e as notícias de 2017 –terreno extremamente fértil!

Sebo ao lado da Matriz
Foto: Camila Prado

Na edição deste ano, a programação da Flipinha e da Flipzona (voltadas a crianças e adolescentes) foi menor. Mas, por outro lado, despontaram iniciativas independentes que ganham força e estão se consolidando no cenário editorial: a Casa da Porta Amarela (grupo de editoras e autores independentes), o Slam das Minas (campeonato feminino de poesia falada), a Casa do Papel (experiências gráficas como serigrafia, tipografia e carimbos), o Ocupa Paraty (1ª Feira de Economia Solidária da cidade), etc. Apesar de alguns parceiros tradicionais, como o Instituto Moreira Sales, terem cancelado sua participação, parceiros como a Casa Folha e o Sesc se mantiveram. Houve ainda a Casa Amado Jorge, que surgiu em tributo à amizade entre os escritores Jorge Amado e José Saramago e promoveu concorridos debates.


Muita efervescência. Novas vozes, velhos problemas. E foi de dentro da Igreja Matriz que a Flip subiu ao altar e desceu do pedestal. No lugar do sagrado, do silêncio, abriu-se espaço para ecoarem discussões de uma Flip que poderia levar inúmeras epígrafes: a Flip do anti-herói, da diva negra, das minorias, da diversidade, da urgência, da militância, do fruto estranho, dos independentes. Que a Flip contribua cada vez mais para a literatura estar a serviço da transformação, como tanto almejava Lima Barreto em cada palavra que escreveu.

 


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