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O dito, o não dito e o escrito

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Assunto: null
Autor: Sullivan Chaves Gurgel
18 Maio 2020

Escola Estadual Nanzio Magalhães
Feijó/AC

De todas as formas possíveis de iniciar este relato, pensei em começar pelo final, um final tão bonito quanto surpreendente, tão prazeroso quanto emocionante. No entanto, na escolha das palavras, do que deveria ser dito, o não dito deveria estar impregnado no escrito das emoções e sensações de conhecer o lugar de cada um e de todos nós.

Meu primeiro contato com a Olimpíada da Língua Portuguesa aconteceu quando a diretora da escola informou na reunião do planejamento que nossa escola estava inscrita no concurso, e que trabalharíamos dois gêneros: Memórias Literárias e Crônica. A princípio, considerei que fosse mais um concurso de redação, com etapas que deveriam ser mecanicamente desenvolvidas. Mas, então, participei da oficina de sensibilização com todos os professores de Língua portuguesa para conhecermos mais a Olimpíada. Nesse encontro tive o prazer de ter contato com dois professores que já tinham sido semifinalistas em anos anteriores: a professora Maura e o professor Elonilson. Ouvir seus relatos de como desenvolver as oficinas foi motivador, do prazer de conhecer mais sobre nosso lugar, coisas que nos passam despercebidas fez surgir uma pequena chama dentro de mim. 

Uma dúvida surgiu. Como fazer com que meus alunos desenvolvessem um interesse pela Olimpíada? Como apresentar o gênero Memórias Literárias para eles? Então, numa segunda feira, dei início à aula com a leitura de um texto semifinalista da Olimpíada de 2016, intitulado "Mãos que lavam sonhos", escrito por um aluno de nossa escola e que retrata as memórias de uma lavadeira de roupas. Ao terminar a leitura percebi que alguns alunos ficaram emocionados. Então passei a questioná-los sobre quem seria o autor daquele texto, se eles conseguiram imaginar o lugar descrito e as emoções ali presentes. Conversamos sobre o texto e depois tive o prazer de destacar que aquele texto tinha sido produzido por um aluno da escola Nanzio Magalhães, no ano de 2016, que foi semifinalista da Olimpíada de Língua Portuguesa e, além disso, estávamos inscritos para participar da edição de 2019.

Então surgiram várias perguntas: Olimpíada, professor? Como é isso? Só conhecemos a Olimpíada de Matemática. Vamos fazer uma prova como a da OBMEP? Prova de novo, não, professor! E, assim, naquele redemoinho de perguntas e expectativas, comecei a falar da Olimpíada, de como seria prazeroso o trabalho de redescobrir o lugar onde vivemos através das memórias de outras pessoas e construir um novo olhar através de outros olhares, de outras histórias.

Através de uma preparação prévia, orientamos os alunos a trazerem para sala de aula objetos ou imagens que mobilizassem lembranças de outros tempos e outras realidades. Incrível como os alunos trouxeram objetos que tinham algum significado para sua família, como por exemplo, o ferro de passar a brasa que a avó da Natália utilizava para passar as fraldas de suas filhas; a máquina de datilografia que encontraram na Casa de Leitura do município; a poronga que o bisavô de Eriel usava quando cortou seringa; tantos objetos significativos que traziam tantas histórias emocionantes.

No entanto, a maior dificuldade foi com o uso dos tempos verbais. Confesso que cheguei a ficar preocupado. Mas o uso do texto "O menino no espelho", de Fernando Sabino, sugerido na Oficina  6, em que o foco narrativo é do narrador-personagem, que permitiu que os alunos compreendessem a narrativa em primeira pessoa.

Retomamos a lista que tínhamos construído inicialmente, e definimos as seguintes pessoas: Dona Nazaré, uma das moradoras mais antigas do município; seu Armédio, um senhor que percorre as ruas de Feijó vendendo mariolas; Dona Conceição, uma rezadeira da cidade; entre outros personagens característicos de nossa comunidade. Não conseguimos trazer dona Nazaré à escola. Então, junto com os alunos, optamos por gravar um vídeo entrevistando-a. Foi incrível observar sua lucidez ao contar suas experiências de vida, de seu lugar e observar como ela ama esta terra. Fato que me relembrou um pouco da história de Ana Terra, personagem da série de livros "O Tempo e o Vento", de Érico Veríssimo. Gravamos a entrevista e apresentamos em sala de aula; os alunos fizeram os registros mais relevantes, para dar início aos textos.

Organizei junto com a coordenação pedagógica um encontro com os alunos para realizarmos a produção coletiva do texto. Revisitamos a entrevista de Dona Conceição, discutimos as possibilidades de criação e adotei a postura de escriba dos alunos. Juntos construímos os parágrafos, e a medida que o texto ia se materializando, fazia as intervenções quanto ao uso da primeira pessoa do discurso, do emprego do tempo verbal, das comparações entre os tempos, ou seja, fazia o repertoriamento para quando fossem escrever os textos de sua autoria.

Finalmente, chegou o encontro para a escrita individual. E foi com alegria e entusiasmo que vi meus alunos escrevendo as primeiras linhas, descrevendo aquilo que lhes foi dito, o reviver das emoções dos três entrevistados, personagens carismáticos da cidade de Feijó. Os textos foram chegando até minhas mãos e fui fazendo as devolutivas necessárias para a reescrita; mas três textos me chamaram a atenção: "De como me fiz vendedor de mariolas", do aluno Janiel Araújo, "Mãe de meus irmãos" da aluna Rita de Cássia, "Memórias literais" de Maria Raiza; mas foi nos escrito de Tamilly que enxerguei uma maneira criativa e emocionante de escrever sobre Dona Nazaré.

Todos os textos receberam as devolutivas para auxiliá-los no processo de reescrita. O texto de Tamilly veio em uma segunda reescrita com o título de "Mãezaré". Fomos discutindo estratégias de escrita, orientando para uso dos adjetivos, os tempos verbais, as características do gênero memórias, as comparações e ao perceber como Nazaré, ainda menina, se fez mulher para cuidar de seus irmãos. Este foi o ponto para a escolha do título do texto selecionado. E foi com orgulho que percebi o desabrochar da escrita de Tamilly, uma aluna tímida e de poucas palavras, mas que ao escrever deixa a emoção fluir - fala pouco e escreve muito.

E do muito de suas escritas nasceu à singeleza do texto, hoje semifinalista! Ao receber a surpreendente notícia que estávamos na semifinal, organizamos uma surpresa para Tamilly: retornamos ao ponto de partida, uma visita à chácara de Dona Nazaré, para que a mesma ouvisse a leitura do texto e contar-lhe de nossa alegria. Foi um encontro emocionante entre a autora do texto e a personagem principal dessas memórias.

Essa experiência proporcionou-me um repensar de prática de sala de aula, do trabalho com os gêneros textuais e do reconhecimento de que a realidade de vida é o campo de experienciar e construir conhecimentos. Além disso, possibilitar aos nossos jovens estudantes um contato com o seu lugar, revisitando experiências de seus antepassados realmente é gratificante, e ainda traz o sentimento de valorização do seu canto, do seu chão.


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