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Trajetórias - o resgate da história de um lugar: uma vírgula onde era ponto final

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Assunto: null
Autora: Cleide da Silva Magesk
04 Maio 2020

Colégio Estadual Parada Angélica
Duque de Caxias/RJ

Ao descobrir que a homenageada da Olimpíada de Língua Portuguesa de 2019 seria Conceição Evaristo, eu, mulher negra, oriunda de família pobre e fã de seu trabalho de luta e resistência, fiquei empolgada com a possibilidade de tê-la como referência em sala de aula.

Ao entrar no site para ler sobre a Olimpíada, vi que o gênero, para as turmas que leciono, seria documentário - novidade do ano. A partir deste momento, mergulhei nas oficinas para absorver um pouco do que seria trabalhado em sala de aula. Deparei-me com 13 oficinas divididas em 4 blocos. Respirei fundo. Achei que era muita coisa de um conteúdo, a priori, desconhecido para os meus alunos. Refleti e decide encarar o desafio. Para isso, eu precisava me preparar; precisava mostrar aos meus alunos que era uma ótima ideia participarmos. Um trabalho que demanda tempo e entrega precisa de organização, comprometimento e principalmente ser prazeroso. 

Desta forma, a jornada começou com meu estudo particular. Li todas as oficinas, muita coisa eu não conhecia e outras relembrei dos tempos da faculdade, onde fiz um curso de animação. Foi muito bom e cansativo ao mesmo tempo, pois precisei selecionar dentro do material disponível o que meu tempo de aula poderia comportar. Nesse período, o calendário foi meu amigo. Contei aula por aula. Organizei meus planos de aula para que tanto as oficinas quanto o currículo mínimo do Estado fossem ministrados. Durante a seleção do material, revisitei o conto "Olhos d'água"- também título de um livro maravilhoso da Conceição Evaristo, cuja narrativa tem como mote a inquietação da protagonista - "Qual é a cor dos olhos de minha mãe?" Usei o mote da busca por uma memória que inquietava a protagonista do texto para provocar meus alunos. Propus que virássemos guardadores das memórias do lugar onde viviam. Acharam engraçado. Ficaram desconfiados.

Iniciar com este texto foi primordial para que o trabalho funcionasse e as desconfianças diminuíssem. Conceição Evaristo é alguém que de alguma forma eles reconhecem, seja na mãe, avó, tia ou vizinha. Há algo de familiar em suas histórias. De certa forma, trouxe, através do texto da escritora, a realidade em que estão inseridos. Para que houvesse uma maior proximidade com a angústia definida no texto, realizei após a leitura uma brincadeira de roda em que os alunos de olhos vendados tinham que reconhecer um amigo da turma, assim como a personagem da história buscava lembrar a cor dos olhos de sua mãe. Gostaram muito, desde o mais tímido até o mais travesso. Sensibilizar foi fundamental para mostrar como seria importante para a região em que eles e seus familiares vivem ser fonte de pesquisa e registro. Trabalhei a memória como processo de formação da identidade de um povo.

Nas aulas seguintes, fui aguçando tanto o olhar quanto a curiosidade. A aula sobre corte e sequência foi a primeira experiência que realizamos. O desafio era produzir uma pequena cena usando o celular, porém, sem poder editar. Voltaram para a sala de aula eufóricos, pois haviam conseguido criar uma cena com corte, igual haviam visto no vídeo da oficina.

Cada vídeo foi uma experiência bacana. O comercial da Dove causou impacto. Fizemos um debate sobre aparência e essência. O mundo real e o virtual. Abordamos o tema da necessidade de estarmos sempre bem diante de uma câmera e como isso esconde o real. Chegamos ao ponto do poder da edição; posição de câmera e o que queremos transmitir para o outro através do nosso vídeo.

A cada aula utilizando o material disponível, uma reação. O curta Ilha das Flores, por exemplo, tocou fundo. O espaço onde a escola que eu trabalho, guardadas as devidas proporções, também tem os seus esquecidos. Esse curta virou referência. A técnica chamou atenção da maioria. A "voz de Deus" foi o recurso mais usado durante o processo.

Como disse anteriormente, precisei me dedicar ao planejamento. Todavia, esse foi alterado pela criatividade de um grupo de alunos. Ao pedir para montar uma cena simples usando como cenário a escola, criaram uma curta de terror. Todos amaram e pediram para criar também. Achei a iniciativa fantástica. Estabeleci regras para a feitura, tais como: criação de roteiro; o cenário tinha que ser a escola; limite de três minutos para cada vídeo; tinham que trabalhar os efeitos que havíamos visto nas oficinas anteriores; e inserir os créditos. Percebi que aquele vídeo poderia ser um ensaio para o trabalho final do documentário.

Diante de tanta dedicação criei o prêmio "Canuus" uma brincadeira com o festival de cinema de Cannes. A palma de ouro deu lugar ao "Joelhinho de ouro". Todos os grupos ganharam o troféu. Mas minha felicidade com o trabalho deles era muito grande e pedi a direção da escola que permitisse um prêmio extra - levá-los ao cinema. Escolhemos por votação dois grupos para ganhar o prêmio principal, eles não sabiam o que era até abrirem o envelope. Foi uma experiência incrível, pois alguns nunca tinham ido ao cinema. O bairro em que a escola está localizada fica no terceiro distrito de Duque de Caxias. Ali não há salas de cinema, shopping center ou outro tipo de lugar que comporte o cinema como lazer.

Chegamos ao momento de produzir os documentários. Levei as regras estabelecidas pela Olimpíada. Montamos os trios. Cada trio já sabia qual seria a pesquisa, o que gostaria de mostrar. Percebi que estavam de alguma forma falando por todos de sua comunidade. Eu não sou moradora do bairro Parada Angélica, trabalho há 10 anos nesta escola e construí uma relação de amor por este lugar. Quantos alunos já passaram por mim desde então. Sentia a necessidade de retribuir de alguma forma. Orientar um documentário que mostrasse, que registrasse um pouco da história desde lugar foi como um presente.

As pesquisas começaram antes das oficinas. Pedi aos alunos que buscassem informações sobre o lugar onde moravam. Qual a história, as preocupações, como a região se formou; que conversassem com os mais antigos.

Descobertas foram acontecendo e eu sempre me colocava no lugar do ouvinte, pois eu não era dali. Isso motivava as contações, porque eu precisava entender tudo que eles tinham para contar. Esse foi o ponto que dei bastante ênfase quando analisávamos em conjunto os trabalhos, o cuidado com o outro. Expliquei que a linguagem e todo o contexto apresentado nos vídeos tinham que deixar claro sobre o que estavam falando, pois seriam vistos por pessoas que não conheciam o lugar.

Vejo que todo processo da Olimpíada auxiliou na aproximação da comunidade com a escola - algo fundamental para o processo de ensino-aprendizagem. Auxiliou também na relação interpessoal dos alunos que estavam chegando à escola, pois tiveram empatia pelo trabalho produzido pelo outro. Observei o sentimento de pertencimento. O sentimento de representatividade. Cada vídeo produzido ao final de nosso percurso deu vez e voz a muitas angústias e descontentamento dos vários grupos sociais daquela região. Experiência ímpar em minha vida de professora.


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