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Pequenos poetas, grandes descobertas

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Autora: Maria de Lourdes Fontes do Nascimento Dantas
06 Abril 2020

Escola Estadual Roberto Hipolito da Costa Brigadeiro do Ar
Guarulhos / SP

"Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo?". Com esse instigante questionamento, Carlos Drummond de Andrade inicia o texto "A educação do ser poético". Inspirando-me nas palavras do grande escritor, também me pergunto: os fios que se enlaçam no fazer poético têm origem no tecido da infância?  

Acredito que a vivência poética possibilita o desenvolvimento da imaginação, da criatividade e da consciência estética. A criança vivencia um período lúdico e dinâmico, em que pulsa o gosto pela descoberta do mundo que a rodeia. Os fios que unem ludicidade e poesia tramam a tessitura que se denomina texto poético. Acredito que, por meio da poesia, criança e poeta se enlaçam, pois se encontram na mesma esfera lúdica. Por outro lado, como afirma Drummond, muitas vezes está na escola o "elemento corrosivo do instinto poético da infância". Para não deixar fenecer o potencial poético inerente à criança, é preciso que os pequenos sejam instigados a fazer suas próprias descobertas na comunhão com a poesia. 

Assim, no final de 2007, quando conheci o Programa Escrevendo o Futuro, apaixonei-me de imediato, pois percebi que se tratava de uma proposta que vinha ao encontro das minhas aspirações e crenças como professora. Uma proposta que me encantou e me seduziu, que me fez esperar ansiosamente pelo ano de 2008, quando me inscrevi pela primeira vez. Há 12 anos, a Olimpíada de Língua Portuguesa faz parte da minha história e tem me trazido muitas alegrias!   

Comecei muito animada a 6ª edição da Olimpíada. Logo no início do ano, percebi que meus alunos apresentavam um repertório de leituras de poemas ainda incipiente. Meus pupilos conheciam parlendas e quadrinhas populares, a maior parte delas aprendidas durante o período de alfabetização. Poucos alunos lembravam-se de um ou outro poema de Cecília Meireles e Vinícius de Moraes. Dessa forma, durante todo o mês de fevereiro, dediquei-me a apresentar-lhes alguns dos grandes poetas - os meus preferidos! - explorando vários livros de poemas do acervo da escola e do meu acervo pessoal. Eu caprichava na declamação dos poemas, escolhidos a dedo para atrair e cativar a atenção dos alunos. No início de março, apresentei-lhes a proposta da Olimpíada. Meus alunos mostraram-se animados com o concurso que, para eles, era uma novidade. Li o poema "As Marias do meu lugar", vencedor na edição de 2008. Quando revelei o nome e a idade do aluno-autor, observei um misto de encantamento e incredulidade em quase todos os rostinhos. Alguns questionaram: "Mas foi o menino mesmo que escreveu?". Outros disseram: "Ele é bom, hein!". Afirmei que eles também poderiam - e iriam - escrever lindos poemas. Nesse momento, percebi expressões desconfiadas, olhares incrédulos e risinhos debochados. Não me abalei: sentia como se navegasse em águas tranquilas, tendo a perspectiva de um horizonte promissor e a certeza de um porto seguro. Estava certa de que meus marinheiros de primeira viagem cresceriam muito durante a jornada que estava apenas começando.

As duas primeiras oficinas transcorreram bem: os alunos participavam com interesse; as aulas fluíam de forma leve. Até que chegou o dia do "Primeiro ensaio"... Foi um dia tenso! Mal havia acabado de expor a proposta da oficina, ouvi frases desanimadoras... Não sei o que escrever. Tem que ser esse tema? Que tema chato! Onde eu moro não tem nada especial. Posso escrever sobre outra coisa? Não vou fazer! Respirei fundo e acalmei os alunos. Propus que retomássemos o estudo de poemas escritos por ex-alunas que representaram nossa escola nas edições de 2012, 2014 e 2016 da Olimpíada. Tais poemas foram selecionados na etapa municipal de cada edição. Durante a roda de conversa, o inquieto e provocativo Bruno comentou: "Só as meninas ganham? Agora vai ser a vez dos homens". Entre protestos das meninas e risos dos meninos, aproveitei a brecha e disse: "Demorou... Vamos escrever?". Observando as expressões dos alunos diante da folha em branco, foi impossível não me lembrar de Drummond: Gastei uma hora pensando um verso / que a pena não quer escrever / No entanto ele está cá dentro / inquieto, vivo. / Ele está cá dentro / e não quer sair. Finalmente, os versos saíram: o primeiro poema dos meus marinheiros de primeira viagem. De modo geral, não eram bons textos. Sem dúvida, eu tinha um grande desafio pela frente.

Segui firme com as oficinas e, a cada semana, percebia a evolução dos alunos. Eles criaram bonitas quadrinhas ao gosto popular e lindas definições poéticas. Descobriram Fernando Pessoa. Apaixonaram-se por Mário Quintana, Manuel Bandeira e Sérgio Capparelli. Todas as produções iam para os murais dos corredores da escola. Os alunos faziam questão de mostrar seus textos aos colegas das outras turmas. Como era lindo ver as crianças lendo os poemas dos colegas, em sussurro ou em voz alta! Durante um evento na escola, fiquei observando pais e outros familiares dos alunos admirando os murais. A mãe de Victor encantou-se com uma de suas definições poéticas: A saudade é uma chama ardente que não se apaga com o tempo. "Professora, descobri que tenho um filho poeta!", disse-me a mãe, emocionada. Em minhas crianças aflorava sua essência poética!

Planejei mais aulas em que estudamos comparação, metáfora e personificação. Era necessário mostrar aos alunos que brincar com as palavras não envolve apenas aspectos formais como rima e ritmo. É preciso conhecer formas de tornar as palavras mais belas, transformando o banal em algo peculiar, original. A propósito, para mim foi valioso o estudo do texto "Cinco oficinas só não fazem bons poemas...", de Emílio Davi Sampaio.

Após meses de leituras e estudo, chegou o momento dos alunos lançarem um novo olhar sobre o seu lugar no mundo. Fizemos uma viagem virtual por Guarulhos, explorando vários cenários e aspectos da cidade.

Durante a análise do poema "O mundo dentro da represa do Frade", de Carla Marinho Xavier, exultei ao ver a desenvoltura dos alunos, apontando os elementos peculiares daquele texto "olímpico". E assim meus marinheiros içaram as velas, deixando-se levar pelos ventos poéticos. Eles se esforçaram na escrita e no aprimoramento do poema final. A linda e tímida Giovanna, saindo do seu casulo, encantou a todos com seu olhar sensível e criativo sobre o lugar onde vive.

Encerramos a etapa escolar da Olimpíada com um emocionante sarau. Convidamos pais e familiares a partilhar esse momento único. Todos os 75 alunos que participaram do concurso mostraram-se orgulhosos ao ver seus poemas expostos ao público. Como diria Drummond, a poesia daquele momento inundou nossas vidas!

Depois de meses navegando em águas por vezes turbulentas, foi difícil segurar as lágrimas, ao saber que éramos semifinalistas. A jornada continua para mim e para Giovanna, mas é claro que não terminou para os outros marinheiros. Sinto que abri portas para que eles continuem explorando outros mares e sigam trilhando novas veredas poéticas - com os desafios e os desvios que fazem parte da vida.

 


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