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A incrível viagem

A incrível viagem

Assunto: null
Autor(a): Daniela Aparecida Vieira Borges
03 Agosto 2017

Escola Municipal Noemia Salles Padovan

Itanhaém - SP

Eu queria ter, neste momento, o dom das palavras e escrever tudo que estou sentindo, porém o sentimento é demais. E é assim, feliz e emocionada, que agora escrevo para contar um pouco do caminho que percorri junto com minha equipe escolar e meus alunos rumo ao passado, conduzidos pelo fio da memória aos tempos de outrora.

Na semana de Planejamento Anual, viajamos para o mundo das Olimpíadas Rio 2016 e para a relação entre povos de diferentes culturas. Assim se deu a construção do projeto coletivo intitulado de "Aldeia Global", que tem como finalidade fortalecer o trabalho coletivo, semear entre os educadores o esforço pela conquista e pelo respeito aos nossos semelhantes. Queríamos ir além para que os alunos desenvolvessem o verdadeiro espírito olímpico. Assim, chegamos à conclusão que era necessário nos aproximar da cultura indígena local, pois ela é exemplo de respeito, coletividade, harmonia e fortaleza.

Para iniciar a conversa sobre memórias literárias e ressaltar algumas características do gênero, declamei para os meus alunos o poema "Profundamente", de Manuel Bandeira. São as memórias de uma criança de oito anos e das noites de São João. Após ouvir o poema, eles rapidamente identificaram que se tratava de lembranças do eu lírico. A turma animada evocou as próprias memórias. Mandei-os para casa com a tarefa de perguntar aos avós como eram as festas antigamente, as brincadeiras do tempo de criança, as comidas, a vida com os amigos e parentes. No dia seguinte, eles voltaram encantados. Descobriram como os pais brincavam, faziam festas, participavam dos almoços de domingo e muitas outras lembranças.

Percebi os meninos contagiados e fiquei emocionada, pois já havíamos embarcado para a nossa viagem rumo ao passado.

Comandante a postos: "Vamos partir". Agora, ao recordar, muitos rostinhos sorridentes e eufóricos vão passando pela minha memória.

O livro "Transplante de menina", de Tatiana Belinky, nos acompanhou nessa viagem. O livro narra a infância da autora, em Riga, capital da Letônia. Nada escapa aos olhos dessa criança e já em São Paulo, lugar de destino da família Belinky, ela conta com detalhes como era a vida nos anos 30 na grande cidade, onde podiam andar a pé sem medo e as crianças podiam brincar nas ruas. A descrição permitiu aos alunos fazer comparações com os dias de hoje e perceber o que não é mais possível nos grandes centros.

Era chegada a hora da entrevista. Pedi para que os alunos convidassem um funcionário da escola e eles escolheram a nossa querida coordenadora Izevan. No dia marcado reuni as minhas três turmas de 8° Ano que previamente preparadas a entrevistaram. Inebriados com as memórias de nossa entrevistada, perguntavam sem deixá-la respirar. Ela contou que até os nove anos de idade morava em um sítio. Nesse momento, muitos alunos que também moram em áreas rurais, em Itanhaém, se identificaram com a história. Eles interagiam contando também os seus costumes.

Percebi que os alunos tornaram-se confiantes, orgulhosos de se reconhecerem na história de Izevan. Eles sentiam vergonha por morarem no sítio, mas aquelas memórias devolveram-lhes a autoestima.

Organizamos as informações coletadas na entrevista e aproveitei para trabalhar características do gênero. Nesse momento, eles perceberam que faltavam algumas informações. Izevan falou que a sua casa era muito humilde e então eles notaram que não conseguiriam descrever a casa, nem fazer comparações com a casa atual, pois não sabiam detalhes. Elaboramos coletivamente outras perguntas que julgamos necessárias.

Partimos para a nossa segunda entrevista, com os habitantes da tribo Tupi Guarani, como uma das etapas do projeto Aldeia Global. O grande dia chegou! A tribo veio até nós e no pátio da escola se deu o encontro de duas culturas. Os alunos entrevistaram o senhor Guaíra, pajé da tribo, que aos 69 anos respondia carinhosamente a cada pergunta. Os adultos e crianças que o acompanhavam o escutavam com muita tranquilidade, demonstrando sinal de respeito aos mais velhos.

Chegou então a nossa vez de visitar a tribo e seguimos viagem para a aldeia Piassaguera. Lá entrevistamos Mirian, a professora da tribo. Itapemirim, como ela gosta de ser chamada, apresentou-se vestindo somente uma tanga. Fiquei orgulhosa dos meus alunos, pois demonstraram profundo respeito. Vi o brilho no olhar de cada um ao ouvir da professora da tribo como era a aldeia antigamente, como o local foi transformado e como eles vivem hoje. Também se emocionaram com sua trajetória vitoriosa de vida. Ela, sofrendo com a discriminação, teve forças para voltar e se formar. Eles observavam tudo atentamente e ouvi de Milena: "Professora, nem parece que havia crianças ali. A professora deles saiu da sala e não vimos nenhuma na porta".

Os primeiros textos não estavam bons. Escrever de uma forma literária era a maior dificuldade. Também observei que eles queriam narrar a vida inteira do entrevistado, o que os deixava desanimados com a escrita. Fizemos então a leitura do texto "O lavador de Pedra", de Manoel de Barros. Copiamos os trechos com os fatos e depois como o autor os narrou. Para perceberem que poderiam escolher somente um fato para contar, escolhi o texto "O tempo, o chiado e as flechas", do Jhonatan Oliveira Kempim, finalista da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, em 2012. Fiz cópias para todos e destacamos o fato principal que marcou a vida da narradora, como ela destacou as características do seu lugar e as comparações com os dias de hoje. Imbuídos do espírito olímpico, eles queriam fazer o melhor. Realizamos novas leituras e fizemos outras observações. Então os resultados começaram a aparecer. Textos com cenários pitorescos, carregados de emoção e com as tão temidas figuras de linguagem. Jeniffer, aluna com muita dificuldade em organizar um texto, escreveu: "O violão de meu avô agora dorme tranquilo em um cantinho da sala".

Que satisfação! Cada um queria ler o seu texto em voz alta. Entreguei os critérios de avaliação e eles fizeram a revisão, ajudando um ao outro a melhorar a escrita. Nem sempre foi fácil, tivemos alguns percalços no caminho, por vezes senti-me perdida e precisei redefinir a rota. Nessas horas a sequência didática do Caderno da Olimpíada me dava um novo rumo a seguir.

A nossa incrível viagem ao passado estava chegando ao seu destino. Pelo olhar dos nossos idosos, como que com uma câmera, íamos entrando nos povoados, nas casas, conhecendo como viviam. "Eu vou morrer um dia, porque tudo que nasce também morre: bicho, planta, mulher, homem. Mas histórias podem durar depois de nós. Basta que sejam postas em folhas de papel e que suas letras mortas sejam ressuscitadas por olhos que saibam ler.", diz Ilka Brunhilde, em seu livro A menina que fez a América. Histórias como a da professora Itapemirim foram postas em folhas de papel e ressuscitadas por olhinhos muito atentos, que souberam ler e escreveram muito bem.

Os alunos tiveram a oportunidade de dar voz a um povo que muitas vezes é excluído. A experiência uniu moradores que estavam distantes em um mesmo lugar, o lugar onde todos nós vivemos.


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