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Colorindo o dia a dia: um novo olhar e vários flash

Colorindo o dia a dia: um novo olhar e vários flash

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Autor: Rosa Maria Mendes de Lima
25 Julho 2017

Escola Estadual Dona Indá

Alpinópolis/MG

"Ciência sem consciência é a ruína do homem", assim já dizia um grande escritor, há séculos, quando um personagem de seu livro escreveu ao filho aconselhando-o sobre os seus estudos. Eu desejava essa consciência no meu trabalho, e ela veio por meio do material da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro.

Minhas aulas, antes descontextualizadas, tornavam-se desinteressantes e contribuíam para uma situação preocupante: alunos apáticos e desmotivados, alguns se refugiavam no canto da sala com celulares e fones de ouvido e recusavam-se a fazer as atividades propostas, sempre com cara de "não me importo com nada e cala a boca aí na frente, por favor". Sentia uma necessidade enorme de mudar, de fazer diferente. Eu queria ser aquele Coelho Branco que tirou Alice daquela tarde quente, chata e preguiçosa, quando ela não estava a fim de fazer nada e a fez pular do banco e entrar na toca, mergulhando em um poço fundo, sem saber se sairia ou não, mas mergulhou e foi desvendando seus mistérios. A Olimpíada foi a chave dourada que abriu a porta para que olhássemos com mais atenção e paixão para o lugar onde vivemos, e para que, assim como Alice, descobríssemos todos os seus mistérios e pudéssemos viver esse sonho maravilhoso.

Depois de conhecer e realizar as oficinas da Olimpíada, na 1ª edição, em 2008, fui adquirindo experiência e confiança para construir meu próprio material e planejar outros projetos para trabalhar com os gêneros textuais no nosso dia a dia escolar e para levar meus alunos "além do muro da escola". Este ano, assim como nos anos anteriores, para incentivá-los e despertar o interesse deles pelo projeto e pelo gênero textual crônica, comecei falando sobre a história da Olimpíada: quando começou, objetivo, as etapas, a importância do tema "O lugar onde vivo" e o desempenho da nossa escola em edições anteriores.

O segundo passo foi convidar os colegas que se destacaram em outras edições da Olimpíada para uma entrevista, previamente preparada por nós. Foi muito importante para tirar aquela ideia preconcebida por muitos de que é impossível ter sucesso num projeto amplo como esse. Em seguida, para movimentar as aulas e iniciarmos as oficinas, colei na carteira da turma crônica de autores famosos e de alunos finalistas em outras edições e, também, textos de alunos nossos que se destacaram em edições anteriores. Fazíamos sempre uma roda de leitura, seguida de comentários e opiniões que foram relevantes para iniciarmos as oficinas e fazê-los perceber que seriam capazes de produzir bons textos. Essa atividade era sempre recebida com festa pelos alunos, por isso seguimos com ela, uma vez por semana, até o final do projeto.

Outra atividade muito significativa para o sucesso da turma na produção das crônicas foi o passeio que fizemos na cidade, para fotografar cenas que chamassem atenção deles. A intenção era provocar os sentimentos dos nossos jovens, seus sentidos, suas emoções, pensamentos e renovar neles, através da arte, o espanto com as coisas e cenas comuns encontradas. 

Fomos, então, realizando um trabalho investigativo e, como um ladrão, íamos procurando a ocasião para roubar, "usurpar" essa pequena cena corriqueira e desgastada e colocá-la em evidência, fotografando-a e recriando-a num mundo encantado cheio de palavras e cores.

Depois de revermos esse material, a turma fez o planejamento e a produção da crônica inspirada na foto escolhida por cada aluno. Alguns não conseguiram fazer exatamente uma crônica, mas apenas uma narrativa sem características marcantes desse gênero textual e nem definir seu tom, porém, já estava preparada para esse momento. A nossa viagem estava apenas começando e juntos buscaríamos outros rumos, esse seria o momento certo para intensificar o trabalho coletivo. Assim, para auxiliá-los e para que pudessem perceber os recursos adequados para aprimorar seus textos, levei para a sala uma seleção de crônicas já estudadas: O amor acaba, Um caso de burro, Cobrança e as crônicas produzidas por alunos em outras edições da Olimpíada. Fizemos um quadro classificando-as como: triste, de humor, emocionante, crítica, poética e fomos justificando cada classificação. 

Foi durante essa atividade que surgiu a ideia de transformar as crônicas produzidas em textos teatrais. Devido à semelhança desse gênero dramático com a crônica, acharam que seria mais fácil inserir o tom desejado por eles nos textos, pois a turma já possuía certa intimidade com esse gênero e, além do mais, estávamos estudando em Literatura o teatro de Gil Vicente. Uma das cenas que mais chamou a atenção dos jovens nos passeios pela cidade foi um muro pela metade no final da avenida e enormes buracos na rua.

Conversando com moradores nos informaram que se tratava de um impasse entre a prefeitura e o herdeiro de um terreno pela sua posse. Como várias vezes e de várias formas o povo não deixava o muro "em pé", o dono mandou uma máquina para abrir buracos enormes, impedindo os carros de transitarem. Esse caso foi representado em forma de um júri simulado: de um lado a prefeitura e o povo, e de outro, o herdeiro. Esse tema acabou sendo escolhido por vários alunos para a produção de suas crônicas, inclusive por Danilo, o aluno semifinalista.

Depois desse estudo, retornaram às crônicas e, em pequenos grupos, foram revisando e inserindo os recursos adequados para aprimorar ainda mais seus textos, como por exemplo, o uso de algumas figuras de linguagem. Em seguida, fizeram, ainda, uma revisão individual seguindo o roteiro da Oficina 11, "Assim fica melhor". Sentei-me com cada aluno, durante esse aprimoramento, para ouvi-los e auxiliá-los, achei mais justo, não queria correr o risco de praticar algum ato de violência contra a sua linguagem analisando apenas o texto sem o autor.

Para finalizar, a turma fez uma exposição e agora, no final deste mês, haverá a Feira Cultural da nossa escola e os alunos aproveitarão essa oportunidade para apresentarem, novamente, as cenas teatrais e as crônicas produzidas por eles. Não me canso de ler e reler os textos desses "pequenos autores", emociono-me com cada palavra, com cada frase, sejam elas do aluno semifinalista ou de um dos meus alunos.  Todos da sua maneira, com seu jeitinho diferente, produziram belas crônicas e me confiaram o que para mim e para eles são verdadeiras "medalhas de ouro".

Daqui a dois anos vou me aposentar e não terei mais como participar diretamente desse concurso, mas "aposentado" não será meu sonho e nem o que aprendi. Continuarei trabalhando nesse grande projeto que é a Olimpíada de Língua Portuguesa. Com a experiência adquirida e a crença que possuo na educação desses jovens, vou ajudando-os a escrever um futuro melhor. Mas sempre lembrando que um bom material e um bom planejamento são imprescindíveis. É preciso ir além para mostrar ao nosso aluno que ele é capaz, é especial. Portanto, antes de iniciar qualquer trabalho sempre me pergunto: "Professora, qual a sua estratégia de amor?".


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