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Pescador de emoções

Pescador de emoções

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Autor(a): Edio Wilson Soares da Silva
12 Julho 2017

Escola Municipal Daniel Berg

Vitória do Xingu/PA

Todos os anos, a cada pescaria, término de uma sequência didática, medito sobre minha metodologia e na balança coloco todo o processo. Neste ano não foi diferente. Antes de colocar as iscas nos anzóis e ir à pesca, analisei a sequência didática do Caderno do Professor - Poetas da Escola. E os professores de todas as disciplinas nesse barquinho entraram também, dando suporte interdisciplinar a esse trabalho sequenciado, coeso e conjunto.

No primeiro dia de aula, soltei a carretilha, falei que iríamos participar da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, apresentei a Coletânea de poemas e o CD "Versos de diversos lugares". Ficaram ansiosos! Em seguida, perguntei o que sabiam sobre poesia, se conheciam algum poeta e pedi que escrevessem de acordo com seus conhecimentos um poema que já tivessem lido ou ouvido. Poucos escreveram bem, outros escreveram com muitos erros e teve quem não se lembrasse de nada para redigir. Para ter certeza do que tinha visto, ditei o poema "Tem tudo a ver", de Elias José. Após a análise de cada escrita, pude observar que teria muito trabalho pela frente.

Por conseguinte, coloquei o CD para ouvir e mandei que ficassem atentos aos sons poéticos dos vários lugares deste país. Era possível ouvir o bater das asas das gaivotas passeando pela sala por vários minutos. Eles nem piscavam e as doces vozes desse Brasil fizeram cinco dos seis tempos de aula flutuar. De repente, Kailany diz: “Professor, é desse jeito que iremos fazer?”. E em seguida, uma revoada emergiu num coro: “Professor, o senhor tem mais textos?”.

A cada oficina tinha a fisgada de praxe. Liam vários poemas da Coletânea, faziam exercícios onde tinham que pescar e preencher os espaços em brancos com rimas apropriadas. Além disso, ditava poemas, circulando pela sala e colocando uma lente de aumento em cada escrita. 

Esse procedimento foi importante para desenvolver a concentração, fixação e verificação da grafia, vocabulário dos alunos e ainda serviu para desenvolver a reescrita das poesias ditadas. Sempre no final de aula, levavam livros e poemas dos finalistas para lerem e compararem com o lugar onde moram. Nessa pescaria, os jogos de aprendizagem eram iscas deliciosas. Mas também, entravam no Google para ver as imagens das coisas belas da cidade onde vivem. Ficavam imóveis observando os detalhes do cenário: as belezas do Rio Xingu e outros lugares maravilhosos que aguçaram a essência criativa dos pequenos poetas.

Numa tarde ensolarada, levei meu violão, instalei a caixa amplificadora e transformei a nossa sala de aula num sarau improvisado. Após ouvi-los, recitei "Inverno", de Cecília Meireles, com dedilhados suaves no violão e, em seguida, recitaram vários poemas enquanto eu fazia o fundo musical. Terminei com "Aquarela", de Toquinho. Percebi que a poesia ali presente fazia o tempo voar e mostrava as singularidades de cada olhar a me observar atentamente.

Na próxima oficina, construímos um mural de poemas de escritores regionais e consagrados como Manuel Bandeira, Paulo Leminski, entre outros. Nesse dia, avisei que havia feito um "convite" a um imortal, para que viesse nos visitar! Logo fui interrompido pela Larissa: “Imortal?! Como assim, professor?!”. Tive que explicar... E depois do recreio, o professor Jairo Sousa, da Academia de Letras de Altamira - PA, cidade vizinha, chegou recitando "O poeta da roça", de Patativa do Assaré. Na sequência, fizemos uma roda de bate-papo para falar da alma do poema e do poeta: a poesia. Nessa conversa colorida, descontraída e sonora, percebemos que havia alguns alunos com dificuldades. Então, tive que retomar o conceito passo a passo, pois era uma turma heterogênea.

No meio do caminho Érica me interrompeu: “Professor, a beleza do poema é a rima, não vou conseguir rimar!”. Pedi a ela que não se preocupasse, pois todos iriam aprender a rimar, construindo mais poemas, individualmente e coletivamente, no quadro. No entanto, o Alex tinha uma dúvida diferente e perguntou: “Professor, por que no poema "Tem tudo a ver" tem versos que repetem? E por que tem poucas rimas?”. Aproveitei a pergunta e expliquei a todos que a repetição da mesma construção é um dos recursos que podem deixar o poema lindo. 

Além disso, mostrei através de imagens que a poesia tem tudo a ver com o lugar onde eles vivem, tem tudo a ver com a beleza da cidade, da comunidade e tem tudo a ver com tudo. 

Estava quase terminando quando Alex me chamou e disse no meu ouvido que tinha uma "isca", uma ideia: “Professor, a repetição parece a melhor forma de fazer poema. Tenho uma ideia, vou fazer um poema assim”. Pedi a ele que anotasse e guardasse a sua bela isca, para hora da produção. Na abertura de cada oficina, sempre declamava um poema, pois quem lê para o outro se veste de sonhos, de fantasia, de luz e música, isso é uma transfusão poética de um ser para o outro.

No decorrer da sequência didática, além do que era de praxe, reforcei o sentido próprio e o figurado. Posterior a isso, trabalhamos as figuras de linguagem: metáfora, onomatopeia, comparação, personificação, aliteração, para fixarem o conteúdo! Além das figuras serem um dos assuntos de prova, fiz uma "gincapesca" em sala de aula, entre eles, para ver quem criava mais exemplo de figuras de linguagem: as meninas se destacaram.

Já estava quase na hora de começar a pescaria final, mas antes, turbinei as oficinas. Depois disso, senti firmeza; todos colocaram "as mãos nos caniços" e começaram a pescar (produzir) as primeiras estrofes dos poemas, e nelas ainda vieram problemas: erros ortográficos, falta de rimas e sentidos. Estavam com os corações cheios de poesias, só precisavam de uma forcinha para reescrevê-las melhor. Isso me fez pensar nas palavras do professor Emílio Davi Sampaio: "Cinco oficinas só não fazem bons poemas"

No decorrer das demais oficinas, foram surgindo mais estrofes. As correções e orientações eram feitas individualmente, pois cada aluno tinha uma necessidade diferente. Ficava emocionado durante as correções, reescritas e revisões das produções, pois sabia que só um texto seria escolhido. Mas o meu acalento foi a visível evolução - agora leem e escrevem melhor, e com o coração.

Olho eles a cada momento singular, com os pés no chão e com o coração aberto, ansioso e pensando o quanto evoluíram. E sempre digo com palavras simples e singelas, que o Brasil pode se encantar com os sons das palavrinhas encantadas que saíram do "Convite" de Alex, menino pobre e de paixão afro. Ah, que momento ímpar seria esse, para quem nunca viveu essa emoção! Meu coração acelera, meu ser flutua de contentamento, enquanto arrumo meus pensamentos depois de mais uma pescaria árdua, debaixo de sol, chuva e de muita poesia fisgada por um professor, pescador de momentos ímpares como esse.

 


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