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A arte de envolver e provocar os alunos!

A arte de envolver e provocar os alunos!

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Autor(a): Carolina Lobrigato
07 Junho 2017

Escola Municipal Altino Arantes

São Paulo/SP

Ímpar, par, ímpar, par! Para professores de Língua Portuguesa, os anos pares têm uma motivação extra desde a atribuição de aulas. Ao invés de escolhermos anos/ciclos, abraçamos as categorias da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro: "Este ano vou de poema", "Pois eu prefiro crônica a memórias". Às vezes, vemos nosso gênero textual favorito escapando de nossas mãos: "Quem sabe na próxima edição, eu consiga!".

Neste ano, minha missão foi trabalhar com poema. No planejamento anual, considerei a realização das oficinas no 1º e 2º bimestres, incluindo os recursos e ferramentas disponibilizados pelo projeto. Foi imprescindível alinhar as atividades com os colegas de outras disciplinas: Geografia explorou o tema "O lugar onde vivo", dando-nos subsídios para conhecer o espaço da escola, do bairro e da cidade; a professora de História falou sobre os migrantes e imigrantes que fazem São Paulo ser o que é; o professor orientador de Informática Educativa contribuiu para a ampliação de pesquisas na rede e realização de atividades virtuais; a professora orientadora de Sala de Leitura intensificou o contato com poemas; e quando se pode contar com o Projeto de Sarau, orientado por um professor poeta e oferecido pela escola no contraturno, tivemos a certeza de que as condições eram extremamente favoráveis!

Em 2012, passei pela experiência de ser uma das professoras finalistas da 3ª edição da Olimpíada, por meio de uma crônica produzida por uma aluna de nossa escola. Junto com a valorização que esse prêmio me trouxe, vieram, também, a expectativa e o medo da frustração.

Sempre acreditei na contribuição do Projeto para o ensino da leitura, escrita e conhecimentos linguísticos, independentemente da seleção dos textos. Então, só me restava acender as chamas em meus alunos que, desde o início do ano, já demonstravam imenso potencial!

Fotos do Encontro Regional e Nacional de 2012, visita e bate-papo com a ex-aluna finalista (hoje na universidade) contribuíram para que os pequenos se incendiassem: "Eu também sou capaz, Prô!". E são! "Vamos mostrar a Vila Industrial - Zona Leste de São Paulo - para todo o Brasil".

Uma produção inicial mostrou-me que o poema era um gênero visitado com frequência pelos alunos, mas que eles ainda não traziam consigo a "chave" para "penetrar surdamente no reino das palavras", como nos sugere Drummond. Forçavam rimas e não sabiam, ainda, qual mensagem gostariam de transmitir.

Era preciso calibrar suas habilidades como autores. Assim, percebi que um lápis na mão e a autoritária comanda "Produza!" não davam conta de um bom texto.

Paralelamente ao desenvolvimento das atividades, dediquei-me à formação continuada que, além da reflexão sobre a prática docente, proporcionou-me autonomia e desenvoltura para adaptar as oficinas que foram realizadas: relembramos e construímos juntos alguns conceitos - versos, estrofes, recursos de sonoridade, sentido figurado. Ângela Leite apresentou-nos o Corcovado, viajamos com Quintana para sua "Cidadezinha". A turma produziu um poema, coletivamente, cujos versos ficaram ecoando por várias aulas. "Aquela sugestão da Júlia foi ótima, eu não tinha pensado nisso!", disse um aluno. Como aprendiam uns com os outros!

Na sensibilização ao tema "O lugar onde vivo", Caetano Veloso nos brindou com sua canção "Sampa", homenagem à cidade de São Paulo, sob a perspectiva de um ilustre baiano. Cantamos e dançamos! Também nos embalaram o músico Criolo, com seus versos viscerais sobre o "labirinto místico", e o saudoso Adoniran Barbosa deu-nos o ar da graça com a música "Trem das onze".

No decorrer das oficinas, qual não foi a minha surpresa ao ver as apresentações de slides, feitas pelos próprios alunos na sala de informática, sobre as características da cidade, tão bem defendidas no projetor: o Ibirapuera dominou os pontos turísticos, apareceu a rivalidade entre as torcidas do Corinthians, São Paulo e Palmeiras! Na variedade culinária, a coxinha foi a soberana. Tanto aprendizado! E quando fomos tratar do clima e temperatura, novamente os professores de Ciências e Geografia foram acionados para explicarem o porquê de São Paulo não ser mais a "terra da garoa". Enfatizaram a diversidade, as gírias paulistanas, o trânsito e o transporte público, que tanto inspiraram a adorável aluna Maria Rita, uma paraibana, que soube como ninguém escrever sobre a acolhedora metrópole, lugar onde vive há seis anos.

Vivenciando essa experiência, tornou-se evidente que em sala de aula, dizer não basta e ensinar não dá conta. É preciso envolver os alunos naquilo que se acredita, provocar-lhes a curiosidade, o desejo por dominar e conseguir comunicar-se por meio daquele gênero textual.

Entretanto, na contramão de todo o envolvimento, foi preciso encarar aquele aluno que dava de ombros para as atividades, aquele que só pensava no lanche, o outro que, depois de passar por quatro escolas num único bimestre, já não acreditava em si. Tinha também aquele que decodificava, mas não compreendia o que lia. No entanto, ele conseguiu produzir uma quadrinha, ilustrada com prédios e pipas no céu, sob orientação da professora alfabetizadora, que me auxiliou prontamente no desenvolvimento das oficinas.

Na ocasião da produção definitiva, era o momento das escolhas: "Será que essa rima garante um bom ritmo? Será que aquela metáfora cairá como uma luva? Que características de São Paulo devo focar?". O olhar para o "nada" de Maria Rita, olhos fixos no vazio da sala de aula, já denunciava: nasce uma poeta, que guardou com muito carinho os bilhetes orientadores, cuja mensagem trazia o meu encantamento pelo poema, acompanhado da sugestão de pensar no título com mais carinho, ou ainda para que não esquecesse de verificar a pontuação e vigiasse os versos muito longos que cortavam o ritmo da leitura.

Envolvimento, provocação... reescrita!

Um sarau em sala de aula foi a melhor premiação! Dimitry e Vinícius dedilhavam nas cordas do violão melodias que acompanharam a declamação dos poemas. Comissão Julgadora Escolar a postos, texto selecionado!

Como descrever o olhar e o sorriso de encantamento quando Maria Rita soube que seu texto havia sido selecionado pelas Comissões Julgadoras Municipal e Estadual? Enquanto nos preparamos para a viagem à Salvador, a Secretaria Municipal de Educação está viabilizando, junto à SPTRANS, a exposição do texto semifinalista nos ônibus que partem da praça em frente à escola! Circular pelas ruas da cidade e emocionar cada passageiro que se identifica naquele poema - não há função social mais linda para um gênero discursivo! Foi a Maria Rita, mas faltou tão pouco para que fosse a Mirela ou o Gustavo, poderia ter sido o Franklin ou o Leo, quem sabe a Gaby, aluna com deficiência intelectual, ou o Felipe, gênio da turma. Apesar de não caberem todos em nossas malas, os trouxemos em nossos corações, juntamente com todos os professores e professoras que se renderam à Olimpíada, de mãos dadas com a equipe gestora, que se derreteu pelo orgulho do nosso trabalho.


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