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Momento "Ah, eu entendi!”

Momento "Ah, eu entendi!”

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Autor: Alziane da Silva Costa
31 Maio 2017

Escola Estadual Olavo Brasil Filho

Boa Vista/RR

Quando decidi participar da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro com minhas turmas do 7° ano do Ensino Fundamental, na categoria Memórias Literárias, não sabia como começar, mas sabia claramente o que queria. Almejava, ardentemente, despertar meus alunos para os encantos da escrita. Queria convencê-los que era possível para eles também. Nessa busca, conheci e estudei a sequência didática da Olimpíada, vislumbrando nesse material uma possibilidade real para orientar minha ação pedagógica. Empolgada pelas novas descobertas, iniciei a minha grande aventura pelos caminhos do ensinar, tendo pela frente a missão de inserir meus alunos no mundo da escrita literária. A expectativa era que, ao final, eu fosse surpreendida com bons textos.

Almejava, ardentemente, despertar meus alunos para os encantos da escrita. Queria convencê-los que era possível para eles também

Objetivando seduzi-los para o gênero escolhido, levei-os à sala de leitura da escola e comecei a oficina com a audição de um texto finalista da Olimpíada anterior. Enquanto os alunos ouviam o áudio, também assistiam a cenas do lugar retratado. O envolvimento e as discussões seguintes foram promissoras. Percebi que a linguagem poética tinha agradado e, aproveitando o interesse demonstrado por eles, apresentei a proposta da Olimpíada, a fim de refletir com a turma sobre o tema central: “O lugar onde vivo”. Acrescentei que a partir daquele momento eles seriam memorialistas.

Como eu já estava entusiasmada com as possibilidades, não foi difícil contagiá-los. Concluí a aula inicial passando um vídeo sobre a 4º edição da Olimpíada, que foi decisivo para chamar a atenção até daqueles mais desacreditados. Lembro que, no final do vídeo, ouvi: "Professora, isso é difícil, mas eu quero fazer". Posso dizer que a largada inicial funcionou.

Trabalhei com eles os textos "Tia Hiena" e "Nonno Gattai", de Zélia Gattai. Por algum tempo a autora foi presença marcante em nossas aulas. Com ela passeamos por diferentes cenários e tempos. Descobrimos como pode ser divertido rememorar tempos antigos. Fizemos vários exercícios, identificamos marcas de autoria, exploramos uso dos verbos no pretérito e percebemos o jogo entre o passado e o presente. O áudio e os textos "Transplante de menina", de Tatiana Belinky, e "Parecida mas diferente", de Zélia Gattai, possibilitou-nos verificar a combinação entre narração e descrição.

E assim, prosseguíamos a cada aula uma nova descoberta. O encontro seguinte à realização das entrevistas foi bem marcante. Muitos queriam contar sobre seus achados impressionantes. Para meus meninos e meninas, a experiência foi uma viagem no tempo. Eles ficaram impactados com as informações dos antigos, as quais nem imaginavam. Adrielly disse: "Foi emocionante a conversa com minha vó, nunca tínhamos conversado assim, ela até chorou lembrando o passado. Foi bom saber com era diferente o jeito de tratar os pais". Walisson ressaltou: "Descobri coisas da minha família que nem sabia" e Ivina expressou seu espanto por saber que seu bairro até pouco tempo não existia. A reação deles me trouxe a sensação que estava no caminho certo. Orientei-os a selecionar o que era interessante contar e foram para casa com a missão de fazer o primeiro texto.

As impressões das primeiras aulas foram animadoras, no entanto, quando iniciamos as situações de escrita, as dificuldades surgiram avassaladoras. Poucos demonstravam interesse e esforço na realização das produções. Os textos eram pequenos, com poucas características do gênero. Os alunos resistiam ao processo de rescrita, sentiam-se incapazes e, por isso, perdiam o interesse. Observei que faziam confusão com biografia, diário e relato. Então, decidi explicar esses gêneros. Auxiliada por alguns slides e textos, mostrei o que os diferenciavam de memórias literárias. Para minha felicidade, no meio da aula, já era possível ouvir alguns cochichos dos alunos apontando os aspectos que faltara no seu próprio texto, abri um espaço para que compartilhassem suas conclusões e na aula seguinte deveriam refazer seus textos considerando as novas informações.

Os textos ficaram melhores, mas ainda faltava utilizar-se mais da linguagem literária. Os alunos não conseguiam compreender o tom poético das memórias literárias. Um momento preocupante, mas eu não podia desanimar. Era hora de agir. Comecei a utilizar intensamente a coletânea de textos. Deliciamo-nos com as leituras em dupla, rodas de conversas, a reprodução de textos por meio da pintura, as belíssimas apresentações teatrais e, para adquirir repertório sobre o nosso lugar, fizemos exposições de fotos antigas. Tendo essas gostosas atividades como pano de fundo, exploramos a atração do tema, a singularidade do lugar, as sensações de cheiro, gosto, emoções, a presença constante dos sentimentos e o uso das figuras de linguagem.

Tendo essas gostosas atividades como pano de fundo, exploramos a atração do tema, a singularidade do lugar, as sensações de cheiro, gosto, emoções, a presença constante dos sentimentos e o uso das figuras de linguagem

Foi uma boa escolha associar as oficinas com as atividades artísticas, era o detalhe que faltava. Lembro com grata satisfação que o texto "Um homem, o podão, a história", da aluna Jéssica da Silva Nascimento, finalista em 2014, atraiu até a atenção do Alex, um dos alunos que apresentava muitas dificuldades e pouquíssimo interesse por aulas de leitura. A imersão nos textos para as apresentações contribuiu para abrir-lhes os olhos. Gradativamente foi acontecendo o que eu chamei de momento "ah, eu entendi!". Eles compreenderam, enfim, que a linguagem devia falar mais alto que os fatos, o jeito como se escreve era mais importante do que o fato narrado.

Fiquei feliz com os resultados, pois agora eles estavam mais seguros para concluir seus próprios textos. Todas as características estudadas e muitas reescritas realizadas. Aproximava-se o momento de finalizar o primeiro percurso dessa nossa caminhada. Com destaque para o que tinham avançado e para as respostas às boas perguntas sobre o que ainda faltava, devolvi os textos para o retoque final. Porém antes do texto retornar para mim, ele deveria passar pelo exigente gosto dos primeiros leitores - os colegas da turma. Foi prazeroso vê-los com muita maturidade opinar sobre as características percebidas no texto do outro.

Porém antes do texto retornar para mim, ele deveria passar pelo exigente gosto dos primeiros leitores - os colegas da turma. Foi prazeroso vê-los com muita maturidade opinar sobre as características percebidas no texto do outro

Apesar dos protestos quanto às muitas reescritas, eles tomaram gosto. Logo que eu entrava na sala, já ouvia: "Professora, eu fiz, coloquei os sentimentos, olha se tá bom?". Isso já era um prêmio para mim. E tal como sonhei no início, eles despertaram, acreditaram que era possível.

Consegui a adesão de todos. Alguns alunos apresentaram apenas um pequeno texto, mas que para eles foi uma valiosa evolução. A esperança inicial virou realidade. Fui surpreendida com textos emocionantes e envolventes, que me tocaram pela singeleza e delicadeza. Assim, o resultado superou as expectativas: a minha aluna é semifinalista. Que honra! Assim como meus alunos, também experimentei meu momento "ah, eu entendi!", pois entendi um novo jeito de ensinar e uma nova forma de avaliar. E agora agradecida a Deus e com o coração jubiloso, encerro esse relato crente de que valerá a pena continuar aprendendo com esses estudantes.


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