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Um apólogo às avessas

Um apólogo às avessas

Assunto: null
Autor(a): Antônia Alexandre Barbosa

EEFM Antônio Mota

Antonina do Norte/CE

 

Era uma vez uma professora cansada de tanto experimentar formas de ensinar seus alunos a escreverem e não obter resultados. Ela, agulha resistente e comprometida com o trabalho de tecelã, não de tecidos comuns, mas do tecido libertador da escrita, bem que insistia, batalhando contra os obstáculos que afastavam seus meninos e meninas, linhas preciosas, do direito de usufruírem do poder emancipador de quem detém a força da pena. E eis que surge a Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro: uma nova oportunidade.

Lá se vão anos e diferentes edições, contudo não mais me desliguei dessa contagiante proposta. E valeu a pena. Se fomos vencedores, meus alunos e eu? Sim, mesmo sem nunca termos alcançado nenhuma premiação, pois a Olimpíada deu-lhes mais que caneta e papel, deu-lhes o direito de ser gente.

Em todos esses anos, somente um aluno da escola, orientado por uma colega, passara à fase semifinal, na edição 2012; em 2014 ninguém fora classificado. Sentia um clima de “para quê?”. E foi nesse clima de pouca motivação, por parte de muitos alunos e até de professores, que iniciamos 2016 falando de Olimpíada - no ano das "nossas Olimpíadas" - logo no primeiro dia letivo. Com incredulidade pensávamos se a Olimpíada de Língua Portuguesa seria tão motivadora e provocaria tantas polêmicas quanto as Olimpíadas do Rio.

Decidi trabalhar com crônica e artigo de opinião, entendendo o último como mais desafiador. Apresentar e defender opiniões em situações formais é uma prática rejeitada entre os alunos de nossa escola, embora eu saiba o quanto eles se empolgam para defender seus pontos de vista em situações cotidianas. Por isso, nosso trabalho inicial era convencer aqueles meninos de suas capacidades em apresentar ideias. Voltando à nossa analogia: era o risco inicial na peça de tecido.

Naquele dia, para introduzir a Oficina 1, utilizei um fato ocorrido na escola semelhante ao relatado no texto motivador. Aproveitei a ocasião para discuti-lo com os estudantes. Para minha surpresa, precisei coordenar a turma de modo que todos pudessem se expressar. Aquilo não era um fato comum, o normal era ver alunos distraídos e sonolentos em sala de aula. Naquele dia, porém, estavam muito acordados. Os novelos estavam em reboliço. E foi aí que propus desenvolvermos uma proposta didática em que eles pudessem externar todas as suas potencialidades argumentativas, sobretudo no que diz respeito às questões locais. Recebi um sonoro “sim” como resposta.

E foi aí que propus desenvolvermos uma proposta didática em que eles pudessem externar todas as suas potencialidades argumentativas, sobretudo no que diz respeito às questões locais. Recebi um sonoro “sim” como resposta

O desafio posterior foi planejar oficinas de tal modo instigadoras que pudessem manter aquele interesse inicial. Mas uma agulha só não tece bem, é preciso muitas agulhas: uma que puxe a linha, outra que alinhave, aquela que arremate. Vale chamar o alfinete, a tesoura de pontas e outras especialidades para coser uma bela peça. E foi em parceria com os professores de Língua Portuguesa e de outras áreas que fomos, passo a passo, preparando o caminho que daria asas aos nossos delicados fios de seda, de tal modo que eles pudessem se inserir nos tecidos sociais, como partícipes efetivos da história do lugar. Oficina a oficina fomos costurando as ideias, perfurando os tecidos, dando voz, polemizando, olhando ao redor, buscando os porquês e apontando os caminhos da transformação social.

Oficina a oficina fomos costurando as ideias, perfurando os tecidos, dando voz, polemizando, olhando ao redor, buscando os porquês e apontando os caminhos da transformação social

Um momento marcante foi o estudo dos textos sobre eleições, política e corrupção, pois eles estavam totalmente antenados com o momento vivido na sociedade brasileira e local. Porém, a etapa que mais impactou a turma foi o debate, proposto na Oficina 4. O tema escolhido foi a tolerância e o respeito aos homossexuais, pois no lugar onde vivemos muitos preconceitos e tabus ainda perduram. Assisti orgulhosa a lição de cidadania dada por meus alunos.

Como toda agulha que se preza, lá ia eu conduzindo aquele emaranhado de linhas nervosas e ansiosas por tecer o tapete da justiça e da igualdade. E, entre réplicas e tréplicas, os debatedores puderam aprender que o importante não é a unanimidade, mas o respeito à pluralidade. Depois desses dias, nem eles nem eu fomos mais os mesmos.

Era chegado o momento de tornar aqueles ávidos debatedores em articulistas. As linhas, já fora de seus carreteis, precisavam deixar a agulha e seguir ao baile, livres e confiantes. Ouvi as velhas expressões: "Mas professora, é obrigado escrever?", ou ainda "Eu mesmo não sei escrever nada disso". Confesso que naquele momento minha confiança foi abalada, era preciso não desencorajar e, superando meu próprio desânimo, pensei formas de ajudá-los. Pedi que pesquisassem na comunidade assuntos polêmicos e pontos de vista sobre os mesmos, e comprometi-me a também pesquisar. Enumerei com eles as questões polêmicas já tratadas nas oficinas, assim como as que foram pesquisadas, e desafiei-os: “Escolham a que mais interessa, opinem, defendam, deem voz às pessoas que ouvimos na pesquisa, concordem com elas, discordem delas, interfiram na história de seu lugar”.

“Escolham a que mais interessa, opinem, defendam, deem voz às pessoas que ouvimos na pesquisa, concordem com elas, discordem delas, interfiram na história de seu lugar”

Embora inseguros, os alunos atenderam a proposta. As primeiras linhas ainda eram tortas, desajeitadas. Foi uma etapa difícil, pois exigiu tempo e paciência. Alguns textos desanimavam a leitura, mas superei meus preconceitos sobre boa escrita e apreciei aqueles "artigos" com o olhar de tecelã. Era preciso descoser alguns pontos, reforçar outros, apresentar modelos para em seguida pedir-lhes que se libertassem e produzissem peças exclusivas. Para cada aluno, escrevi uma carta, elencando seus acertos e apontando o que deveriam refazer.

Após idas e vindas, ali estavam os artigos que viraram acervo das bibliotecas escolares locais. E uma notícia quebra a rotina. A linha rompeu o tecido e se lançou para bailar em outros salões. Após tantas experiências vividas em mais de trinta anos de magistério, tenho a honra de inverter a direção e seguir essa linha, nada ordinária, representante legítima de um rol de carreteis, rumo ao baile dos portadores da palavra escrita.

Parece sonho, mas agora desfilamos nas redes sociais desse cantinho do sertão do Ceará, um pé nos Inhamuns, outro no Cariri, na cidade de Antonina do Norte, lugar de gente de fé e devoção ao padroeiro Santo Antônio. Elizabete, rainha absoluta da escrita, e eu, subalterna desse ofício de ensinar. Ela a linha, eu a agulha.

Machado estava errado naquele apólogo. Não me cansei em abrir caminhos para tantos novelos brilhantes, escondidos no fundo da cesta de costura. É uma alegria abrir caminho para esses articulistas. E aqui ainda estou para aprimorar esse tecido. Tudo porque nos permitimos o direito de acreditar que nossos destinos podem ser traçados pelas penas de meninos e meninas que ousam olhar ao redor, pensar e registrar suas impressões, apontando horizontes, pois descobriram-se sujeitos de suas histórias. Contei essa trajetória aos meus colegas professores, agulhas da mesma cesta, que me disseram, afirmando com a cabeça:

- Também nós temos a alegria de servir de agulha a muita linha extraordinária!


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