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Uma viagem para além-mar

Uma viagem para além-mar

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Autor(a): Ivaneide Gonçalves de Brito
08 Março 2017

EEFM Raimundo Moacir Alencar Mota

Assaré/CE

 

Ao iniciar o ano letivo, estava decidida minha próxima viagem. Embarcaríamos, eu e mais 30 tripulantes, rumo ao gênero memórias literárias. O desafio era grande e eu precisava convencer os meus marinheiros a viajar para além-mar.

Ao apresentar a Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro como a grande embarcação que nos levaria a outros mundos da literatura, senti uma forte emoção tomar conta daqueles que seriam os futuros navegantes de mares nunca dantes navegados - o das memórias. Houve quem não quisesse embarcar, mas não poderia partir deixando alguns para trás, e consegui convencê-los a conhecer o fantástico mundo das memórias literárias. Nesse lugar, descobriríamos coisas inéditas. Cada oficina trabalhada era uma nova parada no cais. Pela primeira vez, estávamos num cruzeiro literário sem sair do chão da sala de aula.

A nossa primeira parada foi no porto "Naquele tempo". Muitas reminiscências foram resgatadas nessa primeira oficina. Cada um tinha a tarefa de trazer para a sala de aula fotografias e objetos antigos que fizeram parte da vida dos seus avós e bisavós. No dia combinado, pequenos barcos surgiam de todas as direções - chegavam carregados de lembranças para serem partilhadas com todos dali. Muitos depoimentos levaram meus pequenos homens às lágrimas. Não havia como não chorar ao ouvir a doce Denise relatar a saudade de seu avô e da vida nos engenhos, ou ainda ao sentir o pequeno Bruno tremer ao lembrar-se da avó, contando sobre a comoção que teve quando andou em um automóvel pela primeira vez - era um caminhão do tipo que hoje definimos como pau-de-arara. Os depoimentos, do primeiro ao último, refletiam uma onda de sentimentos vivenciados por aquela turma de oitavo ano.

Contudo, a viagem não pararia ali. Outros mares precisavam ser descobertos. Estávamos, agora, no cais da oficina “Vamos combinar?”.Antes de desembarcarmos, compartilhamos a leitura de um trechinho de “Nas ruas do Brás", de Drauzio Varella. A cada leitura, mil e uma emoções. Depois, fomos ao planejamento das próximas etapas e, assim, continuamos a nossa viagem. Rapidamente passamos para o porto seguinte: “Semelhantes, porém diferentes”, para conhecermos gêneros textuais próximos ao de memórias literárias.

Na próxima aula, já estávamos escrevendo as "Primeiras linhas" dessa viagem. E, para isso, precisaríamos relembrar a conversa feita com os avós, na primeira oficina. Todos tinham a mesma missão: colocar-se no lugar do avô ou da avó a fim de escrever suas memórias. Não presumia que meus tripulantes desempenhariam tão bem essa função, visto que o gênero memórias não é tão comum na sala de aula. De todos os textos, o fragmento que marcou aquele momento foi de autoria da introspectiva Ana Júlia ao escrever "Tenho saudade de muita coisa, principalmente das pessoas. Hoje, elas não sabem que eu existo, pois vivem nesse tal mundo virtual e eu não estou nesse mundo". O texto levantou a discussão, o debate e, sobretudo, uma geral sensibilização da turma sobre os valores humanos. Não imaginávamos nos primeiros dias que viveríamos momentos tão importantes para nossas vidas.

Nas semanas seguintes, passávamos por novos portos e, consequentemente, novas oficinas. Desse modo, seguimos a longa viagem. Muitas foram as paradas e, no 16º cais, ancoramos nosso navio. O texto "Transplante de menina", de Tatiana Belinky, foi crucial para a compreensão do gênero. Cada detalhe de cada uma das oficinas foi trabalhado para que a construção do nosso texto pudesse ser a melhor possível. A nossa viagem não podia terminar nos "Últimos retoques", nós queríamos ir muito além. Queríamos chegar à capital do país, no porto da Etapa Nacional. Sabíamos que a cada embarcação tomada, um desafio maior nos esperava. Mas não tínhamos medo, o nosso propósito era um só: chegar a final, ainda que apenas um de nossos marinheiros fizesse isso.

Ao chegar o momento da entrevista, era a hora de escolher qual dos nossos avós iria para a sala de aula partilhar suas memórias. Unanimemente, a turma gritou em uníssono: "O vô da Carol". E assim aconteceu. Contatamos o senhor José Romeiro de Carvalho Neto, que preferiu nos receber em sua casa e, com ele, fizemos uma nova viagem, que tomou muitas direções. Conhecemos o Assaré de ontem, o Assaré que tanto figura nas poesias do imortal Patativa e que, hoje, infelizmente, está apenas nos versos deste poeta, na memória de alguns e nas fotografias amareladas pelo tempo.

Ao voltar para a sala de aula, revivemos os assuntos abordados por ele e decidimos quais constariam em nosso texto. Todavia, precisávamos ainda aprender a retextualizar, para que transformássemos a entrevista em um texto de memórias literárias. Assim, navegamos mais um pouquinho até que chegou a hora da produção coletiva do texto. Como deu trabalho! Cada um tinha uma ideia, cada um queria dar sua opinião, porém o texto saiu e, embora às avessas, tínhamos em mãos o texto de memórias. Depois de ajustes, ajustes e mais ajustes, chegou a hora de cada um produzir o seu texto, diferente daquele coletivo. Os meus tripulantes tinham que dar sua marca pessoal no texto. Nesse momento, foi dada a largada e eles saíram em missão.

Cada um tomou seu barquinho e procurou nas águas já conhecidas - as oficinas trabalhadas - o repertório de palavras que comporiam suas memórias e os recursos linguísticos e estruturais que permitiriam a adequação do texto ao gênero.

No decorrer da semana, cada um dos barcos foi ancorando no cais da sala de aula para que o texto fosse revisto e, por conseguinte, reescrito. E, entre todos, não tinha como não escolher o de Alice, que fez do seu texto um país das maravilhas, para representar a turma e disputar cada uma das etapas. Intitulado "Águas passadas", o texto de memórias revivia, nas águas do Banguê, a história das famílias assareenses no século passado. Com maestria, ela trouxe para o presente a nossa história e, mesmo fazendo profundos mergulhos nas memórias de nossa gente, a sua embarcação não naufragou - pelo contrário, sobressaiu às demais e conquistou o mérito de estar na semifinal.

No entanto, a maior das missões ainda está por vir, a de passar por todas as etapas e chegar à final. Resta-nos, agora, esperar o direcionamento dos ventos para sabermos se a nossa embarcação chegará ao cais tão esperado: a Etapa Nacional.


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