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Vencendo resistências

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Suzana Mouta Rodrigues de Lemos
Escola Estadual Olavo Brasil Filho
Boa Vista - Roraima

“Poesia é brincar com as palavras”, assim disse o poeta. E foi com essa verdade que inicie meus trabalhos na Olimpíada de Língua Portuguesa. E foi com essa verdade que descobri dois mundos nas minhas turminhas de 5ª série da Escola Estadual Olavo Brasil Filho, onde leciono: o mundo dos que amavam a poesia, e o mundo dos que não arriscavam nem dizer o que sentiam ao ler ou escrever um poema, pois tinham inteira aversão.

Essa jornada em que mergulhamos, quando decidimos participar deste concurso, nos fez compreender que a premiação é muito maior do que bens materiais. O resultado final é algo de encher os olhos e inflamar o peito de orgulho.

Tudo começou de um modo, digamos, “cru”, pois lancei a proposta para montarmos um Mural Poético, onde os alunos trariam, de casa ou visita à biblioteca da escola, poesias que gostassem e colocariam no cantinho que criaríamos para elas, depois de lerem e explicarem porque escolheram tal poesia. A aceitação não foi unânime. Alguns alunos diziam que aquilo era “caretice”, “bobagem”. Os meninos, de algumas turmas, consideravam uma “atividade de mariquinhas”. Fiquei perplexa com tamanha rejeição. Decidi, então, criar novas estratégias, selecionando alguns dos alunos, principalmente aqueles que percebi terem aversão à poesia, e delegando funções: uns iriam confeccionar o mural, outros iriam escutar, com atenção, as poesias lidas, fazer anotações e manifestar suas conclusões (se gostou ou não, e o porquê). Foi um trabalho difícil e demorado, pois os pais, e às vezes a própria escola, cobravam o “conteúdo” e não conseguiam perceber a riqueza de conhecimentos que os alunos iam adquirindo ao participarem de uma atividade como a que lhes foi proposta. Ao final desta etapa, todas as turmas tinham os seus murais e, alguns alunos já conseguiam ensaiar declamações de suas poesias preferidas. Essa mudança de comportamento abriu-me as portas para a nossa segunda missão, também chamada de Oficina.

Os alunos, de um modo geral, já estavam mais familiarizados com o mundo da poesia, já não tinham tanto receio de “brincar com as palavras”. Então, lhes propus que fizessem uma Coletânea de Poesias, onde cada um montaria sua obra, selecionando seus poemas prediletos, sem esquecer a bibliografia. Ao ensaiar os passos que deveriam seguir, um aluno perguntou o que colocaria na sua bibliografia caso ele mesmo escrevesse a poesia. Respondi que ele deveria assinar o próprio nome, já que a produção era sua.

Assim, percebi que não deveria limitar o potencial de meus alunos e transformei a Produção da Coletânea em algo bem “aberto”, onde eles poderiam escrever as poesias de seus autores, mas onde também poderiam ser os autores de suas poesias. Nesta segunda Oficina, alguns alunos não se dedicaram e foram diminuindo o ritmo, porém, um número significativo de alunos, mostrava, a cada dia, entusiasmo ao descobrir o seu potencial, embora houvesse alguns atropelos pelo caminho: o pai de um aluno proibiu o aluno de fazer o trabalho, pois disse à criança que “aquilo era trabalho para meninas”, e, eu, a professora, “estava estimulando a homossexualidade nos meninos. Levei o assunto à coordenação pedagógica, que convidou o pai a visitar a escola e a conhecer mais de perto o trabalho realizado pela professora de seu filho, porém, ele nunca apareceu e , tempos depois, a criança foi transferida para outra escola.

A Coletânea foi um sucesso. No período de trinta dias, todos os alunos tinham suas obras prontas, mesmo que de forma simples, já que não contamos com os recursos modernos que a informática disponibiliza. As obras foram expostas e detectei que muitos alunos criaram suas poesias, que, por sinal, estavam muito boas.

Para dar início à terceira etapa, preparei algumas aulas sobre o estado de Roraima. Nesta fase contei com a ajuda dos professores de geografia e história, para juntos, montarmos aulas interdisciplinares. Então, na Olimpíada de Língua Portuguesa, os alunos foram conhecendo realmente sobre o lugar onde vivem.

Nosso estado de Roraima, pouco conhecido pelo Brasil, é extenso e rico em beleza naturais, que são retratadas nas mais variadas formas por nossos artistas. Foi assim que iniciei as atividades com as músicas dos cantores de nossa terra, levando-as para a sala e trabalhando com elas, promovendo assim, a aproximação com os alunos.

“Cidade do campo”, música erudita escrito pelo poeta Eliakin Rufino e interpretada pelo cantor roraimense Allison Christian. Esse foi o texto que despertou nos alunos um pouco do sentimento ufanista. Então, resolvemos criar uma tarde cultural na nossa escola, com apresentações de estudos e pesquisas sobre Roraima, exposições de textos e poesias de escritores roraimenses, tendo como encerramento a apresentação do cantor Allison Christian, que transformou a platéia num grande coral cantando “Cidade do campo”.

Após três etapas, percebi que já poderia lançar para os alunos, a proposta de criar uma poesia sobre o “lugar onde se vive”. Desta vez, não escutei muita rejeição, ao contrário, ainda entusiasmados, os alunos aceitaram o desafio, e depois disso, as poesias foram surgindo. Eram textos incríveis, mas em se tratando de um concurso, alguns seriam excluídos e só um seria selecionado. Foi um longo caminho até a Comissão Julgadora da escola escolher a poesia “Roraima: Mãe-dos-Ventos” para representar a nossa escola na fase municipal. A partir daí, as vitórias foram acontecendo.

Creio que, embora meu aluno venha vencendo etapa por etapa, a maior vitória é ver seus colegas torcendo por ele e perceber que esses mesmos alunos tiveram mudança comportamental bastante notável depois de todo o caminho percorrido nesses meses de Olimpíada de Língua Portuguesa. Agora, tenho certeza que meus alunos, e eu também, entendemos melhor o que o poeta José Paulo Paes quis dizer com “Poesia é brincar com as palavras”.


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