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Com base em anotações de diário e memórias de trocas com colegas professores, é possível decidir sobre o foco da reflexão que, entre tantas no percurso, o professor-autor-formador percebeu como especialmente relevante para compartilhar com colegas professores-autores. O que motivou essa reflexão? O que nas suas ações bem particulares pode ser especialmente inspirador para o trabalho dos colegas? (Schlatter; Garcez, 2017, p. 16)

Neste relato descrevo brevemente os passos que Michele Mendes Rocha de Oliveira e eu trilhamos para a escrita de seu relato de prática “Clássicos: uma ponte entre o passado e o presente”. Diante da tarefa inicial proposta – escrita de relato por Michele e comentário meu sobre o relato –, decidimos construir uma interlocução de colegas professoras para percorrer as etapas de sistematização e reflexão sobre o vivido, em uma primeira versão do texto, até a decisão sobre o destaque de uma reflexão percebida pela autora como especialmente relevante nessa experiência e, por isso, com potencial para formar e inspirar colegas leitores e leitoras.

A versão inicial do relato apresentou o percurso do trabalho realizado e, desde o título, já buscava um recorte que focalizasse uma reflexão sobre um dos aspectos tratados: a relação dos conteúdos curriculares com a vida dos alunos e das alunas. No decorrer do texto, no entanto, a apresentação das etapas da sequência didática e das características do contexto de ensino levantou outras questões que poderiam se tornar relevantes e que demandaram novas decisões sobre o recorte. Na leitura dessa versão, fiz uma série de comentários como leitora que quer saber mais, opina e propõe alguns focos para a reescrita a partir de aspectos que foram me chamando a atenção e sobre os quais gostaria de ler mais. Combinamos que conversaríamos após essa etapa.

Nesse primeiro encontro virtual, conversamos a partir dos meus comentários. Conheci mais sobre os estranhamentos iniciais da turma em relação à leitura de textos “antigos”, aprendi como, em um contexto de poucos recursos, Michele foi buscando ideias e soluções locais e possíveis para propor um ensino que fizesse sentido para aquele grupo, compreendi como desenvolveu determinadas etapas da sequência didática, como os alunos e as alunas fizeram as avaliações e as reescritas, o que mais estudaram e como foram se tornando protagonistas de suas aprendizagens. Cada uma dessas questões poderia ser foco de um relato diferente e, aos poucos, vimos que, nesse percurso específico, o que se tornou mais relevante para Michele – e a instigou por um semestre – foi como motivar a turma para a leitura de clássicos. Estava decidido o foco da reflexão para este relato e a orientação para a reescrita.

Após esse encontro, Michele retomou os pontos que conversamos para reescrever o texto. Na leitura da segunda versão, fiz ainda alguns comentários e sugestões, levando em conta, principalmente, a abrangência do tema e as informações necessárias para dar concretude à reflexão proposta. Conversamos novamente para acrescentar alguns detalhes e descartar outros. Nesse sentido, é importante frisar que as sugestões de colegas leitores e leitoras serão consideradas e avaliadas pela autora com base na reflexão que decidiu propor em seu relato: ela saberá selecionar o que é relevante para narrar as particularidades de sua prática autoral contextualizando-as no tempo-espaço em que as vivenciou.

Em nova conversa com Michele para concluir o nosso percurso da escrita, ela me relatou que escreveu o seu terceiro relato de prática e que neste conseguiu fazer o que queria já ter feito no primeiro: selecionar um aspecto que considerasse mais relevante para desenvolver uma reflexão sobre o que aprendeu e agora pode ensinar. Ressaltou a importância de mostrar o relato para uma colega, porque esta poderá perceber aspectos que, para outros professores como ela, seriam importantes valorizar. A interlocução possibilita rever a narrativa do vivido e, pelo olhar do outro, distanciar-se para decidir o que priorizar neste momento e o que guardar para outros relatos. E nessa nossa trajetória conjunta reafirmo uma convicção: a prática vem com a prática, e com muita conversa. Que possamos nos encontrar mais, trocar ideias, pensar junto e reinventar nossos caminhos para uma educação que faça sentido e que gere aprendizagem.

Veja, a seguir, a versão inicial do relato “Clássicos: uma ponte entre o passado e o presente”, de Michele Mendes Rocha de Oliveira, comentado por Margarete Schlatter. Clique ou passe o cursor sobre as frases ou palavras em destaque para ter acesso aos comentários.

CLÁSSICOS: UMA PONTE ENTRE O PASSADO E O PRESENTE[M1] Comentário: Muito bom o título! Sintetiza bem o projeto desenvolvido e sinaliza possível foco do relato.

Michele Mendes Rocha de Oliveira[M2] Comentário: Michele, Que aulas legais! Dá para sentir que os alunos se engajaram e aprenderam muuuuuito! Parabéns pelo trabalho!
Relato: está muito legal e apresenta todo o percurso do trabalho: a) explicita o desafio inicial e os desafios ao longo da trajetória, explicando de que modo a ideia da SD, as etapas desenvolvidas e as decisões tomadas responderam a esses desafios; b) descreve o trabalho realizado e as aprendizagens em relação às metas principais: leitura de contos machadianos, escrita de roteiros (adaptação de contos para teatro), reflexão linguística – todas as etapas justificadas pela participação social pretendida (apresentação de peças teatrais para a comunidade); c) descreve momentos marcantes do projeto e soluções conjuntas, trazendo as vozes dos participantes; d) conclui salientando a própria aprendizagem: o engajamento e a aprendizagem acontecem quando se relaciona os conteúdos com a vida dos alunos, se possibilita o diálogo, e se promove o protagonismo, a (inter)ação e o uso significativo da linguagem.
Comentários: ao longo do texto, fiz comentários como leitora que quer saber mais, opina e propõe alguns focos para a reescrita. De todo o percurso, a ideia seria escolher uma reflexão que, neste relato, queres salientar. Podemos conversar sobre isso no nosso encontro, e aí vês o que gostarias de destacar.

A ponte

Como é que faz pra lavar a roupa?
Vai na fonte, vai na fonte
Como é que faz pra raiar o dia?
No horizonte, no horizonte
Este lugar é uma maravilha
Mas como é que faz pra sair da ilha?
Pela ponte, pela ponte
Como é que faz pra sair da ilha?
Pela ponte, pela ponte
A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente pra atravessar
Caminhar sobre as águas desse momento

Lenine
 

Sempre acreditei no poder da leitura, sobretudo a literária e, por isso, muitas aulas iniciavam com a declamação de um poema ou uma crônica. Os alunos gostavam bastante, de modo que, quando eu não levava eles pediam "professora, na próxima aula, traz de novo algum texto, gostamos tanto!"[M3] Comentário: Legal a contextualização (e a relação com a epígrafe): dá uma ideia do que valorizas e da aula que buscas criar.. Como estavam acostumados com a leitura de crônicas, pensei que tudo ocorreria bem quando chegássemos a trabalhar textos maiores no Romantismo e no Realismo. Contudo, foi exatamente o contrário, enfrentei um grande desafio com essas turmas do 2º ano quando começamos os textos em prosa mais longos. Percebi isso, na primeira aula, em que convidei-os a ler em sala o livro “A moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo e, ao final da aula, um aluno disse não ter gostado muito da leitura devido à linguagem que, segundo ele, era “difícil” e a história parecia muito “antiga”. Disse ainda que, se eu levasse para a sala de aula algo atual, com uma linguagem mais “leve” seria melhor[M4] Comentário: Identificação do desafio: linguagem difícil, história antiga e pouca relação com a vida dos alunos importância de estar atenta às reações dos alunos e perceber a necessidade de pontes..

Deu o sinal... fim da aula... fim da aula, porém início de minhas elucubrações de educadora. Tudo porque aquela fala deixou-me inquieta por muitos dias, queria fazer algo para chamar a atenção para o texto literário, mostrar que aquela história, que para eles era piegas, era parecida com as paixões e amores da adolescência que tanto experimentavam, com diferenças, é claro, quanto ao vocabulário e aos veículos utilizados para expressar os sentimentos[M5] Comentário: O que estás entendendo por “veículo”?
 
[M6] Comentário: Percepção de que é necessário relacionar o texto lido e a vida dos alunos.
. Estavam gostando de ler em aula, mas dos textos não muito, pois estranhavam a linguagem e, para a compreensão de alguns vocábulos, recorríamos ao dicionário. Ler em sala, com eles, já estava sendo algo novo e, inicialmente, achava que isso seria suficiente para chamar a atenção para o universo do texto literário, mas a reação daquele e de outros alunos indicavam o contrário. Essa atividade de leitura em voz alta de vários fragmentos de um clássico em aula não foi algo comum na vida escolar deles, conforme o que me relatavam, e, por isso, acreditava que estava fazendo algo interessante. Mas... como sabemos, muitas vezes o nosso planejamento quando executado acaba não atingindo nosso aluno. Isso nos deixa frustrados e sem rumo. E foi justamente isso que aconteceu comigo[M7] Comentário: A partir da observação das reações dos alunos, percepção de que é necessário replanejar..

Na aula seguinte[M8] Comentário: Neste parágrafo e no seguinte, relatas as tentativas e o processo de reflexão gerado pela necessidade de replanejamento. Muito legal ver que leva tempo, exige lidar com certa frustração, buscar alternativas, e que demanda escuta atenta sempre!, entre momentos de leitura e de apresentação de impressões deles, fiz algumas perguntas no intuito de mostrar que a amizade de Augusto, Leopoldo, Filipe e Fabrício também poderia ser encontrada nos dias atuais, assim como o amor de Augusto e Carolina. Foi interessante ver que eles percebiam semelhanças, diferenças e faziam relações. Nas semanas seguintes, aquela fala do aluno e as relações que conseguiram fazer na outra aula continuavam reverberando em mim, algo havia mudado, uma venda estava prestes a cair dos meus olhos. Porém, ao mesmo tempo que sentia que estava perto de conseguir envolvê-los pelo universo da leitura, como na brincadeira do “quente, morno ou frio”... pensava que estava “morno”... e sentia o medo de que todas as atividades de leitura e análise dos livros, já planejadas, não dariam certo. Isso acabou me travando um pouco.

No semestre seguinte, ainda não tinha conseguido decidir o que fazer para atingir meus pupilos. Estava, ainda que pouco satisfeita com a adesão parcial deles, realizando as atividades que já havia planejado. Iniciava o Realismo e as leituras de alguns contos de Machado de Assis, mas algo dentro de mim dizia que ainda estava “morno” e eu queria encontrar (quente!) onde estava escondido o meu tesouro. Algumas ações que colocava em prática me indicavam que estava próxima ao objetivo (a adesão verdadeira deles – acho que é o que almeja todo professor!): a leitura em sala dos contos originais, a contextualização social, histórica e cultural da época e a análise linguística dos recursos utilizados por Machado. Contudo, foi a intervenção de uma aluna que me fez encontrar o caminho que me levaria ao interesse deles[M9] Comentário: Novamente salientas a importância da escuta atenta para encontrar caminhos para a aprendizagem possível foco do relato.: “Professora, imagina só se essa história tivesse acontecido aqui no Amazonas, em Tabatinga, hein? Em vez de um navio, ia ser uma canoa (risos)”. Bingo! Havia encontrado o caminho das pedras! Quente, Quente, Quente! A partir dessa fala descontraída, entendi que, se fizesse com que os personagens machadianos pudessem ser transportados para uma Amazônia do século XXI, a adesão deles às atividades que envolviam os clássicos seria outra.

Planejei, então, uma sequência didática[M10] Comentário: Apresentação do replanejamento: sequência didática. com o gênero roteiro de texto teatral[M11] Comentário: Talvez revisar nome do gênero: roteiro para/de peça teatral?, inserindo nela as ações que já vinha realizando (leitura dos originais, contextualização e análise linguística). A partir desse gênero, poderia trabalhar ainda[M12] Comentário: “Ainda” porque estás pressupondo aqui “leitura de textos literários, contextualização e análise linguística”? Ou aqui estás tornando mais explícito o que seria relevante em termos de análise linguística?: as variações linguísticas, as características do conto e do roteiro de texto teatral, o discurso direto e indireto, o uso dos tempos verbais, o uso dos adjetivos na composição dos personagens e as marcas da oralidade no texto escrito, além das características estilísticas e temáticas do Realismo e de Machado de Assis nos textos lidos. O trabalho com esses elementos da língua seriam a base para a retextualização do conto para o roteiro de texto teatral e, por meio dela, poderíamos fazer adaptações das obras, segundo a nossa realidade local e o universo jovem do século XXI. A fim de que a produção não fosse realizada apenas para a avaliação, planejei um momento de socialização: uma encenação das peças teatrais, em que eles tivessem um interlocutor real, a comunidade acadêmica.

Essa ideia de dramatização mexeu muito com minhas quatro turmas[M13] Comentário: Aqui trazes algumas reações dos alunos em relação às mudanças de planejamento feitas – segues sempre atenta a eles e a descobrir e incentivar suas potencialidades., principalmente com as dos Cursos Técnicos na modalidade Integrada em Agropecuária e em Meio Ambiente. Isso porque, sempre que havia gincanas e/ou atividades de exposição de trabalhos, acontecia a comparação com os outros dois cursos, também Técnicos Integrados, em Administração e em Informática. Os alunos de Agropecuária e de Meio Ambiente sentiam-se desmotivados, porque pensavam “a gente sempre perde e passa vergonha” e, nas atividades que envolviam humanas e linguagens, esse sentimento de inferioridade frente às duas outras turmas era bem maior. Isso foi, a partir de então, uma injeção de ânimo, precisava conduzi-los a entender não apenas a relevância da leitura de textos clássicos[M14] Comentário: O que entendes por “entender a relevância” dessa leitura? Será que seria ter uma experiência significativa com a leitura dos clássicos?, mas também a perceber que eram capazes de produzir e apresentar algo muito interessante para a comunidade acadêmica.

Imbuída dessas duas missões, dei o “start” à minha sequencia didática[M15] Comentário: Neste parágrafo, apresentas a SD. Seriam “metas pedagógicas”? Talvez a grande missão é fazer um trabalho que faça sentido para os alunos, não? E isso implica em compreender e buscar as metas e objetivos pedagógicos que podem ser relevantes para promover a aprendizagem. Me parece que é este o foco do teu relato: a escuta atenta gera e justifica a necessidade de replanejar o ensino de modo que os conteúdos façam sentido para os alunos.. Na primeira etapa, inicialmente foram lidos alguns contos de Machado de Assis: Teoria do medalhão, O espelho, A cartomante, A igreja do diabo, Noite de almirante, O enfermeiro, Conto de escola, Uns braços, Pai contra mãe, Missa do galo, O caso da vara e O Alienista. Fizemos a leitura[M16] Comentário: Como foi feita a leitura? Em conjunto, oralmente? Com paradas para discutir? Em grupos? Com atividades específicas? Todos leram todos? dos textos mais curtos em aula, enquanto que dos mais longos, devido ao pouco tempo, acabamos lendo alguns fragmentos na sala e o texto na íntegra em casa. Nessa etapa, ainda conversei com os alunos sobre o que já conheciam acerca de um texto teatral, se já assistiram a uma peça, se já tinham lido algum roteiro de texto teatral. Pouquíssimos alunos disseram ter assistido a uma peça e os que haviam visto era na escola. A maioria dos alunos entendia o roteiro apenas como a organização do texto original em falas das personagens. Essa impressão da relação entre o texto original e o roteiro de texto teatral foi explicitada quando perguntei se eles achavam que ocorreria alguma mudança se passássemos o texto original para o roteiro. Depois, nos debruçamos em conhecer diversos roteiros de peças teatrais[M17] Comentário: Algum exemplo? e fizemos a leitura em voz alta, de maneira que os próprios alunos faziam o papel de personagens. Em seguida, produzimos coletivamente no quadro um fragmento de roteiro de texto.

A segunda etapa foi o momento de conhecermos as características do gênero roteiro de texto teatral e também as características do Realismo e de Machado de Assis. Após conhecerem mais profundamente o gênero[M18] Comentário: Como foi feito este trabalho com o gênero?, fizemos uma tentativa de encenação do texto produzido pelas turmas. Com essa atividade, puderam perceber que faltavam algumas informações nas rubricas para que os atores pudessem dramatizar e deram bastante importância para a marcação cênica[M19] Comentário: Legal ver como a interlocução despertou a necessidade de compreender e usar as convenções da escrita..

Na terceira etapa, cada turma foi convidada a escolher um dos textos lidos para produzir um roteiro de texto teatral, que seria encenado ao final das atividades[M20] Comentário: Muito legal o exercício da autonomia e protagonismo: poder escolher de um repertório que construíram.. Os textos escolhidos foram: O Alienista, pela turma de Informática; O Enfermeiro, adaptado pelos alunos de Meio Ambiente; Missa do Galo, sob responsabilidade da Administração; e Noite de Almirante, a cargo da Agropecuária. Após a escolha, o trabalho com as turmas seguiu a partir dos textos. Para a construção, por exemplo, do cenário, da indicação das roupas, das falas, elementos que deveriam ser apresentados nas rubricas, cada turma deu o tom e o toque que quis ao texto.

Fiquei bastante impressionada em ver que, ao longo das aulas de produção do roteiro, as turmas de Agropecuária e de Meio Ambiente iam ganhando força, fôlego e, sobretudo, confiança[M21] Comentário: Segues na escuta atenta :-) Envolvimento dos alunos com todas as etapas do projeto.. Estavam gostando de ver que as histórias machadianas poderiam estar “escondidas” no cotidiano deles, na Amazônia. Além disso, alguns “conteúdos gramaticais” foram surgindo conforme a necessidade, o que tornava a aula de português significativa. Ficaram tão animados e estavam tão envolvidos com o roteiro que produziram paródias para iniciar e finalizar algumas cenas. Muitos deles gostariam de atuar e, por isso, como tínhamos mais atores do que papéis, eles sugeriram que fizéssemos um concurso interno para a seleção de atores. Então, em uma aula, os candidatos receberam um fragmento de roteiro de texto teatral e encenaram... esse momento foi muito divertido!

Ao final, selecionados os atores, divididas as tarefas (todos os alunos de cada turma eram parte de uma equipe – direção, cenário, sonoplastia, figurino...), era hora dos ensaios, marcação das cenas e aí mais reescrita, já que percebiam a necessidade de marcar cada detalhe nas rubricas, a fim de que nenhum colega ficasse sem saber o que deveria ser feito e em que momento[M22] Comentário: Novamente a conscientização de que a interlocução demanda compreender e usar as convenções da escrita – e justifica a reescrita! Muito legal!. Nos ensaios, eles percebiam também que inserir, aqui e ali, um falar típico do caboco e/ou do jovem do século XXI, poderia produzir determinado efeito: uma obra que retratasse a cultura do amazonense. Como disse, a cada atividade foram ficando mais confiantes, a ponto de solicitarem que a apresentação fosse transformada em concurso de peças teatrais. E assim aconteceu! Nos ensaios, era possível perceber que os roteiros foram apresentando características diferenciadas entre si e mostravam o olhar de cada turma sobre o mundo: o conto O Enfermeiro, por exemplo, ganhou um tom cômico com uma linguagem coloquial e humorística; Noite de Almirante teve como fundo o universo amazônico e passou a chamar-se Noite de Pescador; já Missa do Galo tinha um toque de musical, enquanto que O Alienista teve uma linguagem voltada para adolescentes do universo digital[M23] Comentário: Muito bons os exemplos! E trazem concretude ao relato :-).

Nessa última etapa, a da socialização, os roteiros tomaram vida e foram encenados para alunos, professores, servidores e pais. Tínhamos uma equipe de jurados e, para a avaliação, foi considerada também a versão escrita[M24] Comentário: Que legal! Como foi feita a avaliação? Quem participou como jurado? Quem construiu os critérios?. A dedicação e o interesse deles foram muito grandes e visíveis – um abismo de diferença entre a postura de apatia de antes, diante de textos do século XIX. Eles tinham aprendido a fazer relações e percebido a importância dos “retratos” da realidade feitos pelos textos machadianos. Prova disso é que aquele aluno que pensava ser pesada a leitura chegou dizendo em um dos ensaios... “achei o Machado leve, parece do nosso tempo”. Essa sequência didática criou uma ponte entre eles e o universo machadiano[M25] Comentário: Certamente aprenderam muito, e sobre muitas questões! Aqui focalizas a motivação para a leitura e a relação do que leram com a vida deles..

Tabatinga é uma região muito carente de incentivo à leitura, por isso acredito que um trabalho dessa natureza, com leitura, análise linguística, observação do contexto cultural e produção textual, teve um papel social importante de mobilização dos alunos para a leitura literária. A ausência de livrarias, de bibliotecas públicas, de teatro e de cinema, no município, torna ainda mais significativa a realização de um projeto que busque incentivar e democratizar os livros de literatura como também fomentar o prazer[M26] Comentário: Talvez pudesses chamar a atenção para o fato de prazer estar relacionado com fazer sentido, protagonismo, criação e compartilhamento – usos do texto para interagir com o outro e, a partir do outro, ressignificar leituras e escritas. pela leitura e pela escrita. Com esse intuito é que surge esta atividade, para suprir a necessidade de um espaço em que os alunos pudessem desenvolver de maneira mais proficiente a capacidade de leitura, de escrita, além de adquirir o gosto pela leitura e escrita literária, que para eles parecia "chata", justamente porque não tiveram muitas oportunidades de letramento literário[M27] Comentário: Seriam as oportunidades em si? Ou o modo como são criadas? Muitas vezes a escola oferece acesso, mas a experiência de leitura proposta parece não envolver os alunos para além do “conteúdo”, não? O foco do teu relato parece justamente trazer à tona essa questão: o acesso é importante, os conteúdos são importantes, mas é uma vivência com a leitura que faça sentido para os alunos que pode fazer a diferença!. Até mesmo a biblioteca do Campus possuía poucas obras literárias, e o que predominava nas estantes eram os livros didáticos, dificultando, por vezes, o trabalho com o texto literário. Para repassar o texto aos alunos, tive que recorrer à internet, que, na região, inclusive, é de péssima qualidade[M28] Comentário: Fizeste o download em casa e enviaste para os alunos? Os alunos acessavam na hora em aula? Como fizeste para superar essa dificuldade?.

Agora, com certa distância temporal da sequência didática, vejo o quanto esse trabalho foi importante tanto para os alunos quanto para mim, o quanto foi desafiador e prazeroso, já que eles têm grande interesse por atividades lúdicas e por Literatura[M29] Comentário: Não sei se entendi bem: eles têm esse interesse agora?. Refletir sobre o que ocorreu, como ocorreu, o que poderia ter sido feito de modo diferente e o que considero valioso seguir fazendo me fez perceber a importância de registrar, sobretudo, por meio do relato de prática. Hoje, consigo ver a ponte que foi construída através da SD, de modo que através dela puderam sair da “ilha” e fazer uma travessia do passado, retratado por Machado, até a vida do jovem caboclo do século XXI, encontrada na observação da própria realidade que os cerca. Busquei construir uma ponte, e não muros, tentei conduzi-los pela mão nessa trajetória entre passado e presente, ligando o lá (Rio de Janeiro de Machado) e o aqui (Tabatinga dos alunos). Uma ponte tem essa função, ligar um lugar a outro, dar acesso a outros lugares, o que muda muito as relações entre aqueles que saem de um lado a outro. Eles mudaram, eu mudei, a relação deles com o texto literário mudou... e a lição que fica é que precisamos criar pontes e conduzi-los na travessia:[M30] Comentário: Aqui retomas a importância do diálogo e da escuta atenta para que as aulas façam sentido. As decisões que foste tomando promoveram o protagonismo, o compartilhamento e a valorização das potencialidades de todos para buscar aprendizagens relevantes e significativas. Parabéns! “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”, já nos dizia Guimarães Rosa.


Sugestões de foco a partir do relato e conversa a partir dos comentários:[M31] Comentário: Estas são algumas sugestões de foco para o relato sobre as quais conversamos no encontro virtual. O texto apresenta todo o percurso, o que é fundamental para organizar e pensar sobre o que aconteceu e como aconteceu. Levanta questões super interessantes que poderiam ser desenvolvidas em vários relatos diferentes. Sistematizei algumas perguntas e asserções a partir do que trazes no relato e do que me chamou a atenção. Entendi que, de certa forma, já estás propondo um recorte relativo à primeira sugestão (aparece já no título). Conversar sobre essas questões pode ajudar a ver qual reflexão para ti seria mais importante salientar nesse momento – o foco que escolheres, entre esses e outros possíveis, pode te ajudar a selecionar e reorganizar os aspectos que gostarias de realçar. as sugestões estão em forma de perguntas seguidas de asserções. A partir da reflexão que achares mais relevante tratar neste momento, poderias desenvolver um pouco mais a questão focalizada, trazendo mais detalhes do percurso e resultados alcançados em relação a esse ponto.

  • Como motivar os alunos para a leitura de clássicos? A leitura de contos machadianos faz sentido quando se constroem objetivos coletivos comuns a partir da escuta e do diálogo. A proposta de leitura (relacionar o passado com o presente) e a experiência da escrita (adaptar conto para peça de teatro) podem motivar, orientar e dar sentido para o estudo dos conteúdos curriculares.
  • Como trabalhar com gêneros textuais? O trabalho com base em gêneros textuais exige leitura de textos e análise de características textuais, mas é fundamental promover oportunidades de leitura e de escrita com propósito e interlocução para que os alunos percebam e compreendam o gênero e os efeitos de sentido de escolhas linguístico-discursivas.
  • Como avaliar a aprendizagem? Nesta sequência didática, os alunos aprenderam sobre: leitura e escrita (e releitura e reescrita) tendo em vista propósito e interlocução; uso e características de gêneros conto, roteiro de peça de teatro, encenação de peça de teatro; efeitos de sentido de recursos linguístico-discursivos; obras de Machado de Assis; características do Realismo. A avaliação aconteceu ao longo de toda a sequência didática, foi feita por todos os participantes e fez sentido porque teve como objetivo diagnosticar o que poderia ser melhorado para tornar mais efetiva a participação de todos nas diferentes etapas do percurso.
  • Como promover a autonomia e o protagonismo dos alunos? Ter em vista, desde o início, possíveis participações a partir da leitura e da escrita pode promover o engajamento, a autonomia e o protagonismo dos alunos. Em sala de aula, é importante ter espaço para o diálogo, construir objetivos comuns, valorizar potencialidades, ter oportunidades para escolher e para participar de decisões e da avaliação.

Confira aqui a versão final do relato “Clássicos: uma ponte entre o passado e o presente”, de Michele Mendes Rocha de Oliveira, publicado na edição 33 da revista Na Ponta do Lápis.

Para saber mais:

SCHLATTER, M. Por que relatar a prática (vídeo). Portal da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=9CUH2V0AkeA

SCHLATTER, M. Novos afastamentos, novos relatos (vídeo). Portal da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=YEm1aU6Ftuw

SCHLATTER, M.; GARCEZ, P. M. Relatos de prática: com a palavra, o professor-autor-formador. Na Ponta do Lápis, 29: 12-19, 2017. Disponível em: https://www.escrevendoofuturo.org.br/arquivos/11791/especial-relatos-de-pratica-com-a-palavra-o-professor-autor-formador.pdf


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